Como vimos até o momento, o trabalho enquanto objetivação primário-ontológica é a protoforma do agir humano com o desenvolvimento dos sentidos, da natureza e das formas de sociabilidade. Podemos dizer, na sequência dos estudos, com respaldo em Marx e Engels, que o ser humano está inserido nas relações sociais, sendo impossível pensar o homem fora dessas relações que o formam, humanizam, socializam e o educam através do trabalho, em contato com o qual aprende uma linguagem, adquire níveis de consciência e de valores.
Portanto, os homens vão desenvolvendo seus objetos, seus instrumentos de trabalho, seus desejos e necessidades, vão passando por mudanças no processo de trabalho, na maneira de viver, de morar, de se relacionar e de se educar, estabelecendo limites em suas relações sociais e construindo novas formas de sociabilidades. Tais fatos assinalam que “O modo pelo qual as pessoas manifestam sua vida reflete exatamente o que elas são. [... e] O que as pessoas são depende, portanto, das condições materiais de sua produção” (MARX; ENGELS, 1965, p. 15).
Portanto, as diversas formas de sociabilidades, as inovações na divisão do trabalho delimitam o relacionamento entre os homens, originando as estruturas sociais, as formas como o ser social se organiza no movimento do processo de constituição da sociedade, na construção dos instrumentos e dos produtos. Indubitavelmente, podemos então demarcar que o que caracteriza e distingue as distintas “[...] épocas econômicas não é o que se faz, mas como, com que meios de trabalho se faz. Os meios de trabalho servem para medir o desenvolvimento da força humana de trabalho e além disso, indicam as condições sociais em que se realiza o trabalho. [...]. ” (MARX, 1980, p. 204).
Mediante estas colocações, vamos nos ater neste item, na compreensão e análise do modo de produção capitalista, para entender neste processo histórico da humanidade, o
desenvolvimento e as condições de realização da categoria trabalho nesta dada sociedade, dos complexos sociais estabelecidos com uma concernente atenção às tendências atreladas à educação. Para isto, partimos do princípio de que, na sociedade capitalista o trabalho perde seus atributos centrais de vida e criação, de liberdade de projeção, de indivíduo e gênero.
Nesta dada sociedade, o capitalismo, a complexificação das relações sociais e de trabalho se desenvolvem com a capacidade do homem, pelo trabalho, de produzir mais do que o necessário para a sua subsistência, o que desencadeia uma divisão de trabalho capaz de produzir o excedente, a propriedade privada. Segundo Marx e Engels (1965), essa divisão se verifica, primeiramente, na separação entre o trabalho do comércio e da indústria e, consecutivamente, expande-se para as subdivisões nos determinados espaços do trabalho acondicionado pela exploração das forças produtivas nos diferentes graus de evolução da propriedade. Desse modo, “[...] cada nova fase da divisão de trabalho determina, igualmente, as relações dos indivíduos entre si, no que concerne à matéria, aos instrumentos e aos produtos do trabalho.” (p. 16).
Para esses autores, lógica inerente a essa divisão de trabalho é imposta pelos homens proprietários que se apoderam do excedente de mercadoria produzido e da força de trabalho de outrem. Nesse processo, o trabalho não apresenta mais seus atributos de divisão e apropriação coletiva, num contexto em que todos trabalham e usufruem dos resultados, mas exibe uma divisão segundo a qual uma parte trabalha e a outra que não trabalha se apropria dos frutos do processo da produção, originando a propriedade privada. Portanto, caracteriza- se e institui-se dialeticamente a primeira consequência desse processo, a propriedade privada, expressão idêntica a “divisão de trabalho”, na medida em que nesta se afirma a atividade com a expressiva apropriação da força de trabalho e naquela se afirma a procedente apropriação do produto da atividade.
