A PSICANÁLISE E AS TÉCNICAS NARRATIVAS
No capítulo anterior, usamos os sonhos para examinar o inconsciente de Zeno. Neste, analisaremos técnicas narrativas empregadas no romance (exceto o último capítulo, ao qual dedicaremos integralmente a quarta parte deste trabalho em virtude das diversas mudanças que ele introduz) considerando os aspectos da narração que não são temporais de um ponto de vista das concepções psicanalíticas, e iniciamos essa tarefa com o estudo da função crucial de outro meio privilegiado de manifestação do inconsciente, a associação livre de ideias, no preâmbulo com o qual Zeno inicia a sua autobiografia.
Justamente por ser constituída por atos mentais involuntários, a associação livre de ideias se opõe a qualquer atividade mental reflexiva; no caso de uma autobiografia, deve-se ressaltar a oposição a uma dessas atividades: “L’analisi freudiana dipende in gran parte dall’operazione della libera associazione di idee, sensazioni e ricordi spontanei; l’operazione voluta e sistematica della memoria, però, permette al meccanismo della censura di entrare in azione”.154
Ora, é altamente significativo que a associação livre de ideias seja abordada logo no início da escrita de Zeno, quando a situação conturbada do novo narrador é destacada como um conflito entre evitar a orientação voluntária dos pensamentos e exercer um controle deliberado sobre o que escreve. Assim, antes mesmo de Zeno fazer qualquer tentativa de escrever sobre o seu passado, o controle já toma a dianteira: “Ma un po’ d’ordine pur dovrebb’esserci e per poter cominciare ab ovo, appena abbandonato il dottore che di questi giorni e per lungo tempo lascia Trieste, solo per facilitargli il compito, comperai e lessi un trattato di psicoanalisi”.155 Desse modo, Zeno afasta-se decisivamente da atitude recomendada ao paciente na terapia psicanalítica:
Mentre il medico ha coscienziosamente suggerito al suo paziente di non cercare d’impremere una determinata direzione al suo sforzo di memoria, costui dichiara subito un’intenzione di mettere ordine nei suoi recordi che
154 MOLONEY, Italo Svevo narratore. Lezioni triestine, op. cit., p. 85. A análise freudiana depende, em
grande parte, do funcionamento da associação livre de ideias, sensações e memórias espontâneas, a operação deliberada e sistemática de memória, porém permite que o mecanismo de censura entre em ação (tradução nossa).
155 SVEVO, Romanzi e “continuazioni”, op. cit., p. 626. No entanto, é preciso estabelecer certa ordem
para para poder começar ab ovo. Mal deixei o consultório do médico, que deverá estar ausente de Trieste por algum tempo, corri a comprar um compêndio de psicanálise e li-o no intuito de facilitar-me a tarefa (SVEVO, A consciência de Zeno, op. cit., p. 13).
rivela una volontà di controllo razionale sui ricordi decisamente in contrasto con l’atteggiamento di abbandono prescritto dalla terapia psicanalitica [...] Di male in peggio: non solo Zeno programma di organizzare la sua rievocazione autobiografica in maniera assolutamente consapevole, [...] ma per giunta confessa candidamente di aver comprato e letto un trattato di psicanalisi. Altro che abbandono! Il paziente vuole essere in grado di controllare non solo le proprie parole, ma anche il modo in cui il medico interpretarà quelle parole, impossessandosi preventivamente del codice in base al quale saranno decifrate.156
Portanto, o ponto de partida que Zeno deliberadamente estabelece para a sua autobiografia não se deve propriamente a nenhum evento da sua própria vida, mas a algo relacionado ao seu leitor, a saber, o conhecimento teórico que lhe serve de chave de leitura. Depois, Zeno oscila entre a atitude descontraída recomendada pela psicanálise, cujo elemento central é a poltrona e que, ao menos diretamente, não dá bons resultados, e o esforço racional intrínseco à escrita, cujo elemento central é o lápis:
Dopo pranzato, sdraiato comodamente su una poltrona Club, ho la matita e un pezzo di carta in mano.La mia fronte è spianata perché dalla mia mente eliminai ogni sforzo. Il mio pensiero mi appare isolato da me. Io lo vedo. S’alza, s’abbassa... ma è la sua sola attività. Per ricordargli ch’esso è il pensiero e che sarebbe suo compito di manifestarsi, afferro la matita. Ecco che la mia fronte si corruga perché ogni parola è composta di tante lettere e il presente imperioso risorge ed offusca il passato. Ieri avevo tentato il massimo abbandono. L’esperimento finí nel sonno più profondo [...]
