O desencobrimento explorador da técnica moderna (bem como os novos valores decorrentes da mesma) reduz a totalidade dos entes a um único ente, o homem – sujeito de todas as coisas, e neste, segundo Heidegger, tudo e todas as coisas são reduzidas ao nada. No ápice da técnica moderna, o todo do ente (inclusive o próprio homem) é dissolvido na exploração plena da vontade de poder do sujeito. O real é disponibilizado como objeto disponível à vontade da vontade de poder do sujeito por meio da provocação da técnica à exploração. No auge dessa dinâmica, o que resta é tão somente vontade de exploração, nada. Nas palavras do pensador: “Pela representação da
totalidade do universo técnico reduz-se tudo ao homem e chega-se, quando muito, a reivindicar uma ética para o universo da técnica” (HEIDEGGER, 1978, p. 60). Decorre
que, o sujeito, na dominância da técnica moderna, não quer e não vê nada além de si mesmo e de seu poder explorador.
Mas como a totalidade ontológica dos seres é reduzida ao nada por meio da centralidade do homem moderno?
A totalidade dos entes se torna, através da vontade de poder, fundo de reserva a ser constantemente consumido pelo ente humano. Nada mais é estável na modernidade, a não ser a própria vontade. “... A vontade de poder torna-se, em suma, princípio
operativo em todas as configurações possíveis de realidade e se confunde ao mesmo tempo com o próprio modo de ser do real” (CASANOVA, 2006, p.171). As coisas e a natureza não passam de objetos a serviço da vontade do homem. No ápice desse processo, nada sobra além da vontade de explorar todos os entes. A vontade de poder torna-se assim a essência de tudo e todas as coisas. “Querer a si mesma significa aqui:
trazer-se para diante em meio ao acabamento da própria essência e dessa forma, ser essa própria essência” (CASANOVA, 2006, p.169). Até mesmo o próprio homem é
jogado à condição de constante servidão da vontade de poder que, como sentido do ser da presente época se desdobra como tecnociência, se expande cada vez mais sem limites.
Não podendo ser vencida com armas atuais, a técnica provoca o máximo desgaste ontológico. Onde iremos chegar? “Ninguém pode ser as reviravoltas que estão
por vir. Enquanto isso, o desenvolvimento da técnica se dará em um curso cada vez mais rápido e não poderá ser detido em parte alguma” (HEIDEGGER, apud, GIACOIA JR., 2013, p. 102). Agora o ser agora não passa de “fumaça”, semântica vazia. Tal dinâmica para Heidegger é a derradeira expressão da metafísica, a essência da técnica moderna, alicerce da essência do niilismo:
Para Heidegger, a essência do niilismo é justamente o entregar-se incondicional do homem à tarefa de apoderar-se dos entes por meio da maquinação, controlando-os de maneira calculadora e ordenada. Em meio ao abandono do ser, o próprio homem é trazido à situação de servidão incondicionada, no sentido de que ele está simultaneamente a serviço de apoderar-se do ente na totalidade e no sentido de que ele próprio tornou-se escravo ou um funcionário da própria serventia da tecnocientífica. (DUARTE, 2010, p. 36-37).
Entretanto, para Heidegger o niilismo56 não é um fenômeno recente. Não é uma mera característica da contemporaneidade. O niilismo para o pensador perpassa toda a história ocidental como história da metafísica. É a própria história da metafísica; a sua constituição decadente intrínseca ao ocidente enquanto esquecimento do ser. O niilismo é o destino metafísico do ocidente acentuado e conduzido a sua consumação na época da técnica moderna. Portanto, o niilismo, não é um movimento histórico entre muitos. É o movimento interno da história do ocidente para onde rumam todas as nações, a partir, do nivelamento da técnica. Nas palavras de Heidegger:
O niilismo é um movimento historial, não qualquer opinião ou doutrina representada por quem quer que seja. O niilismo move a história segundo o modo de um processo fundamental, quase não reconhecido, que se dá no destino dos povos ocidentais. Por isso o niilismo não é também somente uma manifestação historial entre outras, não é somente uma corrente espiritual que ao lado de outras, ao lado do cristianismo, do humanismo e do iluminismo, ocorre igualmente dentro da história ocidental. O niilismo é, pensado em sua essência, muito mais o movimento fundamental da história do ocidente. Ele mostra algo que cala tão fundo, que seu desdobramento só pode ainda ter como consequências catástrofes mundiais. O niilismo é o movimento historial-mundial dos povos da terra que entraram no âmbito de poder da modernidade (HEIDEGGER, 2000, p. 6).
