Frente ao quadro atual, que se pode compor somando-se o desafio biotecnológico apresentado no primeiro capítulo, às dificuldades conceituais discutidas no segundo, não é difícil perceber o problema que está posto à reflexão ética contemporânea. De fato, grande é o desafio e muitos são os obstáculos com os quais ela se depara. A isso se acrescenta, ainda, o fato de que, no contexto contemporâneo, abriu-se um amplo leque formado pelas inúmeras vertentes da reflexão ética. A variedade é tal que até mesmo a sua classificação tornou-se uma complicada tarefa.
Um rico e esclarecedor painel da ética contemporânea é oferecido por Lima Vaz261, que endossa a tese de Alasdair MacIntyre, em seu célebre After Virtue, segundo
a qual o vocabulário ético atual, sobretudo de origem aristotélica, em função das mudanças, de ordem cultural, ocorridas a partir do programa iluminista, teria perdido
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seu sentido exato. Perda que se faz refletir tanto nessa variedade de concepções éticas atuais, quanto na diversidade de sentidos que a terminologia utilizada atualmente apresenta, em contraste com a maior unicidade de sentido da ética clássica.
Conhecer, ainda que minimamente, a ética contemporânea requer a compreensão dessa multiplicidade de concepções e sentidos o que, em alguns aspectos, se torna bastante complicado. Por isso, embora o ideal fosse realizar uma ampla exposição, será feita apenas uma breve e modesta reconstituição, levando-se em conta o texto de Vaz.
Ele atribui a origem das diferentes vertentes éticas do século XX: o naturalismo, o
historicismo e o desconstrutivismo, a três modelos predominantes no XIX. Assim, o naturalismo tem sua ascendência no positivismo, o historicismo, no reducionismo
culturalista; e o desconstrutivismo busca inspiração nos pensadores chamados pós-
modernos, especialmente Freud e Nietzsche. Vaz se atém, sobretudo, ao naturalismo e historicismo por constituírem como que duas grandes chaves dentro das quais seria incluída uma parcela significativa das tendências éticas contemporâneas que ele procura apresentar em seu texto, quase, exaustivamente.
O naturalismo, como um desdobramento do positivismo do século XIX, afirmaria a natureza como fonte de normas, valores e critérios para a ação. Já o historicismo, herdeiro do reducionismo culturalista, teria colocaria o homem como centro da esfera em que se colocam e solucionam as questões “práticas”, adotando assim uma perspectiva, assumidamente, antropocêntrica.
O naturalismo seria subdividido em duas vertentes principais: o empirismo
clássico e a ética da ciência cada uma das quais com duas respectivas subdivisões: o empirismo clássico dividindo-se em teorias não-cognitivistas e emotivistas; e a ética da
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ciência em subjetiva e objetiva262. O historicismo, por sua vez, poderia ser dividido em
três abordagens: a ética hermenêutica, a ética fenomenológica e a ética existencialista. Vaz menciona ainda outra possibilidade de classificar a ética contemporânea, estabelecendo a relação entre ética e linguagem que teria resultado, de um lado, na ética
analítica, tendo Moore263 como seu importante precursor e, de outro, a influente Ética do Discurso, cujos formuladores são Apel e Habermas.
Haveria ainda uma série de outras abordagens que não se encaixariam nessas divisões anteriores e precisariam de uma nova classificação. Como por exemplo, as abordagens que propõem uma releitura do utilitarismo, que Elisabeth Ascombe denominou de conseqüencialismo e as que propõem uma retomada de Aristóteles que são identificados ao comunitarismo264, por um lado, e à filosofia prática265, por outro.
Embora tenha buscado fornecer um panorama mais completo possível das principais abordagens éticas do último século, ainda assim, a classificação proposta por Vaz teria deixado escapar algumas concepções. É o que se pode perceber quando se examina o quadro proposto por Richard Hare que, em seu livro Ética: problemas e
propostas, apresenta uma forma inteiramente diferente de classificação266.
De fato, embora extremamente rica e bem elaborada, a exposição de Vaz não foi suficiente para abarcar todas as concepções éticas do século XX, deixando, assim, escapar algumas tendências267, por exemplo, a que Hare acrescenta, denominada
262. No interior da qual teriam emergido as chamadas bioética e ética ambiental. 263. Cuja formulação, como vimos, dá origem à metaética.