Mercé la matita che ho in mano, resto desto, oggi.157
Com os resultados insatisfatórios obtidos ao tentar seguir a psicanálise, Zeno tende a adotar a disposição simbolizada pelo lápis:
Strumento di scrittura, e dunque di un’attività intellettuale che richiede concentrazione, la matita, prima ancora di essere usata, impone a Zeno il pensiero dell’atto compositivo che sta per compiere, sovrapponendo così nella sua coscienza l’impegno presente – la sua programmazione ed esecuzione - ai ricordi inseguiti del passato. Ancora una volta, dunque, il
156 STASI, Svevo, op. cit., pp. 102-103. Enquanto o médico escrupulosamente sugeriu ao seu paciente não
tentar impor uma determinada direção ao seu esforço de memória, este imediatamente declara a intenção de colocar ordem nas suas recordações, o que revela uma vontade de controle racional sobre as recordações decididamente em contraste com a atitude de entrega exigida pela terapia psicanalítica [...] De mal a pior: não só Zeno planeja organizar a sua lembrança autobiográfica de uma maneira absolutamente consciente, [...] mas também confessa candidamente que havia comprado e lido um tratado sobre psicanálise. Tudo menos entrega! O paciente quer ser capaz de controlar não só as suas próprias palavras, mas também o modo pelo qual o médico interpretará essas palavras, apoderando-se preventivamente do código com base no qual serão decifradas (tradução nossa).
157 SVEVO, Romanzi e “continuazioni”, op. cit., p. 626. Depois do almoço, comodamente esparramado
numa poltrona de braços, eis-me de lápis e papel na mão. Tenho a fronte completamente descontraída, pois eliminei da mente todo e qualquer esforço. Meu pensamento parece dissociado de mim. Chego a vê- lo. Ergue-se, torna a baixar... e esta é sua única atividade. Para recordar-lhe que é meu pensamento e que tem por obrigação manifestar-se, empunho o lápis. Eis que minha fronte se enruga ao pensar nas palavras que são compostas de tantas letras. O presente imperioso ressurge e ofusca o passado. Ontem tentei um abandono total. A experiência terminou no sono mais profundo [...]
Graças ao lápis que hoje trago à mão, mantenho-me desperto (SVEVO, A consciência de Zeno, op. cit., pp. 13-14).
Preambolo illumina l’intima contraddizione che vizia all’origine il tentativo
di recupero memoriale di Zeno: una consapevole attenzione alla scrittura che prende il sopravvento sull’abbandono tendenzialmente incosciente al flusso di ricordi.158
Quanto à poltrona, ela é explicitamente abandonada no início do próximo capítulo, no qual Zeno efetivamente começa a contar o seu passado: “Credo che del fumo posso scrivere qui al mio tavolo senz’andar a sognare su quella poltrona”.159 Ao abandoná-la, também renuncia à postura psicanalítica representada por ela e, portanto, a incentivar que o seu inconsciente se manifeste, como é sucintamente conotado pelo verbo “sonhar”, dado que os sonhos são a mais intensa manifestação do inconsciente descoberta pela psicanálise em pessoas livres das psicopatologias. A poltrona é substituída pela mesa, de modo que o narrador agora se apresenta “nell’atteggiamento classico e controllato dello scrittore”.160 Zeno, ao recordar as caixas nas quais se vendiam os primeiros cigarros que fumou, ainda retornará uma última vez à poltrona, aparentemente conseguindo acessar o seu inconsciente, mas reagindo de uma maneira nada promissora:
Ecco: attorno a una di quelle scatole s’aggruppano subito varie persone con qualche loro tratto, sufficiente per suggerirmene il nome, non bastevole però a commovermi per l’impensato incontro. Tento di ottenere di più e vado alla poltrona: le persone sbiadiscono e al loro posto si mettono dei buffoni che mi deridono. Ritorno sconfortato al tavolo.161
Encontramos a mesma recusa em confrontar o próprio inconsciente quando Zeno cobre a cabeça e pensa na acusação feita por Ada: “Poi nell’oscurità rividi il cadavere di Guido e nella sua faccia sempre stampato lo stupore di essere là, privato dalla vita. Spaventato rizzai la testa. Era preferibile affrontare l’accusa di Ada che io
158 STASI, Svevo, op. cit., pp. 103-104. Instrumento para escrever e, portanto, de uma atividade
intelectual que exige concentração, o lápis, antes mesmo de ser usado, impõe a Zeno o pensamento do ato de composição que está para realizar, sobrepondo, assim, na sua consciência o empenho presente – o seu planejamento e a sua execução – às procuradas recordações do passado. Mais uma vez, portanto, o
Preambolo ilumina a contradição interna que vicia na origem a tentativa de recuperação de memórias de
Zeno: uma atenção consciente à escrita que assume a supremacia sobre a entrega de tendência inconsciente ao fluxo de recordações (tradução nossa).
