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3.9. Nitel Verilerde Geçerlik ve Güvenirlik

3.9.1. Geçerlik

O Livro X traz um grande diálogo a respeito da religiosidade como algo primordial a ser adotado no governo. Nas palavras de Alysson Mascaro: “Em As Leis, uma espécie de caráter religioso do direito toma um maior relevo”.185

Os debatedores levantam importantes questionamentos em relação aos deuses, ao homem na ordenação do Universo, à perfeição e à supremacia dos seres divinos, à alma, ao corpo, à superioridade da alma ao corpo, à natureza e à arte, aos diversos movimentos que regem as relações divinas e humanas, às inúmeras espécies de ímpios, novamente às virtudes e vícios, e outras coisas que circundam a principal temática. Além disso, dá conta de postular as penas contra os ultrajes aos deuses. Esclarecedora a nota de Vasconcelos Diniz:

No Livro X das Leis, a discussão de que se ocupa Platão gira em torno de refutar o materialismo como princípio que se encontra na origem da Natureza. Ao contrário dos que afirmam que o acaso e o movimento desordenado constituem a Causa Primeira do Ser, Platão mostra que nada existe sem que tenha, por princípio; uma causa inteligente e imaterial. A presença de Deus (parousia) em todas as coisas torna-as belas, ordenadas e mensuradas e, portanto, tudo que existe participa da Divindade. Além disso, mostra que a alma é anterior ao corpo e, portanto, é o espiritual e não o físico que comanda a origem e a evolução da Natureza.186

A Professora Rachel Gazolla de Andrade assim se manifesta:

No livro X das Leis, talvez a última obra de Platão, um comentário sobre a alma é apresentado tendo como pano de fundo a visão dos ‘físicos’, onde a alma é compreendida a partir das noções de geração e corrupção de todas as coisas da physis, visão que,

185

MASCARO, Alysson Leandro. Op. cit., p. 61.

186

VASCONCELOS DINIZ, Márcio Augusto de. A teologia de Platão. Disponível em: <http://www.buscalegis.ufsc.br/revistas/index.php/buscalegis/article/viewDownloadInterstitial/25297/24 860>. Acesso em 14 abril 2011. a t e n i e n s e : P o r o u t r o l a d o , n ã o s e r á o m

utilizada também no Fédon com o sentido de mostrar a mortalidade da quando da fala de Cebes, fora rejeitada por Sócrates por ter sido pensada como forma elementar, corpórea, semelhante ao fogo ou à água. No Livro X, Platão, utilizando-se da figura interminada de um ateniense como fez no Sofista com o estrangeiro, estabelece uma visão da alma na perspectiva do movimento de todas as coisas.187 Em 885 d, “O ateniense” vislumbra como será o enfrentamento àqueles que não acreditam nos deuses e demonstra a “Clínias” o sentimento dos ateus:

O ateniense: Em tom cínico e de chacota diriam provavelmente o

seguinte “(...) deveríeis primeiramente tentar nos convencer e nos ensinar pela apresentação de provas adequadas que os deuses existem e que são bons demais para se deixarem seduzir por presentes e se voltarem contra a justiça.188

Ao que “Clínias” indaga, em 885 e, 886a: “Certamente não parece fácil, estrangeiro, afirmar com base na verdade que os deuses existem?”.

Dessa forma, os dialogantes começam a arquitetar o que deverá ser feito para que consigam atingir a meta de levar aqueles que não acreditam nas divindades ao caminho da crença, ou seja, do bem e do belo. Já de princípio, o estrangeiro ateniense observa que as doutrinas modernas podem ser causa da descrença das pessoas, em 886b-e:

O ateniense: Nós atenienses dispomos de narrativas preservadas

por escrito. (…) Tais narrativas antigas, entretanto, podemos passar de lado e descartá-las – que sejam narradas da maneira que mais agradar aos deuses. São mais as novas doutrinas de nossos sábios modernos que nos é imperioso apontar como responsáveis como causa dos males. (…) as pessoas que foram convertidas por esses sábios sustentarão que essas coisas são simplesmente terra e pedra, incapazes de prestar a menor atenção aos assuntos humanos e que essas nossas crenças são sutilmente forjadas com argumentos para se tornarem plausíveis.

O ateniense” continua a expor seus pensamentos e conclui que um grande poder de persuasão se fará necessário para que os homens que desejam ser ímpios se convertam ao temor aos deuses. “Clínias” ainda argumenta em 887b-c:

187

ANDRADE Rachel Gazolla de. Platão: o cosmo, o homem e a cidade – Um estudo sobre a alma. Petrópolis: Ed. Vozes, 1993, p. 30.

