A Enfermagem em Portugal enfrentou, na sua trajectória histórica de lutas e conquistas, inúmeras dificuldades aquando da aspiração para a sua profissionalização (Sousa, 1995).
referências aos enfermeiros, como termo masculino.
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Ressalta-se que o termo “enfermeira” foi até aqui utilizado por questões históricas, passando, a partir deste momento, a ser denominado de enfermeiro(s), para se fazer referência a enfermeiro(s) e
A autorização da entrada das ordens religiosas nos Hospitais, a partir do ano de 1851, para apoiar os enfermos, fez com que se iniciasse a profissionalização da Enfermagem em Portugal (Sousa, 1995).
Assim, no final do século XIX, os estabelecimentos de ensino da prática médica passaram a estar articulados com os grandes Hospitais do país, como, Lisboa, Porto e Coimbra, abrindo as portas ao ensino médico e às auxiliares dos médicos (papel de enfermeira-auxiliar do médico).
Essa articulação com os Hospitais foi a primeira tentativa de se criar uma escola de Enfermagem em Portugal, a qual remonta ao ano de 1881, tendo como mentor do projecto Costa Simões, médico e administrador do Hospital de Coimbra. Este dirigente teve dois grandes objectivos com esta diligência: fornecer melhor instrução aos enfermeiros que laboravam nos Hospitais de Coimbra, para poderem substituir o médico em tarefas simples que não envolvessem uma vertente exclusivamente científica, e adestrar os seus auxiliares-enfermeiros a poderem concorrer para os lugares de quadro dos enfermeiros do Hospital de Coimbra. Imponha-se como condições: saber ler, escrever e executar as quatro operações aritméticas.
Em Lisboa, cinco anos mais tarde, Tomás de Carvalho, director da Escola Médico-Cirúrgica e Enfermeiro-Mor do Hospital Real de São José, evocou razões similares às de Costa Simões, para edificar uma Escola Prática de Enfermeiros neste Hospital.
Com efeito, de acordo com Sousa (1995) só em 1901, com Curry Cabral, Enfermeiro-Mor do Hospital Real de São José, em Lisboa, é que se introduziram reformas administrativas no Hospital. Paralelamente à reorganização dos serviços, este enfermeiro optou por fazer um investimento no pessoal de Enfermagem que aí laborava. Para além de ter revisto os valores dos ordenados, Curry Cabral, com o apoio do referido Hospital, fundou oficialmente a primeira Escola de Enfermagem. Mais tarde esta grande reforma estende-se à cidade de Coimbra.
Passados, então, 39 anos após a implantação da República Portuguesa, em 1910, estabeleceu-se, por lei, a primeira carreira de Enfermagem da função pública. Tal facto, ocorreu dois anos após a nova reforma de ensino, que obrigava a mais habilitações (Rebelo, 2002). Segundo esta lei, as várias categorias profissionais eram: Enfermeiro- Geral; Enfermeiro-Chefe; Enfermeiro-Subchefe; Enfermeiro de 1ª, Enfermeiro de 2ª, Auxiliar de Enfermagem e Estagiário.
Foi a partir de Janeiro de 1953 que ficou definido que só os diplomados em Enfermagem poderiam prestar serviços profissionais de Enfermagem. Nesta altura, a direcção das Escolas de Enfermagem estavam ainda sob a responsabilidade dos médicos.
Com as crescentes exigências técnicas e científicas, nos finais dos anos 70, que se impunham aos enfermeiros, as habilitações literárias mínimas de ingresso no Curso de Enfermagem Geral passaram a ser o 2.º ciclo liceal; e, o curso de Enfermagem passou a ter uma duração de três anos. O curso de auxiliares de Enfermagem manteve-
se com uma duração de 18 meses e as habilitações mínimas de ingresso eram o 1.º ciclo liceal.
Sucede-se, depois da alteração da lei de Bases do Sistema Educativo, em 1972, a criação do curso de promoção de auxiliares de Enfermagem, com a duração de dois anos, o qual permitiu a passagem destes, a enfermeiros. Estes cursos terminaram oficialmente em 1974, passando, então, a existir um só nível de formação – o curso de Enfermagem Geral – com a duração de três anos.
No ano de 1976, foram reformuladas as categorias dos enfermeiros e concretizou-se o seu reenquadramento salarial. Posteriormente, em 1980, cerca de quinze mil auxiliares de Enfermagem terminaram a sua formação complementar, através de cursos de promoção e elevaram-se a enfermeiros. Findaram, desta forma, as três carreiras de Enfermagem e todos os profissionais que trabalhavam em Portugal, passaram a ter acesso à única carreira de Enfermagem.
Assim, em 1981, o Governo instituiu a carreira única de Enfermagem, através da qual se definiu o conteúdo funcional para cada categoria profissional. A sua criação constituiu um marco histórico no processo de reconhecimento da profissionalização da Enfermagem. Ao longo desta década, viveu-se o início da proliferação das escolas pós- básicas de Enfermagem, com o intuito de se desenvolver as especialidades em Enfermagem. Neste período, evidenciava-se uma grande busca destas especialidades, por parte dos profissionais, que procuravam mais valias para o aperfeiçoamento e aumento dos seus conhecimentos técnicos numa área específica de cuidados.
Pelo Decreto-Lei 480/88, de 23 de Dezembro, o ensino de Enfermagem foi integrado no Sistema Educativo Nacional, a nível do ensino Superior Politécnico, conferindo, aos enfermeiros, o grau académico de bacharelato, sendo os requisitos, para o ingresso neste curso idênticos a qualquer outro curso, de nível superior. O mesmo decreto autorizou os cursos de especialização em Enfermagem, dirigidos àqueles que pretendiam seguir uma área específica de cuidados, progredir e ascender na carreira para a categoria de enfermeiro especialista, conferindo, ainda, o grau académico de Licenciatura em Enfermagem.
Em 1996, com o Decreto-Lei n.º 161/96, de 4 de Setembro, foi publicado o Regulamento do Exercício Profissional dos Enfermeiros (REPE), que veio reforçar a oportunidade para estes enfermeiros se debruçarem sobre o lugar dos valores, da ética e do desenvolvimento na prática de cuidados e na educação em Enfermagem. Esta legislação desfez concepções anteriores, que colocavam apenas os enfermeiros como auxiliares dos médicos e, simultaneamente, abriu um novo capítulo para o reconhecimento da profissão de enfermeiro.
Apenas em 1998, é que a Enfermagem ampliou as suas fronteiras com a criação da Ordem dos Enfermeiros, através do Decreto-Lei n.º 104/98, de 21 de Abril, que estabeleceu condições para consolidar a autonomia responsável pela actividade de Enfermagem. Assim, entre as atribuições deste organismo destacaram-se: a promoção da defesa da qualidade dos cuidados de Enfermagem; a regulamentação e controle do exercício da profissão de enfermeiro; e, a certificação do cumprimento das regras de ética e deontologia profissional.
O processo de profissionalização da Enfermagem em Portugal, depois de prodigiosas mudanças realizadas ao nível da organização do ensino superior, em 1998 culminou com a passagem do Curso Superior de Enfermagem de três, para quatro anos, conferindo o grau académico de Licenciatura. Hoje, os profissionais, que pretendam obter o referido grau universitário, têm que possuir o grau de bacharel e frequentar, com a duração de um ano, o Complemento de Formação em Enfermagem, conforme se explica mais adiante no item 3.3.1 do presente Capítulo.