264. Cujo principal nome seria o de A. MacIntyre, que se oporia à filosofia política liberal de J. Rawls. 265. Segundo Vaz, Franco Volpi teria atribuído a origem da Filosofia prática ao curso de Heidegger sobre a Ética a Nicômaco, em Freiburg, presenciado por seus notáveis alunos que, posteriormente, teriam retomado, em suas respectivas filosofias, um diferente conceito aristotélico. Gadamer teria retomado o conceito de phrónesis; Ritter o de Ethos e Hannah Arendt o de praxis. De fato, Volpi, no texto “Le paradigme perdu”, retoma essa tese apresentada originariamente no seu artigo “Philosophie pratique”, publicado no Dictionnaire d’Éthique et de philosophie morale, acrescentando Jonas entre os alunos de Heidegger que teriam, de certo modo, retomado Aristóteles, diferindo, contudo, de seus colegas por não retomar a ética, mas a metafísica do Estagirita. Mais precisamente a noção de fim.
266. Classificação representada esquematicamente no quadro à página 67.
267. Como as que são indicadas na classificação atribuída a Adela Cortina que, no livro intitulado Ética, apresentaria alguns pares conceituais para evidenciar o confronto entre diferentes concepções éticas no
127 Intuicionismo e as subdivisões do naturalismo. Não se trata de uma crítica, o que seria totalmente sem fundamento, à classificação feita por Vaz, mas uma forma de corroborar a dificuldade de se realizar de modo completo essa tarefa.
Segundo Hare, a grande divisão seria entre as teorias descritivistas e as não-
descritivistas. As descritivistas seriam divididas em naturalistas e intuicionistas. E as naturalistas, em subjetivistas e objetivistas. As não-descritivistas, por sua vez, seriam divididas em emotivistas e não-descritivistas racionalísticas que, por fim, de dividiriam em prescritivista universal, que seria a própria proposta de Hare e a chamada teoria ‘X’. A exposição de Hare é particularmente interessante por estabelecer uma distinção entre o que ele entende, por teoria ética, que é o que ele apresenta nesse livro em especial, como sendo, especificamente, o “estudo dos conceitos morais, isto é, do uso que fazemos das palavras morais” (Op.cit. p. 72). Tradição cuja origem remota costuma-se
atribuir a Hume e a origem mais próxima a Moore. Não obstante, Hare não concorda com as conclusões a que Moore chegou, do que ele chama, simplesmente, de ética ou
filosofia moral que trataria dos conteúdos ou da parte prescritiva da moral, propriamente dita.
O interesse por essa divisão que Hare propõe, aqui, se justifica uma vez que ela está mais próxima da compreensão, segundo a qual a ética contemporânea pode ser tomada a partir de três âmbitos principais de estudo: a meta-ética, que investiga o vocabulário utilizado pela moral; a ética normativa, que fundamenta ou fornece as nomas para o agir humano; e a ética aplicada, que emprega tais descobertas nas tarefas e problemas morais do dia-a-dia. Divisão que será, então, adotada, por tornar mais acessível a compreensão e mais fácil a exposição desse vasto campo de reflexão,
contexto atual. Menciona-se, aqui, só a título de ilustração: 1. Descritivas e normativas (prescritivas); 2. Naturalista e Não-Naturalista; 3. Cognitivistas e Não- Cognitivistas; 4. De Motivos e de Fins; 5. De Bens e de Fins; 6. Materiais e Formais; 7. Substancialistas ou Procedimentais; 8. Teleológicas e Deontológicas; 9. Da Intenção (ou da convicção) e da Responsabilidade;10. De Máximos e de Mínimos. Cabendo destacar apenas o oitavo e nono pares, aos quais voltaremos em 3.2.
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visando, oportunamente, indicar como a ética jonassiana poderia ser classificada no interior desse complexo cenário da ética atual.
Desse modo, o presente capítulo obedece à seguinte divisão: 3.1 A perspectiva metaética, 3.2 Duas diferentes abordagens de ética normativa e 3.3 O surgimento e desenvolvimento das Éticas Aplicadas e Bioética.
3.1 – A perspectiva metaética
Este termo designa o estudo referente às proposições prescritivas, do ponto de vista lingüístico-formal, e à significação dos predicados morais com o objetivo de elucidar o sentido dos conceitos éticos e a forma como são lingüisticamente empregados em enunciados concretos. Mostra-se, assim, a relevância da linguagem para a reflexão ética, no interior da qual o significado, que as proposições morais adquirem nas interações e conflitos, determina e reflete o horizonte axiológico dos indivíduos.