188

Clara referência ao posicionamento de Glauco, em A República, com a narrativa do Mito de Er. Ao afirmar que é possível comprar os deuses com presentes e com isso não ser penalizado por atos injustos.

Clínias: E é da maior importância que nossos argumentos,

demonstrando que os deuses existem e que são bons e que honram a justiça mais do que o fazem os seres humanos, deveriam contar absolutamente com certo grau de persuasão, pois um tal prelúdio é o melhor que poderíamos ter em defesa, como se poderia dizer, de todas as nossas leis.

Decidem, então, qual será a forma de abordagem para com os descrentes. “O ateniense” diz em 888a-b:

O ateniense: Desta feita, que seja nosso prelúdio de abordagem a

tais indivíduos de mente corrompida em tom desapaixonado e atenuando o fogo de nossa paixão, lhes falemos suavemente como se iniciássemos a conversação com uma pessoa em particular desse tipo, nos seguintes termos; "Meu filho, és ainda jovem e o tempo, à medida que avançar, te fará alterar muitas das opiniões que agora sustentas: assim aguarda até então antes de emitires juízos sobre matérias de suma gravidade e importância, e destas a mais grave de todas – embora presentemente a consideres como nada – é a questão de sustentar uma opinião correta sobre os deuses e assim viver bem, ou o oposto (…).

Mais tarde aparece um importante assunto, ao qual Platão, na voz do estrangeiro ateniense, reserva boa parte de seu discurso; é a origem do ser superior, aquele que possui em si plenitude e totalidade, o ser sem limitação ou restrição.

O ateniense” dá forma à sua explicação mostrando o ponto de vista dos ateus. Nota-se em 889e, 890a:

O ateniense: A primeira afirmação, meu caro senhor, que esses

senhores fazem sobre os deuses é que eles existem pela arte e não

pela natureza através de certas convenções legais que diferem de

um lugar para outro, de acordo com o consenso de cada tribo ao formarem suas leis. Asseveram, ademais, que há uma classe de coisas que são belas por natureza, e uma outra classe que é bela por convenção; quanto às coisas justas, estas não existem em absoluto por natureza, os seres humanos estando em constante polêmica a respeito delas e também continuamente as alterando, e seja qual for a alteração que façam em qualquer oportunidade, é de caráter puramente autoritário, embora deva sua existência [e

vigência] à arte e às leis, e de modo algum à natureza. (…) E disso

resulta que os jovens estão tomados por uma epidemia de impiedade, convencidos de que os deuses não são em absoluto deuses como os que as leis nos orientam a concebê-los; e, em consequência disso, surgem também facções quando esses mestres os atraem rumo à vida que é correta de acordo com a

natureza, o que consiste em ser senhor sobre os outros em termos

reais, em lugar de ser seus servos de acordo com a convenção legal.

Clínias”, então, enfatiza que um legislador digno de sua função jamais deverá desistir de reforçar a importância da existência dos deuses, “devendo também encarar a lei e a arte como coisas que existem por natureza ou por uma causa não inferior à natureza, visto que segundo a razão são produtos do espírito (…)”, em 890d.

Chegam, assim, a uma busca pela explicação da origem da alma, de sua relação intimamente ligada ao corpo e de sua superioridade. Vê-se em 892a-c:

O ateniense: Relativamente à alma, meu amigo, quase todas as

pessoas parecem ignorar qual seja sua real natureza e potência, ignorância que não se restringe a outros fatos a seu respeito, mas que se refere, especialmente à sua origem – de como é uma das primeiras existências e anterior a todos os corpos, e que é ela mais do que qualquer outra coisa o que governa todas as alterações e modificações do corpo. E se é esta realmente a situação, não deverão ser as coisas que têm afinidade com a alma necessariamente anteriores (do ponto de vista da origem) às coisas que se referem ao corpo, percebendo-se que a alma é mais velha do que o corpo?

(…) Pela palavra natureza pretendem designar aquilo que gerou as primeiras existências, mas se ficar demonstrado que a alma foi produzida em primeiro lugar (e não o fogo ou o ar) ela poderia muito verdadeiramente ser descrita como uma existência superlativamente natural.

