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Na seção anterior mostramos alguns elementos do projeto gráfico que configuram determinados tipos de leitura e, conseqüentemente, supõem diferentes leitores. Nesta parte do texto evidenciaremos como a modelagem do leitor é textual e discursivamente construída nas edições de outubro e dezembro de 2006. Antes, porém, apresentaremos o método de análise proposto. Os eventos discursivos serão analisados em três dimensões distintas, mas complementares, a saber: o evento discursivo como texto, como prática discursiva e como prática social. A concepção tridimensional do discurso é uma tentativa de reunir três tradições analíticas: a análise textual, lingüística; a análise macrossociológica da prática social em relação às estruturas sociais e a microssociológica, que concebe a prática social como algo que as pessoas produzem ativamente e se entendem por meio de conhecimentos partilhados no senso comum.

A análise do evento comunicativo como texto baseia-se em algumas categorias do quadro da análise textual, que ora são orientadas para as formas lingüísticas, ora para os sentidos. Existem propriedades analíticas do texto que estão mais ligadas à função interpessoal da linguagem, ou seja, às formas pelas quais as relações sociais se manifestam e são construídas no discurso. São elas: o controle interacional (que engloba, por exemplo, a tomada de turnos, as estruturas de troca, entre outros processos53); a modalidade; a polidez e o ethos. Outros aspectos analíticos estão ligados à função ideacional da linguagem. São eles: o vocabulário (que pode ser abordado, por exemplo, pela lexicalização, criação de palavras e pela metáfora); a coesão (os conectivos e a argumentação) e a gramática (análise da transitividade e tema). Segundo Fairclough (2001, p. 211), a análise desses elementos nos leva a compreender o papel do discurso “em constituir, reproduzir, desafiar e reestruturar os sistemas de conhecimento e crença”

Para a análise textual selecionamos algumas das categorias em função dos objetivos desta pesquisa – descobrir qual é o leitor modelado pela revista Nova Escola e quais são as estratégias lingüísticas, discursivas e do projeto gráfico de que o editor lança mão. Cabe, neste momento, explicitar como os elementos analisados em cada categoria nos ajudam a abordar o problema da pesquisa.

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A modelagem do leitor nas seções de Nova Escola

De acordo com Fairclough (2001), há vários graus de comprometimento do escritor que podem ser mais ou menos categóricos em relação às suas proposições. Esses graus de comprometimento podem ser analisados por alguns elementos gramaticais e pela modalidade dos enunciados. Os verbos auxiliares e os advérbios modais podem ser mais categóricos, como é o caso do verbo ‘dever’ (sugere a idéia de obrigação moral), ou podem ter formas mais brandas, como ocorre com o verbo ‘poder’ (indica possibilidade, permissão, capacidade). Assim também ocorre com os advérbios modais – possivelmente, definitivamente, provavelmente – que reforçam em maior ou menor grau a autoridade das afirmações. Os pronomes adjetivos (nenhum, todos, toda, qualquer) e as locuções pronominais indefinidas (qualquer um, todo aquele, seja quem for) podem ser empregados para fazer generalizações imprimindo assim um tom categórico com certa pretensão a ser reconhecido como uma verdade. Por essas características resolvemos observar suas aparições nos corpus submetido à análise.

Verificamos também, nas seções e reportagens da revista, a predominância de orações declarativas, interrogativas e imperativas, que nos deram pistas para descobrir se o texto trazia questões sobre as quais o leitor deveria refletir ou se trazia receitas por meio de declarações e prescrições. Desse modo, foi possível verificar que tipo de leitura é proposto na revista. Um outro elemento analisado foi o tempo verbal. Segundo Fairclough, ele pode realizar a modalidade categórica, como é o caso do presente do indicativo.

Esses elementos evidenciam o modo e o grau de afinidade que o escritor estabelece com seu interlocutor numa determinada interação. A modalidade está ligada aos aspectos da oração que se referem à função interpessoal da linguagem, ou seja, ao modo como as relações sociais são marcadas na oração. À luz dessas considerações, buscamos saber como o editor de Nova Escola se dirige ao leitor e que relação se institui nas afirmações, prescrições e proposições do texto. Analisamos os verbos, os advérbios modais e o tempo verbal que foram empregados para constituir uma determinada relação entre o editor e o leitor. Outros dois aspectos gramaticais foram incluídos na análise da revista Nova Escola: os pronomes de tratamento empregados em relação ao professor, aos especialistas e demais sujeitos e o uso dos pronomes possessivos. Pensamos que esses elementos nos dão pistas sobre o tipo de relação (formal ou informal) que a revista quer construir com seu leitor

A princípio, percebemos que a revista prescrevia muitas ações ao leitor e nos questionamos como é que ela conseguia fazê-lo sem que isso se configurasse num ato autoritário, o que poderia produzir certos conflitos com o leitor. Nossa hipótese era a de que existiam elementos na linguagem da revista que seduziam o leitor de tal forma a produzir uma

relação de (re)conhecimento e legitimidade, o que a autorizaria, cada vez mais, a prescrever e, ao mesmo tempo, ser considerada como uma aliada do leitor, isto é, o professor. Ao longo da análise identificamos alguns elementos da linguagem responsáveis pela construção dessa relação.

Um outro aspecto sugerido por Fairclough (2001) para análise é a transitividade dos enunciados. O analista pode verificar como o texto favorece, ofusca ou omite os sujeitos; que escolhas de voz são feitas (ativa ou passiva) e como a responsabilidade é assumida, atribuída ou deixada vaga no texto. Assim, verificamos se os professores são representados como agentes das ações ou apenas objeto de ações e em quais situações ele são representados de uma ou de outra maneira. Verificamos também a ocorrência da voz passiva nos textos da revista Nova Escola, tentando apreender as diferentes motivações de seu uso. Algumas são mencionadas por Fairclough (2001, p. 226):

Uma é que ela permite a omissão do agente, embora isso possa ser motivado pelo fato de que o agente é evidente em si mesmo, irrelevante ou desconhecido [...] Uma outra razão política ou ideológica para uma passiva sem agente pode ser a de ofuscar a agência e, portanto, a causalidade e a responsabilidade.

A análise dos elementos textuais acima citados pode dar pistas sobre as razões políticas para o editor fazer determinadas escolhas na construção do texto. Essa dimensão textual-ideológica será elucidada na apresentação dos dados coletados.