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A. Gösterge Kavramı ve Anlamlandırma

A.3. Göstergeler ve Anlamlandırma

Deixando de lado qualquer interpretação mais matizada, podemos começar afirmando que Freud pode ser caracterizado como um típico representante do cientificismo do século XIX, ou seja, tendência que se caracteriza por um modo de pensar que era, então, predominante na fisiologia de procedência alemã ensinada na Faculdade de Medicina da Universidade de Viena. Paul-Laurent Assoun mostrou, de modo convincente, a filiação de Freud às propostas programáticas da Sociedade Fisicalista de Berlim (Berliner Physikalische Gesellschaft), cujos expoentes maiores foram Du Bois-Reymond, Hermann Helmhotz e Ernst Brücke. A influência cientificista na formação e na obra de Freud salta aos olhos: Helmholtz sempre foi para ele um modelo ideal de cientista e Brücke foi o seu admirado e respeitado mentor acadêmico, em cujo Laboratório de Fisiologia e Histologia ele trabalhou como assistente por seis anos – de1876, quando era ainda estudante de medicina, a 1882, já como

médico recém formado – realizando pesquisas em neuroanatomia. Não seria nem viável e nem conveniente resumir a extensa pesquisa histórica e as conclusões a que chegou Assoun, mas poderíamos resumir esta ideologia ou visão cientificista, pois não se trata aqui da apreensão da ciência enquanto tal, mas de uma imagem do que deveria ser a ciência. Essa visão cientificista pode ser esboçada por meio de algumas idéias que, embora não se inter-relacionem numa doutrina rigorosamente consistente, nos ajudam a caracterizar a mentalidade dominante que cercou a formação científica de Freud e o acompanhou ao longo de sua vida.18 O cientismo pode ser definido por sua proposição polêmica da disjunção entre ciência e filosofia ou, antes, pela simples rejeição de qualquer função cognoscitiva filosofia. Por outro lado, podemos considerá-lo em sua relação com um conjunto de pressupostos filosóficos, os quais, freqüentemente muito pouco elaborados, podem ser divididos em dois tipos que, muitas vezes, se superpõem e se confundem: os pressupostos epistemológicos e os ontológicos. Os primeiros podem ser formulados, brevemente descritos e sem qualquer pretensão de rigor e exaustividade, do seguinte modo:

1. O critério epistemológico empírico-analítico: segundo o qual todo conhecimento científico se origina da experiência sensível e é por ela justificado. Para que os fenômenos apreendidos pela experiência possam ser observados e descritos, é preciso que eles sejam remetidos aos seus componentes sensoriais mais simples para, só então, serem reconstruídos. O método analítico, como era exemplificado pela química analítica nascente, é

18

Ao falarmos em “visão cientificista” ou em “cientismo” (scientisme) procuramos, seguindo Gusdorf, distinguir uma mentalidade que se difundiu largamente em meados do século XIX do que seria o positivismo. Este é, segundo Comte, uma filosofia, na linha dos enciclopedistas e dos ideólogos, e nada tem a ver com o desdém anti-filosófico dos especialistas. Além disso, no sistema comteano de classificação das ciências não há lugar para o reducionismo, que é um dos traços essenciais do cientismo. No entanto, a hostilidade em relação à filosofia e mostra idediatamente em duas conseqüências: na necessidade de aceitar certas pressuposições filosóficas e na inconsistência doutrinária decorrente da impossibilidade de assumi-las em sua natureza filosófica. Cf.: GUSDORF, Georges. Introduction aux sciences humaines. Paris, Editions Ophrys, 1974. p.343-364.

uma herança direta da apropriação ilustrada da física newtoniana e, por isso, se afasta do dedutivismo cartesiano: ao invés de partir de axiomas e princípios ou de uma intuição simples e imediata para daí deduzir todos os outros conhecimentos, parte da “imagem sintética” dos fenômenos para decompô-los, pela análise mais minuciosa, em suas condições e elementos mais simples e, uma vez estabelecida a sua dependência em relação a esses elementos e condições, pode-se proceder á sua recomposição. A mensuração é um exemplo bem simples desse método, pois a intuição do espaço contínuo é submetido à resolução de suas partes ou segmentos e, com isso, as propriedades que se ocultavam na apreensão imediata do fenômeno se revelam. Há nesse modo de conceber a ciência a rejeição ou, ao menos, a minimização das explicações nativistas e do apriorismo kantiano e assim, como Ernst Mach procurou demonstrar no caso da mecânica racional, as proposições a priori devem ser reduzidas ao mínimo indispensável, pois a maioria das que consideramos como tal são, de fato, o resultado de experiências casuais, espontâneas e inconscientes. As proposições apriorísticas devem se reduzir, portanto, a princípios generalíssimos, como o da causalidade, princípios que, embora sendo pressupostos pela ciência, somente são por ela efetivamente incorporados quando recebem um conteúdo empírico determinado. 19