Então, a partir de 893b até 895b há uma grande exposição sobre os movimentos que existem no Universo, qual a relação que eles possuem com as coisas da alma e as coisas do corpo, qual ainda a relação dos movimentos com os Astros e com os elementos fundamentais e destes últimos com a superioridade divina. Em 894d, percebe-se uma descoberta que existem dez movimentos e que o superior desses seria o movimento que é capaz de mover a sim mesmo, sendo os demais secundários.189

Tal descoberta instiga os dialogantes a definirem, portanto, qual seria o movimento primordial, o primeiro a existir, aquele que dá a origem a todos os outros. E, em 895a-b, percebe-se a conclusão:

189O ateniense: Do nosso total de dez movimentos, qual estimaríamos com maior rigor como sendo o

mais poderoso de todos e o superior a todos em eficiência?

Clínias: Somos forçados a afirmar que o movimento que é capaz de mover a si mesmo é infinitamente

O ateniense: (…) supondo-se que a totalidade das coisas se

combinaram e se imobilizaram – como ousam pretender a maioria desses pensadores – qual dos movimentos mencionados surgiria necessariamente no todo primeiramente? O movimento, é claro, que é automotor pois não será jamais mudado antecipadamente por uma outra coisa, visto que não existe nenhuma força de mutação nas coisas antecipadamente. Portanto, afirmaremos que visto que o movimento automotivo é o ponto de partida de todos os movimentos e o primeiro a surgir nas coisas em repouso e a existir nas coisas em movimento, ele é necessariamente a mais antiga e a mais poderosa das mutações, enquanto que o movimento que é alterado por uma outra coisa e ele mesmo move outras vem em segundo lugar.190

Voltam, mais uma vez à discussão sobre a alma, na tentativa de definirem com clareza tudo o que ela comporta. Em 896a:

O ateniense: Qual é a definição daquele objeto que tem por nome

alma? Será que podemos dar-lhe outra definição além dessa indicada há pouco: o movimento capaz de mover a si mesmo.

Clínias: O que desejas afirmar é que o automovimento é a definição

daquela mesmíssima substância que possui alma como o nome que universalmente lhe aplicamos?

E, mais à frente, em 896e, 897a-c:

O ateniense: A alma impulsiona todas as coisas no céu, na Terra e

no mar por meio de seus próprios movimentos, cujos nomes são desejo, reflexão, previdência, deliberação, opinião verdadeira ou falsa, júbilo, pesar, confiança, medo, ódio, amor e todos os movimentos que são afins a esses ou são movimentos primários; estes, quando assumem os movimentos secundários dos corpos, os impelem a todos ao crescimento e ao decrescimento, à separação e à combinação, e ao que se segue a estes, ao calor e o frio, o peso e a leveza, a dureza e a maciez, a brancura e o negrume, o amargor e a doçura, e todas essas qualidades que a alma emprega, tanto quando associada à razão ela guia com retidão e sempre governa a tudo para sua justeza e felicidade (…).

Na mesma atmosfera, os pensadores querem desvendar, então, qual é a natureza do movimento da razão. E em tal busca, concluem, em 898b-c:

O ateniense: Se descrevermos ambos (movimento das coisas em

um único lugar e o movimento das coisas em vários lugares) como movendo regular e uniformemente num lugar idêntico, em torno das mesmas coisas e relacionados às mesmas coisas, de acordo com uma única regra e sistema – a razão, nomeadamente, e o

190

Na mesma linha de pensamento Aristóteles proporá a ideia de motor imóvel como ponto inicial do movimento do universo.

movimento revolvente em um lugar (assemelhado ao revolver de um globo giratório) – jamais nos arriscaremos a nos condenarmos à inabilidade para construir belas figuras de linguagem.

Clínias: Dizes algo inteiramente verdadeiro.

O ateniense: Por outro lado não será o movimento que nunca é

uniforme, ou no mesmo lugar, ou em torno ou em relação às mesmas coisas, não se movendo num único ponto nem em qualquer ordem ou sistema ou regra – não será este movimento aparentado à absoluta desrazão?

Clínias: Será verdadeiramente.

Novamente “O ateniense” atenta para a relação dos Astros com as almas. Em 899b:

O ateniense: No que diz respeito a todos os astros e a Lua, e no

que tange aos anos, meses e todas as estações o que nos caberia fazer senão essa mesma afirmativa, a saber, que já que ficou demonstrado que são todos movidos por uma ou mais almas, que são dotadas de todas as virtudes, declararemos que essas almas são deuses, seja porque alojadas nos corpos, como seres vivos que são, organizam todo o céu, seja porque atuam de qualquer outra forma que se o queira. Será possível encontrar alguém que admita essa causalidade e, todavia, negue que "tudo está repleto de deuses"?

