• Sonuç bulunamadı

GEÇMİŞ SORUŞTURMASI

3.1. Geçmişin Hayaletleri: Yas ve Başlangıç

Produzir conhecimento é um trabalho permanente de demarcação de lugar, de

lugares, trabalho que envolve um

policiamento incessante de fronteiras e uma

vigilância epistemológica ímpar [...]

(SCHERER, 2008, p.133).

O período que corresponde ao final dos anos de 1970 e o início da década seguinte tem sido crucial para pensarmos as transformações a que a AD esteve suscetível no contexto teórico e político francês e, por conseguinte, nos desdobramentos vindouros dessa teoria no cenário brasileiro. Ao fazermos um corte do ponto de vista histórico, operamos uma delimitação de natureza conceitual, pois nesse momento a AD passa por modificações que incidem sensivelmente sobre sua base epistemológica. As noções desenvolvidas antes desse período nessa vertente teórica, longe de serem consideradas obsoletas, são de fundamental importância na consecução de uma memória para a AD. Dessa forma, ao centrarmos nosso foco sobre esse momento específico, inevitavelmente somos levados a voltar no tempo, ainda que seja de maneira

breve, para rever o modo a partir do qual essa teoria tem-se constituído no permanente devir da história.

Por variados motivos, os anos de 1980 representam uma fase de rupturas para a AD. A principal delas seriam as reflexões suscitadas por Courtine (2009a) em sua tese de doutoramento, quando estuda o discurso comunista endereçado aos cristãos. Nessa pesquisa, Courtine propõe reformular a noção de formação discursiva, sinalizando para a heterogeneidade13 consubstanciada em determinados procedimentos discursivos como o uso reiterado da interrogação, em contraposição a uma percepção que concebia esse conceito a partir de um viés homogêneo, nos primeiros momentos da AD. Para compor a malha teórica de sua abordagem, esse autor postula um diálogo entre a obra de Pêcheux e as teorizações de Foucault, principalmente a partir das reflexões d’Arqueologia do Saber (1969), com ênfase na noção de enunciado.

Nesse sentido, Courtine (2009a) aponta para a necessidade de investigar as relações entre o plano da materialidade discursiva (intradiscurso) e o nível da história, da memória discursiva (interdiscurso). Intervindo nessa conjunção, emerge a noção foucaultiana de enunciado, entendido como a unidade do discurso e correlacionado com uma série de formulações já-ditas. A assunção do enunciado como um conceito central nesse estudo desemboca na consideração dos acontecimentos discursivos que possibilitam o estabelecimento e a cristalização de certos sentidos em nossa cultura (GREGOLIN, 2008). Essas reflexões respingam na constituição do quadro teórico da AD, na medida que acenam para um reordenamento dessa disciplina, com vistas a redimensionar os corpora de análise.

Logo, se antes a AD ocupava-se em investigar principalmente os textos escritos institucionais, com destaque especial para aqueles provenientes da esfera política, tem- se, a partir daquele momento, a urgência em examinar os discursos do cotidiano14, ampliando, pois, o escopo para estudar a questão da imagem, em conformidade com a

sociedade do espetáculo materializada, por exemplo, no poder dos discursos televisivos,

13 A abordagem de Authier-Revuz ([1982]1990) é crucial para a apreensão do outro no fio do discurso, de

modo a reiterar a existência da heterogeneidade (constitutiva e mostrada) como uma característica intrínseca a todo discurso.

14 Ganham relevo especial nesse período as ponderações de Michel de Certeau (1998) acerca de práticas

cotidianas como ler, crer, comer, escrever, morrer, dentre outras, que juntas entram na constituição de uma invenção do cotidiano. Na introdução das Artes de fazer, o historiador assevera: “os relatos de que se compõe esta obra pretendem narrar práticas comuns” (CERTEAU, 1998, p.35, grifo do autor). Para Le Goff (1994), a expansão da cultura de massa contribui para aumentar os atrativos do estudo do cotidiano; é nesse contexto que inserimos as abordagens de Barthes (2001) acerca dos mitos do cotidiano. Esse autor tece considerações de cunho analítico sobre aspectos aparentemente triviais, como: propaganda de detergentes, brinquedos, casamentos de celebridade, previsões astrológicas, dentre outros.