2. A doutrina do monismo epistemológico: uma vez definido, o critério de cientificidade passa a ter aplicação universal e, portanto, o campo da ciência é concebido como sendo rigorosamente unitário, de modo que as ciências da natureza (Naturwissenschaften), são consideradas como “a ciência”, sem qualquer outra adjetivação. Seguindo esse modo de pensar, Freud jamais considerou como sendo relevante a oposição entre ciências da natureza e ciências do espírito (Geisteswissenschaften), e nem tomou conhecimento da chamada “querela dos métodos” (Methodenstreit), que agitou e dividiu o universo intelectual alemão na época em que ele terminava os seus estudos médicos. Mesmo posteriormente ele desconsiderou essa candente polêmica

19

Sobre a origem ilustrada desse critério simultaneamente empírico e analítico, ver CASSIRER, Ernst. A filosofia do iluminismo. Campinas, Ed. da Unicamp, 1997. Esp. p. 19-63.

que, desencadeada pela oposição diltheyana entre explicar (erklären) e compreender (verstehen), passa pelas escolas neo-kantianas do início do século XX e chega, muito mais tarde, até a discussão em torno do significado positivista da sociologia alemã (Positivismusstreit).20

Por conseguinte, do ponto de vista freudiano, se a psicanálise se pretende científica, não há como recorrer a qualquer outro critério de cientificidade que não fosse aquele que seria válido para ciências da natureza. Freud não adota sequer o monismo mitigado de Wundt, que situava a psicologia na fronteira dos dois domínios. Ao contrário, ele poderia com facilidade subscrever a “profissão de fé naturalista” de Ernst Haeckel que reza o seguinte:

Insistimos na unidade fundamental da natureza orgânica e inorgânica: esta última começou relativamente tarde a evoluir da primeira [sic]. Não podemos mais traçar um limite exato entre esses dois domínios principais da natureza, nem tampouco podemos estabelecer uma distinção absoluta entre o reino animal e o reino vegetal, ou entre o mundo animal e o mundo humano. Conseqüentemente, consideramos também toda a ciência humana como um único edifício de conhecimentos, e rejeitamos a distinção corrente entre a ciência da natureza e a ciência do espírito. A segunda constitui apenas uma parte da primeira ou, reciprocamente, ambas constituem apenas uma ciência. 21

20

Para uma visão clara e concisa, mas muito boa, da história da oposição entre compreender e explicar no contexto da filosofia alemã posterior à morte de Hegel, ver SCHNÄDELBACH, Herbert. Philosophy in Germany. 1831-1833. Cambridge, Cambridge University Press, 1984. p. 66-138. Para uma abordagem mais detalhada, sobretudo das escolas neo-kantianas, ver BAMBACH, Charles R.. Heidegger, Dilthey, and the crisis of historicism. Ithaca/London, Cornell University Press, 1995. Os textos referentes ao positivismusstreit estão em: ADORNO, Theodor et alii. La disputa del positivismo en la sociología alemana. Barcelona, Grijalbo, 1972.

21

Cf.: HAECKEL, Ernst. Le Monisme, Profession de Foi d’un Naturaliste. Apud, ASSOUN, P.-L.

Op. Cit.. p. 51. Utilizamos amplamente nesta parte de nosso trabalho a obra de Assoun. Ver a

tradução portuguesa: Monismo. Laço entre a religião e a ciência. Profissão de fé de um

Este monismo epistemológico não se baseia na análise lógica da linguagem cienttífica – como será o caso do neopositivismo – mas é assumido como uma “profissão de fé” assumida a partir da prática científica, isto é, de uma posição pretensamente externa à discussão filosófica.