A metaética pode ainda ser definida como: 1. “a tentativa de compreender as pressuposições e compromissos de ordem metafísica, epistemológica, semântica e psicológica do pensamento, do discurso, e da prática morais.”268 Ou ainda, como 2. um tipo de reflexão que examina o discurso moral compondo uma metalinguagem de cunho supostamente neutro, ou seja, não-normativo.
Tais definições demonstram que o objeto privilegiado da metaética é a linguagem em si, na perspectiva lógica e semântica e o uso que dela é feito no contexto da moral, e não propriamente o conteúdo, a formulação ou fundamentação de normas ou princípios.
Como já mencionado anteriormente, David Hume é considerado o precursor da investigação metaética, por ter sido o primeiro a realizar uma “análise lingüística”,
avant la lettre, do vocabulário moral. Moore foi reconhecido como um importante seguidor dessa tradição que, desde então, foi designada por esse termo específico. Tendo sido discutidos no capítulo anterior, não se pretende, aqui, voltar a eles. Cabe,
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apenas, registrar a importância de suas filosofias para o surgimento e consolidação da metaética.
Atualmente, inúmeros são os autores que, como Richard Hare, defendem que a tarefa primordial de toda teoria ética, digna desse nome, é precisamente estabelecer esse estudo terminológico, antes de pretender tratar das questões propriamente substanciais (entenda-se, o conteúdo dos enunciados morais). É exatamente o que ele realiza em sua obra supracitada, com o objetivo de avaliar, como fizeram seus antecessores, se as éticas existentes atendem aos rigorosos critérios que ele estabelece para serem, então, consideradas adequadas.
É importante frisar que, na verdade, todas as teorias que ele analisa são, segundo a definição por ele estabelecida, tipos diferentes de metaética, como a que ele próprio pretende ali, ao final, esboçar, porém, sem a pretensão de apresentar a solução definitiva. Razão pela qual, no quadro que ele propõe está em aberto um lugar (2.2?)
como possibilidade de que surja uma teoria (X) que atenda a todas as exigências, pressupondo, inclusive, a sua estrita filiação e posição já, por ele, estabelecidas.
Embora constitua uma tarefa de inegável importância, alguns autores preferem deixá-la ao cargo dos “metaéticos”, passando, então, à atividade seguinte: propor conteúdos. O que, segundo a divisão adotada, é precisamente a tarefa realizada pelas concepções designadas com a expressão “éticas normativas” que, no próximo tópico, serão abordadas a partir de dois autores já mencionados no capítulo 2, Kant e Weber.
3.2 – Duas diferentes abordagens de ética normativa
Recapitulando o que se disse até agora, vimos que os problemas colocados pelo avanço das tecnologias em geral e das biotecnologias em particular, especialmente aquelas destinadas à aplicação em seres humanos - cuja finalidade ultrapassa a detecção e cura de doenças - tornam a ética mais necessária que nunca. Paradoxalmente, porém,
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em função dos aspectos conceituais apontados, que levaram à desarticulação entre ética e tecnologia e da grande profusão de éticas no contexto contemporâneo, nunca a reflexão ética mostrou-se tão problemática. Soma-se a isso, o fato de que, para vários e destacados autores, a teoria ética foi reduzida à reflexão sobre a linguagem, originando e privilegiando as questões metaéticas, deixando de lado as questões ditas substanciais269. Isso mostra os vários complicadores que envolvem a questão.
Quanto ao tema proposto para esse tópico, existem autores que têm se dedicado, inteiramente, à reflexão das questões substanciais. Alguns deles, seguindo a orientação de dois importantes nomes da chamada ética normativa, Immanuel Kant e Max Weber. As duas teorias serão apresentadas, visando uma contraposição para evidenciar em que aspecto a segunda critica a primeira e por quê.
A” – Kant e a razão prática como origem do dever incondicional
Entre outros grandes feitos no âmbito da filosofia em geral, Kant se notabilizou por realizar a tarefa fundamental de elaborar uma moral rigorosamente racional, para responder ao subjetivismo, relativismo, e ceticismo que predominavam em seu tempo, buscando uma resposta à pergunta ética: "que devo fazer?", tendo como única referência os procedimentos da razão.