Ainda com Marx e Engels (1979), na primeira parte da Ideologia Alemã, demarcamos uma segunda consequência da divisão do trabalho, a contradição entre o interesse individual e o coletivo, que decorre do fato de a sociabilidade posta, ao invés de objetivar relações de coletividades, de harmonização entre interesses comuns dos indivíduos e de gênero, passa a priorizar os interesses particulares dos detentores da propriedade privada, do capital. Transitamos de forças produtivas de interesses sociais, estabelecidas nas comunidades primitivas, para forças produtivas particulares na sociedade capitalista, podendo assim dizer: que o processo de trabalho depende de uma participação coletiva, mas a apropriação é particular, realizada pelos que detém os meios de produção; que acumulamos enquanto gênero humano, a apropriação do conhecimento e a riqueza material, todavia este
acúmulo se concentra para alguns grupos, sendo tolhido para a maioria. Brota, assim, uma contradição entre o interesse particular e o coletivo, onde se faz indispensável a influência do Estado na qualidade de “[...] uma forma autônoma, separada dos reais interesses particulares e gerais e, ao mesmo tempo na qualidade de uma coletividade ilusória, mas sempre sobre a base real dos laços existentes [...]. ” (MARX; ENGELS, 1979, p. 48), sejam eles familiares, tribais ou de classe.
Assim sendo:
O poder social, ou seja, a força produtiva multiplicada, que nasce da cooperação de vários indivíduos condicionados pela divisão do trabalho, aparece a estes indivíduos, porque sua cooperação não é voluntária mas natural, não como seu próprio poder unificado, mas como uma força estranha situada fora deles, cuja origem e cujo destino ignoram, que não podem mais dominar e que, pelo contrário, percorre agora uma série particular de fases e de estágios de desenvolvimento, independente do querer e do agir dos homens e que, na verdade, dirige este querer e agir (MARX; ENGELS, 1979, p. 49-50).
Explicitamos, com esta citação, a terceira consequência da divisão do trabalho, a alienação: a passagem da relação dialética dos atributos do trabalho como criador do homem para as características de negação, separação, estranhamento, independência e dominação da vida humana. Tem-se, portanto uma divisão de trabalho, um modo de produzir em que:
[...] cada indivíduo é um todo de carências, e apenas é para o outro, assim como o outro apenas é para ele na medida em que se tornam reciprocamente meio. O economista nacional – tão bem quanto a política nos seus direitos humanos – reduz tudo ao homem, isto é, ao indivíduo, do qual retira toda determinidade, para o fixar como capitalista ou trabalhador (MARX, 2004, p. 149).
Tais características demarcam que o modo de produzir capitalista, ao mudar a estrutura produtiva (da manufatura para a indústria), muda também, e de forma radical, as atribuições dadas à constituição do homem enquanto ser social na divisão do trabalho e no processo de trabalho. Essa transformação arrasta consigo uma transição desumana “[...] entre trabalho como ‘Lebensäusser-ung’ (manifestação de vida) e como Lebensentäusserung (alienação da vida). O trabalho é Lebensentäusserung quando ‘eu trabalho a fim de viver, para produzir um meio de vida, mas meu trabalho não é vida em si’;[...].” (MARX apud MÉSZÁROS, 2006, p. 88, grifo do autor).
Essa transição que dá origem ao trabalho alienado é, indubitavelmente, um dos momentos mais marcantes da história da humanidade por transformar a categoria fundante do ser social, o trabalho, em uma atividade que produz o estranhamento e a dominação oposta e imposta ao trabalhador, uma relação reificada entre seres humanos e coisas, uma personificação das coisas. Marx enfatiza isso com as seguintes palavras:
Esta fixação da atividade social – esta consolidação de nosso próprio produto num poder objetivo superior a nós, que escapa ao nosso controle, que contraria nossas expectativas e reduz nossos cálculos – é um dos momentos capitais do desenvolvimento histórico que até aqui tivemos (1979, p. 47-48).
