1.4 Türk Hukukundaki Tarihi Gelişim
1.4.1.2 Reşit Olmayan Bir Kimse ile Rıza ile Cinsi Münasebette Bulunmak
1.4.1.3.1 Irza Geçme Suçu ile Mukayese
A análise dos dados foi feita tendo como base a noção do enquadramento. Nossa intenção é perceber como a relação entre o público e o privado se manifesta na forma como o aborto é enquadrado em textos de ativistas. O conceito de enquadramento tem sido amplamente utilizado em estudos recentes e tem se apresentado como uma alternativa ao paradigma da objetividade e um complemento à teoria da agenda setting (PORTO, 2004). Seu uso como ferramenta teórica se deve à sua capacidade de “captar a dimensão simbólico interpretativa das relações sociais”, o que fez com que se destacasse em estudos políticos,
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71 sociológicos, comunicacionais e psicológicos (MENDONÇA; SIMÕES, 2012, p. 187). A despeito do seu uso crescente, ainda padece de precisão e clareza, apresentando indícios de um processo de fratura, conforme identificado por Entman (MENDONÇA; SIMÕES, 2012; VAN GORP, 2007).
A primeira articulação teórica sistemática do conceito de enquadramento para análise de fenômenos sociais foi realizada por Erving Goffman, no seu livro Frame Analysis, publicado em 1986. O sociólogo define os enquadramentos como princípios de organização que regulam os acontecimentos sociais e o nosso envolvimento neles. São os enquadramentos que nos permitem, no processo de compreensão dos eventos, responder à pergunta: “O que está ocorrendo aqui?”. Os enquadramentos são, para Goffman, “marcos interpretativos mais gerais, construídos socialmente, que permitem às pessoas dar sentido aos eventos e às situações sociais” (PORTO, 2004, p. 77).
Outra definição importante do conceito de enquadramento foi delineada por Entman. Ao realizar uma revisão sistemática de pesquisas relacionadas aos enquadramentos sobre a mídia, o autor define que o enquadramento compreende, fundamentalmente, seleção e saliência. Quando enquadramos, estamos elegendo determinados aspectos de uma realidade, tornando-os mais salientes em um texto comunicativo. Ao fazer isso, pretende-se produzir uma definição do problema, uma interpretação causal, uma avaliação moral e/ou sugestão de tratamento para o elemento descrito (PORTO, 2004).
A abertura do conceito de enquadramento se refletiu nos modos de operacionalização do mesmo em pesquisas empíricas. Do forma didática, Mendonça e Simões (2012) estabelecem uma categorização baseada em três grandes modelos de apropriação do conceito. A primeira dessas abordagens, denominada “Análise da situação interativa”, tem como fundamento o conceito de enquadramento para a microanálise das interações sociais. Aqui estão localizados os trabalhos empreendidos por Goffman, por exemplo.
A segunda linha dos estudos de enquadramento, chamada “Análise do conteúdo discursivo”, lança mão do conceito como um operador para a produção de análises de conteúdo. A preocupação aqui está em apreender como a realidade é enquadrada por enunciados e discursos de caráter diversificado. Procura-se entender como os discursos instituem molduras de sentido, que enquadram o mundo tendo como base perspectivas específicas. William Gamson é um importante expoente dessa vertente. Seu artigo “Media discourse and public opinion on nuclear power” (1989), escrito em conjunto com Modigliani, é uma das principais referências nos estudos de enquadramento (MENDONÇA; SIMÕES, 2012).
72 Por fim, a “Análise de efeito estratégico” percebe o enquadramento como um ângulo discursivo, utilizado de forma estratégica, com a intenção de fabricar determinadas consequências. Os enquadres, nesse caso, não são pensados como molduras de sentido mobilizadas discursivamente e partilhadas, mas como estratégias de elaboração de afirmações para construir certos resultados (MENDONÇA; SIMÕES, 2012).
Neste trabalho, teremos como base a segunda vertente dos estudos sobre enquadramento. Os enquadres utilizados para a análise foram retirados do livro Shaping
Abortion Discourse, da autoria de Ferree et al. (2002). O livro apresenta os resultados de uma
pesquisa realizada nos Estados Unidos e na Alemanha, que consistiu no levantamento de artigos que tratavam do tema do aborto em dois importantes jornais de cada um dos países. A partir dos artigos selecionados, os autores identificaram oito enquadramentos. Em cada um deles, reconheceram ideias anti, pro, ou neutras em suas implicações políticas em relação ao aborto.
