Os estudos de Marcoccia (2004) acerca da lista de discussão como gênero discursivo sinalizam para algumas características específicas presentes em sua estrutura conversacional. A partir de um estudo empírico realizado em diversos newsgroups com falantes de francês, durante um período de dois meses (junho/julho de 1997), o autor observou que a interação era composta de múltiplos participantes, freqüentemente as mensagens eram truncadas, as seqüências conversacionais muito curtas e o posicionamento das mensagens na estrutura conversacional aleatório.
a) Múltiplos participantes
Na lista de discussão, a interação é estruturada a partir de múltiplas conversações (compostas por dílogos ou polílogos) e não a partir de um único movimento conjunto em virtude do comportamento do vasto número de participantes: os usuários se envolvem simultaneamente em diversos subgrupos. Na análise de nosso corpus - anexo I, p.160 - observamos que Marco Hundsdorfer, entre outros interlocutores, envolve-se em discussões diferentes, conforme se observa pelos títulos das mensagens destacados abaixo (linhas 10 e 18):
“Marco Hundsdorfer” Re: Profecias...existem 22 Apr 2004
b) Mensagens truncadas
O autor classifica uma mensagem como truncada quando ela não produz uma resposta ou um par adjacente. Em sua pesquisa, constata que a metade das mensagens enquadra-se nessa categoria. Na verdade, tal situação ocorre quando um participante inicia algum tópico discursivo e não obtém a adesão dos demais. Assim, a mensagem fica “solta” no todo conversacional e, como tal turno não contribui ao desenvolvimento de nenhum tópico, tem-se uma mensagem truncada.
A explicação para esse fenômeno, ainda segundo Marcoccia (2004), deve-se ao caráter assincrônico da interação. Por apresentar uma temporalidade dilatada, os participantes intuem que uma mensagem inicial tem um “prazo de validade” (principalmente se for uma pergunta). Essa temporalidade própria também contribui para o truncamento de mensagens, na medida em que os participantes não se sentem na obrigação de respondê-las de imediato. No anexo I (p.160), encontramos à linha 15, entre outras, mensagens nessas condições:
“Fernanda” clonagem 16 Apr 2004
Vemos que a interlocutora “Fernanda” propôs-se a iniciar uma discussão intitulada “clonagem”, mas não obteve sucesso, pois não observamos, na lista de discussão, nenhum movimento seqüencial de resposta dada pelos outros participantes. Em uma situação face a face é pouco freqüente que algum interlocutor não responda ao questionamento de um outro (embora saibamos da importância do silêncio). O fato de algo assim ocorrer no newsgroup pode revelar um maior distanciamento e menor envolvimento que nas situações face a face. Devemos considerar, também, que qualquer participante pode responder diretamente ao e- mail do emissor inicial; portanto, algumas mensagens consideradas truncadas podem ter sido respondidas fora do newsgroup.
c) Seqüências curtas
Em sua pesquisa sobre a lista de discussão, Marcoccia (2004) conclui que uma seqüência conversacional geralmente comporta não mais que cinco mensagens. As inserções são apresentadas após a mensagem inicial (cf. linha 16 do anexo I – p. 160) e organizadas subseqüencialmente (cf. linhas 17, 18, etc.), conforme indicamos:
16 “Amanda” Uma pergunta 6 Apr 2004
17 “Rodrigo” Re: Uma pergunta 6 Apr 2004
18 “Marco Hundsdorfer” Re: Uma pergunta 14 Apr 2004
19 “Luiz Bento” Re: Uma pergunta 19 Apr 2004
20 “jessica” Re: Uma pergunta 8 May 2004
Essa apresentação dificulta entendermos a seqüencialização da conversa, pois não conseguimos aferir, seguindo o intervalo entre as linhas 16-20, se a mensagem da linha 20, por exemplo, foi produzida em relação às linhas 16, 17, 18 e 19 ou mesmo em relação a todas. Na realidade, Marcoccia (2004) argumenta que, ao responder uma premissa qualquer, não temos a certeza de que os usuários leram as reações expressas previamente pelos outros participantes. A análise da seqüência conversacional expressa nas linhas supracitadas (anexo I, pp. 161-162, no espaço entre as linhas 44-103), a qual reproduzimos na seqüência, esclarece melhor a questão:
16.
Assunto: Uma pergunta
Data: 6 Apr 2004 11:56:12 -0300
De: “Amanda” >
Grupo: uol.folha.ciencia.clonagem
Essa é uma pergunta que ninguém ainda fez: clone tem alma??
17.
Assunto: Re: Uma pergunta
Data: 6 Apr 2004 18:00:44 -0300
Grupo: uol.folha.ciencia.clonagem
Clone somente é um ser com as aparencias identicas a um outro ser. Ele leva sua vida, independente do seu “modelo original”.
18.
Assunto: Re: Uma pergunta
Data: 14 Apr 2004 16:22:38 -0300
De: “Marco Hundsdorfer” <[email protected]>
Grupo: uol.folha.ciencia.clonagem
Cara Amanda.
