Com o intuito de realização do trabalho de campo da pesquisa, a opção que se fez foi pela proposição de um projeto de intervenção denominado “FormAção e QualificAção11 Docente: tecendo saberes em movimento para o ensino da educação física”12, que apresenta uma proposta de programa, no formato de curso de extensão, de formação contextualizada, dialógica e relacional, para potencializar a qualificação de professores de EF da Rede Oficial de Ensino do Município de Fortaleza.
O intuito de apresentação do projeto se fez pertinente pela própria necessidade advinda da opção metodológica que se propôs neste estudo, que pelo seu caráter de intervenção, para sua efetiva inserção no campo necessitava da constituição de um grupo-aprendente- investigativo para desenvolver suas ações de implementação e coleta de dados.
O projeto de formação e qualificação docente teve como propósito fundamental a inserção na constituição, na vivência e participação dos(as) professores(as) de EF num programa de formação permanente que potencializasse o melhor desenvolvimento das ações pedagógicas e das práticas educativas no contexto escolar, de forma mais específica, nas aulas de EF.
A principal meta foi possibilitar que o programa de formação permanente pudesse atender às demandas e necessidades dos(as) professores(as), principais autores(as) que lidam com a realidade e o cotidiano da escola; que se desse de modo contextualizado e articulado às ações e práticas pedagógicas dos docentes; com caráter colaborativo, democrático e relacional; que fosse potencializador da ressignificação das práticas educativas a partir da dinâmica reflexiva, do compartilhamento de experiências e da socialização das práticas evidenciadas no decorrer da formação proposta.
Como podemos perceber, o programa de formação teve sua realização em colaboração e parceria com os(as) professores(as), numa Perspectiva Eco-Relacional, e não uma proposta que foi aplicada junto a este grupo com fins apenas de coletar dados e informações. Historicamente, sabemos que em geral, a oferta de programas de formação permanente é
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Os termos FormAção e QualificAção, aparecem grafados com o a letra ‘A’ em maiúsculo como forma de demarcarmos nossa opção por uma formação e qualificação que se faça mediante a ação colaborativa e cooperativa dos(as) envolvidos(as) e que potencializa a ação efetiva, via autonomia, criticidade, com vistas à superação de processos de opressão e subalternização porque passam os humanos em seu percurso de formação.
12 Ver projeto na íntegra, no apêndice B, tal como proposto e apresentado junto à Secretaria de Educação do
vivenciada de forma descontextualizada da realidade escolar, sem levar em conta os interesses e necessidades dos(as) professores(as) e de suas práticas, e proposta por ‘experts’ em assuntos educacionais que se apresentam com a intenção de ofertar solução para todos os problemas porque passam os(as) professores(as) em suas ações.
Este projeto visou, ainda, contemplar uma experiência inovadora e exitosa para a formação continuada de professores(as), com vistas à superar os modelos mecanicista, reprodutivista e de transmissão de conteúdos e técnicas descontextualizadas e que não levam em conta as necessidades impostas pelas práticas educativas dos(as) professores(as). Pensamos na proposição de um programa de formação permanente associado a uma perspectiva crítica, reflexiva e dialógica. Uma proposta que trouxe a afetividade e o aspecto relacional e colaborativo para o compartilhamento de experiências por parte dos seus principais autores(as), os professores(as) de EF.
No sentido de atender aos objetivos da pesquisa, propomos o programa de formação e qualificação pautado nos pressupostos da Perspectiva Eco-Relacional (FIGUEIREDO, 2003), uma proposta que fundamenta seus princípios para superar o velho paradigma da formação cartesiana, cognitivista, conteudista, colonializante e opressora. Esta proposta Inclui como fundamento da práxis formativa a lógica eco-relacional, contextualizada, descolonializante e experiencial (FIGUEIREDO, 2008).
A opção por fundamentar o programa tendo como referência a Perspectiva Eco- Relacional, foi contribuir com a apresentação de uma nova proposta que tem se consolidado e já apresenta resultados exitosos13. Seu desenvolvimento leva em conta o contexto e a
realidade brasileira e, de forma mais específica, o nordestino, ressaltando as características deste povo e de sua cultura predominantemente oral. Peculiaridade esta, em geral, da cultura rural brasileira.
Compreendeu-se ainda que a PER avança ao incluir nos processos formativos, as dimensões: ambiental, popular e descolonializante, intercultural, afetiva e relacional, de forma articulada e integrada, na qual há uma interdependência entre as mesmas para a edificação de um projeto formativo alinhavado pela teoria e prática de modo indissociável (FIGUEIREDO, 2008).
13 Para maiores detalhes acerca das pesquisas já desenvolvidas com a utilização da Perspectiva Eco-Relacional
nos processos formativos ver os estudos de Figueiredo (2007; 2008), Silva (2007, 2009); Figueiredo e Silva (2009).
Incluir a dimensão ambiental implica em potencializar a ambientalização no processo formativo. O contexto atual marcado pela crise ambiental necessita de uma proposta educativa-formativa que contribua na tentativa de superação da visão de exploração e dominação da natureza para a produção de riquezas, que tem caracterizado a ação humana sobre o planeta.
Os processos formativos são fortemente marcados pelos aspectos sociais, políticos, econômicos, culturais, permeados pela dinâmica das relações com as quais vamos tomando parte em nosso cotidiano. Assim, pensar na inclusão dos princípios que emanam da educação ambiental hoje é uma necessidade que se impõe como forma de alicerçamos uma formação que tenha em conta uma vivência, em todos os seus aspectos, comprometida política, ética e solidariamente com uma visão de mundo integral, na qual seja possível uma relação mais respeitosa com a natureza.
