Sobre a questão das condições específicas da vítima, normalmente são levantados dois subcritérios, quais sejam: a pessoa em si e sua condição econômica. Ilustrando o dito,
Maria Helena Diniz afirma que se deve “analisar a pessoa do lesado, considerando os efeitos
psicológicos causados pelo dano, a intensidade de seu sofrimento, seus princípios religiosos,
sua posição social ou política sua condição profissional e seu grau de educação e cultura” 271
. Sobre tais quesitos, algumas ponderações são necessárias.
Primeiramente, a análise do sujeito em sua intimidade se mostra condizente com a necessidade de perquirir o grau da lesão, que, dada sua própria natureza, tem a ver, embora por tal fator não se determine, com o impacto sofrido pela vítima, dessa forma algumas condições pessoais do sujeito lesado são, de fato, relevantes para a liquidação do dano moral, desde que sejam capazes de realmente expressar a intensidade com a qual direitos da personalidade foram ofendidos.
269 Nesse sentido: “AGRAVO REGIMENTAL. EXTRAVIO DE MERCADORIA. INDENIZAÇÃO.
CONVENÇÃO DE VARSÓVIA. APLICAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. AGRAVO REGIMENTAL A QUE SE NEGA PROVIMENTO. 2. Muito embora haja sido reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal a repercussão geral sobre o tema em debate (AI 762.184/RJ, relator Ministro Cezar Peluso), o fato é que o entendimento abraçado pela Corte Constitucional não destoa daquele adotado pelo Superior Tribunal de Justiça, no sentido de não se aplicar a indenização tarifada prevista na Convenção de Varsóvia, seja por óbice constitucional, seja por prevalência do Código de Defesa do Consumidor. 2. Ante o exposto, nego
provimento ao agravo regimental.” (BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. AgRg OfPet no AREsp 149.734/SP, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, QUARTA TURMA, julgado em 04/09/2012, DJe 10/09/2012).
270
“A indenização por dano moral não está sujeita à tarifação prevista na Lei de Imprensa.” (BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Súmula 281, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 28/04/2004, DJ 13/05/2004 p. 200). 271 DINIZ, Maria Helena. Op. cit, p. 102.
Ilustrando o pensamento em voga, pode-se imaginar que, para um pianista, o dano moral sofrido em decorrência de uma lesão permanente provocada em suas mãos representa um impacto claramente maior do que em uma pessoa que não faz de sua habilidade motora uma utilidade correlata. Enfatizando tal raciocínio, são notáveis as palavras de Maria Celina Bodin de Moraes:
[...] as condições pessoais da vítima, desde que se revelem aspectos de seu patrimônio moral, deverão ser cuidadosamente sopesadas, para que a reparação possa alcançar, sob a égide do princípio da isonomia substancial, a singularidade de quem sofreu o dano. P. Perlingieri chega a sustentar que será especial o dano na perna de quem mora em um dos últimos andares de um edifício sem elevador [...]. (grifo da autora)272
Desse modo, é imprescindível perceber a diferença entre patrimônio moral e econômico, não sendo, portanto, admissível que o quantum indenizatório seja lavrado mediante o critério da riqueza da vítima, pois isso implicaria em preocupante valoração da dignidade humana sob uma ótica pecuniária, que nada representa o bem em tutela.
Talvez pela dificuldade prática em se averiguar as condições pessoais da vítima, é comum que a atenção se volte para as condições econômicas do ofendido273, todavia importa perceber que o fator econômico em nada interfere na intensidade da ofensa extrapatrimonial sofrida, em realidade, eventual comparação entre a potência econômica da vítima e o dano moral só possui justificativa caso se considere em voga o pensamento segundo o qual a indenização funciona como forma de proporcionar prazeres ao sujeito lesado em compensação pelo sofrimento, assim, segundo tal vertente, uma pessoa de menos recursos financeiros precisaria de menor quantia indenizatória para que fosse despertada felicidade compensatória suficiente, e, analogamente, uma pessoa de maior riqueza econômica precisaria de uma quantia maior para tanto274. Assim defende Carlos Roberto Gonçalves:
É evidente que o sofrimento moral dos afortunados não é mais profundo do que o das demais pessoas. Porém, o critério de se atentar para a situação econômica do lesado, no arbitramento dos danos morais, pode ser utilizado porque, como já ressaltado, a reparação não deve buscar uma equivalência com a dor, mas ser suficiente para trazer um consolo ao beneficiário, uma compensação pelo mal que lhe causaram. [...] Enfim, os bens da vida capazes de consolar ou compensar a dor do lesado de modesta condição social e econômica são, também, de menor valor.275
272
MORAES, Maria Celina Bodin de. Op. cit, p. 307. 273
Sensível a tal problemática, Maria Celina Bodin de Moraes assevera: “[...] se se tem como noção de dano moral o sofrimento humano e se tal fundamento não pode ser mensurado, acaba-se por dar relevo às condições econômicas da vítima, consideração esta que tem o efeito de atribuir menos a quem tem menos, e
mais a quem tem mais.” (Ibidem, p. 298).
274 Ver item 3.3.2
Ocorre que, embora se reconheça que, na prática, a recepção de uma indenização por danos morais oferta à vítima uma benesse, não se mostra congruente a ideia de que tal benesse visa à restituição do contexto anímico anterior ao dano, como se a dignidade humana fosse o resultado de uma operação aritmética de sentimentos.
O valor em tutela pela indenização por danos morais é a dignidade, que, por essência, é desprovida de preço, já que não passível de ser visualizada como meio, em decorrência de sua autonomia finalística276.
Em concordância com o posicionamento ora defendido, são claras as palavras de Maria Celina Bodin de Moraes:
Se foi sua dignidade lesionada, tornar-se-ão mais objetivamente apreciáveis os fatores individuais a serem levados em consideração pelo juízo de reparação. Sob esta ótica, ficam desde logo excluídos quaisquer critérios que tenham como parâmetro as condições econômicas ou nível social da vítima, não se coadunando com a noção de dignidade, extrapatrimonial na sua essência, quaisquer fatores patrimoniais para o juízo de reparação.277
Na mesma linha de posicionamento, Pedro Ricardo e Serpa sustenta que o critério do porte econômico da vítima representa grave violação ao princípio da isonomia, haja vista que trata a dignidade de pessoas mais abastadas com maior importância do que a de pessoas economicamente menos favorecidas278. Em mesmo sentido, Salomão Resedá conclui:
[...] este pensamento [critério econômico da vítima] apresenta-se incompatível com a tábua axiológica inaugurada com a Constituição Federal de 1988, que valoriza a simples condição de ser humano. Não só a Carta Magna, mas também o Novo Código Civil, sob o manto do princípio da dignidade da pessoa humana, refutam
teorias que valorizem o homem “ter” em razão do homem “ser”. Atualmente, o
ordenamento jurídico pátrio busca observar a pessoa com as lentes existencialista e não patrimonialista.279
Em remate, percebe-se que o critério das condições específicas da vítima possui conotação ressarcitória e, portanto, é condizente com a sistemática civil vigente, contudo, faz- se a ressalva de que o porte econômico da vítima não deve ser aplicado, pois se afasta qualitativamente do valor que se pretende tutelar, cuja relação se mostra, em verdade, presente em face das condições íntimas do sujeito lesado, tido em suas características pessoais, e não patrimoniais.