Dando prosseguimento ao estudo, entregamos a cada partícipe o conceito espontâneo elaborado por elas no início do estudo e os convidamos a reformularem de acordo com os atributos essenciais e necessários ao conceito de consciência. As partícipes apresentaram os seguintes conceitos de consciência:
Le – É o processo mental adquirido ao longo do tempo nas relações sociais no qual o sujeito se percebe em relação ao outro e aos que giram em seu entorno.
A partícipe atingiu o grau de caracterização, utilizando o procedimento lógico da enumeração, a partir da abstração de alguns atributos ou propriedades essenciais que distinguem a consciência de outros fenômenos psíquicos. As abstrações desprendem-se dos elementos perceptivos, porém seu volume apresenta um grau de generalidade restrito às singularidades, ao se referir ao outro e ao entorno. Desse modo, o significado elaborado não exprime a relação generalidade/particular uma vez que os atributos que exprimem essas dimensões não foram contemplados.
A partícipe a seguir reelaborou o seguinte conceito:
O conceito reformulado pela partícipe atingiu o grau de definição, pois, em termos da lógica da comensurabilidade, que exprime a igualdade de volume entre o conceito definidor e o conceito definido. Isto se dá, no caso, quando a partícipe relaciona consciência como um aspecto do psiquismo que permite a interação com seu entorno, indicando o questionamento do que ocorre ao seu redor. Na definição o significado do conceito pode se efetivar considerando qualquer um dos seus atributos, seja geral, particular ou singular.
E prossegue a reelaboração a seguir:
Lu - é o estado psíquico cuja atividade assegura ao ser humano o conhecimento de si, do outro e do seu entorno visando mudanças e transformações pessoais, políticas e socioculturais.
A referida partícipe por ser a proponente da pesquisa em termos teóricos que atingiu o grau de conceituação, por ter tido a oportunidade de realizar estudos mais aprofundados no que se refere a teorias que versam sobre a consciência. Desse modo, seu enunciado contempla os elementos que constituem a elaboração conceitual. Nesse estágio, os atributos elencados expressam o geral, particular e singular indicando as relações que se estabelecem quando um significado atinge a categoria de conceito.
Ed – é o processo psicológico de questionar sobre o que ocorre ao seu redor e a sua relação com a sociedade.
Para sintetizar o resultado final, vejamos o quadro a seguir.
Quadro 14 - Significações finais do conceito de Consciência Partícipes Significações finais do conceito
de Consciência Categorias
Le
É o processo mental adquirido ao longo do tempo nas relações sociais no qual o sujeito se percebe em relação ao outro e aos que giram em seu entorno.
Caracterização, pois, ela se utiliza dos procedimentos lógicos da enumeração, a partir da abstração de alguns atributos como, por exemplo: “programa e foco” ou propriedades essenciais que distinguem os fenômenos;
Ed
É o processo psicológico de questionar sobre o que ocorre ao seu redor e a sua relação com a sociedade.
Definição - É um procedimento lógico através do qual se revela o conteúdo do conceito ou se estabelece o significado do termo. Consiste em abstrair os atributos ou propriedades essenciais e necessárias para distinguir um fenômeno dos demais, sem esgotar todas as suas propriedades, aspectos e relações.
Lu
É o estado psíquico cuja atividade assegura ao ser humano o conhecimento de si, do outro e do seu entorno visando mudanças e transformações pessoais, políticas e socioculturais.
Conceituação, pois compreende o universal, essencial e necessário nos fenômenos, contendo, ao mesmo tempo, a singularidade.
Fonte: Cunha (2013).
Conceituar é uma atividade do cérebro que promove a mobilização de todas as funções mentais superiores (análise, síntese, abstração, generalização, compreensão, consciência e vontade). A elaboração conceitual consiste em separar mentalmente os atributos ou as propriedades essenciais daqueles não essenciais à conceituação dos fenômenos.
Como podemos constatar, elaborar conceitos exige um processo volitivo e consciente direcionado para esse fim. Isso exige o domínio dos componentes desse processo. No entanto, quando não se efetiva a contento não alcançamos os resultados almejados, pois a internalização dos conhecimentos difere de indivíduo para indivíduo.
Como afirma Vygotsky (2009), assim se torna compreensível que, apesar de todas nós apresentarmos avanços na elaboração dos significados conceituais de consciência, nem todas atingiram o estágio de conceituação. No entanto, apreendemos quais os procedimentos
lógicos ativados neste processo e sua inter-relação com o desenvolvimento da atenção concentrada.
Vale ressaltar que chegar à conceituação “[...] implica não só em conhecer os atributos e as propriedades dos fenômenos que o mesmo abrange, mas também saber empregá-lo na prática; saber operar com eles” (FERREIRA, 2009, p. 74). É um processo bastante complexo que envolve a dimensão histórica do ser humano. Sua vida psíquica é associada a sua atividade prática, as suas necessidades, aos seus interesses, as suas atitudes em relação a si próprio, aos seus semelhantes, e ao seu entorno, suas vivências, sua afetividade e seus desafetos, portanto a prática pedagógica de cada professor está imbuída de sua subjetividade.
Vale ressaltar que chegar à conceituação “[...] implica não só em conhecer os atributos e as propriedades dos fenômenos que o mesmo abrange, mas também saber empregá-lo na prática; saber operar com eles” (FERREIRA, 2009, p. 74).
