El Saleroso é o impresso do Coletivo Ativismo ABC, responsável pelo espaço cultural Casa da Lagartixa Preta. Entre janeiro e fevereiro de 2009, recebi no apartamento do Liège, o Jão e a Mix, do Ativismo ABC. Nesse período fizemos muitas permutas, muitas trocas de experiências. Organizamos duas rodas de conversas libertárias: “Futebol e Anarquia” e “Autogestão & Anarquismo hoje”. Eles decidiram ter uma conversa conosco sobre o 12 Macacos, e saiu essa entrevista, publicada por eles. Tentamos reunir o máximo de macacos para esse momento. É a primeira entrevista do coletivo.
Como sempre, não poderíamos deixar de emitir nosso grito gutural do chimpanzé bonobo furioso: UHUHUH AHAHAH… UHUHUH AHAHAH… UHUHUH AHAHAH
Fortaleza, janeiro de 2009.
– UHUHUH AHAHAH – UHUHUH AHAHAH
AABC – Como surgiu o Coletivo 12 Macacos?
(S) Surgiu com o desejo de várias pessoas de estar fazendo coisas juntas, de estar mexendo com coisas. Especificamente um dia eu estava conversando com o Mingau e ele tinha me revelado o desejo de fazer parte de um coletivo e esse desejo era muito parecido com o meu, e a partir daí fomos convidando pessoas para fazer parte desta coletividade.
(M) O coletivo surgiu de pessoas que já participaram de outros grupos; e Fortaleza já foi uma cidade muito ativista, por exemplo grupos como o Bloco Verde,que lutava pela causa ambiental aqui nessa cidade, e também o coletivo Ruptura uma das primeiras experiências de coletivo anarquista de Fortaleza que durou alguns anos e por razões internas acabou. Outro grupo que podemos citar é o Crítica Radical que flerta mais com o marxismo e também o coletivo anarco-punk konfronto. Vimos que esses coletivos ficavam mais centrados em nichos e sentimos essa necessidade de intervenção nessa cidade onde notamos a falência de certos valores que se manifestam, não só nela, mas na sociedade em geral; nós vimos várias potências dissociadas e resolvemos partir da nossa própria iniciativa para aglomerar mais pessoas e voltar à contra-cultura nessa cidade.
(S) Eu me lembro que várias coisas foram acontecendo antes do coletivo surgir que foram somando para completar que o coletivo acontecesse. Uma delas foi que nós nos convidamos enquanto pessoas, como grupo de amigos para uma manifestação contra [a visita do] o Papa e a Homofobia na Catedral daqui de Fortaleza; nós fomos e fizemos uma intervenção dentro da manifestação e a gente achou que embora fosse de contestação pela presença do papa [no Brasil], havia uma coisa meio que legalizada e nós fomos meio que para dar uma diferença e nós não éramos ainda o Coletivo 12 Macacos. Mas já foi uma intervenção bem macaquínica, e dali surgiu um desejo maior ou intuitivamente as pessoas começaram a perceber que dava para fazer algo em conjunto, naquela manifestação entramos na igreja gritando algumas coisas e uma delas era “morte ao papa ”e ali ficou um potencial bem forte do que poderíamos fazer. (M) Outro ponto importante para o surgimento do coletivo foram certos pontos em comum, certas concepções, que deu para ter uma noção do que poderia ser o coletivo que é a questão do Veganismo, da libertação animal e a gente sempre debatia sobre estas questões.Tanto que o nome do coletivo surgiu dessas discussões e usamos o nome do filme de Terry Gilliam “12 Macacos ” que não aborda muito a questão do especismo mas mostra a falência da civilização, fazendo o paralelo entre o trato que é dado aos animais e a situação que se chegou a sociedade atual… a gente se inspirou muito [nesse filme].
