PAULO
Paulo é um Jovem senhor de 40 anos, divorciado, pai de dois filhos, evangélico, simpático, bem humorado e de boa aparência. Apaixonado pela arte, Paulo faz pinturas belas, e encanta todos que conhecem suas obras. Sua entrevista foi considerada o ponto zero de nossa rede, por ser exemplo de fé, superação através do seu trabalho e Resiliência. A entrevista foi realizada na residência do colaborador, com a presença de sua mãe e irmã.
Tom Vital: “Eu vejo a minha arte como uma terapia”
A irmã de Paulo, que estava presente no momento da entrevista, falou que antes da doença ele quase virava sacerdote, dos beneditinos. Ele era muito inteligente, mas não era lá que Jesus o queria[...] Ele foi mudando o comportamento e teve a primeira crise que coincidiu com sua conversão. Ele adorava astronomia, adorava ler e tinha uma visão cr ítica de tudo.Era muito inteligente, mas quando se converteu ficou assim: - Só lia, só conversava e só falava coisas da igreja. Quando ele voltou da internação, o fanatismo religioso virou rejeição e ele atribuiu ao seu fanatismo o desencadeamento do surto, e ele voltou para igreja católica .
Depois de um tempo, foi para o espiritismo e minha mãe perguntava: - Como acontece uma coisa dessas com meu filho tão inteligente? - Pode ser uma coisa sobrenatural, pode ser um trabalho feito, vamos procurar a razão! Buscamos em tudo quanto é religião [...] , até nos convencermos que realmente era uma doença e procurarmos ajuda nos locais especializados.
Paulo tomou a fala e começou a contar que desde 1999 [...] que eu estou com esse meu trabalho de artes, fazendo com que as pessoas reconheçam, valorizem, porque geralmente eles só reconhecem artistas de fora e não reconhecem os daqui da Paraíba. Eu me esforço em mostrar meu trabalho para as pessoas que gostam de arte, que apreciam arte e que querem conhecer meu trabalho.
A descoberta de meu interesse pela arte foi quando estive internado no hospital psiquiátrico, eu estava em uma TO [Terapia Ocupacional] quando eu comecei a fazer um trabalho de pintura e ali as pessoas ficaram surpresas.A minha terapeuta que estava comigo na época gostou, se surpreendeu e disse:- Paulo quando você sair daqui não desista, vá em frente, faça um curso, se aperfeiçoe porque você tem talento para fazer! Quando eu saí do hospital eu fiz meu curso de pintura no DART e este curso durou três anos.Estudei com um professor de artes e fui também para o Centro Profissionalizante da Jovem.Eu fiz outro curso para me aperfeiçoar. Isso tudo antes de entrar no CAPS.
Em 2008, eu vim para o CAPS. Eu fui tratar meu transtorno, estava precisando de acompanhamento médico, [...] psicológico, individual, e em grupo, pois estava precisando me adaptar com um grupo e me adaptei tanto, que as pessoas gostaram de meu trabalho lá de pintura, a gente fez tipo um ateliê da oficina de artes. Eu cheguei ao CAPS como uma criança que não tem muito afeto, a quem falta carinho, então eu fui acolhido. As pessoas me trataram muito bem e eles disseram: - Paulo está aqui um novo lar! Ali eu fui despertando interesses, fui descobrindo que tinham pessoas com o mesmo problema que eu e que, como os outros faziam vários tipos de atividade como artesanato, e
outros trabalhos, e eu disse: -Ah! Eu posso me engajar nesse grupo. E eu gostei do grupo e até hoje estou nele [...] .
No CAPS, eu me sentia muito feliz e emocionado porque eu descobria que, numa pintura, muitas pessoas não sabiam como fazer nuvens, que é a coisa mais simples de se fazer, que é pegar o dedo e passar na tinta e passar na tela e ali as pessoas pensavam que era um pincel que fazia, e eu dizia, não! Não é o pincel.
