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2. GEBELİK

2.7. Gebelikle İlgili Yanlış İnanışlar

Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma a sua maneira.

(L. Tolstoi) A década de 1980 foi marcada por profundas transformações, momentos de avanços, retrocessos e lutas sociais. Década importante no que diz respeito às conquistas de direitos e das lutas sociais em todo o País. Decênio marcado também pelo recrudescimento da pobreza e piora dos índices de desigualdades sociais no Brasil. (SARTORI, 2012, p. 61).

Com a estagnação econômica e a alta da infração, o emprego formal tem quedas alarmantes, motivado pela desvalorização dos salários e aumento da informalidade, resultando em altos índices de pobreza, analfabetismo e trabalho infantil, em nível nacional, como informa Sartori (2012, p. 61 apud HENRIQUE, 1998, p. 85):

Com a deterioração das condições de emprego e renda, houve um crescimento absoluto e relativo da pobreza nessa década, especialmente no meio urbano. Foram expressivos os custos sociais associados à crise e ao ajuste econômico. Menor dinamismo econômico, piores condições ocupacionais e queda da renda passaram a condicionar a reprodução da pobreza, dificultando o recurso à utilização do trabalho de vários membros da família para a ampliação da renda e ampliando as demandas sociais.

Nesse processo de transformação, Sartori (2012) elenca que as discussões sobre a política social ganham espaço, em todo o País, pois a população pobre e os novos agentes sociais, politicamente organizados, representados pelos movimentos sociais e sindicais, fazem ecoar a voz e as lutas por melhores condições de vida, trabalho e democracia.

No entanto, a autora lembra que, paradoxalmente, existem outras lutas urgentes, que podem deixar à margem a questão da política social, visto que outros

temas ganham mais visibilidade nesse período; entre eles, se destaca a discussão sobre reforma agrária e dívida externa. Contudo, os novos movimentos sociais (classe média, funcionalismo público, os profissionais autônomos), ajudam na difusão dos valores democráticos.

Ainda segundo essa autora, é nesse momento que eclodem os movimentos sociais ligados à igreja católica, os movimentos por demandas específicas, que pressionam os governos eleitos em 1982, para efetivar as demandas emergentes, sedentas de justiça social. Sartori (2012, p. 62) acrescenta que os partidos de oposição, em um contexto de grandes lutas travadas, articulam as diretas já, que validavam a democracia e o Estado de direitos sociais.

Com uma maior participação da população na área política, difundiu- se uma visão das políticas sociais como elemento estratégico na construção de uma sociedade democrática e justa. Estava colocada a nova agenda social – de transição – com um forte viés democrático, tendo como enfoque a descentralização e a melhor adequação dos gastos sociais. A partir de então, apostava-se numa nova estrutura e regime que combinassem desenvolvimento, expansão do emprego, aumento do nível salarial e políticas sociais universais e mais efetivas. (SARTORI, 2012, p. 62).

E é diante desse processo de transformação, e reivindicação pelas diretas já, que, em 21 de abril de 1985, José Sarney foi confirmado como Presidente da República, porém as propostas e os desafios para o novo presidente foram bem maiores do que realmente conseguiu se efetivar, pois foram criados programas emergenciais de combate à fome e à pobreza (SARTORI, 2012), para fazer “tudo pelo social”, como mostra a Tabela 1, que traz um resumo do plano de governo do Presidente José Sarney.

Tabela 1: Resumo do plano de governo do Presidente José Saney Biênio 1985-1986

Plano Real

Plano de metas, concebido como sustentação do crescimento e de combate à fome

Política emergencial de alimentação Desenvolvimento por meio do programa nacional de alimentação escolar (Programa de Suplementação Alimentar - Pnae)

Criação do Ministério de Reforma e Desenvolvimento Agrário (MIRAD)

Instituição do seguro-desemprego

1986-1987 Plano de Controle

Macroeconômico, conhecido como Plano Bresser

Redução do poder de compra dos trabalhadores Reprodução das desigualdades

Política do arroz com feijão Seguia a ortodoxia liberal, operando cortes nos gastos públicos, especialmente sociais

Fonte: Organizado para estudo a partir de pesquisa bibliográfica.

Naquele momento, o País passava por uma reorganização constitucional que teve como consequência a instalação da Assembleia Nacional Constituinte (1986), culminando com a aprovação da Constituição Federal de 1988, que, historicamente, renova as esperanças de dias melhores para o povo brasileiro, agora em um país democrático.

A Constituição Federal brasileira de 1988, ao afiançar os direitos humanos e sociais como responsabilidade pública e estatal, operou, ainda que conceitualmente, fundamentais mudanças, pois acrescentou na agenda dos entes públicos um conjunto de necessidades até então consideradas de âmbito pessoal ou individual. Nesse caminho, inaugurou uma mudança para a sociedade brasileira ao introduzir a seguridade como um guarda- chuva que abriga três políticas de proteção social: a saúde, a previdência e a assistência social. (SPOSATI,2009, p. 13).