Desse modo, a dimensão popular e descolonializante é proposta para a superação da lógica bancária que ainda se faz presente na formação. Esta dimensão valoriza o saber popular, preocupando-se com a humanização, princípios também da pedagogia freirena. A formação imbuída da dimensão popular e descolonializante tem um compromisso político com uma práxis transformadora para enfrentar os dilemas da contemporaneidade.
A dimensão intercultural é a própria extensão da dimensão popular e descolonializante, pois na valorização dos saberes populares, que são plurais e diversos, é que se vê estabelecida a prática intercultural, no respeito à diversidade cultural, na valorização das diferentes idéias e saberes para a efetivação do conhecimento, que se estabelece e se amplia por meio do diálogo intercultural, no qual saber não implica em ter que dominar o que o outro estabelece como verdade, tal como ainda se vê nos processos formativos hegemônicos. Por isso, pensar a dimensão intercultural implica em aprender a conviver com a multiplicidade de idéias que colaboram para a ampliação do conhecimento que cada um possui.
A PER, na busca da superação dos padrões característicos da razão instrumental, que fragmentam os autores(as) sociais de diversas formas como a dicotomia entre a afetividade e a cognição, o humano e a natureza não humana, o social e o individual, entre outras, propõe a dimensão afetiva e relacional como pressuposto fundante do processo formativo.
A vivência da dimensão afetiva e relacional se estabelece por meio do diálogo, compreendido como “processo que se dá em uma relação horizontal, fundado em uma matriz crítica e geradora de criticidade, nutre-se de amor, humanidade, esperança, fé e disciplina”
(FIGUEIREDO, 2007, p. 41). Mas dialogar implica também no entrelaçamento de relações afetivas como elemento essencial ao ‘ser-mais’ e atrela-se à necessidade de reconhecimento da legitimidade do(a) outro(a) enquanto tal.
Nesta direção, nossa opção pela PER como referência fundamental desta proposta, se fez por acreditar que esta aponta possibilidades e contributos que possam ampliar o debate crítico e viabilizar a emergência de novos caminhos geradores de transformações efetivas nos processos de formação permanente e, por extensão, mudanças que viabilizem a resolução de problemas que permeiam o cotidiano de trabalho dos docentes.
É importante considerar que a renovação do ensino e das práticas pedagógicas num cenário no qual no encontramos, marcado pelo considerado avanço dos meios e usos da tecnologia, da sociedade do consumo e da valorização ao individualismo, competitivismo, requer repensar processos de formação e qualificação. A implementação de mudanças do atual quadro no qual se encontra a educação se dá pela via de uma renovação nos processos formativos do professorado.
Assim, diante das reflexões apresentadas e a partir da compreensão de se associar formação permanente a um processo contextualizado, reflexivo, de constituição e socialização de saberes, que garanta aos docentes revisitarem, ressignificarem e ampliarem suas práticas, de forma a contribuir com mudanças efetivas em suas ações pedagógicas, é que se propôs a realização do programa de ‘FormAção e QualificAção docente’, para a tessitura de saberes que promovam o real movimento do ensino da EF na escola.
O programa de formação e qualificação docente foi desenvolvido através de um curso, no formato de extensão, com carga horária total de 200 horas/aula, distribuídas em 10 módulos temáticos, que serão apresentados posteriormente. Os módulos aconteceram entre os meses de março a dezembro de 2010, com encontros presenciais em um final de semana por mês. Cada módulo teve uma carga horária de 20 horas/aula.
O programa de formação permanente foi realizado por meio de uma parceria entre o Instituto de Educação Física e Esportes – IEFES, da Universidade Federal do Ceará, por meio da aprovação de um projeto de extensão, com os(as) professores(as) de EF da Rede Oficial de Ensino do Município de Fortaleza, que aderiram ao programa por iniciativa própria.
Todas as atividades propostas pelo Programa, desde o acompanhamento e sistematização das mesmas, da realização dos módulos mensais, divulgação, inscrição e constituição do grupo-aprendente, estavam sob a responsabilidade da professora pesquisadora.
Faz-se pertinente informar que a pesquisadora contou, durante todo o trajeto da pesquisa, com a colaboração do grupo de pesquisa ampliado14, denominado de Inter-Ações. Este grupo se reunia mensalmente para discussão, elaboração e ampliação das propostas que eram desenvolvidas em cada módulo.
Este grupo ampliado de pesquisa foi composto por um professore recém-graduado pelo curso de educação física da UFC, duas professoras também graduadas pela UFC; uma estudante do oitavo semestre do curso de educação física da UFC; um estudante do curso de Licenciatura em Letras da Universidade Estadual do Ceará e uma professora com graduação em ciências biológicas.
A colaboração, o apoio e empenho do grupo de pesquisa foi fundamental para o melhor desenvolvimento e realização dos módulos. O planejamento das ações que foram realizadas passavam primeiro pela apreciação coletiva, onde eram efetivadas as mudanças consideradas pertinentes. Houve também, no decorrer do planejamento a divisão das tarefas para identificar as funções que caberia a cada um realizar quando dos dois dias de encontros mensais como grupo-aprendente.
Após a realização de cada módulo, o grupo ampliado de pesquisa se encontrava para avaliação do que havia sido vivenciado e para o compartilhamento de informações acerca do que se passou e das atividades vindouras. Importante expressar que foi muito importante a colaboração do grupo ampliado, pois os mesmos buscaram, ao longo de todo o programa de formação, contribuir com minha ação docente junto ao grupo, informando os devidos cuidados para com alguns participantes, a quem se deve um pouco mais de atenção; chamaram atenção para aspectos que ampliam minha própria reflexão acerca do trabalho realizado.