Agora os dialogantes observam uma nova preocupação. Como abordar aqueles que acreditam e temem os deuses, porém ignoram certos assuntos humanos? E acham uma maneira de falar a essas pessoas. Em 899d-e:

O ateniense: Entretanto, quanto ao homem que sustenta a

existência dos deuses mas que não cuida dos assuntos humanos, este nós temos que advertir. "Meu bom senhor," nós lhe diremos, "o fato de acreditares em deuses é devido provavelmente a uma divina afinidade que te atrai para o que é de natureza semelhante, levando-te a honrá-los e reconhecer sua existência; mas as fortunas dos seres humanos maus e injustos, tanto privadas quanto públicas – fortunas que embora na verdade não sejam realmente venturosas, são excessiva e impropriamente louvadas como tais pela opinião pública te conduzem à impiedade pela maneira errada em que são celebradas, não só na poesia como também em narrativas de toda espécie (…).

Sobre as virtudes e vícios da alma, eles chegam à conclusão que prudência, inteligência e coragem compõem a virtude e são características muito nobres; enquanto que a covardia, a negligência, a ociosidade e a indolência são vícios, e que os deuses não podem possuir tais características tão vis. O estrangeiro e “Clínias” entendem, então, em 901a:

O ateniense: E então? Aquele que é indolente, negligente e ocioso

será aos nossos olhos o que o poeta descrevia como "um homem muito semelhante a zangões destituídos de aguilhões"?

Clínias: Uma descrição deveras justa.

O ateniense: Que os deuses possuam tal caráter temos certamente

que negar, constatando que eles o abominam, e tampouco é cabível que permitamos que alguém tente afirmá-lo.

Clínias: Seguramente não poderíamos tolerá-lo.

Dando continuidade ao assunto, o ateniense discorre adiante sobre os abismos do homem e a providência divina. Tem-se em 906a-c:

O ateniense: (…) o céu está repleto de coisas que são boas, e

também do tipo oposto, e que, aquelas que não são boas são as mais numerosas, tal batalha, nós o afirmamos, é imortal e requer uma vigilância excepcional – os deuses e os dáimons sendo nossos aliados e nós a propriedade deles; o que nos destrói é a iniquidade e a insolência combinadas com a loucura, e o que nos salva, a justiça e temperança combinadas com a sabedoria, as quais habitam nos poderes animados dos deuses, e das quais alguma partícula pode ser claramente vista aqui também residindo dentro de nós.

(…) Mas asseveramos que a falta aqui mencionada, a extorsão ou

ganho excessivo é o que é chamado no caso dos corpos de carne

de doença, no caso das estações e dos anos de pestilência e no caso dos Estados e formas de governo, recebe o nome de injustiça. Ainda argumenta que, por possuírem muitas virtudes, os deuses jamais seriam vítimas das seduções humanas. Em 907b: “(...) que os deuses existem, que se importam [com os assuntos humanos] e que são inteiramente incapazes de serem vítimas da sedução que visa a transgredir a justiça (...)”.

Como última pauta do Livro, o estrangeiro acha devido postular as leis e as penalidades contra os vários tipos de impiedade, e assim o faz em 907d-e:

O ateniense: Para aqueles que desobedecem esta será a lei relativa

à impiedade: se alguém cometer impiedade quer por palavras quer por ações, aquele que o encontrar em seu caminho defenderá a lei comunicando o fato aos magistrados, e os primeiros magistrados a serem informados conduzirão a pessoa ao tribunal designado para decidir esses casos em conformidade com a lei.

Ainda, em 908b informa que os infratores da lei precisarão ser distinguidos em categorias e que, de acordo com cada infração, uma pena específica será

aplicada: “(...) já que requerem penas que são tanto diferentes quanto dessemelhantes”.

Dessa forma, do parágrafo 908c ao 909d, “O ateniense” discorre precisamente sobre cada caso e sua penalidade.

Por fim, termina seu discurso salientando a proibição do culto privado, em 909d-e:

O ateniense: De maneira a abarcar todos esses casos sem exceção,

será promulgada a seguinte lei: ninguém possuirá um santuário em sua própria casa; quando alguém estiver motivado em espírito a realizar um sacrifício, deverá dirigir-se aos locais públicos para sacrificar e apresentará suas oblações aos sacerdotes e sacerdotisas aos quais diz respeito a sua consagração; aí ele mesmo, em companhia daqueles que escolher, unir-se-á nas orações.

Assim, o Livro X traz um grande diálogo a respeito da religiosidade como algo primordial a ser adotado no governo.