(S) É explícito que o nome do coletivo vem do filme. Mas também há algo dentro do próprio filme que não é só a questão da libertação animal e dessa crítica dos valores da civilização, mas uma resposta meio que irracional [ou supostamente irracional] a isso tudo e que não é uma resposta tradicional dos partidos e sindicatos, não é essa forma de participação política convencional que marcou tanto o século XIX quanto o século XX. Mas é uma resposta a esse mundo contemporâneo decadente que a gente vive; só que a gente busca se posicionar de uma forma poética, mais livre e menos racional e menos acadêmica, porque a gente percebe isso nos textos e panfletos de partidos e organizações que tem a ver com partidos e acho que essa irracionalidade (não gosto muito de usar esta palavra) talvez isso seja bem retratado no grito animal que o coletivo gosta de soltar.
(T) Não é uma questão de irracionalidade, mas sim uma questão mais animalesca, mais feral.
AABC – Fale da forma de organização ou desorganização do coletivo.
(S) No começo quando bateu aquela idéia, aquela empolgação imensa, a gente foi chamando as pessoas, convidando muita gente; depois percebemos que o convite direto não era algo
interessante, porque as pessoas, por ter laços de amizade, muitas vezes aceitavam o convite mas não se sentiam plenamente a vontade de fazer coisas dentro do coletivo. Então teve muitos fluxos de pessoas que entravam e saiam; então ficamos pensando assim entra no coletivo quem tem desejo de estar dentro do coletivo para fazer aquilo queira fazer. O coletivo são todos, como é dito no manifesto. Me lembro que teve uma reunião que o Pedro me perguntou “Sandro como é que eu faço para entrar no coletivo ” e eu disse ” Tem uma senha e a senha é “como é que faço para entrar no coletivo?” E é isso, tem que ter o desejo de entrar no coletivo e se quiser sair já saiu, se quiser voltar já voltou. Agora,a forma como a gente se organiza… bom, a gente não se organiza.
(M) A gente está acostumado com a forma com que os outros coletivos se organizam com reuniões semanais e avaliação de campanhas, o grupo se baseou meio que numa informalidade; mas não que seja uma informalidade sem critérios, sem comprometimento algum. A gente vê em cada manifestação cultural dessa cidade de mostrar nossa subversão, tanto que nossa primeira ação foi numa manifestação pela diversidade sexual e a gente viu nesse evento um potencial muito grande para se postar como grupo e também de mostrar esse caráter subversivo. Houve reunião antecipada para decidir, fizemos um panfleto, mas se baseando muito nessa de não ter reunião periódica ou definir diretrizes do grupo. Acho que isso nunca houve, não sei se isso pode uma falha da gente, mas vamos seguindo assim. A gente sabe criar possibilidades onde outros grupos muitas vezes não vêem. O grupo não se centraliza em ações específicas, o grupo sabe diversificar e atua não apenas em movimentos sociais mas também em lugares inusitados, sabe se postar como coletivo de contra-cultura. (S) Chegou um momento que as pessoas disseram que não queriam mais reuniões, que, de fato, nunca aconteceram; então, a gente decidiu se reunir apenas quando fôssemos fazer alguma intervenção, então a gente se prepara para essa intervenção.
(M) Esse conceito de reunião… a nossa própria convivência diária de amizade supre essa necessidade de reunião.
(S) De fato tem esse momento que atravessa todo o coletivo que é essa… vamos dizer… ética dos amigos, essa coisa da amizade, da convivência dos pontos em comum entre a gente e gostamos de estar juntos como um bando de macacos na floresta em algazarra e é isso que a gente gosta de estar fazendo; com alegria e que é próprio da gente as pessoas se chegam em função disso de querer estar um junto com o outro.
AABC – Quantas pessoas fazem parte do coletivo atualmente?
(S) Dá para contar?Acho que não dá para contar muito não.
(M) Para ser sincero o grupo entrou meio que num recesso, até porque outros membros do coletivo fazem parte de outros coletivos também, mas acho que gira em torno de 12 macacos mesmo, rs.
