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No contexto das atuais transformações que caracterizam o capitalismo contemporâneo, a introdução das novas formas de gestão e organização dos processos de produção, principalmente no setor industrial, vem acompanhado de uma série de modificações: descentralização da atividade produtiva, apoiada na flexibilização da produção; novo tipo de relacionamento entre empresas, marcado pelo declínio da verticalização da produção, com a integração de pequenas e médias empresas; adoção de novos padrões de uso da força de trabalho definidos pela polivalência dos trabalhadores, solicitados a realizar tarefas variadas e multi-qualificadas, o que exigirá, segundo o discurso dominante no contexto empresarial, maior volume de conhecimentos e informações e domínio sobre o processo produtivo.

É necessário reconhecer que o motor dessas mudanças é o acelerado e crescente desenvolvimento científico, articulado com a aplicação imediata e intensiva da ciência que tem se tornado força produtiva direta.

Essas mudanças afetam não apenas a realidade das economias dos países desenvolvidos, mas também as economias dos países em desenvolvimento, como é o caso de alguns países latino-americanos, entre estes o Brasil.

Conforme pesquisas desenvolvidas na área31, essas mudanças não afetam da mesma forma todos os países; há de se considerar as realidades das economias industriais dos países desenvolvidos, e dos países em desenvolvimento. Mesmo nos países desenvolvidos não ocorreu de forma total e absoluta a substituição de um modelo de produção pelo outro. O que tem sido observado é a convivência dos dois modelos: o taylorista/fordista, que tem sua base técnica e social assentada na rigidez do processo de produção, onde pouco esforço intelectual é exigido dos trabalhadores no desempenho de suas funções, e o paradigma técnico-produtivo, denominado produção flexível, que se caracterizam por uma onda de inovações tecnológicas e organizacionais ao longo das mais diversas cadeias produtivas e pela reorganização dos

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mercados que passariam a exigir um trabalhador com conhecimentos teóricos mais elevados e com capacidade de decisão.

No centro dessas transformações, verifica-se um intenso processo de reorganização do trabalho em vista da elevação da produtividade que afeta o volume e a estrutura do emprego, o perfil e a hierarquização das qualificações e os padrões de gestão da força de trabalho. É nesse contexto que se coloca a relevância da discussão acerca da questão da qualificação do trabalhador, indagando-se: os novos processos de trabalho, realinhados sob o impacto da base técnica fundada na eletrônica e na microeletrônica, estariam demandando de fato a elevação da qualificação do trabalhador? Melhor dizendo: as atuais transformações tecnológicas e organizacionais estão contribuindo para o aperfeiçoamento do trabalho humano, ensejando uma elevação do nível geral e individual de sua qualificação?

No embate teórico, pelo menos um ponto sinaliza para o consenso: o de que não se pode falar em um processo uniforme no movimento de qualificação e desqualificação do trabalhador, posto que nessa dinâmica entram em jogo forças políticas, sociais e econômicas, o grau de desenvolvimento das forças produtivas, o nível de organização e resistência dos trabalhadores e o seu nível educacional e cultural.

Em os “Grundisse”, Marx já tratava do desenvolvimento das forças produtivas, que faria surgir uma outra forma de organização da produção capitalista, na qual a atuação da força de trabalho direta iria progressivamente sendo suplantada, no sentido de que o trabalho vivo deixaria de se a unidade dominante do processo produtivo. Tais avanços foram problematizados por Marx, enquanto uma tendência própria à produção capitalista. O desenvolvimento do capital fixo, mediante inovações tecnológicas, elevaria em níveis cada vez mais crescentes a produtividade do sistema capitalista, além de aumentar a riqueza social e tornar a produção independente do trabalho vivo, deixando o trabalhador de ser um mero apêndice das máquinas para ser guardiãs e reguladores do processo de trabalho.

As atuais transformações tecnológicas, apesar de tratar-se de algo novo, não modificam a essência do modo de produção capitalista. Essas inovações acarretam mudanças significativas nos métodos de produção e deixam a força de trabalho cada dia mais expropriada das forças da ciência, e do domínio do saber.

É o que afirma, por exemplo, Machado, ao analisar as transformações tecnológicas:

O processo é contínuo e descontínuo ao mesmo tempo, às mudanças qualitativas sucedem mudanças quantitativas, à emergência dos novos elementos sobrevém a continuidade das antigas formas mostrando que se trata de um processo complexo, de interpenetração, onde contradições já existentes se repõem e se entrelaçam com outras novas. A sociedade tecnizada surge quando a sociedade industrial ainda não se esgotou e, no

caso dos países subdesenvolvidos, ela se esboça em meio a graves distorções e acentua os descompassos de tempo e de ritmo que caracteriza o desenvolvimento do capitalismo periférico. (1994, p.56).

