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GEL-Grup Öğrencilerinin Cinsiyete Göre Başarılarının Araştırılması

Viver a ciência com a ótica do artista, mas a arte com a da vida.

Nietzsche

Blanchot, em seu ensaio “Olhares de além-túmulo”, teorizando sobre um prefácio de Michel Leiris, chamado “Da literatura como tauromaquia”, isto é, literatura como arte de lutar com touros, afirma que este quis escrevê-lo para

escapar à gratuidade das obras literárias e realizar um ato real, ameaçador para o seu autor e capaz de significar para ele o mesmo risco que representa, em outros jogos, ‘o chifre afiado do touro’. Além disso, realizar uma obra que pudesse esclarecê-lo sobre si mesmo e esclarecer aos outros sobre ele, e ao mesmo tempo libertá-lo de certas obsessões e permitir-lhe alcançar uma verdadeira ‘plenitude vital’. Finalmente, escrever um livro que fosse perigoso para seus outros livros e para a literatura em geral, mostrando o ‘avesso das cartas’, mostrando ‘em toda sua nudez pouco excitante as realidades que formavam a trama mais ou menos disfarçada, sob aparências brilhantes’, dos seus outros escritos”. (BLANCHOT, 1997, p.236)

Temos essa sensação, descrita por Blanchot, em relação aos prefácios de Tutaméia. Neste livro, o autor se arrisca ao máximo. Seu texto presta esclarecimentos, mostra as artimanhas de sua técnica, velada sob as “aparências brilhantes” do apolíneo e as sombras dionisíacas que ajudam a manter a indeterminação do texto literário quanto a um destinatário específico. Já vimos, por intermédio de Nietzsche, em capítulo anterior, a importância do brilho e da aparência em Apolo.

Tutaméia é o primeiro livro em que o escritor escreve explicando-se para os outros, uma novidade perigosa em se tratando de arte. Há uma presença forte do autor como teórico “critiscritor” de si mesmo. Não fossem os procedimentos literários adotados nos prefácios de Tutaméia, aliados ao acentuado humor velando as tramas do escritor como disfarces ou “aparências brilhantes”, o livro cairia logo na panfletagem, isto é, o autor cairia nos chifres do touro. Assim, Guimarães Rosa parece ter sabido colocar seu texto ante o perigo da tauromaquia sem feri-la de morte. Pois, ao fazê-lo, não abriu mão da escritura. Por outro lado, o autor, como leitor de si mesmo, ao tentar traduzir-se, o fez como um gesto de amor.

Como o João da estória infantil João e Maria, que ante o perigo de perder-se na floresta jogou migalhas de pão pelo caminho. Ao seguirmos as “migalhas” do autor e critiscritor de si mesmo, João Guimarães Rosa, estamos cientes de que no “redemunho” da arte rosiana o caminho marcado pelo autor, o caminho de suas intenções, perde-se na floresta da escritura, como é próprio de “todos os caminhos” dos Joãos metidos em estórias.

Tutaméia é um livro sobre o direito de ver o mundo fora da lei estabelecida, a contra-pêlo, levando em conta a pluralidade de olhares. Do prefácio “Aletria e hermenêutica” pode-se dizer que se trata de uma compilação de olhares diversos. O autor, com vistas a justificar a diversidade da vida, como da escritura, convoca num mesmo plano uma rede de fragmentos ou múltiplos olhares: Platão, o Manuel, português das piadas; Kafka, um meninozinho que se perdeu do pai; Bergson, Plutarco, Protágoras, Pedro Bloch, Aporelly, Rilke, Píndaro, Augusto dos Anjos, Paul Valery, Dostoiévski, Vinícius de Morais, Manuel Bandeira, um louquinho de hospício etc. E o faz, não para medir a vida, mas para mostrar-nos a pluralidade de uma confusão transmutante de um enxame de atividades. Antes, no romance Grande sertão: veredas, dirá Riobaldo: “A vida inventa! A gente principia as coisas, no não saber por que, e desde aí perde o poder de continuação – porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada.” (ROSA, 1958, p.42). Como

o jovem filósofo grego [Guimarães Rosa], por vezes, tem qualquer coisa do velho sacerdote oriental. Ainda hoje nos enganamos sobre isso: Zoroastro e Heráclito, os hindus e os eleatas, os egípcios e Empédocles, Pitágoras e os chineses – todas as confusões possíveis, (DELEUZE, 2001, p.18)

ou o mundo misturado, diria Guimarães Rosa.

Em Tutaméia, o clima de derrisão é intenso, mas o que está em questão é que somente a alteridade mergulhada na graça catalisadora do riso é capaz de, em seus múltiplos olhares, conferir “verdades” de modo grande ou, analogamente ao que afirma Foucault, em seu livro Microfísica do poder, quando analisa o conceito de genealogia de história de Nietzsche, Guimarães Rosa, reencenando parodisticamente todas as máscaras, irrealiza-nos “em várias identidades reaparecidas,” (FOUCAULT, 2000, p.34), em seu mundo misturado. Retomando a abertura do prefácio “Aletria e

hermenêutica”, vimos que a estória, às vezes, quer-se um pouco parecida à anedota”. Percebemos que a história só é possível como derrisão, como paródia; papel-palhaço que a estória chama para si, rumo à anedota carnavalizante que é, enfim, o sertão. Parodiando Foucault, quando ele diz que “A genealogia é a história como um carnaval organizado”, afirmamos que o sertão é a estória como “pagode”, “cafarnaum”, festa escritural organizada. Ainda que não trabalhemos propriamente com o conceito de genealogia de Nietzsche, julgamos pertinente a referência ao conceito diante do procedimento rosiano em relação à história, da qual ele se utiliza derrisoriamente, criticamente. A estória deve ser contra a história, mas não se trata de abolir a história. Por fim, o que temos em Tutaméia é, também, uma arte zombeteira, rindo de todos e de si mesma e, nesse sentido, dirá Nietzsche poeticamente no prefácio de A gaia Ciência:

Se nós, convalescentes, ainda precisamos de uma arte, é de uma outra arte – uma ligeira, é de uma arte zombeteira, divinamente imperturbada, divinalmente artificial, que como uma clara chama lampeje num céu limpo! Sobretudo: uma arte para artistas, somente para artistas! (NIETZSCHE, 2001, p.14)

Enfim, o aspecto derrisório que a estória imprime na história não a elimina, aliás não é esse o intuito, nem do poeta filósofo nem do autor Guimarães Rosa, ambos sabem que para a saúde do olhar se faz necessário conciliar estória e história ou dotar-se de uma sabedoria que nos faça saber, coforme afirma Nietzsche, na II consideração intespestiva, quando é “necessário ver as coisas de um ângulo histórico e quando não (NIETZSCHE, 2005d, p.74). No texto rosiano estória e história são forças fundamentais entrelaçadas no redemunho do mundo misturado.

Benzer Belgeler