(S) Na última intervenção que nós fizemos tinham 12 pessoas. A questão toda é que temos muitos apoiadores também, quando propomos uma intervenção vem uma galera que tem uma simpatia e quer apoiar; o grupo é aberto para essas coisas e para estar no coletivo é só chegar no coletivo, não precisa perguntar nem pedir; nesse sentido, o número é variável; o coletivo é um fluxo, não há necessidade de contar.
AABC – Quais os tipos de ações que vocês já realizaram? Ação direta,intervenção,etc.
(S) Tem bastante intervenção urbana. Certa vez, fizemos uma intervenção em um outdoor que trazia uma propaganda de uma churrascaria. Então nós fizemos uma intervenção que desviava o sentido da frase do outdoor. Mas como o Mingau falou a primeira ação foi na manifestação pela diversidade sexual em 2007 onde soltamos um panfleto com algumas palavras de ordem bem fora do habitual: “Sexo anal, sexo anal para destruir o capital”, e dando um sentido pragmático à essa frase do Roberto Piva. E ali já foi uma intervenção importante pro grupo; porque foi quando o grupo pode se perceber na coletividade e pôde mostrar as caras; já nessa
intervenção, o Coletivo 12 macacos gerou um impacto grande. A gente abriu uma faixa lá “Gays contra a pátria” e isso gerou muita confusão por conta da ambigüidade da frase e uma certa antipatia por parte dos participantes… e a parada parou para olhar para nós. Uma das pessoas que estava no carro de som viu a faixa e puxou uma vaia, por não entender o sentido da frase; ai eu fui falar com a organização do evento e a imprensa já veio falar com a gente por conta do panfleto… ai pedimos para não sair o nome do coletivo no jornal, pois estávamos começando ali e não sabíamos os caminhos que o coletivo iria tomar. Foi muito engraçado, pois as pessoas não entenderam o sentido da frase, mas depois explicamos o que queríamos dizer e fizemos até amizade com o pessoal da organização.
(R) Isso chamou muito a atenção das pessoas, e elas começaram a chegar na gente para pegar o panfleto, perguntar coisas.
(M) Acho que ali a posição do grupo, pelo menos sempre tive essa impressão do grupo ser mais abrangente, desde causas populares, ambientais da libertação animal e até se inserir em certas atividades, manifestações que trazem uma certa imanência que essa sociedade se funde. O Grupo procura sempre se inserir mostrando seu diferencial.
AABC – Qual a relação de vocês com os outros grupos de Fortaleza?
(M) Como já disse no início da entrevista, nós já fomos participantes do Bloco Verde, que encerrou suas atividades por ter sido aparelhado, ser tomado por entidades políticas, por candidatos a vereadores, deputados e ficou muito neste discurso de conciliação e esse grupo acabou. Certas pessoas que eram do Coletivo Ruptura e que alguns remanescentes que formaram a ORL (Organização Resistência Libertária) já participaram de atividades conjuntas com o Coletivo 12 Macacos e até já foram do coletivo… no meu caso também participo do coletivo Crítica Radical – que é um coletivo que se baseia na teoria de Robert Kurz, filósofo alemão que mostra um Marx que nega o trabalho, o dinheiro, o valor e a mercadoria.
AABC – Existe alguma ideologia que norteia o coletivo?
(S) Eu diria que não há um pensamento homogêneo no coletivo, mas há neste sentido, idéias que sejam comuns; então, há muita inspiração anárquica; há uma vivência e uma prática vegetariana; um desejo forte que nos mobiliza pela libertação animal. Há também um comportamento de transgressão a esse olhar burguês, cristão e conformista… e a gente não se molda nessas coisas. É preciso anarquizar a própria vida; você não pode se denominar anarquista só por fazer parte de um coletivo que se diz anarquista… e que isto já te garante a “salvação”, porque se você não tem uma atitude que anarquize tuas relações, tentar quebrar as esferas de poder existente no seu cotidiano, dentro de sua família, no ambiente de trabalho, em suas relações amorosas, quebrar essa hierarquização, tornar essas relações mais horizontais, isso para mim é fundamental. O que eu vejo é que muitas pessoas se colocam como anarquistas e no fundo não quebram essas esferas de poder a nível micro.
