1. ÇALIŞMANIN AMACI, ÖNEMİ, YÖNTEMİ, KAPSAM VE
3.1. GEÇİŞ DÖNEMİYLE İLGİLİ İNANIŞLAR
Vimos no capítulo anterior que uma das principais características da fronteira é o avanço de uma racionalidade econômica exógena sobre terras supostamente livres, ou seja, que a espacialização da fronteira se dá preferencialmente num território mítico em que a terra está por ser conquistada. Apropriando-se de Rafestin (1993, p. 144), para quem o espaço é a prisão original e o território
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[...] a prisão que os homens constroem para si , a fronteira poderia ser encarada, então, como essa criação humana a partir do horizonte desconhecido, que deste necessariamente se alimenta e nele toma corpo e forma. É preciso destacar que essa conquista e a imagem da terra liberta que ela evoca podem e normalmente são reinventadas a cada nova rodada de deslocamento do capital, sendo o papel do Estado importante nesse processo de construção, ainda que ele não seja suficientemente poderoso para imprimir a abstração total ao espaço, diluindo todas as diferenças encontradas.
Nos países que não experimentaram uma revolução política comandada pela burguesia nos termos de Otávio Velho (1976), conhecedores de um capitalismo autoritário , com herança direta de sistemas de repressão da força de trabalho30 o papel interpretado pelo Estado surge com vigor ainda maior e,
possivelmente, as precariedades vividas pelas camadas excluídas da marcha rumo ao eldorado também. Com certa semelhança à fase de acumulação primitiva enfrentada pelas economias capitalistas competitivas clássicas, esses países foram impulsionados, pelas próprias economias que se lançaram à frente e assumiram posição de liderança no sistema internacional, a se modernizarem, deixando no passado o atraso que viviam. Sem uma classe econômica capaz de conduzir essa transformação, o Estado foi forçado a assumir o controle das mudanças (Velho, 1976).
30 Segundo Velho (1976), todo caso de desenvolvimento do capitalismo é único, uma vez que se
trata de uma combinação particular e que possivelmente não se repetirá de alguns elementos básicos, ou seja, a corporificação de uma série matemática que não conhece limites. Para além do modelo usual no qual a burguesia emerge do interior de uma sociedade feudal, rompe com o antigo regime e encabeça uma revolução política que permite seu domínio , há uma multiplicidade de nuances desviantes, que podem ser agrupadas sob uma versão que o autor chama de capitalismo autoritário . Essa proposição não pretende concluir que, no capitalismo burguês clássico, o Estado fosse passivo, mas que ele era órgão executivo de uma classe economicamente dominante e hegemônica, o que não ocorre nos países em que o autoritarismo predomina ou na tendência autoritária apresentada pelo capitalismo monopolista mais contemporâneo.
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No Brasil, inúmeros são os exemplos da ação do Estado com o objetivo de dirigir o país para o progresso desejado e formulado pela ideologia oficial. No caso da Amazônia, em especial, eles são particularmente marcados pela tentativa de expansão da racionalidade hegemônica à região. Como argumenta Alfredo Wagner Berno de Almeida (2008), esse processo se intensificou a partir da década de 1770 quando a política pombalina e as reformas por ela realizadas ganharam maior volume , mas avançou pelos anos seguintes, alcançando o século XX. Estão nesse bojo a criação de departamentos, autarquias e outros órgãos vinculados ao governo que promoveram concessões de terras públicas, buscaram explorar os recursos minerais da região e procuraram preencher o suposto vazio demográfico . Tudo isso revela [...] uma monotonia deste discurso que enfatiza o racional aplicado a objetos singulares e a realidades localizadas Almeida, , p. , grifo do autor . O século XX viu predominar a intenção de ocupação racional da Amazônia em oposição à instabilidade econômica atribuída aos seringueiros e ribeirinhos locais. Esse povoamento da região deveria, conforme os discursos oficiais, converter os povos amazônicos à sedentarização, única alternativa para se alcançar o progresso. Isso porque todos os produtores diretos extrativistas são interpretados como desenvolvendo atividades produtivas itinerantes, cuja pré- condição para se tornarem racionais passaria pela fixação Almeida, , p. 34, grifo do autor). A ação do Estado serviria, assim, para reverter a degradação a que tinha sido acometida a Amazônia e que, de acordo com os órgãos planejadores, teria sido provocada pelo próprio [...] conhecimento selvagem que não pode competir com a racionalidade das potências europeias e das grandes empresas [...] Almeida, , p. , grifo do autor).