A lógica que norteia as mudanças no paradigma atual é a busca da lucratividade através da obtenção de produtos mais diversificados, viabilizados com a utilização de equipamentos flexíveis e versáteis, que operam com um gasto menor de energia. Para Machado,

Se o processo de industrialização representou a absorção de grandes contingentes de trabalhadores, mesmo sendo a mecanização uma forma de racionalização do uso da força de trabalho, com as atuais transformações tecnológicas verifica-se uma enorme economia de tempo de trabalho humano necessário, fazendo com que a produção do valor dependa menos da intervenção viva do homem (1994, p.13).

Nesse contexto, que tomou o processo de trabalho mais complexo por conta da automação, desenvolve-se todo um embate teórico sobre a qualificação do trabalhador com defesas enfáticas formuladas pelos estudiosos da flexibilização do novo modelo de organização da produção, passando a exigir um perfil profissional que contemple requerimentos de formação diferenciados, o que os tem levado a defender uma revisão da forma e dos conteúdos da qualificação profissional.

Oposta a esta uma outra argumentação vem sendo debatida, segundo a qual a qualificação do trabalhador cai no contexto dos novos processos organizativos e produtivos contemporâneos. A análise dos efeitos negativos e desqualificantes dos novos processos de trabalho é feita com apoio nas idéias de Braverman para quem quanto mais:

A ciência é incorporada no processo de trabalho, tanto menos o trabalhador compreende esse processo; quanto mais um complicado produto intelectual se torne a máquina, tanto menos controle tem o trabalhador. Em outras palavras, quanto mais o trabalhador precisa saber a fim de continuar sendo um ser humano no trabalho, menos ele ou ela conhece (1987, p. 360).

O embate teórico que se desenvolve sobre a qualificação dos trabalhadores neste novo quadro afastava segundo Paiva (1994), a idéia da desqualificação em declínio, apresentando três outras teses como referenciais da produção acadêmica da área em todo o mundo.

Em torno da tese da requalificação estão pesquisadores como Franz Jánoss, Radovan, Richta e Friedman, que consideram que no capitalismo contemporâneo o processo de automação que se desenvolve em ritmo acelerado irá determinar a elevação da qualificação média do trabalhador. Sugerem portanto uma relação de positividade absoluta do

desenvolvimento tecnológico e de sua influência sobre o processo de qualificação da força de trabalho.

Outra tese, a da polarização das qualificações, começou a ser evidenciada a partir dos estudos de Friedman, Naville e Kern & Schuman. Essa tese indica que “o capitalismo moderno necessita somente de um reduzido número de trabalhadores altamente qualificados, enquanto que a grande massa se veria frente a um processo de desqualificação. O caráter complexo e contraditório das mudanças na qualificação é apontado pelos estudiosos citados, como expressão do movimento constante de desqualificação e qualificação. Nesse sentido, a automação, além de provocar a diminuição do número de trabalhadores, estaria promovendo também uma requalificação qualitativa (MACHADO, 1996).

A tese da qualificação absoluta e da desqualificação relativa, defendida por Friedman enfatiza que o capitalismo contemporâneo necessita de trabalhadores mais qualificados em termos absolutos, o que elevaria a qualificação média. Assim. Frente aos avanços tecnológicos, as necessidades de qualificação dos trabalhadores se elevariam. A automação e as novas tecnologias estariam levando ao desaparecimento das funções fragmentadas e suscitando uma maior qualificação da força de trabalho para poder desempenhar tarefas fundadas na comunicação e informação. Portanto, estaria ocorrendo nesse processo a desqualificação relativa dos trabalhadores frente ao desenvolvimento e ampliação globais do conhecimento técnico e científico, que apresentaria uma defasagem ainda maior considerando-se o nível de conhecimentos atingidos pela humanidade em épocas passadas.

Já outros estudiosos observam que, enquanto uma parcela de trabalhadores se envolve com atividades de supervisão e regulação do processo produtivo, agregando componentes intelectuais, a maioria se desespecializa à medida que excuta tarefas de manutenção e vigilância que não fogem do restrito domínio da polivalência. Outra parte precariza-se ainda mais em função da desregulamentação e flexibilização do mercado de trabalho, configurando assim um processo contraditório que superqualifica em alguns setores e desqualifica em outros. (ANTUNES, 1995).

A tendência observada em estudos desenvolvidos por Leite (1995), parece apontar que estaria ocorrendo uma relativa desqualificação do trabalhador e um maior controle da empresa com o aprofundamento da divisão entre concepção e execução. Para a autora, os impactos provocados pelas novas tecnologias devem ser examinados à luz dos múltiplos fatores que abarcam o mercado de trabalho, a origem do capital, a cultura operária, as formas de gerir e realizar o trabalho e o contexto político social e econômico.