Outra curiosidade foi quando uma vez fui fazer uma restaura ção que até hoje meu professor lá do Centro de Convivência gostou e ficou impressionado, porque a tela caiu por cima da vassoura, o que a perfurou, e eu a restaurei fio por fio. Passei algumas coisas, como gesso, e ninguém notou que aquela era uma tela restaurada. [...] . Ela foi vendida, a pessoa gostou, ficou felicíssima, e não viu nada de errado na obra, achou tudo perfeito. E quem me ensinou isso foi a minha curiosidade, meu trabalho e a minha criatividade e eu fiz uma restauração! E para se fazer uma restauração é preciso fazer um curso fora [...] .
Quanto ao CAPS, tem sido muito importante a inclusão dos pacientes, agora eu estou aprendendo, e despertando em mim o interesse de me melhorar, no sentido de expor meus trabalhos. Fiz exposições tanto no Centro de Convivência, quanto no Museu de Artes Assis Cheteubriand, no Projeto Cultural Itinerante. Lá eu me senti tão bem, porque tinham pessoas amigas, pessoas que me apoiam até hoje e ali eu percebi que estava saindo do anonimato, porque se eu não divulgo, se eu não mostro, as pessoas não conhecem o meu trabalho.
Sempre que algumas pessoas valorizam e adquirem meu trabalho é bom para mim porque eu vou comprando material, fazendo mais trabalhos, produzindo mais, então os recursos têm sido para isso, para eu continuar. No momento, as pessoas adquirem as telas, nas exposições, agora mesmo estão expostas lá na Vila do Artesão. Eu não costumo frequentar a vila, mas tem pessoas lá que têm apoiado meu trabalho e estão divulgando. Eu tenho amigos lá e aqui também e quando eles apreciam uma arte mesmo sem adquirir para mim já é um apoio.Alguns dizem que assim quando eu puder eu vou lá e vou comprar um quadro.
A principal dificuldade que enfrentei para retomar minha vida[...] foi financeira. Na época que comecei a estudar arte, era difícil comprar uma tela, comprar material para fazer o curso e eu não tinha apoio. Teve época em que eu colocava em exposição e não vendia nenhuma tela, tinha aquele prejuízo, porque eu gastava com frete, e no fim não tinha o lucro. Então, teve o momento que surgiu meu pai, que já faleceu [Paulo se emociona ao falar do pai] . Ele me ajudou bastante, para que eu pudesse expor meus trabalhos nos shoppings, em Bancos como a Caixa Econômica, na Justiça Federal, em hotéis, além de outros locais da cidade. Agora está dando mais certo, eu coloquei uns trabalhos no centro de convenções e foram bem apreciados, o público gostou.
A irmã de Paulo complementou dizendo que no começo ele visava muito essa questão do vender, acho que era pela questão da dignidade mesmo, em dizer que produziu alguma coisa, porque Paulo antes de adoecer estudou no SENAI, foi um dos melhores alunos do curso de mecânica e até eu me emociono falando [irmã chora, ao falar de Paulo] . Ele estagiou em uma empresa de refinaria de óleos minerais e foi contratado. Ele gostava muito de trabalhar entende? E ele era muito dedicado. Então, quando ele se aposentou devido à doença, a autoestima dele caiu, ele deixou de ser uma pessoa produtiva, e quando ele começou a pintar, essa coisa do vender , era uma questão de dignidade para ele, é isso ele tinha o prazer, de chegar em casa e dizer: - Mãe eu ganhei isso! [irmã chora novamente, ao falar de Paulo] .
Ele tem dois filhos que vivem com a gente, que precisam comer, e nada funciona sem dinheiro. Mas hoje ele já não tem mais esse foco no vender, do dinheiro, isso foi muito no começo. Hoje em dia, ele se satisfaz até com um elogio, quando alguém chega e elogia, a gente sente que ele enche a alma de felicidade.
Ao retomar a fala, Paulo disse: - Em relação à minha família, problemas todos tem,mas a gente tem que superá-los, e não tem limites para isso, e a confiança em Deus é acima de tudo. Eu coloco assim as minhas coisas nas mãos Dele, pois alguns dizem é um Dom, outros dizem não, é talento então eu tento dividir essas duas coisas, tento fazer de um tudo para que meu trabalho seja reconhecido.A pessoa que mais me apoiou na minha família,foi meu pai, in memorian, ele foi um incentivo para mim, ele me ajudou bastante, minha mãe sempre me apoiou, me apoia e me ajuda, minha irmã, minha família em si sempre me apoiam.