Baseando-se nesses pressupostos, Marx mostra que o complexo processo de alienação se dá primeiro porque o trabalho toma a dimensão de uma atividade imposta por meios externos, e não por aptidões criadas por necessidades internas nos indivíduos, deixa de ser um processo de autoconstrução humana e se transforma em meio de subsistência, em mercadoria. Para Marx este processo revela que:
O trabalhador se torna tanto mais pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais a sua produção aumenta em poder e extensão. O trabalhador se torna uma mercadoria tão mais barata quanto mais mercadoria cria. Com a valorização do mundo das coisas (Sachenwelt) aumenta em proporção direta a desvalorização do mundo dos homens (Menschenwelt). O trabalho não produz somente mercadorias; ele produz a si mesmo e ao trabalhador como uma mercadoria, e isto na medida em que produz, de fato, mercadorias em geral. Este fato nada mais exprime, senão: o objeto (Gegenstand) que o trabalho produz, o seu produto, se lhe defronta como um ser estranho, como um poder independente do produtor. O produto do trabalho é o trabalho que se fixou num objeto, fez-se coisa (Sachlich), é a objetivação (Vergegenständlichung) do trabalho. A efetivação (Verwirklichung) do trabalho é a sua objetivação. Esta efetivação do trabalho aparece ao estado nacional-econômico como desefetivação (Entwirklichung) do trabalhador, a objetivação como perda do objeto e servidão ao objeto, a apropriação como estranhamento (Entfremdung), como alienação (Entäusserung) (MARX, 2004, p. 80).
A explicação revela a contradição que se expressa na vida do trabalhador, pois quanto mais riqueza produz mais dependente se torna devido à acumulação de capital gerado à classe burguesa. Sem dúvidas, a diferença forjada por meio do trabalho na construção da mercadoria aumenta expressivamente a dependência do trabalhador, na medida em que se tem todo um dispêndio da força de trabalho que explora seu desgaste físico e psíquico. Exploram- se, assim, seu salário, seus direitos, seu tempo livre e sua vida. Ocorre a inversão do trabalho criador em objeto de troca na coesiva lógica de que:
[...] o trabalhador se torna, portanto, um servo do seu objeto. Primeiro, porque ele recebe um objeto do trabalho, isto é recebe trabalho; e, segundo, porque recebe meios de subsistência. Portanto, para que possa existir, em primeiro lugar, como trabalhador e, em segundo, como sujeito físico. O auge dessa servidão é que somente como trabalhador ele [pode] se manter como sujeito físico e apenas como sujeito físico ele é trabalhador (MARX, 2004, p. 81-82).
Assim, na atividade produtiva, apesar do homem ser o produtor do objeto, do produto, este produto não lhe pertence, mas pertence a outrem, ao capitalista, o qual se apropria da produção, do controle do processo produtivo e se apropria, por meio da compra, da força de trabalho do trabalhador, a qual se torna uma mera mercadoria. Agora adentrando, em uma segunda determinação, analisamos que por trás desse processo de produção, existe um estado de alienação em relação aos produtos do trabalho e no ato da produção. Logo, a alienação “[...] não se expõe apenas no resultado, mas também, no processo da produção, no seio da própria atividade produtiva [...]”. O produto é o resumo a objetivação material da atividade; nesse processo, o trabalho se apresenta de forma externa ao trabalhador, é trabalho “[...] imposto, é trabalho forçado. Não constitui a satisfação de uma necessidade, mas apenas um meio de satisfazer outras necessidades. ” (MARX, 2001, p. 114). Não é uma atividade que expressa liberdade e consciência no seu desenvolvimento, como dito anteriormente no item 2.1, “Trabalho e Educação: vida, aprendizagem e história”, mas uma atividade imposta pelos meios externos.
Por conseguinte, a sociedade capitalista compreende um sistema econômico em que os meios de produção são de propriedade privada e o trabalho desempenha o papel de uma mercadoria adquirida através da remuneração estabelecida em contratos e regulada pelo mercado. Quanto à propriedade privada, na esteira de Marx, podemos historiar que contém uma relação latente com o trabalho e com o capital, uma conexão inseparável entre esses elementos que faz emergir uma atividade humana totalmente estranha ao homem e à natureza, um trabalho que perde sua qualidade natural e social – no sentido humano genérico – nesta dada sociedade e, institui “[...] a produção do objeto da atividade humana como capital, no qual toda determinação natural e social do objeto está extinta. [...] é necessariamente o auge, a culminância e o declínio de toda relação. ” (MARX, 2004, p. 93). É a separação absoluta entre trabalho criador e trabalho alienado, interesses coletivos e interesses individuais, entre assalariados e patrões, relações determinadas pela produção em massa e em série, pelos
aperfeiçoamentos técnicos constantes, pelas diferentes formas de educação e pelas conquistas de mercados40.