A Constituição Federal de 1988 rompe com anos de repressão e, em seu artigo 6o, estabelece os direitos sociais, que é sabido de sua evolução a partir dos direitos dos homens, dos direitos civis e políticos. Assim, os direitos sociais são distintos dos direitos jurídicos, pois, estes, buscam estabelecer e garantir uma igualdade real e o bem-estar das pessoas, e estabelecem a obrigatoriedade do poder público a desenvolver ações políticas públicas para sua efetivação numa nova relação entre o Estado e a sociedade civil. Agora, a democracia é participativa e não apenas representativa (FERREIRA, 2001, p.7).

E, assim, acrescenta em seu artigo 6o, são direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a participação, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados. E no artigo 1o da CF 88, estabelece que: Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta constituição. (FERREIRA, 2011, p. 07).

Nessa perspectiva, é importante não esquecer o contexto brasileiro e o da América Latina, dentro de suas especificidades, pois, a partir da década de 1990, o Brasil sede às pressões neoliberais e aos mandos do Consenso de Washington. Com isso, os princípios efetivados e defendidos na CF de 1988 ganham novas roupagens, esvaziam-se e precarizam-se cotidianamente.

O Brasil possui uma particularidade que o caracteriza como país que apresenta um dos maiores índices de desigualdade social do mundo, quaisquer que sejam as medidas utilizadas. A desigualdade social ganha expressão concreta nas relações sociais cotidianas nas diferentes regiões do país e nos territórios internos das cidades, nos quais as condições de desigualdade se reproduzem. (SIQUEIRA, 2007, p.19).

Dessa forma, a implantação da ideologia neoliberal data-se a partir da primeira eleição presidencial da nova República, em 1989, no contexto de pressão internacional e sucateamento do Estado brasileiro advindo do processo de ditadura militar. O neoliberalismo já era visto, nas economias ditas desenvolvidas, como a panaceia da pobreza.

O Plano de Reconstrução Nacional, instituído no governo de Fernando Collor (1990-92), delineia a forma como irão se caracterizar as relações com o Estado e as políticas sociais nos anos 90. Nesse plano os governos assumiu com rigor o ideário neoliberal, promovendo uma redução drástica no orçamento destinado a essas políticas, além de realizar alterações e reformas de conteúdo claramente regressivo em relação aos direitos sociais formalmente assegurados na Constituição recentemente promulgada.

E, com isso, o Brasil, além da instabilidade econômica, passa a viver o momento dos desmontes dos direitos, conservando a redução das políticas sociais, a sustentação das privatizações e da responsabilidade social. O sistema de proteção social brasileiro que, até a década de 1980, era direcionada a partir de seguros sociais para pessoas formalmente empregadas pertencentes a algumas corporações.

E é nesse cenário de muitas transformações, construção e efetivação dos direitos sociais, pós-ditadura militar, momentos de muita expectativa e avanços e também de retrocessos em níveis local e nacional, que vinha ao mundo o segundo personagem desta história.

É uma menina e nasceu aos 26 dias do mês de março, no ano de 1989, no Bairro da Betânia, em Manaus/Am. Vou chamá-la aqui de Apurinã17. É filha de

Cunhã-Porãe18 e Cauré19, ambos naturais do Amazonas.

Mas Cunhã-Porãe era uma prostituta, de 15 anos de idade, nascida em Manaus, em 1973. Cauré era casado e ganhava a vida cantando músicas brega no Estado do Amazonas. A jovem mãe era filha caçula de uma família de migrantes do interior do Amazonas, e desde muito nova sofria assédio sexual por parte do irmão mais velho.

Seu pai morreu muito cedo e sua mãe casou-se novamente com um alcoólatra, que passou a abusar sexualmente da moça. Cunhã-Porãe chegou a contar, a respeito do abuso, para a mãe, mas não obteve confiança e ainda chegou a apanhar por causa da denúncia.

Por causa dessa situação, Cunhã-Porãe saiu de casa para se livrar do padrasto e das desconfianças de sua mãe, que não acreditava que o marido fosse

17

Apurinã significa “aquele que corre”.

18 Cunhã-Porãe, em Guarani, significa “mulher bonita”. 19 Cauré, em Nheengatu, significa

capaz de fazer o que a moça relatava. Com 14 anos, a moça tinha algumas amigas, e estas a apresentaram à prostituição.

E assim, com 16 anos de idade, ela tem a primeira filha, Apurinã, que não chega a ser registrada pelo pai. Cauré já tinha seus filhos com a esposa e não quis assumir a filha de uma prostituta, além do mais, ele não tinha certeza da paternidade.

Cunha-Porãe, portanto, continua com sua vida de prostituição e em 1990, para esconder Apurinã do pai, ela resolve morar em Porto Velho/Ro, levando a filha com um ano de idade.

Benzer Belgeler