Eu, conversando com meus professores, eles me disseram o seguinte: - Paulo a vida de artista não é fácil, porque ninguém chega para te orientar sobre o que é necessário para você expor seus trabalhos, não chegam para te dizer que o é necessário! Quando eu botava uma exposição, não tinha quem me orientasse onde colocar os painéis, eu tinha que lutar atrás, às vezes eram os donos de loja que me forneciam os materiais, me emprestavam às vezes os cavaletes das lojas de molduras, mas tudo era com dificuldade, surgia a ideia mas eu que tinha que batalhar, e ninguém me orientava.
A fundação de cultura também me apoiou bastante. Naquela época em que eu estava expondo ganhei até alguns certificados e lá tive muitas orientações, me ajudaram com transportes, para eu levar as telas, J. e M. A., da Fundação de Cultura, que era na Getúlio Vargas.
No CAPS, o que tive de apoio, foi uma coisa muito boa, porque eu pude crer que lá tinham pessoas verdadeiras, que confiavam no meu trabalho, eu colocava nas mãos de Evandro a responsabilidade de levar, vender e trazer os trabalhos que não vendessem. Foi ele que pediu meu apoio. Eu gostei de ter participado de uma oficina de artes, sobre as cores primárias, secundárias e terciárias.Gostei, também, de ter orientado e, quanto às pessoas vi que elas gostaram de me ver participando e ali elas viram a possibilidade de fazer um tratamento e se recuperarem melhor. Porque eles estão em um ambiente de recuperação, e eles estavam ali se recuperando, através da arte como uma terapia [...] .
Eu vejo a minha arte como uma terapia, faço porque eu tenho prazer, me dá vontade de fazer o trabalho e essa alegria que eu tenho quando faço uma pintura encanta muito as pessoas. As pessoas perguntam: - Você não pinta rosto? Digo que não, que esse tipo de pintura não é minha especialidade, que pinto mais paisagem, marinha, frutas, flores, animais, etc. Até uma psicóloga que era minha terapeuta e me ajudou bastante. Ela disse a mim que a pintura e as cores mexem com a mente, porque quando você mexe com as tintas e cores, aquilo ali ajuda a mente e a recuperação do paciente.
Eu gostaria de falar ainda do de uma paciente lá do CAPS, ela disse a mim: - “Paulo pinta um beija-flor”, [...] Então eu perguntei porque um beija flor.Ela,então, me falou: -Porque é tão bonito eu cheguei e disse: - está certo e eu fiz o beija-flor pra a paciente, cheguei para ela e disse: olha já fiz o beija-flor [risos] , e ela ficou muito feliz.
Eu gostava também de uma oficina de artesanato de uma Terapeuta Ocupacional. Seu A. era um senhor, esculpia em madeira, fazia trabalhos na madeira, pareciam xilogravuras, mas eram outros trabalhos, ele era um artesão também. Recentemente, eu fiz um concurso de selos dos correios e esse concurso me deu a ideia de criar, porque eles sugeriram a preservação da caatinga nordestina, e quando eu fiz o trabalho eu ganhei a participação.Não ganhei o prêmio, esse trabalho dos correios não eram só selos, eram aerogramas, e aquilo foi um incentivo para mim, pois fiquei no banco de artistas dos correios. Essa nomeação assim já me empolgou.
Outra vez, eu estava no Luiza Motta [Shopping de Campina Grande] , e chegou uma pessoa dos Estados Unidos, uma norte-americana, e ela comprou, adquiriu um trabalho meu, e levou para o país dela com as cores do Brasil. Era verde e amarela a tela, era um caminho e era uma paisagem. A americana chegou perto de mim falando outro idioma, mas tinha outra pessoa ao lado, um intérprete e ela gostou de meu trabalho e ali eu pude, revelar meu talento no exterior, que eu nunca pude imaginar que pudesse alguém de fora gostar de meu trabalho aqui.