Na terceira determinação, a alienação se expressa nas relações do homem como ser genérico e do homem pelo próprio homem, relações em que o trabalho se coloca de forma exteriorizada, em um processo de produção do objeto em que o coletivo é substituído por padrões individualistas, a finalidade criadora por meios de subsistência. Nesse contexto, o patrimônio genérico do trabalho humano, o natural e o social, com o seu poder de humanização, criação e desenvolvimento do homem é degradado a simples meios de sobrevivência. Nessa relação “[...] cada homem considera, portanto, o outro segundo o critério e a relação na qual ele mesmo se encontra como trabalhador [estranhado/alienado]. ” (MARX, 2004, p. 86).
Continuando com Marx, o trabalho, neste processo de produção capitalista, “[...] não é, por isso, a satisfação de uma carência, mas somente um meio para satisfazer necessidades [...].” E como meio desse estado de necessidades colocadas a ele, se chega “[...] ao resultado de que o homem (o trabalhador) só se sente livre e ativo em suas funções animais, comer, beber e procriar [...] e em suas funções humanas só [se sente] como animal. O animal se torna humano, e o humano, animal. ” (2004, p. 83). O homem perde a capacidade de ser autocriador e vai perdendo sua própria identidade como ente-espécie humano-social, de modo que, historicamente, a alienação vai criando barreiras para a realização da mediação entre o ser humano e a natureza.
Em resumo, sustentamos, com Marx (1980), que esse modo de produção capitalista, de início, apresentava, em relação ao modo de produção anterior, a manufatura, uma diferença centrada no valor quantitativo, expressivo na contratação de trabalhadores e no aumento da produção. No entanto, no transcurso da história, na trama de seus objetivos e metas
40 “Com o desenvolvimento do capitalismo industrial, experimentado especialmente pela indústria
automobilística norte-americana do início do século XX, ocorre o florescimento e a expansão do taylorismo e do fordismo, que acabaram por conformar o desenho da indústria e do processo de trabalho em escala planetária. Seus elementos centrais podem ser assim resumidos: 1. vigência da produção em massa, realizada por meio da linha de montagem e produção mais homogênea; 2. controle dos tempos e movimentos por meio do cronômetro taylorista e da produção em série fordista; 3. existência do trabalho parcelar e da fragmentação das funções; 4. separação entre a elaboração, cuja responsabilidade era atribuída à gerência científica, e a execução do processo de trabalho, efetivada pelo operário no chão da fábrica; 5. existência de unidades fabris concentradas e verticalizadas. [...] Portanto, foi por meio desse padrão produtivo que a ‘grande indústria’ capitalista (cuja produção já é marcada pela presença da maquinaria e pela subordinação real do trabalho assalariado ao capital, segundo Marx) pôde se desenvolver. Mas é bom enfatizar que, dada a particularidade da subordinação e dependência estrutural do capitalismo latino-americano em relação aos países centrais, o binômio taylorismo/fordismo teve – e ainda tem – um caráter periférico em relação àquele que se desenvolveu nos Estados Unidos e na Europa Ocidental. Na América Latina, esse caminho para o mundo industrial sempre se realizou de modo tardio (ou mesmo hipertardio) quando comparado aos processos vivenciados pelos países de capitalismo hegemônico. E o fez sustentado em um enorme processo de superexploração do trabalho” (ANTUNES, 2011, p. 21-22, grifo do autor).
