Hegel nos convida analisar a arte na esfera do infinito: domínio em que a liberdade se manifesta de modo pleno, buscando atentar para o lugar que ele confere a arte no seu sistema: a visão dialética de modo a perceber que “o verdadeiro sentido da filosofia e da estética hegelianas é conhecido na dialética que se encontra no próprio âmago de seu sistema” (JIMENEZ, 1999 p. 182). A estética hegeliana representa um marco na história da reflexão sobre a arte, pois Hegel percebe o verdadeiro sentido da estética moderna não mais puramente como o estudo do belo em si, nem tampouco como o estudo dos juízos sobre o que seria a beleza dos objetos, mas como o estudo do belo em-si-e-para-si, segundo o movimento dialético que possibilitou essa tomada de consciência do que seria a estética na modernidade.
Com efeito, a Ideia Absoluta é o primeiro momento da dialética, o qual consiste na tese, posto que é a ideia subjetiva em si e por si, desprovida de existência e de aparência sensível, porque sendo universal não tem existência na concretude do mundo. É pensamento puro e verdadeiro. Nela situa-se a plena identidade do sujeito com o objeto, ambos encontrando-se totalmente imbricados formando uma unidade, de modo que o objeto não é exterior ao sujeito, mas antes é também ele mesmo. Assim, ela é o pensamento que se pensa a si mesmo, é a unidade universal, o pensamento do pensamento. Nela, encontra-se a verdade absoluta, o infinito absoluto, uma vez que é a síntese na identidade de si. Portanto, é entendida como a primeira razão, a plena racionalidade, posto que “a razão se explica a si própria [...] e por isto, porque tem em si a explicação de si, a
22 Franzine nos esclarece que a palavra estética deriva do grego “aisthetike e remete, conseqüentemente, para
o âmbito da sensação, da sensibilidade, da imaginação. Em Baumgarten, a estética é ciência, gnoseologia inferior, originariamente situada a meio caminho entre filosofia, poética e retórica” (FRANZINE, 1999, p. 35).
razão pode ser dita e aceita como razão de si mesma” (NÓBREGA, 2005, p. 59-60). Neste primeiro momento da dialética, a razão conserva uma unilateralidade absoluta, apartada do existente, pois “a Ideia Absoluta em sua efetividade verdadeira é espírito [...] absoluto, universal e infinito” (HEGEL, 2001, p. 108).
Assim sendo, a transição da ideia para a natureza é um processo de dedução de universais, o que nos permite dizer que Hegel não se atém a objetos particulares e mensuráveis, mas a ideias, enquanto conceitos, já que as coisas existentes são a soma de universais. Espírito e natureza correspondem a âmbitos justapostos, existindo uma cumplicidade entre eles por serem âmbitos igualmente essenciais. A natureza “não se situa nem como tendo valor idêntico nem como fronteira, mas mantém a posição de ser posta por ele” (HEGEL, 2001, p. 108). Através dela, o Espírito Absoluto é apreendido como diferença de si em si mesmo. É o outro que ele distingue de si, dotando-o de sua essência. Desse modo, a ideia engendra a natureza para desvelar e ganhar aparência, porque a verdade necessita aparecer e tornar-se manifesta.
Dessa forma, a Ideia universal e abstrata na sua forma mais plena, ao colocar o seu outro: a natureza, a fim de ganhar existência na concretude do mundo, se desvela e ganha aparência, todavia, porque projeta a sua imagem ou essência em uma esfera finita, perde a sua identidade inicial, já que o conceito se determina a si mesmo. Assim, a Ideia necessita, na sua existência mais plena, da alteridade da natureza. A natureza é a Ideia exteriorizada, a Ideia fora de si. É a determinação objetiva da Ideia na esfera finita. Nela, a
Ideia se aliena de si porque adquire existência e aparência, tornando-se ilógica, pois se
antes havia plena identidade entre sujeito e objeto, neste estágio, surge uma antítese entre eles. A natureza se apresenta como não liberdade já que está submetida às necessidades imediatas e contingentes da existência finita.
Essas discussões são importantes porque indicam o modo como o espírito finito apreende a natureza. Não é a natureza que se vê como não-liberdade, é a consciência comum que assim a compreende. A natureza é posta pelo Espírito e tem a essência do absoluto em si mesma, como o outro que o Espírito distingue de si. No entanto, ela afigura-se para o espírito finito como não-liberdade, enquanto algo criado, pois quando o
particularização e negação de si mesmo ao se unir ao seu outro numa universalidade livre. Desse modo, tem em si a idealidade e a negatividade infinita.