Tive incentivo de apoiadores como o DART [Departamento de Artes da UFCG] , o Centro de Convivência, a Caixa Econômica, a Casa da Cultura, dos locais públicos onde eu colocava as minhas exposições, como o SESC açude velho e do centro, a Vila do artesão, da Justiça Federal e do Centro Profissionalizante da Jovem.
Eu nunca revelei, na maioria desses ambientes, que eu era do CAPS. Porque sempre que aparece um trabalho meu, tem aquelas pessoas que são contra. Esses pontos negativos geralmente acontecem, grupinhos existem em todos os lugares[...] Uma vez aconteceu [...] quando fui vender umas telas a um senhor, [...] , ele encomendou, depois que a levei ele disse que tal dia me pagava e não me pagou. Eu não fui atrás, pois fiquei sabendo por alto, que ele descobriu que eu tinha transtorno mental. Eu com receio deixei para lá, não fui atrás, perdoei, mas são coisas que acontecem, infelizmente[...] Mas tiveram várias pessoas que encontrei, que até faziam encomendas, eu mesmo, ia até a residência delas, nos apartamentos e levava as telas [...] . Eu não revelava a elas que me tratava no CAPS, porque eu achava que fugia à ética [...] .O CAPS me ajudou em questões
financeiras, na questão da venda das telas, só em uma exposição que eu fiz no centro de convivência eu vendi quatro.
Complementando o que Paulo disse acima a irmã toma a palavra fala: - Gostaria de dizer que para a família, o CAPS foi muito importante, porque Paulo tinha histórico de internações no Maia e no João Ribeiro [Hospitais Psiquiátricos de Campina Grande] , e quando a gente o levou para o CAPS, eu pensei que ia ser mais um sofrimento. Coube a mim sempre levá -lo para estas instituições. Quando ele não estava bem, acionava a polícia. Tive que fazer quatro anos de terapia para
“desencanar” da culpa. Eu vi que em todas as situações eu fui a mais sensata, era a mais forte, e aos mais fortes cabem as tarefas mais difíceis, e sempre foi muito difícil para mim todas as vezes que tive que internar meu irmão.
E no CAPS, eu pensei assim, meu Deus va i ser mais um. Mas eu vi que não, eu vi que era bem diferente. O acolhimento em todos os lugares eu tive. Acho que o mais traumático foi no Hospital Psiquiátrico. Apesar do apoio que recebia do [Médico Psiquiatra] , [...] no CAPS, tive a sensação de aconchego, de não me sentir desamparada, porque tem essa coisa dos TRs [Técnicos de Referência] . Você tem a referência de alguém, que você se reporta se preciso for, e quando dizia assim é para medicar e levar para casa.A gente já ficava com medo, pois é triste essa sensação, de que você gosta, mas que você tem medo, não sabe do que ele é capaz. É uma sensação dividida, você tem a pessoa perto, mas você quer vê-la longe, é uma sensação horrível, e quando diziam assim: - Ele vai para casa! Eu temia a volta dele, mas quando ele voltou e foi progredindo cada vez mais. Ele ia quase todo dia, depois foi diminuindo, diziam: -Paulo só precisa vir uma tarde, e a gente foi vendo o progresso dele, a estabilidade.
Uma coisa fundamental foi ver esse reencontro com um médico pa rticular dele, também trabalhava no CAPS. Reencontrando este médico, nos sentimos amparados, também pelo TR, pela estrutura, [...] . Então eu acho fundamental assim, em nossa situação, você saber sobre a doença mental e essa coisa da família, eu acho que é importante também, porque a gente vê que tem pessoas que têm toda uma negativa da família, vergonha, estigma, e é muito difícil de lidar, porque não admite tomar remédio, surta, e diante de tudo isso que a gente está vivendo, nas crises da mulher dele, agora é Paulo que tem segurado a onda. Tem situações que eu digo:- “Meu Deus, Paulo passou por isso e não surtou?” Ele tem segurado a onda, tem sido manso demais, nas situações em casa, graças ao CAPS [irmã sorri emocionada] .