3. O modelo fisicalista: a unidade metodológica da ciência está respaldada na física, ciência que realiza, de modo exemplar, o critério empírico-analítico de cientificidade. Por isso, todas as outras disciplinas científicas devem se aproximar, no máximo permitido por seu objeto de estudo, ao modelo e à linguagem da física, daí a importância de termos tais como “energia”, “força”, “inércia”, “quantidade”, etc., que poderiam nos ajudar a visualizar esta proximidade. Isso é nítido em alguns dos textos freudianos iniciais, quando ele procura definir alguns de seus conceitos fundamentais como, por exemplo, o afeto, que é um fenômeno tipicamente psíquico, do seguinte modo:

(...) nas funções psíquicas diferenciamos algo (quantum de afeto, soma de excitação), que tem todas as propriedades de uma quantidade – não obstante, não tenhamos nenhum meio de medi-la – algo que aumenta, diminui, desloca e pode descarregar, e se difunde pelos traços mnêmicos das representações, algo como uma carga elétrica sobre a superfície dos corpos. 22

A referência a Haekel, que fizemos acima, é esclarecedora, porque indica onde repousam o fisicalismo, o empirismo e o monismo epistemológico: na recusa do dualismo corpo e alma, que deve ser descartado em nome de uma concepção naturalista do homem e, apesar da recusa do autor, também

22

“...dass an den psychischen Funktionen etwas zu unterscheiden ist (Affektbetrag, Erregungssumme), das alle Eigenschaften einer Quantität hat – wenngleich wir kein Mittel besitzen, dieselbe zu messen – etwas, das der Vergrösserung, Verminderung, der Verschiebung und der Abfuhr fähig ist, und sich über die Gedächtnisspuren der Vorstellungen verbreitet, etwa wie eine elektrische Ladung über die Oberflächen der Körper”. Cf.: FREUD, Sigmund. Die Abwehr-Neuropsychosen (As psiconeuroses de defesa). GW, I, 74 (AE, III, 61). Conforme está convencionado na bibliografia, sempre citamos Freud segundo as “Obras Completas” em alemão (Gesammelte Werke), mas remetendo à tradução castelhana (Amorrortu Editores), que contém as notas do editor inglês da Standard Edition. A tradução castelhana foi cotejada com o original alemão, com algumas modificações ocasionais.

numa visão materialista da realidade. Por isso, os pressupostos epistemológicos se associam aos ontológicos, sem que entre eles exista uma verdadeira consistência lógica. Da mesma forma, breve e não exaustiva, podemos descrevê-los do seguinte modo:

1. Critério ontológico de redução fundacionista: segundo o qual os fenômenos mais complexos podem ser fundados, em princípio, em fenômenos mais simples, se definirmos o mais simples como o que é mais universal ou inclusivo em relação à natureza e o mais complexo o que é mais particular e exclusivo em relação ao homem. Assim, os fenômenos físicos abrangem o conjunto da natureza, enquanto os fenômenos sociais são restritos aos seres humanos e, em conseqüência, os segundos poderiam ser, em última instância, reduzidos aos primeiros. A redução em última instância, ou fundacionista, significa que os fenômenos físicos são mais reais e possuem maior densidade ontológica. Assim, ainda que seja razoável aceitar uma relativa autonomia dos fenômenos, sob o aspecto descritivo e, até mesmo, do ponto de vista da diferenciação dos níveis epistêmicos, fica postulado o princípio da redutibilidade do menos ao mais real. Não deixa de ser interessante observar que, embora o critério epistemológico da análise pareça estar intimamente vinculado ao critério ontológico da redução, pois a análise parte do que é primeiro em relação a nós para chegar ao que é primeiro em relação à natureza, não há uma decorrência necessária entre os dois.23

2. O monismo ontológico: uma vez aceito o critério reducionista, toda realidade tende a ser homogeneizada a partir de uma determinação substancial, que poderia ser, em princípio, o espírito, como no idealismo, a natureza, como no

23

Como se pode ver no uso cartesiano do procedimento analítico, a passagem do prius quoad

nos ao prius quoad se não implica em nenhum tipo de monismo e, muito menos, num monismo

materialista. Aliás, é este procedimento de análise conceitual, bem diferente do critério empírico- analítico a que nos referimos acima que está na base da metafísica da escola Leibniz-wolffiana que Kant estigmatizará como sendo “dogmática”. Ver a excelente exposição sobre Descartes e, em particular, sobre o seu método em ROVIGHI, Sofia Vanni. História da

naturalismo ou a matéria, como no materialismo. No item anterior aclaramos o critério reducionista a partir da primazia dos fenômenos físicos com relação aos sociais, mas não podemos esquecer que para o idealismo objetivo a natureza é, ela também, espírito. Por isso, dependendo de cada corrente filosófica o critério da redução fundacionista pode variar muito. Não obstante, embora não seja possível transitar automaticamente do plano lógico ao ontológico, o modelo fisicalista, sem a restrição proporcionada por um ponto de vista funcionalista, que admita a independência hierárquica entre as relações e as entidades, tende inevitavelmente a um rígido monismo ontológico materialista.24