econômicas, políticas e sociais, introduziu uma economia política configurada na significativa separação entre donos da produção e aqueles que produzem, importando a opressora sociedade de classes - uma sociedade de classes que tem na produção da mercadoria sua expressiva constituição e manutenção, em uma relação de fetiche que descaracteriza a exploração que atravessa a lógica da acumulação por intermédio da extração continuada da exploração que atravessa mais-valia41 no campo da produção. Tal fato foi estudado e desvendado por Marx (1980) na sua obra O Capital, especificamente no capítulo intitulado “O fetichismo da Mercadoria: seu segredo”. Neste Marx discute o caráter misterioso da mercadoria, pois, no processo de produção, o trabalho humano ao produzir mercadorias, agrega valores e firma o caráter social do trabalho; portanto:
A mercadoria é misteriosa simplesmente por encobrir as características sociais do próprio trabalho dos homens, apresentando-as como características materiais e propriedades sociais inerentes aos produtos do trabalho; por ocultar, portanto, a relação social entre os trabalhos individuais dos produtores e o trabalho total, [...] Uma relação definida, estabelecida entre os homens, assume a força fantasmagórica de uma relação entre coisas. Para encontrar um símile, temos de recorrer à região nebulosa da crença. Aí, os produtos do cérebro humano parecem dotados de vida própria, figuras autônomas que mantêm relações entre si e com os seres humanos. É o que acontece com os produtos da mão humana, no mundo das mercadorias. Chamo isto de fetichismo, que está sempre grupado aos produtos do trabalho, quando são gerados como mercadorias. (MARX, 1980, p.93)
Desse modo, os estudos e análises marxianos contribuíram significativamente para o desvelamento do modo de produção capitalista, com especial atenção à leitura do fetichismo da mercadoria, onde as coisas aparecem como mercadorias em si desprovidas de todo e qualquer processo de produção coletiva, esvaziadas de relações sociais. E o valor se constitui como um atributo das coisas desconectado do valor da troca; “[...] enquanto que o valor só se realiza através da troca, isto é, por meio de um processo social.” (MARX, 1980, p. 93).
Nessa trama de mudanças e de fetichismo nas relações de trabalho e nas reproduções materiais e sociais, Lessa argumenta que, com a sociedade capitalista:
[...] o ato do trabalho passa a ser também (mas não apenas) uma relação de poder entre os homens. E, quando isso ocorre, é imprescindível uma série de complexos sociais que serão os portadores práticos desse poder de alguns sobre os outros. É por isso que surgem, se desenvolvem e se tornam cada vez
41 Segundo Marx no Capital “[...] a mais valia é determinada pela parte excedente do dia do trabalho, segue-se
daí que a mais valia se comporta para o capital variável como o trabalho excedente para com o necessário; [...] é por isso, a expressão precisa do grau de exploração da força de trabalho pelo capital ou do trabalhador pelo capitalista” (MARX, 1980, p. 243).
mais importantes para a reprodução social, complexos como o Estado, a política, o direito etc. (LESSA, 1999, p. 25)
Complexos como o Estado, a política e o direito são provenientes de uma sociedade, a capitalista, que embute nas relações de trabalho novas características; que funda um sistema de trabalho assalariado formado por classes sociais, que definem a desigualdade social enquanto matriz destes complexos. As relações sociais determinadas pelo desenvolvimento das forças produtivas materiais, independem de suas vontades, conforme explica Marx:
O conjunto destas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade, a base concreta sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e à qual correspondem determinadas formas de consciência social. O modo de produção da vida material condiciona o desenvolvimento da vida social, política e intelectual em geral. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser; é o ser social que, inversamente, determina a sua consciência. Em certo estágio de desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes ou, o que é a sua expressão jurídica, com as relações de propriedade no seio das quais se tinham movido até então. De formas de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações transformam-se no seu entrave. Surge então uma época de revolução social. A transformação da base econômica altera, mais ou menos rapidamente, toda a superestrutura. Ao considerar tais alterações é necessário sempre distinguir entre a alteração material – que se pode comprovar de maneira cientificamente rigorosa – das condições econômicas de produção, e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, em resumo, as formas ideológicas pelas quais os homens tomam consciência destes conflitos, levando-os às suas últimas consequências (MARX, 1983, p. 24-25).
Nesta direção, podemos verificar que, em meio às fases do desenvolvimento econômico e social, com a divisão da sociedade em classes, a formação do Estado tornou-se uma necessidade política, mediante as transformações das relações de produção. Essas transformações, que instauram as contradições e os conflitos na vida em sociedade, em concomitância trouxeram consigo complexos norteadores das relações sociais e econômicas que atribuíram à instância da política um papel gerencial e regulador de mérito.
Neste contexto, ratificamos, mais uma vez com Tonet (2005b), a alteração que ocorre na direção das forças sociais com a introdução de novas forças produtivas, visto que:
[...] durante o longo período primitivo, o trabalho, devido ao seu precário desenvolvimento, apenas produzia o suficiente para a subsistência imediata. Durante este período, as forças sociais eram diretamente sociais, quer dizer,