159 SVEVO, Romanzi e “continuazioni”, op. cit., p. 628. Acredito, inclusive, que a respeito do fumo
posso escrever aqui mesmo, à minha mesa, sem necessidade de ir sonhar ali naquela poltrona (SVEVO, A
consciência de Zeno, op. cit., p. 15).
160 STASI, Svevo, op. cit., p. 110. Na atitude clássica e controlada do escritor (tradução nossa).
161 SVEVO, Romanzi e “continuazioni”, op. cit., p. 628. Aí está: em volta de uma dessas caixas agrupam-
se de repente várias pessoas, mostrando um ou outro traço fisionômico, suficientes para sugerir-lhes o nome mas não tanto para deixar-me comovido pelo inesperado do encontro. Procuro buscar mais e vou para a poltrona: as pessoas esfumam-se, dando lugar a indivíduos cômicos, que escarnecem de mim. Com desconforto, retorno à mesa (SVEVO, A consciência de Zeno, op. cit., p. 15).
sapevo ingiusta che guardare nell’oscurità”.162 Assim, como diz o crítico Brian Moloney: “Zeno sente continuamente il bisogno non tanto di rivelare o di cercare la verità su se stesso per poter venire a patti con i suoi problemi e poi progredire verso la guarigione, quanto quello di difendersi”.163
Ademais, encontramos uma reação complementar a essas quando Zeno comenta, no último capítulo, a sua disposição diante das lembranças que procura obter nas sessões com o doutor S.: “Io avevo già adorata la speranza di poter rivivere un giorno d’innocenza e d’ingenuità. Per mesi e mesi tale speranza mi resse e m’animò. Non si trattava forse di ottenere col vivo ricordo in pieno inverno le rose del Maggio?”.164 Logo, mesmo com o conhecimento obtido pela leitura do tratado de psicanálise, ele não é capaz de confrontar diretamente os seus conflitos inconscientes, esperando do passado apenas reviver as suas alegrias. Isso decide o rumo da autobiografia: “Il riso bufonesco sembra liquidare la praticabilità dell’approccio alla memoria suggerito dal dottore, determinando il ritorno definitivo al tavolo e al controllo razionale del racconto”.165
Resulta do rumo dado à escrita de Zeno que, assim como Svevo não adota, como já comentamos na introdução, uma caracterização realista do médico e do paciente de uma terapia psicanalítica, ele também rejeita a apropriação de elementos especificamente clínicos até finalmente abordar o tratamento, o que só ocorre no último capítulo do romance. Em suma, evita-se simplesmente representar a situação e as formas discursivas que predominam num contexto clínico. O tratamento direto e circunstanciado dado ao afastamento da associação livre de ideias, procedimento previsto no que Freud chama de regra fundamental da psicanálise, tanto enfatiza a rejeição de uma abordagem mais diretamente clínica quanto pode provocar a suspeita sobre quão Zeno é efetivamente capaz de evitar as manifestações do inconsciente buscadas pelo tratamento, ainda que não adote os procedimentos que procuram
162 Ibid., p. 1043. Depois, na escuridão, revi o cadáver de Guido, e sempre estampado em seu rosto o
estupor de estar ali, privado da vida. Espavorido contraí a testa. Era preferível enfrentar a acusação de Ada, que eu sabia injusta, do que fitar a escuridão (Ibid., p. 384).
163 MOLONEY, Italo Svevo narratore. Lezioni triestine, op. cit., pp. 85-86. Zeno sente continuamente a
necessidade não tanto de revelar ou procurar a verdade sobre si mesmo para poder chegar a um acordo com os seus problemas, e depois progredir rumo à cura, quanto de se defender (tradução nossa).