Essa questão fundamental é endereçada a um novo conceito de razão, cuja atividade se exerce segundo dois usos diferentes: a teórica e a prática270. Cabe frisar,
porém, com Otfried Höffe que
a razão prática não é nenhuma outra que a razão teórica; só há uma razão, que é exercida ou prática ou teoricamente. De modo geral a razão significa a faculdade de ultrapassar o âmbito dos sentidos, da natureza. A ultrapassagem dos sentidos pelo conhecimento é o uso teórico, na ação é o uso prático da razão. (...) A razão prática, como
269. O que não é o caso de Hare que, em outras obras, dedica-se também às questões substanciais. 270. Aspecto já abordado no capitulo anterior.
131 ela mais abreviadamente se chama, significa a capacidade de escolher sua ação independentemente de fundamentos determinantes sensíveis, os impulsos, as carências e paixões, as sensações do agradável e desagradável.(Op. cit. p. 188)
Surge, portanto, a questão: quais são os limites legítimos desses dois usos? O uso teórico, Kant analisa na Crítica da Razão Pura, e uso prático, na Crítica da Razão
Prática, onde ele investiga os princípios da razão em sua relação com a liberdade. Javier Herrero271 esclarece que a moral kantiana
é uma moral da razão pura prática, porque só pela razão o homem consegue autarquia e se torna autônomo, porque a razão prática é o seu "Selbst" mais próprio ("eingentlich Selbst") e com isso de torna independente de todas as forças "externas" de motivação. O ser humano é essencialmente autônomo, não por pertencer a uma determinada comunidade, não por compartilhar com os outros uma determinada tradição, mas por ser sujeito da razão incondicional.(op. cit. p. 19)
Aqui, porém, é preciso diferenciar entre razão prática técnica, que se encontra na “base de toda ação e figura extra-moral, ela fornece as normas relativas, as regras da habilidade ou da prudência” (Lexikon Katien. p. 890) e a razão prática moral que
é a fonte das normas absolutas do dever "Sollen" absoluto; a definição de seu fim, seu imperativo, seus princípios valem absolutamente, incondicionalmente. Essa razão visa uma unidade incondicionada, a legalidade e a validade universal da vontade, o acordo dessa consigo mesma, em suma, uma unidade prática sistemática. A razão no homem é o princípio da liberdade, da autonomia; ela constitui nele a "humanidade" e a "personalidade”
132 puras que se deve em todo e em cada um estimar e respeitar ao mais alto ponto.(LK. pp. 890-891)
Nesse sentido, segundo Kant, o que confere ao homem a sua máxima universalidade: a humanidade e, ao mesmo tempo, a sua máxima singularidade: a personalidade é a razão moral prática, precisamente, por fornecer o princípio da liberdade.
Mas a liberdade resultante da razão prática – coerentemente – “se manifesta pela lei moral” (LK 620) que, sendo dada pela própria razão a si mesma eleva a razão à condição de auto-legisladora, o que lhe confere a sua autonomia272. Donde provém, portanto, o
singular conceito kantiano de liberdade e o fato de no cerne da filosofia prática kantiana estar, portanto, a concepção de auto-legislação da razão pura prática.
O ser humano, portanto, se diferencia de todos os outros seres uma vez que, enquanto os seres naturais estão completamente submetidos às leis da natureza, o homem como ser racional, pode dar a si mesmo a sua própria lei, elaborada pela razão moral prática.
Herrero273 destaca o aspecto de que ele propõe uma teoria que é inerente à
consciência e ao agir moral de todo ser humano e, assim fazendo, ele confere um sentido novo e muito mais significativo para a praxis, capaz de abarcar não só o agir moral do homem, mas também a sua vida no Estado (política) e na sociedade (Direito).
Assim, tal conceito de praxis se distancia da concepção comum, que prevê uma doutrina da ciência e uma da prática que é, ao mesmo tempo, diferente e derivada dela. É o caso, por exemplo, da prática médica que se pauta numa teoria para ser realizada da maneira mais razoável e hábil possível. Mas não é esse sentido o proposto por Kant. Seu
272. Que, na verdade, pressupõe os dois conceitos nucleares: a razão prática, propriamente dita, e a liberdade.
273. A partir de notas das aulas, do curso de Ética ministrado pelo Prof. Dr. F. J. Herrero Botin, no 2o semestre de 2004, do Programa de Pós-Gradução em Filosofia da UFMG.