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Durante o período que vai de 1964 até 1985, e que compreende o regime militar, esse esquema foi particularmente usado para explicar e justificar a ação do Estado na Amazônia, como destaca Almeida (2008, p. 70, grifos do autor), momento no qual
[...] se acentua o discurso da integração ou da incorporação dos mais selvagens e primitivos aos supostos benefícios da industrialização e quando se define que o extrativismo morreu , facilitando as transações comerciais de venda de seringais, castanhais e babaçuais no mercado de terras para projetos agropecuários e de commodities minerais e agrícolas, que usufruem de incentivos fiscais e creditícios [...]. Sob este viés autoritário todas as categorias sociais devem convergir para colonos , de acordo com os planejadores, enquanto que os chamados posseiros , recentes ou antigos devem ter disciplinada sua forma de exploração com um uso dos recursos cada vez mais aproximado do modelo de um campesinato de base parcelar. Decreta-se arbitrariamente o fim do caboclo e das formas de uso comum de florestas, campinas, beiras e igarapés, lagos e rios, ou seja, das chamadas terras firmes e das várzeas. Mesmo os conflitos sociais pela terra, agravados a partir de 1969, que abalam toda a Amazônia, não logram uma mudança nos traços essenciais desta ação.
Nesse bojo, um caso emblemático do que Velho chamou de capitalismo autoritário é a política nacional adotada ainda no início da década de para a Amazônia, o Programa de Integração Nacional (PIN). A partir do estímulo à migração, a região deveria ser ocupada por meio da colonização agrícola baseada em pequenos lotes de terra. As plantations do Nordeste o sistema repressor da mão de obra que imperava àquela época deveriam fornecer a força de trabalho necessária para a efetivação desse processo. Não por acaso, a reação das elites nordestinas foi contrária às decisões do governo federal. Segundo elas, o PIN não só levaria a um esvaziamento populacional, como também ao desvio de recursos antes canalizados para a região. Mas, além
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disso, como observa Velho, por trás da fala da elite estava o fato de que o Programa poderia por fim ao sistema de repressão da força de trabalho conduzido até então por seus latifúndios, principal empecilho para o surgimento de um campesinato livre de massas.
Nesse caso, a ocupação da fronteira, materializada nas terras do oeste brasileiro, foi a solução encontrada pelo governo nacional frente a uma série de questões que se impunham àquele momento. Entre os anos 1969 e 1970, o Nordeste havia sido assolado por uma grande seca e o anúncio da construção da Rodovia Transamazônica, em março deste mesmo ano, e a divulgação do PIN, logo em seguida, indicavam as primeiras iniciativas para ultrapassar os limites geográficos da região a partir de uma política de abordagem regionalista, baseada nas diretrizes da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). Mas o incentivo à migração, a fim de atenuar a fome e o desemprego em massa, respondia ainda a propostas internacionais para o território brasileiro. Integrar para não entregar e Terra sem homens para homens sem terra , as famosas expressões que acompanhavam o Programa, já colocavam às claras a tentativa de incorporação definitiva da Amazônia a última das fronteiras ao restante do Brasil, bem como os meios usados para esse fim. No final da década de 1960, um projeto apresentado pelo Instituto Hudson de Nova York e apoiado por Roberto Campos, embaixador do Brasil nos Estados Unidos à época, propunha a criação de um grande complexo lacustre na Amazônia. A construção dos Grandes Lagos, segundo o estudo, era o melhor instrumento para viabilizar a conexão entre os principais centros industriais e os produtores de matérias-primas, além de permitir a ampliação do potencial hidrelétrico do país. A Bacia Amazônica deveria ser usada para a criação de
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canais fluviais que permitiriam a comunicação entre Belém, Manaus e várias outras cidades da América Andina, chegando até Buenos Aires. Uma barragem represaria o Rio Amazonas a uma altura média de 30 metros acima do nível de suas águas, inundando cerca de 400 mil quilômetros quadrados e fazendo submergir muitos de seus afluentes, além de cidades e vilas inteiras localizadas na região (Queiroz, 2011).
