3. MESLEK PROFİLİ
3.1. Görevler, İşlemler ve Başarım Ölçütleri
Por questões de gênero e pela situação específica de comunicação, é difícil imaginar que, em um tribunal de júri, em uma audiência, enfim, em discursos de acusação e de defesa, haja espaço para aquilo que Plantin (2011a) chama de
151 No original: « Quand sa mère mourut, elle pleura beaucoup les premiers jours. Elle se fit faire un
tableau funèbre avec les cheveux de la défunte […] D'ailleurs, Charles l'attendait ; et déjà elle se sentait au coeur cette lâche docilité qui est pour bien des femmes comme le châtiment tout à la fois et la rançon de l'adultère. […] Cependant il y avait sur ce front couvert de gouttes froides, sur ces lèvres balbutiantes, dans ces prunelles égarées, dans l'étreinte de ces bras quelque chose d'extrême, de vague et de lugubre qui semblait à Léon se glisser entre eux subtilement, comme pour les séparer. » (SÉNARD, 1857 apud FLAUBERT, 1951, p. 634-681)
comunicação emocional, ou seja, que haja algo espontâneo, natural e não intencional.
Acreditamos que tanto Pinard quanto Sénard se valem, sobretudo, da comunicação
emotiva, aquela que é estrategicamente calculada, com a finalidade primeira e última
de convencer, persuadir e pathemizar. Assim, essa classificação trabalhada por Plantin e seus colaboradores se mostra, como ele mesmo afirma, problemática, visto ser uma dicotomia que serve mais para fins didáticos do que para uma aplicação razoável. Dizemos “problemática” porque acreditamos ser difícil julgar até que ponto os discursos dos advogados são espontâneos, naturais, ou seja, construídos no calor das discussões (comunicação emocional) e até que ponto esses discursos são prévia e friamente pensados, arquitetados (comunicação emotiva). Além disso, os advogados até poderiam discursivizar emocionalmente de tal maneira que não nos seria possível perceber se houve a real intenção de emocionar o outro ou não, se as emoções foram sentidas por eles ou não. Vale lembrar que não é porque a comunicação é de ordem intencional e possui visada pathêmica que ela não seja autêntica. De toda forma, o que nos interessa, aqui, é a emoção discursivizada, importando pouco sua veracidade e sua espontaneidade.
Refletir se a promotoria e a defesa (se) emocionam, deliberadamente ou não, nos remete novamente à dicotomia razão versus emoção tratada por Charaudeau (2010a), Plantin (2011a) e Amossy (2010a), todos eles sustentando que argumentação, razão e emoção estão intrinsicamente ligadas entre si. Essa constatação é perceptível nos discursos de Pinard e Sénard, visto que se trata de textos jurídicos, argumentativos, racionais e estrategicamente repletos de emoções. Esses sentimentos pretendidos (manifestados? suscitados? vividos?) pelos advogados estão, evidentemente, ligados a valores morais daquela sociedade. Nesse contexto, uma mulher não pode e não deve trair seu marido, ainda que ela esteja infeliz no casamento. Um romance que aborda o adultério não pode e não deve ser publicado, por questões morais. Os advogados, cientes disso, jogam com os saberes partilhados, de crença e com os estereótipos para suscitar paixões, para pathemizar.
Como vimos no capítulo teórico, Amossy recorre a Barthes para ajudá-la em seu raciocínio sobre a questão da doxa e do estereótipo. Além dela, Leila Perrone- Moisés também retoma Barthes para tratar do mesmo tema. Ela lembra que, para o autor, “[...] em cada signo dorme esse monstro: um estereótipo”. Sobre a doxa, Perrone-Moisés, cita, ainda, um trecho de Roland Barthes par Roland Barthes: “[A Doxa] difunde e gruda, é uma dominância legal, natural; é uma geleia geral,
espalhada com as bênçãos do Poder; é um Discurso universal, um modo de jactância que já está de tocaia no simples fato de se tecer um discurso (sobre qualquer coisa).” (BARTHES, 1975 apud PERRONE-MOISÉS, 1997, p. 58)
Pinard e Sénard demonstram buscar em seus discursos um certo equilíbrio entre o racional e o emocional, entre o razoável e o afetivo. Essas aparentes dicotomias noslevam a pensar em que medida esses discursos são paratáxicos. Ainda que haja neles um excesso de descrição minuciosa e de citação literal do romance, o que poderia levar a entender que busca-se construir argumentos isentos de subjetividade e de emoção, o requisitório e a defesa não se encaixam naquilo que Amossy chama de texto/discurso paratáxico (AMOSSY, 2011). Ao contrário, o que percebemos é que esses discursos são altamente subjetivos e emotivos, embora compreendidos em um gênero – jurídico/processo judicial –, que se pretende, prioritariamente, racional e objetivo, baseado em fatos e em dados.
Entretanto, a “parataxia” (AMOSSY, 2007), pode ser vislumbrada, pelo fato de os advogados partilharem com os presentes no tribunal o mesmo sistema de valores. Nesse sentido, podemos afirmar que as temáticas do adultério, do suicídio e da morte de Emma, todas elas ligadas à religiosidade e aos bons costumes, são suficientes para pathemizar por si só o auditório e o júri. Esse compartilhamento dos saberes de crença subjaz os discursos dos advogados e os torna capazes de disparar o gatilho da pathemização sem dificuldades, mesmo que a exposição aparente ser objetiva e racional, dimensão calcada na concretude da obra, na escrita de Flaubert.
Para além da pathemização da e na obra de Flaubert, Pinard e Sénard também se valem daquilo que Amossy (2008b) chama de ethos pathêmico. Eles próprios delineiam seus ethé discursivos (entre o dito e o mostrado) ao dizerem, direta ou indiretamente, “sou advogado”, “sou cristão”, “sou homem de bem” e “sou contra o adultério”, dentre outras falas ethóticas. (MAINGUENEAU, 2005, 2008). Temos também o delineamento de seus ethé feito por nós a partir de suas falas. A união, ou melhor, a interseção entre ethos e logos desencadeia, assim, o pathos. Em suma, o
ethos de cada advogado também pathemiza, aflora emoções naqueles que os ouvem e
os leem. Os advogados parecem buscar um equilíbrio no jogo entre ethos, pathos e
logos, entre argumentação e persuasão, sem que haja a primazia de um sobre o outro.
Lembrando mais uma vez Amossy (2008b), vemos que Pinard e Sénard constroem seus discursos a partir de uma “racionalidade afetiva” e de uma “emotividade racional”, concomitantemente.