Surgida em 1923 com o slogan ‘Time will tell’13, a revista TIME é vista como a aquela que originou o conceito de news magazine. Inicialmente, a grande inovação adveio do fato que a
TIME escrevia notícias por meio das personalidades – os eventos não eram abstratos e impessoais, as pessoas eram a notícia e a TIME ajudava a compreender essas pessoas. Trata-se de uma noção antiga de que os homens e as mulheres fazem história assim como a história faz os homens e as mulheres. (STENGEL, in ANGELETTI & OLIVA, 2010, p.714)
Ao longo dos anos, TIME, testemunha de mudanças sociais, políticas e culturais, consolidou-se como um meio de informação forte e de estilo definido. No total, a revista contou, até o momento, com três editores (Briton Hadden, 1923-1929; Henry Luce, 1929-1949; Thomas S. Matthews, 1949-1953) e onze editores executivos (Thomas S. Matthews, 1949-1953; Roy Alexander, 1949-1960; Otto Fuerbringer
13O slogan ‘Time will tell’ permite duas versões de tradução para o português: (1) o tempo dirá e (2) [a revista]
Time contará.
14“Time wrote about the news through personalities – events were not abstract and impersonal, people made
news, and Time helped you understand those people. It’s an old notion: men and women make history as much as history makes men and women.”
(1960-1968); Henry Grunwald, 1968-1977; Ray Cave, 1979-1985; Jason McManus, 1985-1987; Henry Muller, 1987-1993; James R. Gaines, 1993-1995; Walter Isaacson, 1996-2000; Jim Kelly, 2001-2006; e Richard Stengel, 2006-presente). Todos contribuíram de alguma forma, seja em termos meramente imagéticos seja em termos estruturais, para a criação do estilo da TIME tal como se conhece hoje em dia.
Grande parte do estilo em que TIME é escrita originou-se na era Hadden (1923- 1929), em especial no tocante à escrita resumida e concisa. Sugerindo que uma notícia deveria ser direta e evitar rodeios, era comum a alteração de um texto de cinquenta linhas para trinta por meio da substituição de blocos de língua (ANGELLETI & OLIVA, 2010), tal como ‘in the nick of time’ por ‘in time’s nick’, da transformação de substantivos em adjetivos, tal como de ‘a man who was teacher’ para ‘teacher + sobrenome do homem’, e da criação de novos vocábulos, tais como
‘kudos’, ‘tycoon’ e ‘socialite’ (ANGELLETI & OLIVA, 2010; WILNER, 2006).
Além disso, tornou-se rotineiro o uso de epítetos homéricos, uma estratégia retórica em que uma personalidade ou personagem era introduzido através de um adjetivo, um substantivo ou uma combinação dos dois, como por exemplo: ‘the famed poet
William Shakespeare’. Tais epítetos caracterizaram-se como taglines. Apesar disso, os títulos das matérias e o lead eram carregados de suspense de modo a evitar revelar a história, mas sem amedrontar o leitor.
Hadden e Luce pontuavam que desejavam que a TIME fosse provocativa, concisa e baseada em fatos. Apesar disso, a opinião do editor poderia ser observada nas
legendas das fotos. Logo abaixo de uma imagem de Benito Mussolini, por exemplo, podia-se ler “seus olhos rolavam com fúria”15. Eles acreditavam que os textos da revista, os títulos e as legendas das fotos deveriam ser considerados como um bloco único de trabalho pelo jornalista.
Hadden também estimulou seus jornalistas a vestirem o chapéu do romancista e a criarem reportagens com recursos narrativos, tais como ter um início tenso, seguido de uma crise e uma resolução. O uso de detalhamento narrativo, segundo ele, permitia que o leitor ‘visse’ a notícia que estava sendo relatada. Hadden novou também ao apresentar a sintaxe invertida, em especial na seção Milestones, que relatava nascimentos, casamentos e óbitos.