Aqui, portanto, o que nos interessa é enfatizar o monismo materialista, a idéia de que toda realidade verdadeira é material, tal como foi assumido, em 1842, pelos líderes do que viria a ser a Escola Fisicalista de Berlim :

Brücke e eu [Du Bois-Reymond] nos comprometêramos solenemente a impor esta verdade, a saber, que somente as forças físicas e químicas, com exclusão de qualquer outra agem no organismo. No caso de essas forças não conseguirem ainda explicar, precisamos nos empenhar em descobrir o modo específico ou a forma de sua ação, utilizando o método físico-matemático, ou então postular a existência de outras forças , eqüivalentes em dignidade, às forças físico-químicas inerentes á matéria, redutíveis à força de atração e repulsão. 25

Há aqui claramente uma postulação baseada numa crença, como se pode ver através de expressões como “compromisso solene” ou “impor a verdade”. Esta crença parecia, no entanto, aos olhos daqueles físicos e fisiólogos não como uma crença, mas como uma evidência decorrente de sua atividade científica. Quando, de fato, era muito mais uma evidência decorrente da Kulturkampf então reinante, isto é, do grande combate ideológico que se

24

Sobre a questão do reducionoismo em seus aspectos lógico e ontológico, ver ANDLER, Daniel. “A ordem do humano”. In: ANDLER, D. et alii. Filosofia da ciência. Vol. II. Rio de janeiro, Atlântica Editora, 2005. p. 529-653.

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travou na Alemanha em meados do século passado, que postulava, muitas vezes, um materialismo quase panfletário e intelectualmente grosseiro. Assim, se retomava literalmente o aforismo de Feuerbach, que se tornou largamente conhecido por sua homofonia na língua alemã: “O homem é o que ele come” (Der Mensch ist was er isst) e que foi também largamente difundido e representado pelo químico Jakob Moleschott com a sua afirmação: “Sem fósforo não há pensamento” ou pelo naturalista Karl Vogt que pronunciou, em 1854, num Congresso de Medicina realizado em Göttingen, uma frase que se tornou emblemática: “As idéias estão para o cérebro o que a bílis é para o fígado e o que a urina é para os rins”. Essa era a crença científica, que supostamente se distanciava da fé ingênua e obscurantista do povo, a então denominada “fé do carvoeiro” (Köhlerglaube). 26

3. O modelo determinista: no monismo ontológico materialista algumas experiências especificamente humanas como aquelas que poderiam ser definidas por meio de palavras como “valor”, “sentido” ou “liberdade” são consideradas como sendo ou ilusórias ou epifenomênicas. Conquanto estas experiências possam ser aceitas de um ponto de vista descritivo, elas não podem ser inseridas em teorias científicas que se fundam na primazia ontológica das “forças físico-químicas inerentes á matéria” e são, em princípio, redutíveis à realidade que as sustenta e cabe á ciência demonstrar o nexo causal que nelas se oculta e que as explica em seu estatuto derivado.

26

O aforismo de Feuerbach, de sua fase mais marcadamente naturalista, encontra-se em sua entusiástica recensão de uma obra de Jakob Molleschott, “A teoria dos alimentos”, e foi retomada no título de seu opúsculo de 1862, “O mistério do sacrifício, ou o homem é o que come”. Cf.: FEUERBACH, Ludwig. Sämtliche Werke. Bd. X. Hg.: W. Bolin und F. Jodl. Stuttugart-Bad Cannstadt, Frommann-Holzboog, 1960. p. 1-35. Ver URDANOZ, Teofilo. Historia

de la filosofia. Vol. IV. Madrid, Biblioteca de Autores Cristianos, 1975. p. 440. Sobre o

materialismo cientificista na disputa filosófica da época pós-romântica, ver GUSDORF, Georges. Le savoir romantique de la nature. Paris, Payot, 1985. p. 300-321. Trata-se do XII volume do grandioso painel histórico sobre as ciências humanas e o pensamento ocidental que só foi possível ser elaborado pela impressionante erudição do filósofo francês.