A resposta brasileira à proposta vinda dos Estados Unidos, como é possível apreender em Velho (1976), foi a expressão da lógica capitalista autoritária, na qual o Estado define as diretrizes de ação. Em oposição ao controle de natalidade para conter o aumento da população nordestina medida defendida por Roberto Campos , o governo brasileiro oferecia a migração de mais de 100 mil famílias às novas terras do oeste. Contra a inundação da Amazônia e a transformação da bacia em um grande canal, foi concebida uma rodovia que a cortasse, fazendo com que os modelos de ocupação do Sudeste chegassem até a região. Resgatada por Velho, a fala do então ministro da Fazenda, Delfim Neto, sintetiza, como bem lembra o autor, as decisões desse autoritarismo nacional: avançar sobre a fronteira representava conquistar um novo país a partir do seu próprio capital, ou seja, a abundância de terras e o excedente populacional, que, em vez de serem destruídos deveriam se associar em favor do desenvolvimento econômico. Mas, em certa medida, o fato é que podemos considerar que a resposta brasileira não deixa de ser também uma reação do capitalismo autoritário nativo da periferia a outra ordem de autoritarismo exógeno.
Da ação do Estado nesse período ditatorial foi que resultou a singularidade da fronteira na Amazônia. De acordo com Francisco de Assis Costa (2012a), essa manipulação dos fluxos migratórios descrita acima teve como objetivo acalmar
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as tensões em pontos de colonização antiga, mas não foi capaz de encobrir o projeto de modernização da agricultura empreendido pelo governo federal e cuja base desfavorecia o assentamento dos pequenos produtores. Com isso, a configuração da fronteira a partir de meados dos anos 1960 na Amazônia nega, em parte, o processo de expansão das frentes agrícolas que vinha ocorrendo desde os anos 20 e 30 em São Paulo e Minas Gerais e que, em pouco tempo, havia avançado sobre Paraná, Goiás e Mato Grosso. Se nesses outros pontos a produção familiar era seguida de fazendas que se apropriavam da terra amansada somente décadas depois da instalação dos primeiros grupos de agricultores, em praticamente toda a área de colonização da Amazônia sujeitos de origens e posições sociais distintas disputaram o mesmo espaço quase que simultaneamente. Isso significa que dentro daquela estrutura apresentada no capítulo anterior e que tomamos aqui de José de Souza Martins (1997) para a compreensão das temporalidades da fronteira a frente pioneira, na Amazônia, foi concomitantemente composta por pequenos produtores rurais, grandes fazendeiros, empresas agrícolas diversas, entre outros.
Como destaca Costa, a convivência desses sujeitos distintos não representava, contudo, a tentativa de o Estado promover a interdependência saudável no interior da cadeia produtiva, o que era posto em evidência pela distribuição desigual de recursos pela Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) e os demais órgãos atuantes na região. A política de incentivos fiscais e de distribuição de terras fez com que a fronteira deixasse de ser mais que uma alternativa ao excedente populacional em busca de um lote agrícola capaz de contribuir para o abastecimento dos centros urbanos em expansão. A fronteira tornou-se uma possibilidade à acumulação do capital promovida pelas grandes empresas. Assim, a evolução da intervenção estratégica do Estado na fronteira
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agrícola amazônica demonstra claramente a preferência pelas empresas capitalistas. Mais ainda: pelas maiores entre estas Costa, a, p. .
