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As questões ambientais no planeta são conhecidas desde muito tempo. A conscientização sobre a necessidade de o homem estabelecer uma relação não destrutiva, não predatória, respeitando os limites dos recursos naturais, exige muito mais que a simples promulgação de leis. Em todo o mundo, a exploração de bens naturais alcançou proporções alarmantes, e, aos poucos, foi-se percebendo que algo estava errado e que providências, com vistas a deter este processo de degradação, deveriam ser tomadas de forma incisiva e urgente. De maneira ainda bastante lenta, podem-se observar leves mudanças nas perspectivas éticas no que diz respeito ao meio natural. Vários exemplos de destruição, poluição e exaustão dos recursos naturais encontrados no mundo inteiro têm motivado várias discussões e ações sobre as mudanças no comportamento de homens e mulheres do mundo inteiro em relação à natureza. Com isso veio a necessidade gritante do reconhecimento pelos seres humanos de que o homem é parte da natureza e que habita o mesmo oikos2 junto com as plantas, os animais, o solo e as águas, e que o ataque a qualquer um desses elementos resultará na impossibilidade da continuidade de existência dos outros e, por fim, do planeta Terra onde todos estão abrigados.

De acordo com vários pesquisadores, as alterações nas relações com seu meio passam por uma questão ética que, sem si, é passível de mudanças e transformações. O termo ética é utilizado aqui como um dos principais extratos do saber ao lado da ciência, política e da estética. A forma ética de estruturar o saber vai resultar na moral e na religião. Sobre ética e meio ambiente, Michel Serres (1988) diz que:

O século XX foi palco de uma enorme influência da forma de saber da ciência, técnica sobre ética. A forma de saber estético, a arte, também contribui para mudanças de perspectivas na ética. Assim, já não se tolera a adoção de tecnologia de produção que não seja limpa; ademais, a poluição ambiental já é percebida como algo esteticamente deplorável. Por último, o saber político que preside as relações de poder dos homens entre si, resultando em formas específicas de conhecimento como direito, economia, sociologia, antropologia; as ciências da comunicação, da política e da administração, já mostra a adesão à força do contrato ambiental. O contrato ambiental é a maior demonstração de responsabilidade da humanidade para com a

2 Palavra grega da qual deriva o radical eco, de ecologia, que é significado de casa, habitat ou, genericamente,

natureza, na compreensão de que a produção não pode acontecer com o sacrifício ao mundo natural, que, enfim não há oposição entre o mundo natural e o mundo social, antes, sim, complementariedade entre sociedade e natureza, que vem a ser a raiz do

conceito do Contrato Natural (MICHEL SERRES, 1988).

A necessidade de as sociedades proporem o Contrato Natural, do qual nos fala Michel Serres (Id. ibid.), encontra suas origens a partir do final da década de 1950, quando, nos Países avançados, a preocupação com o meio ambiente aparece justamente como uma crítica profunda, feita pelos movimentos de protestos da época; principalmente entre os jovens, quanto ao estilo de vida, comportamentos e valores de uma sociedade consumista e predadora. Otávio Paz em suas aulas no Texas (1969) sugeria que:

Esqueçamos por um momento dos crimes e das burrices que foram cometidas em nome do desenvolvimento, da Rússia comunista à India socialista, da Argentina peronista ao Egito nasserista e vejamos o que acontece nos Estados Unidos e na Europa Ocidental: a destruição do equilíbrio ecológico, a poluição dos espíritos e dos pulmões, as aglomerações e os miasmas nos subúrbios infernais, os estragos psíquicos na adolescência, o abandono dos velhos, a erosão da sensibilidade, a corrupção da imaginação, o aviltamento do Eros, a acumulação do lixo, a exploração do ódio. Diante dessa visão, por que não retroceder e procurar outro modelo de desenvolvimento? Trata-se de uma tarefa urgente que requer ciência, imaginação, sensibilidade, uma tarefa sem precedentes, porque todos os modelos que conhecemos, venham do oeste ou do leste, levam ao desastre (apud REIGOTA, 2002).

No período em que o professor Otávio Paz nos faz esse alerta, o mundo vivia atormentado pela corrida armamentista, pelo crescimento populacional desenfreado e pelo galopante desenvolvimento industrial que a tudo devorava em nome de um tal progresso, e a possibilidade de exaustão dos recursos naturais afetaria a qualidade de vida de grande parte da população mundial e que poderia causar danos irreparáveis no presente e no futuro da humanidade.

Em toda a história da vida do homem, vários ataques contra a natureza provocados pela bandeira do desenvolvimento e do progresso abalaram o mundo, mataram milhões de pessoas e deixaram sequelas indeléveis na terra, nos seres vivos em todos os cantos do planeta. Neste trabalho serão citados apenas alguns exemplos dos mais significativos e que foram a gota d’água para o despertar da necessidade premente e urgente de se construir novas e diferentes relações entre homens e meio ambiente natural.

Por volta de 1952, Londres, na Inglaterra, viu-se recoberta por uma mal cheirosa e acinzentada nuvem de fumaça provocada pela liberação de resíduos industriais, que os londrinos chamaram de smog, e causou a morte de mais de 1.600 pessoas por intoxicação, deixando o mundo inteiro chocado com o acidente. Talvez pelos desígnios divinos ou por um

capricho ou uma vingança da natureza, a capital do País que deu origem à Revolução Industrial sofria agora os transtornos brutais provocados pelos efeitos colaterais do “desenvolvimento”. Pouco tempo depois, na cidade de Minamata, no Japão, um acidente com a manipulação incorreta do mercúrio que fez com que o produto contaminasse a água potável da região, matando de uma só vez uma multidão de japoneses, e durante vários anos seguidos continuaram a nascer crianças com deformações congênitas provocadas por essa catástrofe.