164 SVEVO, Romanzi e “continuazioni”, op. cit., p. 1050. Já adorava a esperança de reviver um dia de
inocência e ingenuidade. Durante meses e meses essa esperança ergueu-me e animou-me. Não era o mesmo que obter por meio da lembrança em pleno inverno as rosas de maio (SVEVO, A consciência de
Zeno, op. cit., p. 391)?
165 STASI, Svevo, op. cit., p. 111. O riso bufonesco parece liquidar a viabilidade da abordagem para a
memória sugerida pelo médico, determinando o retorno definitivo à mesa e ao controle racional da narração (tradução nossa).
favorecê-las. De fato, o nosso principal objetivo neste capítulo é examinar a função que elas exercem na narração, incluindo alguns casos que são os que mais se assemelham na vida comum aos buscados por meio da associação livre de ideias durante a terapia.
De modo equivalente, é abandonada a temporalidade inerente às recordações traumáticas durante o tratamento. Segue a sua apresentação por Freud:
[...] nem sempre era um único acontecimento que deixavaatrás de si os sintomas; para produzir tal efeito uniam-se na maioria dos casos numerosos traumas, às vezes análogos e repetidos. Toda essa cadeia de recordações patogênicas tinha então de ser reproduzida em ordem cronológica e precisamente inversa – as últimas em primeiro lugar e as primeiras por último – sendo completamente impossível chegar ao primeiro trauma, muitas vezes o mais ativo, saltando-os sobre os que ocorreram posteriormente.166
Ora, o preâmbulo escrito por Zeno só nos fornece a primeira recordação dessa cadeia: “Vedo, intravvedo delle immagini bizzarre che non possono avere nessuna relazione col mio passato: una locomotiva che sbuffa su una salita trascinando delle innumerevoli vetture; chissà donde venga e dove vada e perché sia ora capitata qui!”.167 Como o próprio narrador explicará, trata-se de uma recordação da morte do pai:
[...] scopro che l’immagine che m’ossessionò al primo mio tentativo di vedere nel mio passato, quella locomotiva che trascina una sequela di vagoni su per un’erta, io l’ebbi per la prima volta ascoltando da quel sofà il respiro di mio padre. Vanno cosí le locomotive che trascinano dei pesi enormi: emettono degli sbuffi regolari che poi s’accelerano e finiscono in una sosta, anche quella una sosta minacciosa perché chi ascolta può temere di veder finire la macchina e il suo traino a precipizio a valle. Davvero! Il mio primo sforzo di ricordare, m’aveva riportato a quella notte, alle ore più importanti della mia vita.168
Como o narrador abandona a abordagem recomendada pela psicanálise, ele prossegue o seu esforço de recordação sem compreender ao que ela se refere, o que só acontece depois de muitas outras lembranças, quando ele recordar justamente a morte do pai. A temporalidade invertida das recordações, por sua vez, só ocorrerá quando Zeno efetivamente estiver em tratamento com o psicanalista. Então, como é relatado no
166 FREUD, Cinco lições de psicanálise, op. cit., p. 31.
167 SVEVO, Romanzi e “continuazioni”, op. cit., pp. 626-627. Vejo, entrevejo imagens bizarras que não
podem ter qualquer relação com meu passado: uma locomotiva que resfolega pela encosta acima a arrastar inúmeros vagões; sabe-se lá de onde vem e para onde vai e o que estará fazendo nestas recordações (SVEVO, A consciência de Zeno, op. cit., p. 14)?!
168 Ibid., p. 669. [...] descubro que a imagem que me obcecou desde a primeira tentativa de perscrutar o
passado, a locomotiva que arrasta uma série de vagões ladeira acima, surgiu em meu espírito, ouvindo daquele sofá a respiração de meu pai. É exatamente assim que fazem as locomotivas que arrastam pesos enormes: emitem baforadas regulares, que depois aceleram para terminar numa parada, também esta perigosa, porque quem a ouve teme que a máquina e seus vagões se precipitem morro abaixo. Curioso! Meu primeiro esforço para evocar o passado conduziu-me precisamente àquela noite, às horas mais importantes da minha vida (Ibid., p. 53).
último capítulo do romance, terá a sequência de visões que evocam a infância: as duas primeiras com o irmão, sobre as quais o próprio narrador diz que a segunda é muito anterior à primeira; a terceira só com os pais, como se o irmão ainda nem fosse nascido; a quarta só com a mãe, que é entendida como tudo para a criança, o que remete a uma fase ainda anterior da infância.
