Apesar das TIC possuírem grande potencial de auxílio ao trabalho docente, inúmeros são os desafios para que seus recursos sejam incorporados às práticas pedagógicas, visto que, além da profissão de professor se fundamentar em uma tradição ancorada profundamente em identidades docentes do passado, a implementação de novas tecnologias no contexto educacional também é influenciada por questões de gestão e financiamento de políticas públicas.
Sobre a implementação das TIC em práticas docentes, uma pesquisa realizada pelo CGI.br (2015), com professores de todo país, identificou que eles consideram que, através da utilização das TIC, eles passaram a ter acesso a materiais mais diversificados e de melhor qualidade; a cumprir as tarefas administrativas com mais facilidade; a colaborarem mais com os colegas da escola onde lecionam; a ter contato com professores de outras escolas e com especialistas de fora da escola; a fazerem avaliações mais individualizadas dos alunos; a se comunicarem melhor com os alunos; e que também houve um aumento na qualidade de trabalho desenvolvido.
No entanto, apesar do otimismo quanto à utilização destes recursos tecnológicos, pesquisas e relatórios apontam que ainda existem inúmeras
dificuldades a serem superadas para que os recursos tecnológicos digitais sejam utilizados como instrumentos de apoio ao processo de ensino e auxiliem na melhoria da qualidade da aprendizagem dos conteúdos curriculares.
No contexto brasileiro, verificou-se que na percepção de inúmeros professores são barreiras para a utilização das TIC na educação: os alunos saberem mais sobre computador e Internet do que o professor; a sobrecarga de informações com a qual os alunos são expostos através da Internet; e a perda do contato com a realidade, por parte dos alunos (CGI.br, 2015). Na mesma pesquisa, os professores identificaram que a baixa velocidade na conexão de internet, o número insuficiente de computadores por aluno, o número insuficiente de computadores conectados à
Internet, a ausência de suporte técnico, a existência de equipamentos obsoletos ou
ultrapassados, a pressão ou falta de tempo para cumprir com o conteúdo previsto, a pressão para conseguir boas notas nas avaliações de desempenho e a falta de apoio pedagógico para o uso de computador e Internet, dificultam o uso da tecnologia.
Sendo assim, estes dados vêm a corroborar com a afirmação de Alcântara et al. (2007), de que a utilização da tecnologia vai além de uma mudança tranquila de procedimentos didáticos, ela é, sobretudo uma mudança de paradigma no âmbito educacional. As TIC possibilitam o desenvolvimento de novas práticas docentes em sala e de uma variedade de práticas de aprendizagem (CROOK et al., 2010), mas não devemos considerar que a tecnologia por si só não é capaz de proporcionar uma melhora da aprendizagem dos conteúdos curriculares (ALONSO, 2008; FISCARELLI et al, 2013;), vide os resultados negativos que ocorreram em diversos países. Um exemplo de experiências mal sucedidas foi o da inserção de instrumentos da informática na França nos anos oitenta que, segundo Lévy (1993), ocorreu de maneira decepcionante.
Durante os anos oitenta, quantias consideráveis foram gastas para equipar as escolas e formar os professores. Apesar de diversas experiências positivas sustentadas pelo entusiasmo de alguns professores, o resultado global é deveras decepcionante. Por quê? É certo que a escola é uma instituição que há cinco mil anos se baseia no falar/ditar do mestre, na escrita manuscrita do aluno e, há quatro séculos, em um uso moderado da impressão. Uma verdadeira integração da informática (como do audiovisual) supõe portanto o abandono de um hábito antropológico mais que milenar, o que não pode ser feito em alguns anos. Mas as “resistências” do social têm bons motivos. O governo, escolheu material da pior qualidade, perpetuamente defeituoso, fracamente interativo, pouco adequado aos usos pedagógicos. Quanto à formação dos professores, limitou-se aos
rudimentos da programação (de um certo estilo de programação, porque existem muitos deles...), como se fosse este o único uso possível de um computador!. (Lévy, 1993, p.8).