na influência exercida pelo texto midiático imagético. Prova disso são as reflexões de Pêcheux ([2006) a respeito do enunciado on gagné [ganhamos], veiculado de modo reiterado pela mídia na vitória presidencial de F. Mitterand na França, durante o pleito eleitoral francês de 1981. Esse autor destaca a intersecção do discurso político com o universo do esporte, pois o enunciado em questão remetia ao grito das torcidas nos estádios, com o campo do político, sugerindo, assim, a possibilidade de tomarmos os discursos que circulam na mídia como objetos de análise.

Ainda sobre esse aspecto, Pêcheux (2006) apreende o enunciado na condição de um acontecimento discursivo do qual germinam incessantes retomadas, paráfrases, deslocamentos de sentidos; assim, o acontecimento é pensado como a emergência de enunciados que se interrelacionam e produzem efeitos de sentidos (GREGOLIN, 2008). Subjacente a essas teorizações, vemos o despontar de ressonâncias foucaultianas a respeito das noções de enunciado e de acontecimento, o que atesta, portanto, uma aproximação de Pêcheux, nos seus últimos escritos, com os construtos teóricos de Foucault. Tudo isso irá repercutir na própria definição de discurso, que passa a ser concebido a partir da conjunção da estrutura (materialidade discursiva) com o acontecimento (historicidade).15

Outra reconfiguração seminal sofrida por essa teoria, já que sua constituição pode ser vista “como uma amostra da história das ciências dentro de um domínio, onde a ruptura é sempre lugar de recobrimentos” (MALDIDIER, 1997, p.24, grifo nosso),

circunscreve o movimento histórico de derrocada das ideologias comunistas no período considerado, o que marca o projeto teórico pechetiano, já que ele fora idealizado no casamento da ciência com a política. Não é irrefletido o fato de Pêcheux (2011) considerar que não se poderia falar de discurso político sem tomar simultaneamente uma posição na luta de classes. Na apresentação do trabalho de Courtine, intitulada de

O estranho espelho da análise do discurso, Pêcheux (2009) explicita seu desapontamento com a política do Partido Comunista Francês (PCF) e, por consequência, com os modos de se fazer AD. Como o estudo de Courtine apontava para a heterogeneidade e para a contradição como constitutivos do discurso político, as práticas analíticas em AD até então não consideravam essa assertiva, na medida em que

15 Num primeiro momento, Pêcheux (1997) conceitua discurso como um efeito de sentido entre

interlocutores. Posteriormente, com os novos rumos tomados pela AD, esse conceito já não dá conta dos objetos de análise que, por sua vez, também se modificaram (cf. COURTINE, 2009b).

se pautavam pela busca de uma pretensa objetividade, quando postulava engendrar uma

prótese de leitura.

A crítica de Pêcheux se destina à teoria e à política, de modo que acena para a possibilidade de outras leituras das teses altusserianas e da própria leitura dos textos

fundadores do marxismo (GREGOLIN, 2007a). Paralelamente a essas retificações, erige-se a preocupação em rever a montagem e a leitura do arquivo e do corpus, uma vez que Pêcheux (2006) sublinha a necessidade de levar em consideração os discursos para além dos Grandes Textos, o que assinala a urgência de escutar as circulações cotidianas, tomadas no ordinário do sentido.

Acrescente-se também as considerações de Pêcheux acerca da ineficácia em estudar a língua sob um viés predominantemente informático, característico da denominada Análise Automática do Discurso (AAD/69), cujo modelo de cientificidade remonta à Linguística Distribucional norte-americana (GUILHAUMOU, 2009). A materialidade da língua, embora possa ser enfocada a partir de um olhar advindo da informática e/ou da lógica, resiste a essa abordagem em função do deslize, da falha e da ambiguidade que lhe são constitutivos (PÊCHEUX, 1994, p.62).