Para ajudar a esclarecer a disposição narrativa de Zeno, também pode ser útil compreender que ela se afasta igualmente de algumas técnicas narrativas que se contrapõem de modo ostensivo à narração tradicional, o que já foi assinalado por críticos como Sandro Maxia:
In realtà la Coscienza di Zeno non ha nulla a che fare con la tecnica del “monologo interiore”, se per “monologo interiore” deve intendersi – secondo la definizione che ne dà Jean Rousset nel suo recente volume
Narcisse romancier, Parigi, 1973, p. 25 – “un discours sans auditeurs [...]
supposé s’enregistrer sans s’écrire” (come è il caso del monologo di Molly nell’ultimo capitolo dell’Ulysses). Zeno, al contrario, scrive, e racconta “per qualcuno” (o contro qualcuno). Quanto poi alle “associazioni libere”, non è nemmeno il caso di parlarne. Svevo non cerca, né ha mai cercato, di riprodurre naturalisticamente i processi mentali passivi dei suoi personaggi (anche se era ben consapevole del procedimento, come dimostrano i suoi scritti su Joyce).169
O crítico Giulio Savelli descarta outras dessas técnicas ao tratar da multiplicidade de contextos implícitos na narração de Zeno (ainda abordaremos essa multiplicidade neste capítulo):
Si può fare riferimento a Bachtin come anche alla pluralità di soggetti individuata da Auerbach in To the Lighthouse. Ciò che è caratteristico della
Coscienza è che tale molteplicità corrisponde non a “voci” o a “soggetti”
[...] non c’è l’intento di dare accesso diretto a uno stato mentale, di fare una radiografia o una fotografia della psiche, di rappresentare oggettivamente il processo del pensiero o della percezione.170
Nesse sentido, o título do romance já deixava claro que o primeiro plano seria ocupado pela consciência de um indivíduo; no entanto, a primazia da consciência, em
169 MAXIA, Svevo e la prosa del Novecento, op. cit., pp. 37-38. Na verdade, La coscienza di Zeno não
tem nada a ver com a técnica do “monólogo interior”, se por “monólogo interior” deve ser entendido – de acordo com a definição que lhe dá Jean Rousset no seu recente livro Narcisse romancier, Paris, 1973, p. 25 – “um discurso sem ouvintes [...] suposto ser registrado sem ser escrito” (como é o caso do monólogo de Molly, no último capítulo de Ulisses). Zeno, pelo contrário, escreve, e conta “para alguém” (ou contra alguém). Quanto às “associações livres”, nem vale a pena mencionar. Svevo não tenta, nem nunca tentou, reproduzir de modo naturalista os processos mentais passivos dos seus personagens (mesmo se estava bem ciente do procedimento, como demonstram os seus escritos sobre Joyce) (tradução nossa).
170 SAVELLI, Giulio. L’ambiguità necessaria. Zeno e il suo lettore. Milano: Franco Angeli, 1998, p. 51.
Pode-se fazer referência a Bakhtin, bem como à pluralidade de sujeitos identificada por Auerbach em To
the Lighthouse. O que é característico da Coscienza é que tal multiplicidade não corresponde a “vozes” ou
“sujeitos” [...] não há a intenção de dar acesso direto a um estado mental, de fazer uma radiografia ou uma fotografia da psique, de representar objetivamente o processo de pensamento ou da percepção (tradução nossa).
Zeno e no romance, parece só existir para ser severamente contestada ao longo de todo o livro. Para compreendermos como a disposição narrativa que examinamos por meio de uma análise do preâmbulo, que encaminharia o livro para uma narração tradicional, é subvertida com o auxílio da psicanálise de forma a constituir um modo inovador de narrar e que contesta a primazia da consciência, propomos estudar a sua constituição a partir de duas características incomuns para o narrador tradicional: Zeno não é confiável nem entende o que está narrando.
A falta de confiabilidade do narrador é uma característica crucial do foco narrativo do romance, pois todos os seus episódios “filtrano attraverso l’immagine che sta in primo piano [...]: un vecchio – più precisamente un vecchio bugiardo – che prende la parola e che scrive con un destinatario preciso – lo psicanalista a cui si è rivolto – da circuire e da ingannare”.171 É esse destinatário que recomenda a Zeno, o velho mentiroso, que escreva a sua autobiografia como preparação para as sessões de psicanálise. Lembremos que essa situação que origina a narração já é posta na primeira seção do livro, o prefácio escrito pelo psicanalista.
Em especial, o prefácio já deixa o leitor em estado de alerta para as mentiras