4 PELAS VEREDAS DA PRÁTICA
No contexto deste estudo, entendemos que a prática pedagógica supõe envolvimento na pesquisa para atender às necessidades do contexto escolar, nas ações que integram a teoria e a prática, propiciando à atividade educativa benefícios ao desenvolvimento da profissionalidade.
Entendemos que o educador é responsável pela mediação e evolução do processo reflexivo dos educandos e seu trabalho visa a discutir os acontecimentos da sociedade nas perspectivas sociais, culturais e filosóficas.
Segundo Libâneo (2013, p.14):
O trabalho docente é parte integrante do processo educativo mais global pelo qual os membros da sociedade são preparados para a participação na vida social. A educação – ou seja, a prática educativa – é um fenômeno social e universal, sendo uma atividade humana necessária à existência e funcionamento de todas as sociedades.
Desse modo, a mediação da aprendizagem contribui para o desenvolvimento da reflexão e da crítica na prática docente sendo necessário que o professor questione, analise e reflita sobre sua prática de forma crítica e compreenda a necessidade de entender os saberes do educando para avançar e os desenvolver.
A função do professor é orientar o educando no sentido de perceber o mundo, a sociedade, entender e proteger os seus direitos, a sua identidade e a construir a sua cidadania. Assim, é função do ensino o desenvolvimento da capacidade de pensar e a aquisição de instrumentos necessários a esta ação.
Segundo Freire (1996, p. 15) "formar é muito mais do que puramente treinar o educando no desempenho de destrezas" a prática pedagógica do professor está relacionada à autonomia de ser e de saber do educando. É preciso respeitar o conhecimento que o aluno traz para a escola, visto que ele se constitui na base para ampliação e aquisição de novos conhecimentos e para o desenvolvimento das funções e processos psíquicos, inclusive, da consciência.
O referido autor considera fundamental para a prática docente, instigar o educando a aprender a criticar, a refletir e acrescentar a seu trabalho outros pontos importantes. Assim sendo, "quem forma se forma e re-forma ao formar, e quem é formado forma-se e forma ao ser formado" (FREIRE, 1996, p.25). Fica claro que o ensino não depende exclusivamente do professor, assim como aprendizagem não é algo apenas de aluno. Não há ensino sem
aprendizagem e não há aprendizagem sem ensino, os dois se conectam formando uma unidade. Seus sujeitos, apesar das diferenças que os conotam, não se reduzem à condição de objeto um do outro. “Quem ensina aprende ao ensinar, e quem aprende ensina ao aprender". (FREIRE, 1996, p. 25).
É preciso que o professor entenda que para ensinar os alunos a aprender e continuarem aprendendo é necessário que esses alunos tomem consciência do que sabem e do que precisam saber. Para tanto, é necessário que o professor não só acredite que os alunos têm conhecimentos e condições necessárias para aprender, como também deixe isso transparente em suas atitudes.
A interação professor-aluno causa uma efervescência de ideias e formas de aquisição dos outros conhecimentos inerentes a cada um do grupo. Para tanto, o educador deve considerar e valorizar as competências individuais, pois a troca entre os saberes dos alunos promoverá uma aprendizagem muito maior. A heterogeneidade da sala deve ser amplamente valorizada, já que a turma não tem uma só identidade, mas é o resultado do conjunto das características de cada indivíduo. Ao formar grupos, é imprescindível saberes diversos. Considerando muito mais do que afinidades e reunindo aqueles com conhecimentos diferentes e próximos, que têm a aprender e ensinar. Todos precisam atuar juntos para trocar as informações – aproveitar o que é diferente de cada um.
Ao criar um ambiente de aceitação, possibilitamos o surgimento de relações de confiança e respeito às diferenças entre eu e o outro. O professor precisa refletir sobre sua atuação para melhorar a autoavaliação, que é fundamental para ajudar a perceber fragilidades e possibilidades de superação. Todos os dias, ocorrem situações que permitem repensar o trabalho em sala de aula como a falta de motivação, interesse, atenção, concentração, compreensão, entre outros que impedem que o conhecimento seja elaborado e internalizado. Por outro lado, existem mecanismos naturais de seleção: nem tudo interessa a todos, da mesma maneira, motivo pelo qual cada um seleciona e prioriza a informação que recebe. Diante disso é imprescindível adequar os meios aos fins.
Destacamos a importância do papel do professor, um profissional atento ao seu grupo, as suas aprendizagens e suas dificuldades que se preocupa em buscar soluções, em se capacitar para intervir da melhor maneira possível, estimulando a autonomia do aluno, para que tenha capacidade de utilizar os conhecimentos escolares visando a apropriar-se de informações e procedimentos, bem como desenvolver o discernimento e a escolha da melhor maneira de executar novas tarefas e resolver seus problemas.
Desse modo, a formação continuada é de grande relevância para a prática docente, à medida que desenvolve a estrutura cognoscitiva, que vive a participação social e política e vai incorporando os conhecimentos adquiridos durante essas vivências e mobilizando-os na realização do seu trabalho. Nesse processo de construção integral do indivíduo, a sua prática pedagógica se processa de forma contínua.
Neste sentido, debruçamos o nosso olhar sobre a ação colaborativa que nos fornecerá dados para ampliar nossa ação docente sem fugir da realidade, devendo despertar uma nova cultura profissional entre os professores bem como uma ação política mais efetiva, na tentativa de reconstruir nossa ação docente.