Nesse ínterim, ganha contornos mais sólidos uma discussão que culminará com a necessidade de tomar a imagem como objeto de investigação. Assim, numa sessão temática realizada num colóquio sobre “Linguagem e Sociedade”, sediado na Escola Normal Superior de Paris, em 1983, Pêcheux discorre sobre o papel da imagem e a define como “um operador de memória” (PÊCHEUX, 1999). Além disso, no projeto de pesquisa Leitura e Memória, Pêcheux (2011) defende uma noção de memória social e histórica. Avizinhando-se, pois, das reflexões de Courtine sobre a memória discursiva, aquele pensador lança luzes sobre uma questão que mais tarde será de relevância indisfarçável nas contínuas (re)configurações da AD: o estudo da imagem. Atualmente, a AD precisa engendrar ferramentas que se prestem à análise de tantos suportes e diferentes modos de investigação do discurso (MILANEZ & BITTENCOURT, 2012).

A própria noção de interconicidade, conforme postulada por Courtine (2008; 2013), ancorada no conceito de interdiscurso de Pêcheux (1988), além das reminiscências advindas das ideias de enunciado, arquivo e domínio de memória de Foucault (2010a), remonta ao conceito de memória discursiva, também cunhado por Courtine, nos anos 80. Reiteramos, com isso, que o período investigado evidencia novas formas de constituição da AD as quais ruminam na atual feição dessa teoria e nos ulteriores desdobramentos por ela assumidos.

Um último aspecto a ser destacado neste breve sobrevoo à história da AD relaciona-se às inflexões da Nova História sobre a obra de Foucault e, em menor proporção, sobre os derradeiros discursos de Pêcheux. Genericamente denomina-se de

Nova História um fenômeno predominantemente francês de renovação dos estudos históricos principiado por Marc Bloch e Lucien Febrve, nas primeiras décadas do século passado (GREGOLIN, 2007a). Esse movimento, que pressupõe uma guinada na historiografia francesa, rebate as análises históricas tradicionais, voltadas a enfocar a história dos grandes acontecimentos, com ênfase no campo político. Para tanto, é de suma relevância a criação da revista Annales no sentido de difundir as ideias dos novos historiadores, uma vez que se aventam outras possibilidades para o fazer historiográfico, ao mesmo tempo que “se impõe a esse fazer a necessidade de ir buscar junto a outras ciências do homem os conceitos e os instrumentos que permitiriam ao historiador ampliar sua visão do homem” (BURKE, 1991, p.4).

A chamada Escola de Annales, longe de agregar em torno de si um pensamento unilateral, caracteriza-se pela dispersão epistemológica no seu percurso teórico ao longo do século XX. No entanto, a busca por empreender análise sob uma ótica interdisciplinar perece ter sido a tônica que alinham os estudos desenvolvidos no âmbito dessa corrente de pensamento. Assim, despontam trabalhos que estabelecem diálogos com outras ciências sociais e com as ciências da natureza e da vida (LE GOFF, 1990), além da consolidação de uma historia cultural. Autores como Jacques Le Goff, Pierre Nora, Georges Duby, Roger Chartier, Michelle Perrot, Pillipe Ariès, dentre outros, são figuras representativas dessa vertente da historiografia francesa.

Foucault (2010a) se opõe a uma história contínua oriunda das narrativas tradicionais e lança um olhar para as descontinuidades16, as fissuras, de maneira que o enfoque histórico centra-se sobre os fenômenos de ruptura, ao contrário das vastas unidades descritas como épocas ou séculos (FOUCAULT, 2010a) ou ainda da história como um curioso objeto de sacralização (FOUCAULT, 2008b). Vemos emergir, nesse ínterim, resquícios da perspectiva adotada pela Nova História, na medida em que se direciona o foco para o homem comum, para as histórias residuais negligenciadas pela história das grandes feitos e heróis. Pensando, pois, nos reflexos dessas questões sobre o quadro teórico da AD, aludimos aos estudos vinculados a essa corrente teórica, os quais

16 Sobre isso, Foucault (1997) destaca que a história só será “efetiva” quando introduzir o descontínuo

se prestam a abordar os discursos do cotidiano que dão a ver sujeitos infames

(FOUCAULT, [1977] 2000) construídos historicamente via linguagem.