Essa singularidade da fronteira na Amazônia da segunda metade do século XX, em certa medida, tinha também como objetivo combater as singularidades da região, que já haviam provocado embaraços ao grande capital. Em 1927, em uma área de um milhão de hectares concedida pelo governo do Pará na região do Rio Tapajós, a Ford Motor Company instalava a Companhia Ford Industrial do Brasil. Líder da indústria mundial, a empresa norte-americana pretendia desenvolver o plantio de seringueiras para a extração do látex e produção da borracha usada na fabricação de componentes automobilísticos. No entanto, não teve êxito. Extinta em 1945, todo o patrimônio inclusive os centros urbanos de Fordlândia e Belterra implantados pela filial da indústria norte- americana foram repassados para o Estado31. O motivo do insucesso da
instalação da Ford em terras amazônicas, segundo Costa (2012b), teria sido mais que a inabilidade técnica da empresa para atuar em uma região tropical. O fracasso do empreendimento havia sido dado pelos conflitos decorrentes das relações sociais de produção envolvendo as necessidades e expectativas do capital industrial diante da realidade local, dominada pelo capital mercantil, o extrativismo combinado a uma pequena agricultura para o autoabastecimento e, principalmente, o baixíssimo controle da posse da terra.
31 As pioneiras Fordlândia e Belterra são exemplos clássicos da instabilidade da fronteira, onde
cidades instaladas pelo grande capital a partir de investimentos vultuosos foram posteriormente desativadas, sendo a infraestrutura incorporadas à rede urbana local ou mesmo abandonada. A elas se juntaram posteriormente outras company towns que também não alcançaram o sucesso almejado pelos seus idealizadores, como a Vila Serra do Navio e a Vila Amazonas, ambas no Amapá, e a Vila dos Cabanos, no Pará. Para um levantamento histórico detalhado da implantação da Ford no Brasil dos anos 1920, além de Costa (2012b), conferir Grandin (2010), onde é possível ter acesso a relatos do cotidiano da company town instalada no Pará.
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Além disso, as terras concedidas à Ford não estavam em um vazio demográfico como se imaginava. Sua área de atuação estava superposta a terrenos ocupados por pequenos produtores assentados na região há algum tempo. Muitos dos que chegaram após a instalação da companhia norte- americana, também não se vincularam a ela. Com os títulos expedidos pelo Estado, a Ford tentava contestar os direitos de uso da terra, o que pouco aliviava as dificuldades enfrentadas na estruturação da empresa. A expulsão dos que estavam assentados nas terras não eliminava a produção familiar independente, que poderia se deslocar à procura de novas terras na vastidão da Amazônia. Ou seja, a singularidade do modo de ocupação da região não permitia à Ford constituir uma mão de obra livre e expropriada dos meios de produção, que se tornaria o conjunto de trabalhadores dependentes do salário pago pela companhia. Assim, a Ford não conseguiu formar o mercado de trabalho necessário para o sustento das atividades da empresa e o pouco contingente que canalizou para as tarefas desempenhadas por ela foi logo seduzido pelas mesmas características que levaram a companhia capitalista até aquele lugar: a abundância de terras livres na Amazônia tolhia a formação desse mercado Costa, b, p. 103).
Apesar dos esforços do Estado em racionalizar a ocupação da Amazônia, as heranças deixadas pela economia de base extrativista nunca conseguiram ser apagadas. Ao contrário, a extensão de uma outra racionalidade econômica somente fez agravar os conflitos. Nesse domínio, por exemplo, a localização das árvores das quais se extraía castanha e látex predominava sobre a lógica do lote demarcado com rigor e requerido pelo aparato legal. Em um território dominado pela extração em áreas de amplas extensões, muito pouco importava o número de hectares que uma determinada unidade de exploração detinha. E
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essa tradição de uso da terra, ou ainda, da floresta, já havia inclusive deixado marcas que embaralharam as tentativas de regularização também no caso dos latifundiários da castanha. Em Marabá, área de grandes castanhais no sudeste do Pará, foram concedidos pelo governo estadual aforamentos de extensas faixas de terra, o que acabou por conferir certo caráter legal ou pelo menos suposto direito de propriedade à posse dada pela extração de produtos florestais em grande escala (Schmink; Wood, 2012).
O aforamento caracterizado pela manutenção do Estado como proprietário e a concessão do direito de uso aos foreiros , em lugar de dirimir os embates, fez com que, entre os anos 1970 e 80, houvesse um recrudescimento das lutas entre as elites donas dos castanhais e posseiros32, em geral, trabalhadores sem-terra
não integrados às relações de subordinação da oligarquia local. Segundo Marília Emmi (1999), os latifundiários foram hábeis em alegar a existência de uma quadrilha de ladrões de castanha organizada para invadir as áreas por eles exploradas, a fim de escamotear a violência com a qual eram tratados os posseiros e, principalmente, o verdadeiro motivo pelo qual os conflitos ocorriam: a terra.