Assim entendido, o niilismo não é um simples fenômeno epocal que aterroriza a contemporaneidade; nem tampouco produto de uma nação específica. É o estabelecimento da ditadura do nada, o pleno abandono do ser em meio à expansão da vontade de poder. Genocídio, etnocídio, biopoder, guerras, a instrumentalização da razão, calculabilidade e controle da natureza, a tecnização do todo do ente expressam a força da ditadura que deriva do abandono do ser, a essência do niilismo.
56 A compreensão heideggeriana de niilismo parte da leitura que Heidegger faz de Nietzsche. O niilismo é
o desmoronamento da essência do mundo suprassensível, da decadência da metafísica. Nas suas palavras: Nietzsche emprega a palavra “niilismo”... na sentença resumida: “Deus esta morto”. Essa sentença quer dizer, segundo Heidegger, e, sem querer adentrar na discussão, frisamos é a compreensão de Heidegger sobre Nietzsche: “o Deus cristão” perdeu o seu poder sobre o ente e sobre a definição do homem. O “Deus cristão” é ao mesmo tempo a representação diretriz para o “suprassensível” em geral e para as suas diversas interpretações, para os ideais e para as normas, para os “princípios” e as “regras”, para as “finalidades” e os “valores” que são erigidos “sobre” o ente a fim de “dar” ao ente na totalidade uma meta, uma ordem e – como se diz de maneira sucinta – um “sentido”. Niilismo é aquele processo por meio do qual o domínio do “suprassensível” se torna nulo e caduco, de tal modo que o ente mesmo perde o seu valor e o seu sentido. (HEIDEGGER, 2007, p. 22). “O que conto é a história dos dois próximos séculos. Descrevo o que vem, o que não pode mais vir de outro modo: o advento do niilismo. Esse futuro pronuncia-se em cem sinais, esse destino anuncia-se por toda parte... ‘A vontade de poder. Tentativa de uma transvaloração de todos os valores’ substituirá em algum futuro aquele niilismo consumado... [Mas hoje], o niilismo está à porta: de onde vem esse mais inquietante de todos os hóspedes?... Que significa niilismo? – Que os valores supremos desvalorizem-se”. (NIETZSCHE, 2008, p. 23. 27.29).
Falar do Nada é ilógico... Ademais quem leva o Nada a sério, coloca- se a favor do negativo. Favorece o espírito de negação e sevê apenas de aniquilamento. Falar do Nada não só é inteiramente contrario ao pensamento, como solapa também toda cultura e qualquer fé. Ora, desprezar o pensamento, em sua lei fundamental, como destruir a vontade construtiva e a fé, é puro niilismo... a questão sobre o Nada se configura de acordo com a extensão, profundidade e originalidade correspondentes, com que se investiga a questão sobre o ente, e vice- versa. O Modo de se investigar o Nada pode valer como termômetro e indício do modo de se investigar o ente (HEIDEGGER, 1969a, p. 52- 53).
O niilismo é o que põe o homem, todas as coisas e a natureza, por meio da técnica moderna, no máximo aniquilamento ontológico. Pois bem, sendo a técnica moderna a completação da metafísica como vontade de poder do sujeito moderno por meio de sua consumação a totalidade do ente como objeto disponível se esvazia. É assim que, no auge de tal articulação até mesmo o homem perde a sua centralidade como sujeito e a natureza sua objetividade para o sujeito sobrando tão somente o vazio da relação, o nada. Homem e natureza são demandados no jogo da vontade de poder como nada, exploração plena, a esfera do niilismo. A técnica moderna é o símbolo onipresente desse esvaziamento. A técnica moderna é a materialização da ausência de ser e de originaridade no mundo, de tal forma que o humano não é mais humano, a natureza não é mais natureza e as coisas não aparecem mais como coisas.
O niilismo para Heidegger se expande por todo o planeta e passa a abranger o modo de ser do homem contemporâneo. O sentido de ser no mundo do homem torna-se o sem sentido, o deserto. Nesse âmbito, todas as relações são corroídas na dinâmica do niilismo, na força da técnica. Escrevendo para Jünger, citando Nietzsche, Heidegger, concebe que o niilismo se estende por todo o globo terrestre consumindo tudo que há.
