C. İdareye İlişkin Bilgiler
II. GAYE VE HEDEFLER
ou litocerâmicos que estão, na maioria das vezes, associados às aldeias de “casas subterrâneas” do planalto (Beber 2004, Copé 2006a; Corteletti 2008; Kern et. al. 1989; Miller 1971; Mentz-Ribeiro & Ribeiro 1985; Parellada 2005; Reis 1997; Rogge 2005; Rogge & Schmitz 2009). Admitindo que este tipo de sítio esteja relacionado às atividades de produção de alimento, então podemos sugerir que há uma série de evidências que nos levam a crer numa baixa mobilidade dos grupos Jê Meridionais.
A simplificação do modelo econômico é reflexo daquele momento das pesquisas arqueológicas (o início dos anos 1990 foi o momento de síntese inicial e retomada das pesquisas) e da observação da estrutura econômica Kaingang a partir da etnografia do século XIX. Porém, o século XIX é uma época em que este grupo vivia sobre uma pressão demográfica e um contínuo processo de “confinamento” territorial, resultado direto da expansão colonial. Nesse sentido, diversos autores concordam que a pressão direta e indireta sofrida pelas populações nativas foi suficiente para desmantelar os sistemas econômicos originais, forçando grupos que já estavam em uma fase agrícola a voltar ao sistema de caça e coleta, com mobilidade maior e uso esporádico da agricultura (Balée 1995; Noelli 1999b, 2004). Barghini (2004:111) acrescenta que os grupos pré-coloniais das terras baixas da América do Sul tinham em comum o fato de não terem apenas um alimento essencial, mas sim, uma dieta variada. Era a variedade que assegurava o equilíbrio alimentar e não o equilíbrio protéico proveniente de um único alimento, tanto que a carência alimentar ocorria quando a variedade de alimentos diminuia. Seguindo nessa linha, o depoimento de Fermino Bento de Oliveira e sua esposa Cenilda Ventura, agricultores Kaingang e fundadores da In Ti Fӯ Sῖ (casa das sementes antigas), na reserva indígena da Guarita, RS, reforça a ideia da ocorrência de cultivos de primavera e verão e a prática da policultura:
A época de plantio [do milho] começa em agosto, evitando os meses de novembro e dezembro, que são mais secos e quentes. As mudanças da lua também são consideradas, sendo que, pela experiência prática, o semeio na fase de lua crescente é o que apresenta melhor resultado. Outra característica da tradição indígena é a aplicação da consorciação entre o milho, a moranga, a abóbora e/ou o feijão. Existe ainda o aspecto de não plantar tudo de uma vez só e sim escalonar em diferentes épocas. Dessa forma, se uma lavoura for afetada por excesso ou falta de chuva, a família tem a possibilidade de colher das lavouras plantadas em outras datas (Ballivián, Ventura & Bento de
155 Oliveira 2007:8).
A existência de uma raça de milho Kaingang no sul do Brasil (Brieger et. al. 1958) e a existência de um mito Kaingang que explica a origem do milho, do feijão e da abóbora (Borba 1908), somado também à existência de uma raça de milho Xavante (Teixeira 2008) são indícios que, cada vez mais, nos levam a acreditar que a importância da produção de alimento na economia dos Jê, e em especial dos Jê Meridionais, era maior do que se supunha. A etnografia cita esta planta como fonte de alimento e como bebida (Veiga 2006, como síntese), a arqueologia a encontrou em cenários rituais, junto a sepultamentos (Miller 1971), e em resíduos microbotânicos em potes para ritual (Iriarte et. al. 2008), e agora em Urubici, também em um cenário doméstico, em potes para cozimento de alimentos e em copos para consumo de bebida. Se levarmos em conta estas informações todas, mais o melhoramento genético que a raça de milho Kaingang sofreu (Brieger et. al. 1958), não temos como duvidar da importância que a produção de alimentos, e em especial o milho, tinha para essas populações.
Corroborando essa linha de pensamento, resultados empíricos obtidos em pesquisas paleoetnobotânicas recentes inferem que as populações precolombianas cultivavam uma grande diversidade de plantas e não eram dominadas por “monocultivos” como a mandioca ou o milho (por exemplo, Dickau et. al. 2007, 2011; Iriarte et. al. 2004; Goldstein 2010; Perry 2004, 2005; Piperno 2009, 2011; Piperno & Dillehay 2008; Piperno et. al. 2000). Em suma, a variedade de plantas encontradas nas amostras microbotânicas do sítio Bonin, sugerem que os proto-Jê, habitantes da borda leste do planalto catarinense durante o século XIV, praticavam uma policultura em roças, com cultivos de primavera e verão e respeitavam uma certa estabilidade territorial, já que a mandioca tem um período de preparação bastante longo ao mesmo tempo em que pode ser colhida a qualquer momento dentro da janela entre 10 e 20 meses após o plantio. Os cultivos associados à coleta de pinhão, frutas, raízes nativas (como o inhame – Dioscorea sp. – identificado nas análises de amido) e moluscos (como por exemplo, o fragmento de carapaça de Mycetopodidae encontrado na EC2), além da caça e da pesca seriam os componentes essenciais desse modelo econômico. A suposição de uma economia mista e uma maior fixação ao território73, obviamente não deve ser pensada de
73 Apesar de Barghini (2004:107) considerar o milho uma “planta com ciclo curto, (...) um produto mais adequado para populações que vivem em constante mobilização”, a ocorrência de mandioca nos dá subsídios para inferir que o sítio Bonin é um tipo de assentamento com período de ocupação de no mínimo um ano a cada temporada. Além disso, não descartamos totalmente a ocorrência de movimentos migratórios pelos diferentes ambientes que compõe o território da tradição Taquara-Itararé. Esses movimentos podem ter sido feitos por individuos ou pequenos grupos. Porém provavelmente são menos constantes do que vem sendo suposto. Como já inferimos: “A mobilidade do grupo inteiro pelos três ambientes é bastante improvável, em função das grandes distâncias a serem percorridas entre litoral e planalto, principalmente se imaginarmos os indivíduos mais novos e os mais idosos em locomoção, além da necessidade, e isso é relatado na etno-
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