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De acordo com a equação (2.1), as receitas das privatizações são incluídas entre as receitas não financeiras do setor público. Estas servem para financiar o consumo ou o investimento do governo, pagar juros das dívidas interna e externa ou abater o principal tanto da dívida pública interna quanto da externa. Considerando que não haja mudanças na carga tributária, percebe-se que, na ausência das privatizações, e sem mudanças nos gastos com custeio e investimento do setor público, e com pagamento de juros da dívida pública (interna e externa), haveria aumento na base monetária ou na dívida pública interna ou externa, ou em ambas; qualquer desses três tipos de aumentos elevaria a DLSP.

Com as privatizações puderam-se obter recursos no momento em que o governo não tinha alternativa para financiar os seus déficits nominais a não ser por meio de emissão de títulos de muito curto prazo pagando altas taxas de juros ou indexados a variáveis altamente voláteis, o que deixaria a administração da dívida pública com muito mais dificuldades do que de fato foi encontrada. Sem as privatizações, teria ocorrido um aumento muito grande no déficit primário, o que aumentaria a dívida pública. Primeiro, pela ação das próprias empresas estatais. Sem os ajustes ocorridos antes das privatizações, muitas das empresas privatizadas teriam muitas dificuldades em disputar o seu mercado com empresas do setor privado, principalmente com a desregulamentação e a abertura desses mercados à competição estrangeira. Segundo, os Estados e a União, sem os recursos obtidos com as vendas de suas empresas que foram direcionados para os gastos que não são relacionados diretamente com a dívida pública, ou seja, com gastos de custeio ou investimentos, esses mesmos gastos teriam ocorrido sem as privatizações. Sem outra contrapartida para fazer frente a essas despesas, esses governos teriam incorridos em déficits primários que seriam cobertos com a emissão de dívida pública a altíssimos custos financeiros para o setor público.

Desta forma, pode-se considerar como receita das privatizações (vendas e concessões) as dívidas que passaram para a iniciativa privada, o principal da dívida pública abatida e a parte que foi direcionada para o custeio ou investimento públicos. Isto porque sem essas receitas, esse custeio ou investimento, que foi financiado com a receita das privatizações, o teriam sido pelo aumento da dívida pública. Portanto, é plausível considerar que toda a receita obtida com as privatizações, neste período em

análise, como meio para evitar o aumento da DLSP, seja diretamente ou indiretamente, ao impedir a emissão de mais dívida pública.

Tabela 3.4 – Valores totais por ano e por tipo de privatização e como percentagem do PIB

Em milhões de reais1

Ano Estaduais PND Telecomunicações Total2 %PIB

1995 - 1.732 - 1.732 0,25 1996 1.813 5.120 - 6.933 0,86 1997 16.692 8.260 5.174 30.126 3,37 1998 12.573 3.352 28.305 44.230 4,85 1999 7.250 252 217 7.719 0,70 2000 5.751 14.493 - 20.244 1,77 2001 74 2.537 3.916 6.527 0,53 2002 - 2.141 728 2.869 0,22 2003 - - - - - 2004 - 753 - 799 0,05 2005 - 954 - 970 0,05

Fontes: BNDES, BACEN e IBGE.

1 Valores atualizados pelo IPCA do mês subseqüente da privatização até dezembro do mesmo ano. 2 Inclui as dívidas que passaram para a iniciativa privada.

Conforme a tabela 3.4 mostra, as privatizações ocorridas a partir de 1995, principalmente, até o ano de 2002, foram de fundamental importância para que a dívida pública brasileira não tivesse tomado um caminho que tendesse à explosão.

Nos anos de 1995 e 1996, as privatizações brasileiras corresponderam a 0,25% do PIB e 0,86% do PIB respectivamente, que mostra o crescimento nas receitas obtidas com as alienações de empresas estatais.

