• Sonuç bulunamadı

Aos poucos, superando-se progressivamente as dificuldades iniciais, minha presença no Morro passou a ser mais corriqueira tanto para mim quanto para os habitantes daquele local. Desfiz-me, gradativamente, de alguns medos e passei a transitar sozinha nos ambientes que me conviessem no campo de pesquisa. Alguns residentes cumprimentavam-me, com um leve movimento da cabeça, mesmo que eu não os conhecesse ou tivesse conversado com eles.

Nesse processo de reflexão inicial, fui levada a repensar a minha figura naquele meio social, local distante da realidade cotidiana que me cercava até então. Inicialmente, minha presença chamava a atenção dos moradores do Morro. Observava olhares de

senhoras, toques de crianças pequenas que queriam comigo brincar e rapazes que se dirigiam a mim com falas elogiosas. Ora, somente minha figura física, diferente se comparada àquelas advindas do Morro, por si só, já se mostrava um texto, participante a interpretações e análises dos leitores. No momento em que eu me apresentava como pesquisadora, a distância social não só reforçava preconceitos, como também reavivava experiências pretéritas negativas com o meio acadêmico.

A priori, acreditava que, se eu reforçasse o papel social de pesquisadora, eles

sentiriam que suas identidades estavam sendo valorizadas. Essa hipótese acabou rechaçada por dados empíricos. Tentei aproximação com a biblioteca pública, com instituições religiosas e com projetos profissionalizantes. Contudo, não me deram abertura para realização da pesquisa de campo. Por esse motivo, acreditei ser mais eficiente focar meu papel de professora de alunos do Morro, o que, talvez, aproximar- me-ia do cotidiano dos futuros participantes de pesquisa.

Dessa forma, entrei em contato com pessoas as quais já conhecia por intermédio da minha atividade de trabalho, de forma que elas mediassem as conversas iniciais entre mim e os moradores. Essa minha escolha pautou-se na reflexão de Bourdieu (1998), o qual sugere que a solidariedade e cumplicidade com que os participantes de pesquisa constroem os laços sociais com o pesquisador só são possíveis pela familiaridade com que ambos já haviam construído essa relação. Como pesquisadora, a distância entre mim e os moradores mostrava-se considerável. Já como professora de alguns desses moradores, a separação social e geográfica poderia se revelar atenuada.

Logo, contatei Márcio, professor de teatro da escola onde trabalho e também da Casa

do Beco, projeto do Morro, onde se formam atores e se desenvolvem atividades

artísticas. Márcio, aliás, foi o responsável por eu conhecer uma participante da pesquisa, Tatiana. Matheus me foi apresentado por Deise. Luzia é uma colega de trabalho.

Por meio de observações e conversas com os frequentadores dos locais visitados, busquei indivíduos que me eram apresentados como participantes do universo da leitura e/ou escrita, isto é, ou eles próprios ou seus conhecidos os caracterizavam

como tal. É importante salientar, portanto, que o critério utilizado por mim para selecionar esses participantes com maior envolvimento na leitura e na escrita diz respeito a elementos subjetivos de outros indivíduos. Contudo, havia elementos objetivos, expressos por alguma modalidade de ação, que os fizeram afirmar que um ou outro eram leitores literários.

Encontrei, assim, pessoas que participavam ativamente das atividades da Casa do

Beco, como Tatiana; como Matheus, que construiu uma reputação escolar positiva,

inclusive por gostar de ler; e Luzia, que havia traçado uma trajetória improvável - vir do Morro, ter alto grau de escolarização e trabalhar em uma renomada escola particular de Belo Horizonte.

Sobre a questão subjetiva e objetiva na escolha dos participantes, fundamentada no enfoque sociohistórico e cultural, Vóvio (2010, p. 421) afirma que a leitura (acrescento também a leitura literária) deve ser compreendida como prática cultural situada, atravessada por hierarquias e condicionantes sociais e, como tal, produzida a partir de sistemas culturais de significação e mediada pela linguagem, o que implica incorporar uma duplicidade na orientação desta atividade humana.

A perspectiva sóciohistórica e cultural convida a desvelar não somente as práticas de leitura locais e/ou dominantes, mas os sentidos e significados compartilhados na ação e as identidades leitoras produzidas nas/pelas interações. O desafio consiste em perscrutar esses planos interdependentes e indissociáveis, buscando-se aceder tanto os discursos sobre a leitura que circulam e são apropriados e produzidos na/pela interação, como identificar e reconhecer as práticas de leituras, sejam as que se efetivam em condição de dominância e desigualmente distribuídas, sejam aquelas que se mostram funcionais para determinados grupos, sejam aquelas que possibilitam alterar situações de desigualdade, nas quais se agenciam práticas dominantes para fins grupais e cotidianos, numa perspectiva emancipatória (VÓVIO, 2010, p. 424).

Assim, pensando em Vóvio (2010), entendo que a identidade leitora construída pelos participantes selecionados para a pesquisa ocorreu na interação com outros indivíduos. Para Deise, por exemplo, quem me indicou Matheus, o adolescente pode ser considerado um leitor porque é reconhecido pelas práticas escolares como um bom aluno. Dentre essas práticas, está a leitura de livros literários. Já Tatiana, por ocupar um status importante na Casa do Beco, também é identificada como uma

leitora e escritora literária pelo seu professor de Teatro. Já Luzia, por ter uma biblioteca pessoal em casa, foi identificada por mim como uma leitora literária.

Coube a mim, posteriormente, verificar os discursos e as práticas de leitura literária, no intuito de desvelar os significados compartilhados por aquela comunidade no que diz respeito aos eventos e práticas de letramento literário nos quais esses participantes encontravam-se inseridos. No próximo capítulo, apresento reflexões sobre cada um desses participantes, iniciando, primeiramente, por Luzia, de 32 anos, que encontrou na literatura religiosa um modo de se tornar uma mulher mais ética e de conduzir seus filhos e alunos por caminhos em conformidade com a ética-cristã.

Benzer Belgeler