O papel do professor e do habitus professoral na incorporação das TIC como recurso pedagógico é essencial, o que, entretanto, pode ser um fator gerador de inúmeros conflitos. Devemos lembrar como discutido por Josgrilberg (2006), que apesar da atenção dada pelas políticas públicas a esta temática relacionada à necessidade de se investir em inovações, a utilização dos recursos tecnológicos no trabalho pedagógico acaba se tornando incumbência dos professores. Ou seja, grande parte da responsabilidade da implementação das TIC no contexto educacional passa pelas mãos dos professores, o que pode se tornar um peso no trabalho docente e gerar insegurança se ele não acreditar nos benefícios que as TIC podem proporcionar à sua prática e ao seu processo de formação docente.
Devemos também ter em mente que “entramos em uma sociedade que exige dos profissionais uma capacidade permanente de formação e aprendizagem”. (MARCELO GARCÍA, 2002, p. 28, tradução da pesquisadora), o que significa que as barreiras de uso das TIC relacionadas à falta de formação inicial e que são geradoras de insegurança e resistência precisam ser superadas, visto que, como salientado por Marcelo García (2002), os conhecimentos que são apreendidos na formação inicial possuem uma data de “vencimento”, o que nos ajuda a pensar a aprendizagem da docência como um processo que não se restringe ao período formal de formação (formação inicial) e que engloba toda a carreira docente.
Aprender a ser professor é aprender a refletir criticamente sobre sua prática e ser capaz de buscar alterá-la quando necessário, com o intuito de proporcionar aos estudantes um ambiente rico de aprendizagem. Neste sentido, já podemos identificar a compreensão por parte dos professores da necessidade de um aperfeiçoamento profissional voltado ao uso pedagógico das TIC, o que se reflete nas respostas dadas ao questionário do Saeb (INEP, 2017b).
Os professores que responderam ao questionário apontaram que consideram o tema “Uso pedagógico das Tecnologias de Informação e Comunicação” como sendo o segundo de maior necessidade de aperfeiçoamento profissional, ficando atrás apenas da necessidade de aperfeiçoamento para trabalhar com alunos com deficiência ou necessidades especiais, conforme podemos observar na Tabela 2.
Tabela 2 - Concepção dos professores sobre necessidade de aperfeiçoamento nas temáticas.
Temática
Proporção por percepção sobre nível de necessidade de aperfeiçoamento (%) Não há necessidade Baixo nível de necessidade Nível moderado de necessidade Alto nível de necessidade
Parâmetros ou Diretrizes curriculares
em sua área de atuação. 15,24 30,06 42,54 11,16 Conteúdos específicos da minha
disciplina principal de atuação. 20,66 32,46 34,31 11,62 Práticas de Ensino na minha
disciplina principal de atuação. 17,03 32,08 37,39 12,54 Gestão e organização das atividades
em sala de aula. 25,31 35,08 29,66 9,03
Metodologias de avaliação dos
alunos. 19,14 32,94 34,65 12,31
Uso pedagógico das Tecnologias de
Informação e Comunicação. 9,64 23,30 40,95 25,15 Formação específica para trabalhar
com estudantes com deficiência ou
necessidades especiais. 3,45 6,94 22,35 66,27
Fonte: INEP, 2017b.
A formação docente pode (e deve) ser pensada já com a inserção e familiarização das TIC na própria prática formadora, pois sua utilização pode oportunizar ao professor uma maior segurança na própria prática com estes recursos. Assim, a formação docente deve ser concebida como uma maneira de possibilitar diferentes espaços para o desenvolvimento de uma aprendizagem individual e coletiva.
A aprendizagem da docência com e para a utilização das TIC, deve se caracterizar como uma aprendizagem que possibilite desenvolver uma postura ativa e interativa de apreensão de novos conhecimentos; que desenvolva saberes docentes; que possibilite aos professores a utilização de ferramentas tecnológicas diversas, como recursos pedagógicos capazes de potencializar sua prática; e que desenvolva a autonomia do professor.
Um meio capaz de auxiliar o professor no processo de inserção das TIC em sua prática é a utilização de softwares como os Objetos de Aprendizagem, isto porque eles são capazes de potencializar o processo de aprendizagem dos alunos e são de fácil manipulação. A próxima subseção será destinada à discussão destes recursos.