Das tabelas 3.1 e 3.2 observa-se que, nos anos de 1997 e 1998, houve um salto muito grande da relação dívida/PIB (cujas causas serão quantificadas e analisadas adiante), de 34,5% para 43,3%, mesmo sendo esses os anos em que as privatizações mais contribuíram para a sustentabilidade da dívida pública, com 3,37% do PIB e 4,85% do PIB, respectivamente, notadamente levando-se em conta o alto custo da dívida nesses dois anos.

A partir de 1999, o ano em que as privatizações foram muito importantes para a DLSP foi 2000, quando as receitas chegaram a mais de R$ 20 bilhões em valores de dezembro de 2000, correspondendo a 1,77% do PIB daquele ano. Os anos de 1999, 2001 e 2002 tiveram números mais modestos no que diz respeito aos valores das privatizações; 0,70%, 0,53% e 0,22% do PIB, respectivamente.

No ano de 2003 não se obteve receita proveniente de privatização; e nos anos de 2004 e 2005 obteve-se uma receita muito modesta, correspondendo, respectivamente, a 0,04% e a 0,05% do PIB.

Portanto, as privatizações ocorridas no Brasil a partir de 1995 ajudaram o setor público a segurar a trajetória explosiva da dívida pública. Isto se torna mais claro quando se verifica que o valor das privatizações ocorridas entre os anos de 1996 e de 2000 correspondeu a cerca de 11% do PIB deste último ano.

Na tabela 3.5, observa-se que as privatizações foram importantes para a DLSP não apenas pelas dívidas abatidas, dívidas transferidas para a iniciativa privada ou pelo fato de ter evitado a emissão de mais dívida, mas fundamentalmente em razão das altas taxas às quais a dívida pública estava indexada nesse período. Com as privatizações, o setor público brasileiro deixou de pagar um montante extraordinário de juros que certamente iria ser incorporado à dívida pública já existente.

Considerando o período como um todo, em valores de dezembro de cada ano, obteve-se um total de R$ 122,149 bilhões com as vendas das empresas no âmbito dos Programas Estaduais de Desestatizações, da Lei das Telecomunicações e do Programa Nacional de Desestatizações. Esse valor, atualizado pelo IPCA para dezembro de 2005, chega a um total de R$ 204,1 bilhões. Esse último valor deve ser considerado do ponto vista estático. Mas para considerar do ponto de vista da dinâmica da dívida pública brasileira, deve ser considerado outro índice de atualização, que é a taxa de juros implícita da DLSP, conforme discutido anteriormente. Essa é a forma mais adequada de medir a verdadeira contribuição das receitas obtidas com as privatizações para a diminuição ou evitar a explosão da dívida pública no Brasil no período em análise.

Tabela 3.5 - Contribuição das privatizações para a diminuição da DLSP Em milhões de R$

Ano % juros Valor histórico1 2005 pelo IPCA Atualizado até pelos juros da DLSP Atualizado até 2005

1995 24,5 1.732 3.533 6.709 1996 17,5 6.933 12.907 26.444 1997 14,8 30.126 53.301 100.094 1998 18,9 44.230 76.980 123.596 1999 24,6 7.719 12.332 17.311 2000 15,5 20.244 30.519 39.308 2001 13,1 6.527 9.139 11.206 2002 12,9 2.869 3.570 4.363 2003 15,9 - - - 2004 13,4 799 845 924 2005 15,7 970 970 970 Valor total 122.149 204.096 330.926

Fonte: Boletim do Banco Central (anos de 1995 a 2005).

1 Atualizado pelo IPCA da data da privatização até dezembro do mesmo ano.

Conforme visto na tabela 3.5, considerando a dinâmica da dívida pública brasileira, as taxas de juros às quais ela é indexada, os valores arrecadados e as dívidas das ex-estatais que passaram para as mãos do setor privado, e atualizando pela taxa média que o setor público brasileiro pagou de juros nesse período chega-se a um valor de R$ 330,9 bilhões ao final de 2005, correspondente a 17% do PIB desse ano. Esse valor pode ser considerado uma sub-estimativa visto que muitas das dívidas que o setor público abateu com a verba das privatizações eram as mais caras, ou seja, o setor público pagava por elas uma taxa de juros superior à taxa média.

Benzer Belgeler