4. ARAŞTIRMANIN BULGULARI
4.2. Güvenilirlik ve Geçerlilik Analizi
As interferências do homem no meio possuem proporções suficientemente grandes de forma que se torna impossível desconsiderá-las quando do entendimento da dinâmica ambiental e hidrológica de um espaço. A expansão demográfico-industrial, bem como a mundialização da cultura do consumo, ampliaram a demanda por recursos naturais, promovendo a mercantilização da natureza. A água, elemento do quadro natural, se transforma, então, em recurso hídrico, um bem econômico (REBOUÇAS, 1999a).
No meio metropolitano, tais considerações se tornam ainda mais evidentes. A artificialização do espaço exerce um papel primário nos fluxos de energia e matéria. Cria-se uma natureza híbrida em uma cidade cyborg (SWYNGEDOUW, 2006). Assim, no sistema urbano não se verifica a “autoregularização e o equilíbrio” (TROPPMAIR, 2004. p. 109). A impermeabilização do solo, a retirada de água de fontes superficiais e subterrâneas, a transposição de bacias hidrográficas, a substituição da cobertura original por construções, enfim, a concentração de pessoas e serviços promove alterações quantitativas e qualitativas nos recursos hídricos.
Dessa forma, o ciclo hidrológico passa a não mais responder à dinâmica dita natural das águas, sendo revisto por uma perspectiva mais complexa – em que o número de elementos e de fluxos de matéria e energia que constituem o sistema é imensamente maior – pelo ciclo hidrossocial10 (SWYNGEDOUW, 2004). Questões como gestão e planejamento, preservação e conservação ambiental, conflitos ligados à demanda e oferta de água, governança dos recursos hídricos, saneamento e tantas outras, tornam-se vetores da circulação da água no espaço humano (SWYNGEDOUW, 2004). A água, então, passa de substância química e recurso natural a commodity, sem, no entanto, perder sua característica de ambiente ecológico (BARBOSA; BARRETO, 2008).
Assim, a dinâmica dos processos mantenedores do ciclo hidrológico é enormemente modificada pela ação antrópica. Ao utilizar a água em suas atividades produtivas, a sociedade altera as condições naturais de movimentação da água, recriando o ciclo hidrológico no ciclo hidrossocial (TUNDISI, 2003). Os represamentos para produção de energia, a captação subterrânea e superficial para a agricultura, indústria, serviços ou domicílios, a canalização de
rios, a impermeabilização do solo, a retirada da cobertura vegetacional natural e tantas outras atividades alteram um ou outro processo hidrológico, colocando o homem como agente da dinâmica das águas (PORTO et al, 1999; HALL, 1984).
Para a geografia, emerge, então, a necessidade de reavaliar o ciclo hidrológico sob a ótica de elementos humanos – uso, manejo, gestão, saúde, segregação, proteção, entre outros – que são essenciais na compreensão dessa nova dinâmica das águas que é criada. A circulação da água se processa sob a lógica do ciclo hidrossocial, no qual sociedade e natureza se transformam dialeticamente (SWYNGEDOUW, 2004).
Esse novo modo de ver a água não implica, porém, na supressão do ciclo hidrológico como modelo de interpretação da dinâmica hídrica em uma bacia. Contudo, em um espaço metropolitano não se pode ignorar as variáveis humanas e, portanto, a característica híbrida da natureza (SWYNGEDOUW, 2006). É nesse sentido que o ciclo hidrossocial apresenta-se como um ferramental teórico-metodológico extremamente rico para a ciência geográfica.
O ciclo hidrológico é a representação do movimento da água na Terra, em seus diversos ambientes e estados físicos. Configura-se como uma dinâmica de fluxos de energia e matéria em um sistema aberto, afastado do equilíbrio (REBOUÇAS, 1999a). Destarte, SILVEIRA (1999. p. 35) interpreta o ciclo hidrológico como “um fenômeno global de circulação fechada da água entre a superfície terrestre e a atmosfera, impulsionado fundamentalmente pela energia solar associada à gravidade e à rotação terrestre”.
A primeira perspectiva – de um sistema aberto – parece ser mais próxima à realidade em uma escala geológica. Tal divergência advém da possibilidade da atmosfera perder água para o espaço, bem como da significativa contribuição da entrada de água na atmosfera através de poeira cósmica (BARBOSA; BARRETO, 2008). Além disso, os processos geológicos podem produzir água a partir das reações químicas que geram (REBOUÇAS, 1999a). Contudo, pode- se afirmar que o ciclo hidrológico é um sistema fechado apenas na escala espacial do globo e temporal do homem, mesmo assim, com possíveis ressalvas. As bacias hidrográficas, por exemplo, possuem seus respectivos ciclos hidrológicos como sistemas abertos e, se tratando de bacias urbanas, não há equilíbrio entre os processos do Ciclo (TROPPMAIR, 2004).
Sob o ponto de vista do ciclo hidrossocial, as nascentes são ambientes ímpares, seja pela transferência da água subterrânea para a superfície, seja pela necessidade de proteção, seja
pela sua posição estratégica em relação ao sistema de gestão, seja pela lógica da oferta/demanda.
Segundo Barbosa e Barreto (2008), a água dos rios é um bem relativamente escasso, ante à proporção que possui quando comparada aos demais ambientes hídricos da Terra. Somente 0,00009% da água existente no planeta encontra-se nos rios, 0,009% nos lagos de água doce e 0,295% corresponde às águas subterrâneas (BARBOSA; BARRETO, 2008). Apesar da pequena representatividade em relação ao total de água na Terra, essas são as principais fontes do recurso para as atividades humanas, sobretudo as duas primeiras, posto que o acesso à água superficial é consideravelmente mais fácil e, conseqüentemente, menos dispendioso em termos econômicos.
As nascentes são responsáveis pela passagem da água subterrânea para a superficial. Com isso, promovem a existência dos rios e lagos, justamente as fontes mais utilizadas pela sociedade. É impossível dizer qual a representatividade das nascentes no débito dos corpos d’água superficiais, porém, pode-se afirmar que a existência destes é condicionada pelas nascentes.
Essa característica intrínseca ao seu conceito faz com que as nascentes sejam objeto de interesse de uma série de atores sociais, sobretudo, dos gestores, de organizações não- governamentais de cunho ambiental, de movimentos sociais e, evidentemente, da sociedade civil. Além disso, exigências legais determinam a proteção das áreas de nascentes, impedindo sua utilização para quaisquer fins que não a conservação ambiental. Contudo, os interesses não necessariamente são comuns.
Por fim, é notório que a inserção das nascentes no ciclo hidrossocial extrapola a perspectiva de um elemento do sistema hidrológico que promove a passagem da água subterrânea para a superfície. Responsáveis pela existência das principais fontes de água para as atividades humanas, as nascentes se inserem, direta ou indiretamente, nos fluxos de poder que engendram o ciclo hidrossocial (MEDEAZZA, 2006). Assim, a circulação da água na natureza híbrida acaba por responder em, maior ou menor grau, às nascentes.