O legado teórico de Pêcheux e de Foucault ultrapassou o desaparecimento físico de ambos no começo da década de 1980. Embora no contexto francês, os estudos abrigados sob a rubrica AD tenham se constituído principalmente por meio de “descrições do fio do discurso efetuadas de um ponto de vista formal, interativo ou conversacional que, na maioria dos casos, haviam desde então abandonado pura e simplesmente a articulação das sequências discursivas com as condições de produção” (COURTINE, 2007, p.29), no Brasil, essa vertente teórica apresenta contornos bastante peculiares.

A despeito de subsistir uma recepção da AD no Brasil, em meados dos anos 60/70, no Rio de Janeiro, a partir dos trabalhos de Carlos H. de Escobar (cf. KOGAWA, 2012; GREGOLIN, 2007b), comumente se atribui à Eni Orlandi (Unicamp), nos anos 80, a disciplinarização (PUECH & CHISS, 1999) da AD no país, no cerne institucional da área de Letras, o que inclui a difusão dessa teoria no meio acadêmico. Ponderando sobre essa questão, Scherer (2008) nos fala de duas ordens de percurso para a AD praticada no Brasil, quais sejam: i) ordem interna – correspondente à fundação da AD

por Pêcheux e às traduções da obra desse autor por Eni Orlandi; ii) ordem externa –

relativa a um espaço de desdobramentos e contra-discursos em relação à primeira, os quais nos permitem vislumbrar outras tonalidades para a AD brasileira.

Numa outra direção, Gregolin (2008) vai sinalizar para a existência de várias “análises do discurso” no cenário brasileiro, na medida em que subsiste uma diversidade de abordagens teóricas, metodológicas e de objetos de análise. Com vistas a sintetizar algumas dessas perspectivas, a autora enumera a existência de correntes teóricas provenientes de diversas leituras e reordenamentos teóricos, a saber: i) a ampliação do conceito de texto e discurso, a ser utilizado, sob diferentes vieses, tanto pelas teorias funcionalistas, como pela linguística textual e linguística de corpus, dentre outras perspectivas teóricas; ii) abordagens que redimensionaram o campo que tradicionalmente se denomina como Análise do Discurso, advindas especialmente da multiplicidade de estudos em torno do discurso, desde os anos de 1970, na França, fazendo germinar, em vários lugares, as pesquisas em torno da semiótica greimasiana e dos estudos bakhtinianos, bem como a leitura anglo-saxônica da tradição francesa; iii) reordenamentos do projeto teórico pecheutiano, a partir dos diálogos com a psicanálise lacaniana e com a arqueologia foucaultiana.

É necessário enfatizar o fato de existir certa defasagem do ponto de vista temporal no que concerne à inserção da AD no cenário brasileiro. Nesse sentido, quando essa teoria adentra o campo acadêmico nacional, ela já estava passando por sérias transformações no contexto francês dos anos 80, conforme evidenciamos nos parágrafos anteriores. Isso dá o tom à AD brasileira e, ao mesmo tempo, desencadeia uma série de divergências epistemológicas, de modo a construir identidade(s) para as pesquisas desenvolvidas a partir dessa área do conhecimento.

Situando esta pesquisa na interface das reflexões em torno da constituição da Análise do Discurso com as teorizações de Foucault, visamos discutir no tópico seguinte as contribuições deste último na intermitente construção do aparato teórico da AD. Para isso, desvelamos alguns conceitos foucaultianos os quais são convocados amiúde pelos estudos inseridos no âmago dessa teoria. Em suma, vale ressaltar que as interlocuções com Foucault imprimem variadas possibilidades de análise para tais trabalhos. Trata-se, na verdade, de tentativas de reinvenção da teoria, com vistas a não engessá-la. Para Courtine (2010), a AD precisa encontrar perspectivas e métodos que lhe devolverão uma influência sobre a materialidade contemporânea oriunda principalmente das chamadas discursividades líquidas.

Benzer Belgeler