Embora seja uma discussão muito difícil e intrincada – pois teríamos que distinguir entre a idéia de causalidade e o princípio da razão suficiente, enquanto estabelecem a existência de uma ordem racional da realidade, e a doutrina do determinismo, que pretende um conhecimento exaustivo dos processos causais – aqui nos interessa tão somente enfatizar que a crença freudiana na viabilidade de uma abordagem científica do psiquismo, parece exigir como corolário o determinismo. A psicanálise contribuiria decisivamente não só para elucidar os nexos causais daqueles processos que o senso comum tende a considerar como casuais ou inexplicáveis, mas também como um conhecimento capaz de dissipar as ilusões metafísicas relativas à liberdade. Assim, o determinismo freudiano é afirmado sem vacilações e é considerado como um traço inseparável da ciência, como podemos ver pela seguinte afirmação

Quando desdenhamos uma parte de nossas operações psíquicas por considerar impossível esclarece-las mediante representações-meta, estamos desconhecendo o alcance do determinismo na vida psíquica [...] diferencio-me de um supersticioso pelo seguinte: Não creio que um acontecimento em cuja produção a minha vida psíquica não participou possa ensinar-me algo oculto sobre o perfil futuro da realidade. Ao contrário, creio que uma exteriorização não deliberada de minha própria atividade psíquica revela-me algo oculto, porém algo que só a minha vida psíquica pertence, certamente creio em uma casualidade externa (real) , porém não numa contingência interna (psíquica). Com a superstição ocorre o inverso: não sabe nada sobre a motivação de suas ações casuais e seus atos falhos, crê que existam contingências psíquicas; por outro lado inclina-se a atribuir ao acaso exterior um significado que se manifestará no acontecer real, a ver no acaso um meio pelo qual se expressa algo que para ele está oculto no exterior. 27

27

“Indem wir einen Teil unserer psychischen Leistungen als unaufklärbar durch Zielvorstellungen preisgeben, verkennen wir den Umfang der Determinierung in Seelenleben [...] Ich unterscheide mich also von einem Abergläubischen in folgenden: Ich glaube nicht , dass ein Ereignis, an dessen Zustandekommen mein Seelenleben unbeteiligt ist, mir etwas Verborgenes über die zukünftige Gestaltung der realität lehren kann; ich glaube aber , dass eine unbeabsichtige Äusserung meiner eigenen Seelentätigkeit mir allerdings etwas Verborgenes enthüllt, was widerum nur meinem Seelen leben angehört; ich glaube zwar na äusseren (realen) Zufall, aber nicht an innere (psychische) Zuffälligkeit. Der Abergläubische umgekehrt: er weiss nichts von der Motivierung seiner zufälligen Handlungen und Fehlleistungen, er glaubt, dass es psichische Zufälligkeiten gibt ; dafür ist er geneigt , dem

Não vamos analisar as nuances que podemos encontrar na afirmação acima citada, pois nos limitamos a constatar que as descobertas da psicanálise não enfraquecem a crença freudiana básica no determinismo mas, ao contrário, acrescenta-lhe novos e substanciais argumentos. A descoberta o inconsciente permitiria estender o alcance do determinismo a uma região da realidade que, não só para o senso comum, mas também para muitas correntes filosóficas, era considerada como o lugar, por excelência, da indeterminação e da liberdade e assim, a psicanálise ao contrapor-se à superstição que envolve o psiquismo humano, permite que Freud se reafirme como um legítimo representante do conhecimento científico. 28

Todos estes pressupostos epistemológicos e ontológicos, que apresentamos esquematicamente e que caracterizamos como visão cientificista, podem ser encontrados sem grande dificuldade na obra freudiana e fazem parte de sua consciência filosófica difusa e quase irrefletida oriunda de sua formação científica. É lastimável que ele não tenha explicitado e elaborado um pouco mais as implicações filosóficas que estariam por trás de suas opiniões, um tanto tôscas, sobre o significado da ciência. Um empenho que poderia mostrar que a filosofia científica nem sempre se confundia com um cientismo grosseiro que apenas se limitava a recusar toda filosofia e a submeter todas as novas disciplinas ao direito de primogenitura da física e da química. As obras de diversos filósofos e cientistas – como as de Auguste Comte, Claude Bernard e Augustin Cournot – mostram que havia considerável resistência à hegemonia do mecanicismo e da mentalidade antifilosófica, pois a

Benzer Belgeler