Gêmeos identicos têm alma? Porque clones são nada mais, nada menos,que gêmeos idênticos em essência. Possuem a mesma carga genética que outro ser, só isso. Quem inventou a clonagem não foi o homem, mas a própria natureza. (veja, como exemplo, os guepardos na África, que possuem, devido a seu pequeno número, pouquíssima variação genética). O homem manipula uma possibilidade feita pela própria natureza, só isso. É fato que este conhecimento pode ser utilizado para o bem ou para o mal. Mas, a religião tambem pode, não é mesmo? (Vide história). Gostaria de propor uma discussão. Quem mais gerou conflitos e mortes durante toda a história humana? As religiões ou a ciência? Obrigado pela atenção.
19.
Assunto: Re: Uma pergunta
Data: 19 Apr 2004 12:04:29 -0300
De: “Luiz Bento” <[email protected]>
Grupo: uol.folha.ciencia.clonagem
Amanda, não sou cientista e nem pretendo aqui ficar conversando sobre suposições. A Alma é uma justa suposição do ser humano carente, que fica imaginando coisas. Voce já viu alguma alma? Será que ela existe. Ninguém tem condições de clonar um sonho por exemplo. Eu diria a voce que a alma é um sonho da fragilidade humana. Do ponto de vista cientifico a gente clona apenas matéria. Portanto o clone não tem alma e nem o ser humano. Ok?
20.
Assunto: Re: Uma pergunta
Data: 8 May 2004 13:11:25 -0300
De: “jessica” <[email protected]>
Grupo: uol.folha.ciencia.clonagem
te respondo com outra pergunta, irmaos gemeos univitelinos tem almas distintas? se vc acha que sim entao clones tem almas sim pois os gêmeos sao clones naturais
As mensagens das linhas 18 e 19 são dirigidas nominalmente à interlocutora “Amanda”, responsável pela inicialização do tópico, mas não conseguimos precisar se os participantes leram as respostas anteriores ao formular suas mensagens. Assim, não sabemos se o interlocutor “Marco Hundsdorfer” (18) acessou o turno de “Rodrigo” (17) ao dirigir-se a “Amanda” (16). Vemos, em 18, uma proposta de discussão (“gêmeos idênticos têm alma?”) já
levantada em 17 (“clone é somente um ser com as aparências idênticas a um outro ser”); entretanto, pela dinâmica da interação, não podemos aferir se a mensagem-resposta 17 foi relevante para a formulação do discurso em 18.
A interlocutora “Jessica”, na linha 20, responde a “Amanda” (tanto o posicionamento na estrutura conversacional como o marcador de segunda pessoa “te” evidenciam isso) com outra pergunta: “irmãos gêmeos univitelinos têm almas distintas?”. Da mesma forma, não conseguimos saber se “Jessica” retoma, de fato, uma discussão iniciada por “Marco Hundsdorfer” (18) ou se ela não leu toda a seqüência conversacional.
Por meio dos exemplos, parece possível detectar que alguns participantes não lêem todas as mensagens correspondentes para responderem, não tendo acesso a outros argumentos que complementam a conversação. Conforme expresso anteriormente, o mecanismo de funcionamento do polílogo “on-line” nos faz questionar: qual é, na realidade, o conhecimento que têm os interlocutores dos turnos de todos os participantes na conversação de que tomam parte? No intervalo supracitado, não há marcas que nos revelem se os interlocutores tiveram acesso às premissas anteriores no momento de formulação de suas mensagens.
d) Posicionamento das mensagens
Algumas vezes, a ordem seqüencial dos enunciados é aleatória. Mensagens são postas na posição inicial, mas, na verdade, referem-se a um tópico já introduzido, tratando-se, pois, de um movimento de reação a tópicos anteriores. Também verificamos movimentos de resposta enxertados em pontos diferentes na seqüência conversacional (como nas linhas 13 e 14 que se relacionam às mensagens do intervalo 33-36) – cf. anexo I, p.160:
Linhas 13 e 14:
“Mostradanusgyn” Re: Vamos acorda pra vida band* 19 Apr 2004 “Mostradanusgyn” Re: Vamos acorda pra vida band* 19 Apr 2004
Linhas do intervalo 33-36:
“guilherme” Vamos acorda pra vida band* 8 Mar 2004 “Reginaldo Pereira Martins” Re: Vamos acorda pra vida band* 15 Mar 2004 “wagner albuquerque ribeiro” Re: Vamos acorda pra vida band* 1 Apr 2004 “Carlos Pedro” Re: Vamos acorda pra vida band* 13 Apr 2004
Analisando essa diferença no posicionamento, Marcoccia (2004) questiona: mesmo observando tal diferença, teríamos o direito de julgar que o participante se enganou ao integrar sua mensagem ao restante da estrutura? Isso significaria alguma dificuldade do usuário com o sistema? Haveria alguma possibilidade de esse posicionamento ter sido intencional? Até que ponto esse posicionamento aleatório é relevante para a conversação? Além disso, se julgarmos que o participante se enganou, não estaremos defendendo a idéia de que sabemos mais sobre a interação em curso do que os próprios participantes?