É assim que a concentração da propriedade de terras e as estratégias para sua manutenção e ampliação ganham características peculiares diante da instabilidade própria à fronteira. O caso do estado do Pará mostra como algumas situações obscuras sobrevivem acima dos limites da lei e outras muito particulares sequer chegam a ser alcançadas pelo que determinam as legislações
32 Segundo José de Souza Martins (1993, p. 104) o posseiro não é um invasor da propriedade de
outros, pois invasores são os grileiros, fazendeiros e empresários que o expulsam da sua posse . O posseiro é o lavrador pobre, sem titulação de propriedade sobre a terra, que se sustenta do trabalho familiar e vende os excedentes no mercado para poder comprar aquilo que não produz.
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específicas sobre a terra. A regularização fundiária na região é uma tarefa que desafia sucessivos governos até os dias atuais. Transações mal documentadas, legalmente suspeitas e com títulos falsificados que simulam concessões datadas desde o século XIX se amontoaram numa desordem de difícil solução mesmo após a criação de órgãos dedicados especificamente ao tema, como o Instituto de Terras do Pará (Iterpa)33, de 1975, acusado de favorecer os grandes
proprietários e ter pouco poder de ação para controlar a violência contra os camponeses (Bunker, 2007). Como destacam Marianne Schmink e Charles Wood (2012, p. 111), em pesquisa realizada nesse período,
[...] as pessoas usavam uma analogia da arquitetura para descrever a desordem que se alastrou por todo processo de obtenção de títulos de terras. As reivindicações mais antigas, que datavam da época do Brasil colonial, eram conhecidas como primeiro andar . Sobre o primeiro andar foram sobrepostos andares adicionais de reivindicações concorrentes, cada uma com suas respectivas elaborações legais. [...] Eram comuns propriedades que tinham de sete até dez andares .
Os conflitos permaneceram (e permanecem) como sinalizadores da situação de fronteira. São disputas envolvendo grilagens de terras ocupadas por populações indígenas, lutas entre grandes proprietários e pequenos agricultores e uma diversidade de tantos outros casos de massacres acumulados no tempo o que melhor expressam esses desencontros. A história de Chico Mendes, morto por
33 Autarquia estadual ainda em atividade e responsável por executar a política fundiária do
Pará, o Iterpa substituiu a Divisão de Terras da Secretaria de Agricultura. Sua criação teve como objetivo promover a regularização das propriedades diante dos impactos trazidos pelo incentivo à migração nos anos 1970, considerada como principal indutora do aumento de emissão de títulos falsos e conflitos relacionados à terra. A criação de um Instituto específico para o tema também pode ser interpretada como uma reação à forte intervenção federal no Pará à época. Em 1971, o Decreto Lei 1.164 revogado em 1987, mas ainda hoje repercutindo sobre a situação fundiária de muitos municípios incluía entre os bens da União grande área de terras devolutas localizadas na Amazônia Legal, o que no estado do Pará representou cerca de 70% do território (Brasil, 1971). De certo modo devido a esse impasse, sua atuação é marcada por divergências com órgãos federais, como o Grupo Executivo de Terras Araguaia-Tocantins (Getat), criado em 1980 e extinto em 1987.
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pecuaristas em 1988, dá corpo a parte desses imbróglios característicos das fronteiras contestadas. Filho de pais nordestinos que migraram para a Amazônia, ele começou a trabalhar nos seringais aos 11 anos de idade e foi um dos defensores de uma proposta de reforma agrária que respeitasse as especificidades dos contextos sociais e culturais, uma vez que os projetos de colonização organizados pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra)34 não eram compatíveis com a prática dos seringais. O
seringueiro estava acostumado a usar uma pequena porção de terra, a colocação , onde ficava sua casa, podia cultivar roças, criar animais para consumo próprio e a partir da qual eram abertas estradas de seringa no meio da floresta. Contudo, como mostra Porto-Gonçalves (2009) o lote oferecido, de