O estilo apresentado até agora foi mantido quase que sem alterações até o início de 1977, quando a TIME sofreu sua primeira grande reestruturação. Uma maior preocupação com a imagem e a estética foi mantida até o término da liderança de Cave, em 1985. Essencialmente, durante essa reestruturação aumentou-se e estilizou-se o logotipo e a palavra TIME; alterou-se a fonte; criou-se o corner flap, um pequeno espaço no alto da capa onde se poderia incluir informações sobre outros conteúdos da revista; passou-se a usar pictogramas com o objetivo de promover a continuidade das páginas; e se aumentou a quantidade de páginas coloridas, o que favoreceu também no aumento do número de fotografias, na década de 1980.
Em 1989, sob o gerenciamento de McManus, a TIME passou por algumas alterações textuais: considerando que a ênfase de uma revista deveria ser
informação e entretenimento, o editor determinou que as reportagens deveriam endereçar ao leitor de maneira informal, com linguagem familiar e de argumentação clara. Para tanto, determinou também a diminuição da extensão dos títulos e dos espaços para as histórias e até mesmo a quantidade de desastres naturais que poderiam ser relatados nas notícias de capa. Após a sua saída, a revista passou a ter uma visão notadamente mais focada no lucro.
O sucessor de McManus, Muller, promoveu mudanças significativas em termos jornalísticos ao colocar maior ênfase na análise, ao invés da notícia em si, estimulando reportagens investigativas sobre assuntos atuais e fazendo uso de entrevistas como um meio de se noticiar. Foi a partir da gestão de Muller que as capas deixaram de ter como foco exclusivo uma personalidade e passaram a retratar assuntos atuais.
A segunda grande reestruturação da revista aconteceu dois anos após o início da gestão de Muller, em 1989. Além do logotipo, houve a criação de três grandes seções: (1) the week, the lead, em que eram apresentados resumos de notícias da semana; (2) the well, the middle, que continha as principais histórias da edição (cover story, special reports, trend analysis, interviews, photo essay, society, culture,
education, environment issues, ideas e American scene); e (3) reviews, the end, que
incluía textos sobre cinema, televisão, teatro, música, artes e literatura e as seções
people e essay. Essa reestruturação tinha como objetivo ser uma reconfiguração
Entre 1993 e 1995, Gaines inovou ao dar ênfase no ato de noticiar, considerando que todo e qualquer recurso deveria ser utilizado para tal. Em seguida, Isaacson (1996-2000) passou a considerar jornalistas talentosos que pudessem não apenas escrever a notícia, mas também pesquisar, entrevistar e levantar dados para a criação das reportagens. Resgatando as ideias de Hadden e Luce, Isaacson voltou a posicionar rostos de personalidades ilustres nas capas da revista e a enxergar o jornalista como um contador de histórias.
Kelly (2001-2006) talvez tenha tido um dos maiores desafios entre os editores recentes, pois foi durante a sua gestão que ocorreu o ato terrorista das Torres Gêmeas. Intencionado em alterar o foco da população dos eventos que sucederam a partir de 11 de setembro, Kelly centrou suas edições em três grandes áreas: (1) avanços médicos, (2) evolução social nos Estados Unidos e (3) as pessoas.
A terceira e última grande reestruturação ocorreu em 2006, durante a gestão de Stengel (2006-presente), e se deveu, em especial, à queda no lucro da revista. Aproveitou-se também da necessidade crescente de adequar-se ao novo estilo de jornalismo, estimulado pela Internet, em que a notícia não se originava de um editor, escrita por jornalistas e disponibilizada ao povo, mas sim de um grupo de notícias em que a notícia surgia a partir do momento em que qualquer um tinha o que noticiar.
Nessa reestruturação, além de uma mudança no estilo de escrever, apresentando textos com análises, opiniões e pontos de vistas, houve também: (1) a redução do logotipo em 20% e sua centralização na capa; (2) uma maior quantidade de capas
que retratavam assuntos atuais em detrimento de personalidades, que estimulassem o debate e o diálogo com o leitor; (3) a criação da seção briefing, com assuntos globais e locais e as subseções people, milestones, numbers, verbatim e moments; (4) o aprofundamento dos artigos disponíveis na seção the well, incluindo comentários e pontos de vistas; (5) a criação da seção life, em que havia uma mescla de notícias e artigos analíticos, e da seção arts, em que se apresentava resumos e resenhas de livros, filmes, exposições, etc.