A tabela a seguir, elaborada por Ferree et al (2002), evidencia os argumentos contidos nos oito quadros trabalhados e as ideias que guiam a argumentação:60
Quadro 2 - Enquadramentos
Direção Pró-Políticas Identificação Direção Anti-Políticas - O feto não é completamente
humano
- A ciência diz que o feto não é vida - A Constituição diz que o feto não é vida
- Deslocar a preocupação com as crianças nascidas, com a mulher - Destaca a ajuda das mulheres para proteger o feto
Vida Fetal - Proteger a vida é a questão - Valor social da vida fetal - O feto é um bebê/criança - Aborto é assassinato
- A Constituição diz que o feto é vida - O feto tem direitos legais
- Mulheres têm prioridade até certo tempo
- Estupro e incesto justificam o aborto
- Sofrimento/deficiência da criança justificam o aborto
- Necessidade social/circunstâncias econômicas justificam o aborto
Equilíbrio - Aceitável apenas para salvar a vida da mãe
- A necessidade familiar é um pretexto
- O feto deve ter prioridade
- O aconselhamento coloca o feto em primeiro lugar
- Atos para proteger o feto são justificáveis
60 Os quadros utilizados nesse trabalho não são elaborações próprias. Acreditamos que os quadros organizados
por Ferree et al. (2002) trazem uma importante contribuição ao campo, e são de extrema relevância para um estudo, como o nosso, que alia aborto e enquadramento. A apresentação dos quadros que se segue é uma apropriação livre das palavras dos próprios autores, disponíveis nas p. 109-110 do livro mencionado.
73 - Autodeterminação das mulheres
- Autodeterminação absoluta das mulheres
- Autodeterminação limitada das mulheres
- O aborto é um direito constitucional
- Menos restrição = respeito pelas mulheres
- As limitações oprimem as mulheres, questão feminista
Direitos das Mulheres (Autodeterminação das mulheres) - Desvaloriza a maternidade, o sacrifício
- Proibição dos interesses das mulheres
- Proteger as mulheres da indústria do aborto
- Proteger as mulheres da coerção - Aborto não é uma questão das mulheres/feminista
- Ignora os direitos do pai - Privacidade em relação ao Estado,
para as mulheres e famílias - Privacidade médico-paciente - Separação entre Igreja e Estado - A visão pró-escolha é majoritária - A proibição apenas transforma as mulheres em criminosas
Indivíduo e Estado (Direitos individuais)
- Financiamento público é impróprio - A liberdade religiosa demanda não conformidade
- Direitos dos Estados de serem antiaborto
- O Estado é obrigado a regular a moralidade
- O governo deve moralizar a sociedade
- O aborto não é privado - Pessoas religiosas têm visões
diferentes sobre o aborto
- A postura antiaborto é hipocrisia - Mulheres escolhem baseadas em razões maiores
- O aborto é um cuidado de saúde moralmente neutro
- O aborto não deve ser estigmatizado
Moralidade Social - O aborto é simplesmente errado - Indica uma sociedade imoral - A moral cristã é inequívoca
- Moral é o contrário de contracepção - Implicações para a moral sexual
- Aborto para o controle populacional
- Aborto para lidar com a pobreza - Aborto para planejamento familiar - Antiaborto significa anti-
contracepção
- Aborto é um símbolo da modernidade
- Parte da saúde moderna e tecnologia reprodutiva
Efeitos na sociedade - Leis permissivas são incivilizadas - Controle populacional não é necessário
- Não é um meio de controlar a pobreza
- Focalização inadequada das minorias
- Anti-controle da reprodução
- Parar com a medicina descontrolada - Histórias de horror, reivindicação
dos danos do aborto ilegal
- O aborto legal é bom para a saúde das mulheres
- Limites são opressivos
- Limites são ineficazes, conduzem ao ilegal
- Reduzir o aborto com leis permissivas
Consequências
Pragmáticas - Não se pode reduzir sem lei criminal
- Adolescentes precisam da ajuda dos pais
- A regulação é útil, não muito - O aborto legal é perigoso - Não é correto pesar os custos e benefícios
74 - Os limites são injustos para os
médicos
- Acessibilidade, justiça para os pobres
- Limites de financiamento são especificamente injustos - Injustiças geográficas
Justiça Social - Não discriminatória [a proibição] - Não é uma violação aos direitos constitucionais
- Não existe desigualdade real no acesso
Fonte: Ferree et al., 2002, p. 109-110 (Adaptada).
A nossa proposta nesse trabalho foi lançar mão desses enquadramentos sobre o aborto para, então, identificarmos as dimensões de público e de privado presentes nos posts selecionados para análise. Sendo assim, trabalhamos, primeiramente, com os mencionados quadros elaborados por Ferree et al. (2002), adaptados para as necessidades da nossa análise. Para isso, realizamos duas modificações: (1) excluímos o quadro “Equilíbrio”, uma vez que não identificamos sua utilização nos posts; (2) unificamos os quadros “Consequências Pragmáticas” e “Efeitos na Sociedade”, por concluir que a construção da argumentação de cada um deles tomava caminhos semelhantes, de modo que seria mais interessante, para os fins da análise, trabalhar com apenas um quadro que abarcasse as ideias de ambos.