O movimento do niilismo tornou-se mais manifesto em seu caráter planetário, incontrolável e multiforme que a tudo corrói. Nenhuma pessoa que vê claro quererá ainda negar, hoje em dia, o fato de que o niilismo é, nas formas mais diversas e escondidas o “estado normal” da humanidade... (HEIDEGGER, 1969a, p. 21).
Desse modo, por intermédio da técnica moderna, o homem é absorvido em sua própria vontade por poder. A partir de então, o homem se dá no jogo de dominância da técnica como um simples “requisitador” (não homem) da provocação da essência da técnica à natureza “requisitada” como estoque (não natureza). O homem aparece daí por diante como aquele que cobra da natureza a condição provocada a recurso energético. O
ente humano desponta assim juntamente com a natureza provocada meramente como fundo de reserva da vontade de poder. O homem dessa forma:
Torna-se aquele que ‘requisita o fundo de reserva’. Essa transformação tende a ser experimentada inicialmente como um assenhoreamento total sobre a terra e como uma supressão imediata de todas as barreiras que impediam o homem de estender aos quatro cantos do universo as suas malhas de poder. Mas, na medida em que o homem desempenha tal papel, ele mesmo via sendo paulatinamente absorvido na estrutura armada da requisição técnica e acaba por ser tomado, no final das contas, como mero fundo de reserva. A princípio ele pensa encontrar a si mesmo em toda parte: tudo parece possuir a marca do homem em sua capacidade transformadora... [Mas] é absorvido na dinâmica de uma vontade autonomizada que transforma a totalidade em matéria para a extensão cada vez mais intensa de suas estruturas de poder (CASANOVA, 2006, p. 157/8).
Portanto, a vontade de poder lança o homem (e a natureza) na absorvição plena do domínio da técnica moderna, transformando-o de “requisitador” de fundo de reserva a fundo de reserva. Tal processo é infindável no jogo da vontade de poder, e se constitui em um dos principais aspectos da essência da técnica moderna. Dessa forma, a vontade de poder é, como eterno retorno de si mesma, o querer si mesma que se realiza plenamente no domínio da técnica moderna:
As metas do poder já sempre se acham no interior do círculo de poder da vontade de poder... Para o ente enquanto vontade de poder, não há nenhuma meta além de si mesmo, para o qual ele poderia se encaminhar e se dirigir. Enquanto superpotencialização de si mesma, a vontade de poder retorna essencialmente a si mesma e, assim, dá ao ente na totalidade, isto é, ao devir, o caráter único da mobilidade. Com isso, o movimento do mundo não possui nenhum estado de meta subsistente por si que acolha o devir em algum lugar por assim dizer como uma foz... Enquanto superpotencialização, ela está constantemente a caminho de sua essência. Ela eternamente ativa... O eterno potencializar-se desprovido de metas é próprio à vontade de poder (HEIDEGGER, 2007, p. 216).
A vontade de poder como eterno retorno do mesmo “descreve a própria
dinâmica do devir em sua independência absoluta ante todo o ser... vontade de poder é uma expressão que se mostra como princípio de toda configuração vital” (CASANOVA, 2006, p.146). O devir da vontade de poder anseia que tudo se transforme constantemente, que os entes estejam em fluxo constante, para que não haja
conformação ôntica57. Para Heidegger, a filosofia de Nietzsche, como já apontamos, se configura como o último “enredo do niilismo porque leva a termo o acabamento de
uma história na qual o ser mesmo nunca se acha colocado em questão”, porque leva a consumação à história da metafísica, onde o ser foi legado ao esquecimento. Pois, a metafísica em sua história ao perguntar acerca do ser, o faz sempre a partir de um ente. O desdobramento final dessa dinâmica é o pleno abandono do ser em função do ente, e deste ao nada. “Desempenha um tal papel uma vez que o ser mesmo torna-se aí nada e
o ente alcança um domínio absoluto... o conceito heideggeriano de niilismo não significa nada além que abandono do ser” (CASANOVA, 2006, p.150).
Vontade de poder é a consumação da metafísica como abandono do ser, e assim o mais profundo niilismo. Tal para Heidegger é máxima periclitação fruto do desvelamento da essência da técnica, o esvaziamento da essência do homem, a devastação da natureza. “Niilismo é a conjuntura fundamental da contemporaneidade.
No pensamento de Heidegger, essa conjuntura se encontra em conexão essencial com o problema da técnica” (Idem, p. 151). Pois, como também já apontamos, a vontade de
poder se realiza plenamente na esfera da técnica moderna.
6.1 NIILISMO: DESERTIFICAÇÃO DA TERRA, REFLEXO DA