Relativo aos estudos que abordam questões sobre as crianças do MST, classificamos os estudos D.1.C1 (Silva, 2002) e D.47.C1 (LUEDKE, 2013). Temos conhecimento de muitos outros estudos que discutem a questão e a situação das crianças do MST ou de crianças que participam de Movimentos de Luta pelo direito a terra como àqueles preconizados pela Comissão Pastoral da Terra – CPT. Dentre estes estudos podemos citar os de Bihain (2001), de Arenhart (2003) e de Yamin (2006). Como já vimos afirmando ao longo de nossa produção, os mecanismos de busca são falhos e alguns trabalhos existentes não foram contemplados em nossa análise por não aparecerem em nossa busca. Tivemos acesso aos trabalhos citados porque entramos em contato com as autoras. Optamos por ser fiéis à busca realizada para esse estudo, por isso os estudos de Bihain (2001), Arenhart (2003) e Yamin (2006) não foram analisados.
A respeito dos dois estudos encontrados e selecionados para essa análise, observamos que descrevem aspectos sobre a luta histórica travada pelo MST e as mudanças que ocorreram no interior desse Movimento. Ambos os estudos apresentaram um apanhado sobre o processo de educação da infância no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.
As discussões foram pautadas, principalmente, pela busca do entendimento relativo ao ser criança no Movimento, sobretudo sobre seu processo de educação, pertencimento e continuidade ideológica. Nesse sentido, nos dois estudos uma tríade de conceitos foi citada: mística, luta e trabalho, à qual é associado e analisado o processo de educação da infância, principalmente das crianças pequenas.
No estudo D.1.C1 (SILVA, 2002), a autora considera que todo o processo de educação da infância pauta-se no conceito geral de educação proposto pelo MST. A autora afirma que:
O conceito geral de educação apresentado pelo MST, articula-se a partir de alguns aspectos fundamentais: a educação faz parte da formação da pessoa, conferindo-lhe possibilidade de, ao mesmo tempo, transformar a si e a sociedade na qual está inserida, delimitando a partir disso, um campo de estreita ligação entre a necessidade de apresentar definições relativas a dois aspectos: o projeto político e a concepção de mundo. D.1.C1 (SILVA, 2002, p. 85).
As representações sobre a infância vivida no MST e a construção da identidade das crianças passam pela observação das condições materiais, abrangendo o modo de viver tanto de pessoas acampadas, quanto de pessoas já assentadas.
como elemento que afirma as crianças dentro do Movimento e na construção de sua identidade.
De acordo com a autora:
As brincadeiras na Ciranda configuram as situações vividas na coletividade e compõem significados integrantes do processo de construção da identidade das crianças e que podem revelar um processo conflituoso entre as necessidades concretas de sobrevivência e o faz de conta. Tratando-se de um contexto nem sempre favorecido pelas condições sociais, econômicas, estruturais e a necessidade de sobrevivência. D.47.C1 (LUEDKE,2013, p. 85).
Ambos os estudos citados acima afirmam que os espaços dos acampamentos e assentamentos26
são educativos e têm o objetivo de desenvolver distintas dimensões da criança Sem Terra, compreendendo-a como pessoa de direitos, valores, personalidade em formação, imaginação, fantasias, dentre outros aspectos. Nesse sentido, nesses espaços estão impregnadas as raízes da luta do MST, assim, o processo de aprendizagem e socialização das crianças compreende: experiências criativas, criticidade, apoio ao desenvolvimento da autonomia, diálogo sobre as questões de gênero, a saúde, o cuidado, a cooperação e luta pela reforma agrária e as mudanças sociais.
Ainda de acordo com as autoras, os espaços dos assentamentos e acampamentos são educativos e intencionalmente planejados; são espaços de saberes e aprendizados, sobretudo de relações. Assim, em relação aos apontamentos consonantes destes dois estudos destacamos que a infância do MST é marcada por:
a) dificuldades decorrentes de falta de saneamento básico, higiene, moradias adequadas (quando acampamento, as moradias são predominantemente feitas de lona), alimentação, acesso à saúde, dentre outras;
b) processo de formação ideológica;
c) processos de aprendizagem que as consideram como sujeitos;
d) possibilidade de experiências que desenvolvem a cooperação e a vivência de valores.
Tanto no estudo D.47.C1 (LUEDKE, 2013) quanto no D.1.C1 (SILVA, 2002) as autoras asseveram que é importante refletir sobre as adversidades enfrentadas pela infância das crianças do MST. As autoras destacam um sentimento paradoxal em relação a essa infância: a vida dessas crianças é marcada pelas dificuldades e sofrimentos e ao mesmo tempo destacam-se a alegria infantil e a forma positiva de viver nessa coletividade.
26 O trabalho D.1.C1 (SILVA, 2002) analisa a infância nos acampamentos, enquanto o D.47.C1 (LUEDKE,
A infância dessas crianças é marcada também pela condição de agricultoras, que moram na zona rural. No estudo D.28.C1 (Horn, 2010), a autora explica que o rural, historicamente, é definido a partir de uma padronização, ou seja, o rural carrega o estigma de atraso, de pobreza, dentre outros. Sobre essa condição, a autora identifica em seu estudo que a infância dessas crianças é marcada por esse estigma e essa padronização. No entanto, a autora ressalta que o campo sofreu diversas transformações. De acordo com a autora, as crianças rurais vivem sua infância como qualquer outra criança, inclusive têm acesso ao mundo urbano, não que isso as eleve em algum sentido.
A mesma autora ressalta que,
As paisagens são diferentes e por isso fazem destes espaços lugares com múltiplas interações e interpretações por parte dos pequenos. Se o rural comporta grandes lavouras, indiretamente estas também fazem parte do urbano ao chegarem às mesas de quem vive na cidade, assim como diferentes estabelecimentos comerciais, públicos, por exemplo, atendem tanto quem reside no meio urbano, como no meio rural. Encontraram elas trechos com e sem asfalto/calçamento, variados tipos de edificações, de trabalho, de transportes, de organizações, mas não necessariamente se deparam com comportamentos e modos de vida tão diferenciados. A organização do espaço é outra, mas cada qual conserva a sua importância. Rural e urbano são igualmente “palcos” de ações das crianças, não tão distintas assim D.28.C1 (HORN, 2010, p. 117-118).
Concordamos que os resultados do estudo D.28.C1 apontem para essa situação quase que coincidente entre a infância rural e a infância urbana. No entanto, comungamos com Whitaker (2002) que a infância rural aparece em desvantagem no cenário social. Isso pode ser confirmado com a discussão realizada principalmente no segundo capítulo desta produção.