(M) Acho que o que interessa mais é o propósito, que é a superação desta sociedade baseada no trabalho, no dinheiro e na mercadoria. E eu não gosto de negar muitas contribuições de certos pensadores e ativistas que nem se consideraram anarquistas em sua vida. A realidade hoje se configura em algo bem mais complexo do que certas compreensões que havia no século passado; é claro que Bakunin e Marx se basearam em valores que se perpetuam até hoje, mas atualmente eles se mostram de forma mais complexa e diferentes e que hoje estão em crise. A gente vive numa sociedade em que as suas categorias estão em crise e isso aparece na crise econômica e numa linguagem mais nietzscheana os valores da sociedade estão em crise, então há uma necessidade de uma tábula rasa, um termo filosófico, de romper com esses ismos e essas categorias de perceber em certos pensadores libertários, essas atividades libertárias uma imanência dentro dessas propostas, esses padrões que fundamentam essa sociedade.
(S)Nós não bebemos apenas nas fontes dos intelectuais já consagrados, mas a gente vai muito na literatura, a música ajuda a gente não só a compreender o mundo, nossa influência vem muito da arte no geral. No manifesto dizemos que “não somos um movimento, mas corpos em movimento.” Tem essa coisa do corpo, até porque o macaco se move, então a gente se move. Assim, buscamos não só nas manifestações acadêmicas mas também nas manifestações artísticas expressar nossa potencialidade enquanto grupo que se propõe a ser transgressor.
AABC – Efetivamente o que vocês fazem para fugir do mundo do capital, do trabalho etc?
(S)Temos um desejo,mas que as vezes se camufla as vezes se aflora de ter um espaço… já procuramos alguns lugares, já procuramos nos aproximar de alguns grupos da periferia que fazem algumas ações pontuais para gente aprender algumas coisas e trazer isso para uma casa… abrir um espaço para trocar essas aprendizagens. Eu me lembro que no preparativo para o Fórum Social Nordestino tivemos contato com uma série de grupos daqui e com várias atividades que poderíamos fazer juntos e tentar repassar isso de alguma forma. Mas isso às vezes tem a ver com os momentos de crise do grupo, das indefinições das pessoas se sentirem preparadas para estarem em um ambiente assim. Particularmente eu tenho uma vontade muito grande de uma coisa como essa de ter um espaço… propondo intervenções concretas, mudanças efetivas dentro da vida individual de cada um e dentro dessa coletividade, por isso estou buscando cursos de permacultura, bioconstrução, aprender a fazer coisas e poder passar isso para frente para outras pessoas… trocas de experiências, buscando formas alternativas ao consumo, anti-consumo.
(R) Não é bem oficializado esse tipo de troca, convivência, isso ocorre mais no nosso cotidiano mesmo. Poderia ser maior, mas essas trocas que ocorrem já surtem algum efeito e são importantes.
AABC – Quais as últimas ações que fizeram,planejam alguma ação?
(T) Fizemos uma ação no Centro Cultural Dragão do Mar onde uma “artista ” expunha numa arquitetura moderna galinhas com plumas coloridas coladas na pele com silicone e ficavam expostas lá dia e noite… o propósito da exposição era causar estranhamento nas pessoas; nós fizemos uma ação pedindo a libertação das galinhas e criticando essa “obra de arte moderna”, questionando o intuito dessa arte.
AABC – Agradecemos a entrevista e falem o que quiser,rs! – UHUHUH AHAHAH
– UHUHUH AHAHAH