Os aspectos acima ressaltados evidenciam que não se pode falar em um único padrão de uso da força de trabalho. A nova situação traz em seu bojo riscos e chances. Não se pode compreender a qualificação como um processo linear isento de contradições. A própria dinâmica do avanço científico e tecnológico tem múltiplas variedades de situações. Em vez de maior divisão do trabalho, pensam alguns autores, podemos ter exigências mais amplas dos postos de trabalho com a reaglutinação de tarefas. Assim,

As atividades de trabalho, mesmo que realizadas com equipamentos de ponta, podem mostrar-se com possibilidades de maior utilização das distintas habilidades do trabalhador ou não. Entram em jogo o tipo de atividade, o instrumento de trabalho utilizado, a relação que se estabelece entre homem e máquina e a forma como é organizado o trabalho (MACHADO, 1994, p. 42).

Com base nos estudos de Pochman (2001), podemos afirmar que o acesso a informações sem uma visão ampliada da realidade em suas várias dimensões não garante uma efetiva compreensão do trabalho que se executa e do mundo no qual a atividade humana está inserida.

Pochman analisa ainda que:

A difusão de um novo padrão tecnológico possibilitaria a passagem de uma produção mecanizada e de automação rígida (produção convencional), para a fase de automação flexível. Mesmo esse novo desenho empresarial que se daria nos pressupostos da empresa enxuta e competitiva não seria possível identificar ainda, uma convergência clara em torno do novo modelo de organização e gestão do trabalho e, por conseqüência, das exigências da qualificação do trabalhador do século XXI (2001, p. 43).

Entende-se que o movimento de qualificação e/ou desqualificação da força de trabalho carrega necessariamente um componente histórico: a evolução do processo de trabalho no capitalismo. Contudo, pode-se afirmar que de modo progressivo, sob o domínio da divisão técnica e social do trabalho, a tendência histórica tem manifestado um processo de desqualificação, na medida em que ocorre a especialização, a parcelarização do trabalho, e a fragmentação do processo de trabalho tal qual observado por Marx no período manufatureiro, cuja intensificação ocorreu na grande indústria. Todo esse processo tem revelado nada mais que um desconhecimento, por parte do trabalhador, quanto ao conteúdo do seu trabalho, o que se traduz em alienação. Não há o domínio dos princípios técnico-científicos que movem os diferentes processos de trabalho nem o vislumbre de unidade entre trabalho manual e intelectual.

Convém destacar que esse movimento de qualificação/desqualificação da força de trabalho não pode ser compreendida como algo linear e inexorável. A aplicação sistemática da

ciência aos processos produtivos exige determinados conhecimentos e habilidades, o que de forma nenhuma significa que esteja sendo exigida uma qualificação que compreenda a unidade entre concepção e execução.

A nosso ver, com o desenvolvimento das ciências e as possibilidades de aplicação dos seus resultados, novas exigências são apresentadas ao processo de produção e conseqüentemente, novos requerimentos de qualificação passam a ser exigidos da força de trabalho. Em Machado (1994), vamos encontrar apoio a esse ponto de vista. Para ela, a qualidade do trabalho humano diz respeito, em primeiro lugar, a uma qualificação coletiva dada pelas próprias condições gerais da organização da produção social da qual a qualificação individual não é só pressuposto, mas também resultado que se expressa em maior ou menor grau de complexidade dependendo das possibilidades de potenciação dos vários tipos de trabalho simples conhecidos pela sociedade.

A qualificação pressupõe, portanto, no processo histórico de desenvolvimento das diversas formas de trabalho, um conjunto de qualidades físicas e mentais que compõe a capacidade dispensada na produção, esta capacidade de trabalho (força de trabalho) assume uma determinação social e se constitui numa mercadoria especial com vistas à extração de mais-valia. A necessidade de mão-de-obra mais ou menos qualificada está na dependência dos processos de valorização do valor. Assim, “enquanto o desenvolvimento das forças produtivas for mediado pela forma capital, o saber técnico-científico permanece uma mercadoria-chave na economia brasileira” (TEIXEIRA, 1996, p. 68-69).

Nesse quadro é realmente pertinente interrogarmos: qual o significado da qualificação da força de trabalho face à nova base tecnológica? O processo que se descortina com o advento das novas tecnologias está demandando de forma generalizada a elevação da qualificação do trabalhador ou não? Quem se beneficia de fato com essa nova base técnica?

É importante destacarmos que o cenário do avanço tecnológico, em termos gerais, e da qualificação, em particular contem um caráter contraditório e complexo. E mais, existe uma simultaneidade de processos novos e tradicionais de realizar o trabalho, novas técnicas de organização, equipamentos de base eletroeletrônica, Isso sinaliza, portanto, que, no contexto atual, as perspectivas de qualificação são diferenciadas.

2.3. O modelo de formação centrado em competência como opção ao de qualificação:

Benzer Belgeler