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novo conceito de praxis mostra-se também diferente do sentido implícito na disputa clássica sobre a primazia da vida teórica sobre a prática. Ademais, a ciência pura visa o
universal e necessário, não sendo por isso acessível através de nenhum agir concreto. A relação que ele tem em mente não entre princípio e aplicação, mas entre
princípios, pois, segundo pensa, a praxis é guiada por princípios. E sua novidade está em interpretar esses princípios a partir da razão prática, que ele define como uma razão que é essencialmente, agente, isto é, aquela cuja atividade típica não é o conhecimento.
Kant afirma que o valor da praxis é determinado inteiramente pela concepção subjacente à qual ela se conforma. A concepção subjacente que pode conferir maior valor à práxis é o princípio da razão prática por excelência: o conceito de dever
incondicional. Isso significa que somente o conceito de dever incondicional determina o valor moral da ação.
Por conseguinte, Herrero afirma que, segundo Kant, tentar corrigir a razão por meio da experiência seria não só um equívoco, mas, a maior tragédia para o ser humano. Pois, sua dignidade274 reside, exatamente, em ser sujeito da lei moral incondicional da razão, que faz dele um fim em si, e que prescreve a realização interna e externa no mundo dos homens em liberdade.
Cabe, porém indagar: qual é a razão que guia a praxis do homem? Segundo, Kant é a razão auto-legisladora.275 E, segundo ele, todo ser humano está submetido,
unicamente, às leis da razão e isto é o que constitui a autonomia do ser humano como
tal. Por isso de disse acima que, o homem kantiano é essencialmente autônomo, não por
274. Dignidade do homem, no contexto antigo = razão (logos) Ser // no contexto moderno: Razão Prática (homem: sujeito = fim em si) Liberdade.
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pertencer a uma determinada comunidade (livre, para o grego, é o cidadão da pólis), a uma determinada tradição, mas por ser sujeito da razão incondicional.276
Os critérios fornecidos pela razão prática, tanto no âmbito moral quanto no jurídico277, por procederem da razão, são idênticos à estrutura da razão. Assim, eles têm
a forma da razão, o que significa que as proposições, leis e princípios apenas serão conformes à razão, quando puderem reivindicar validade universal. Isto é, quando forem universalizáveis e, portanto, capazes de reconhecimento universal.
É na Fundamentação da Metafísica dos Costumes que Kant propõe-se a encontrar e fundamentar, ou, nas suas palavras, “buscar e fixar o princípio supremo da moralidade” (FMC. 200. Grifos nossos), que não é outro senão o Imperativo Categórico,
cuja formulação fundamental é a seguinte: “Age de tal forma que a máxima de sua ação possa por sua vontade elevar-se à lei universal”.(FMC. 223)
Desse modo, com a lei fundamental de sua liberdade interna, a racionalidade universal e formal impõe-se a figura do imperativo categórico ou princípio moral, exigindo que cada um aja conforme a máxima que possa servir como regra para a vontade de todo ser racional, o que o torna capaz, então, de ser legislador universal, ainda que se referindo a si mesmo, num experimento mental. Portanto, o imperativo categórico fornece a regra que eleva a máxima à condição de determinar a moralidade de toda ação de um ser racional.
276. “Assim, se a razão é incondicionalmente legisladora, então, nenhuma concepção heterônoma ou do egoísmo generalizado (utilitarismo generalizado), nenhuma regra derivada da razão instrumental (e da decisão) estratégica ou funcionalista, nenhuma Zweckrationalität (razão meios / fins: Weber), nenhuma Sittlichkeit (eticidade) convencional do Mundo da Vida poderá suplantar o papel absolutamente insubstituível da razão que tem sua sede no ser humano.” (Na íntegra, como apresentado e registrado em sala de aula).
277. Segundo Ricardo Terra, “Para Kant, alguns conceitos são comuns às duas partes da metafísica dos costumes, entre eles, o dever e a obrigação. Dever entendido como "a ação à qual alguém é obrigado. "” R. Terra. “A distinção entre direito e ética na filosofia kantiana”, p. 88.
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O homem é um ser racional e também um ser de inclinações. Por isso, ele não age somente como um ser racional, mas deve agir segundo a razão. Assim, o dever faz a mediação entre razão e inclinação, pois surge da relação que elas exibem no homem.
A máxima provém da inclinação e para ser moral tem que ser universalizável, daí