Ao retomar a palavra Paulo disse: - A igreja me deu suporte e apoio também, pois quando eu estou assim querendo encontrar Deus, eu vou para a casa do senhor. Chego lá e eles me dão oportunidade para eu falar. Aquilo dali é tão bom! Quando eu falo do amor de Deus, as pessoas sentem que precisam ouvir uma palavra de Deus, então eu gosto de participar, gosto de ir ao culto evangélico, a igreja é perto de minha casa, o pessoal ora por mim, pergunta como vou, e sempre brincam comigo e aquilo ali me ajuda [...] . Desde os 16 anos que eu me converti, e quando eu me converti só era eu em casa, era difícil as pessoas saberem lidar com uma pessoa evangélica[...] Depois foi que minha família acolheu, foi acreditando, meu pai que Deus levou [...] , Chegou a hora!, E eu estou aqui.
A mãe de Paulo que também estava na sala ouvindo Paulo falar complementou a fala de Paulo dizendo: Eu e o pai dele éramos católicos, mas quando ele adoeceu as pessoas chegavam para mim para falar que a doença dele era espiritual. O povo dizia leva para tal canto [relacionado ao tratamento espiritual de Paulo] , eu levava, bati todo canto que você pensar de ruim eu fui! Mas sou feliz por isso, sabe porquê? Porque através desses locais, como a mesa branca que eles dizem que são os Cadercistas, em tudo eu fui, fui em Centro Espírita, fui em terreiro umbanda, pra onde você imaginar[...] O problema dele era muito sério, uma hora ia pra rezadeira, e outros diziam, não tem
que levar para um “canto pesado”, porque o problema dele não se resolve em mesa branca.
Paulo retoma a fala e finaliza dizendo: - Alta pra mim é uma palavra muito forte, porque eu nunca imaginei chegar a esse ponto. Acho que alta para mim é como se dissessem assim: -Paulo você vai ganhar um prêmio, e esse prêmio você vai se valorizar por muito tempo, confie que o que você fez valeu a pena. Ah... [risos] eu não sei se estou preparado para receber alta neste momento, até agora eu não sei como é que vai ser!
FRANCIR
Francir é uma mulher de 45 anos, cearense, mãe solteira de dois filhos, artesã, guerreira e batalhadora. Sempre deu seu melhor para alimentar e criar seus filhos, mas sofre com a indiferença de um deles e isso foi um dos fatores agravantes de seu sofrimento psíquico. Concedeu sua entrevista no CAPS, entretanto, posteriormente à entrevista me convidou a visitar sua casa, e me mostrou seu brechó e seus artesanatos. A casa simples mostra sua identidade: é colorida, decorada, com móveis que recuperou e restaurou do lixo. Muito do todo é de material reciclado e ela tem muito orgulho de tudo que conseguiu fazer.
Tom Vital: “Eu sofro a dor da indiferença, e isso é muito difícil de apagar...”
Eu vim me dar conta de meu processo de adoecimento assim depois dos 30, 40 anos de idade, quando o quadro realmente estava se agravando. Mas assim, deixa eu contar minha história!
Meu adoecimento começou desde criança, quando eu ia para o colégio sentava na última fileira, para ninguém me chamar, sentia aquele medo [...] , era um sintoma da síndrome do pânico, hoje eu tenho consciência disso! E quando eu andava na rua, andava bem escondida, bem pelo pé da calçada para ninguém me ver, pois tinha medo das pessoas se aproximarem de mim, e falarem comigo.
Minha história é longa, viu? Esses sintomas começaram quando assassinaram meu pai, no Ceará.Eu tinha três anos de idade e foi no dia de meu aniversário[...] . A minha mãe ficou com dez filhos para criar, e alguns anos depois ela vendeu a panificadora que meu pai tinha e veio embora para Iguatu no Ceará. Chegando lá, houve um acidente com meu irmão de três anos de idade que estava atravessando a rua quando um carro bateu nele e ele faleceu. Eu vivenciei todo o sofrimento.
Houve também histórias minhas que envolveram estupro. Minha mãe comprou um hotel em Campina Grande e começou a batalhar, foi servir almoço para “peão” de ferrovia, e entre uma coisa e outra ali, eu criança correndo no hotel, brincando, um deles disse: -Vamos ali, galeguinha, e ele disse a minha mãe: - Dona Francisca, eu vou dar uma voltinha com ela. Ali já começaram os abusos,