A contraposição entre Espírito e Natureza, enquanto grandezas lógicas, também persiste no espírito finito, agente da resolução de todas as contraposições. O espírito finito torna-se o mediador entre a exterioridade e a interioridade, porque tanto é parte da natureza, quanto é um ser espiritual e, portanto, é razão objetivada. É a possibilidade de reconciliação entre Espírito e Natureza, finitude e infinito, e de retorno à identidade perfeita. Na reconciliação, “cada parte se torna compreensível a partir da totalidade; pode- se entender cada finito somente partindo do infinito” (NICOLA, 2005 p. 355). O espírito finito é aquele que realiza a síntese entre o Espírito e a Natureza, já que nele a razão inicia o retorno em direção à Ideia, que no primeiro momento era em si, depois na natureza tornou-se para si, e agora, com o pensamento conceitual, torna-se em-si-e-para-si.
Daí se deduz o papel imprescindível do espírito finito, pois ele promoverá o retorno da natureza à esfera infinita, por que ele contém em si mesmo a interioridade, uma vez que é espírito, e também a realização deste interior no exterior. Logo, esta contraposição entre espírito e natureza, que configura também a existência humana, só poderá resolver-se na esfera infinita. E, nessa busca por uma satisfação sempre mais plena, o espírito finito vai se apercebendo que entre o Espírito e a Natureza há uma cumplicidade e que ambos estão apenas justapostos, como âmbitos igualmente essenciais. A natureza não lhe é contraposta, ela é o seu outro.
Em linhas gerais poderíamos entender a tríade da dialética hegeliana do seguinte modo: a tese seria a Ideia, também denominada de Espírito Absoluto23, nela está a essência e o pensamento puro, a identidade absoluta. Todavia, uma vez que existir significa aparecer, a Ideia abstrata se efetiva e ganha aparência na natureza para poder pensar-se e revolver-se na realidade sensível. Na antítese da Ideia: a natureza há o espírito finito, o homem, ser dotado de natureza finita e razão infinita, a última possibilita a reconciliação entre a natureza e o espírito. Assim, o espírito finito é o agente do retorno à identidade primeira.
23 Os filósofos idealistas entenderam por Absoluto uma interpretação racionalista de Deus. Para Hegel,
Absoluto é o Espírito ou Razão, devendo-se esclarecer que a razão hegeliana não é algo estranho e contraposto à natureza, mas coincide com ela (NICOLA, 2005 p. 358).
O espírito deve separar-se da natureza, negá-la, antes de descobrir nela o seu reflexo, ao se tornar objeto de seu saber e vontade. Assim, o Absoluto se torna objeto do espírito, uma vez que “o espírito entra no estágio da consciência e se diferencia em si mesmo como aquele que sabe e, em face desse saber, como objeto absoluto do saber” (HEGEL, 2001, p. 109). Neste ponto se localiza a solução da não-liberdade, a identidade perfeita entre o sujeito e o objeto, a Ideia e o fenômeno.
Tem início a possibilidade da solução da não-liberdade, já que o espírito finito vai se apercebendo que não há oposição entre Espírito e Natureza. Esse movimento do espírito finito passa pelo saber e pela vontade no sentido de resolver a contraposição entre espírito e natureza, pois ele se vê como objeto absoluto do saber. Nesse passo para a liberdade é que se localiza o início da filosofia da bela arte, o pensamento que se volta ao infinito.
Nesta perspectiva, o Espírito Absoluto põe a finitude para nela se tornar objeto do saber, pois, no dizer de Hegel, “ele é espírito absoluto em sua comunidade, o absoluto efetivo como espírito e saber de si mesmo” (HEGEL, 2001, p. 109). Assim sendo, o belo artístico não é a ideia lógica, o pensamento absoluto como puro pensamento, nem é a ideia natural, desprovida do espírito ou de racionalidade. Ele pertence ao âmbito espiritual, ao reino do Espírito Absoluto, é criação do espírito e manifestação de sua imagem na esfera sensível.
A partir dessa dialética que move o pensamento hegeliano, a arte afirma-se como produção espiritual, porque quando o espírito finito contempla o infinito ele se apropria da
Ideia e produz o belo na arte como reflexo do Absoluto. O que implica dizer que “trata-se
então de reconhecer, sob a aparência do temporário e do transitório, a substância que é imanente e o eterno que é atual” (NICOLA, 2005 p. 356). Com isto, entendemos que “substância imanente” e “eterno atual”, dizem respeito à forma assumida pela exposição fenomênica da arte e, ao seu conteúdo absoluto, a liberdade presente na Ideia e comunicada à arte enquanto produção do espírito. Desse modo, segundo Vercellone, a arte se afirma como “o lugar principal onde se manifesta a íntima e intrínseca unidade do Eu e da Natureza, do Sujeito e do Objeto” (2000, p.15).