Outro alerta que fez o mundo despertar para os efeitos danosos das inúmeras ações humanas sobre o meio ambiente foi a publicação, em 1962, em Los Angeles, do livro chamado “Primavera silenciosa”, escrito pela jornalista Rachel Carlson, onde ela faz um relato estarrecedor sobre os efeitos contrários da utilização de pesticidas e inseticidas químicos em práticas agrícolas. Esses acontecimentos e tantos outros exemplos de ataques sobre o meio ambiente natural provocados pelo homem moderno, ainda que timidamente e tardiamente acenderam uma luz vermelha de alerta sobre as relações entre o homem e seu universo natural, levando o mundo a perceber a necessidade de se discutir e encontrar maneiras de se instalar no planeta sem exaurir seus recursos tampouco sua capacidade de regeneração. E a educação foi um dos instrumentos escolhidos como condutora desse novo discurso.

Em 1965, a expressão “educação ambiental” é utilizada pela primeira vez em uma conferência sobre educação na Universidade de Keel na Grã-Bretanha. A partir de então, vários documentos e estudos foram elaborados para informar, intermediar, discutir, sugerir e orientar as relações do homem com o meio ambiente com base na educação e orientada para o estabelecimento de limites no uso dos bens naturais, levando-se em consideração e antecipando o que Guatarri (1989) chamou de ecosofia, ou seja, as três dimensões da ecologia: o meio ambiente, as relações sociais e a subjetividade.

Em 1972, foi criado o Clube de Roma, que produz um relatório denominado de “os limites do crescimento econômico” e faz um estudo de diversas ações que deveriam ser desenvolvidas para obter no mundo um equilíbrio global baseado na redução do consumo, tendo em vista as prioridades sociais. Esse documento traz uma alerta sobre as consequências danosas que poderiam acarretar para o planeta, o ritmo frenético de produção das indústrias e o forte estímulo ao consumo de bens industrializados; por esse motivo, foi considerado alarmista e severamente criticado por diferentes correntes de intelectuais, principalmente, os economistas europeus.

Porém, as manifestações a favor do que rezava o Clube de Roma continuaram a acontecer. Ainda, em 1972, foi realizada, em Estocolmo, na Suécia, a I Conferência das

Nações Unidas sobre o Ambiente Humano, na qual foi constituída uma declaração onde está expressa a convicção de que “tanto as gerações presentes, quanto as futuras tenham reconhecidas como direito fundamental a vida num ambiente sadio e não degradado”. A Conferência de Estocolmo fez com que Países menos desenvolvidos se posicionassem sobre a relação de controle do desenvolvimento “versus” controle da poluição, resultando na internacionalização da questão e da proteção ambiental. Neste sentido, cabe destacar o princípio 21 da Declaração de Estocolmo, que determina:

De acordo com a carta das Nações Unidas e com os princípios do Direito Internacional, os Estados têm o direito soberano de explorar seus próprios recursos, de acordo com a política ambiental, e a responsabilidade de assegurar que as atividades levadas a efeito, dentro de sua jurisdição ou de seu controle, não prejudiquem o meio ambiente de outros Estados ou de zonas situadas fora dos limites da jurisdição nacional.

Ainda como resultado da Conferência de Estocolmo, nesse mesmo ano, a ONU criou um organismo denominado de Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente - PNUMA, sediado em Nairóbi, na África, com o objetivo de coordenar movimentos a favor da preservação do meio ambiente ao redor do mundo.

Em resposta às recomendações da Conferência de Estocolmo, a UNESCO promove em Belgrado, na Iugoslávia, o Encontro Internacional de Educação Ambiental – IPEA, quando foram formulados os princípios de que a Educação Ambiental deve ser continuada, multidisciplinar, integrando diferenças regionais voltadas para os interesses nacionais. A Carta de Belgrado, como ficou conhecido o documento produzido pelo encontro, constitui-se em um dos documentos mais lúcidos produzidos naquela época e, ainda hoje, continua sendo um marco conceitual no tratamento das questões ambientais, principalmente no que diz respeito à Educação Ambiental.

A recente declaração das Nações Unidas para a nova ordem econômica internacional atenta para um novo e controverso conceito de desenvolvimento – o que leva em conta a satisfação de necessidades e desejos de todos os cidadãos da terra, pluralismo de sociedades e o balanço e a harmonia entre humanidades e o meio ambiente. O que se busca é a erradicação das causas básicas da pobreza, da fome, do analfabetismo, da poluição, da exploração e da dominação. Não é mais aceitável lidar com esses problemas cruciais de maneira fragmentada.

É absolutamente vital que os cidadãos de todo o mundo insistam a favor de medidas que darão suporte ao tipo de crescimento econômico que não traga repercussão prejudiciais às pessoas, que não diminua de nenhuma maneira as condições de vida e de qualidade do meio ambiente. É necessário encontrar meios de assegurar que nenhuma Nação cresça ou se desenvolva à custa de outra Nação, e que nenhum indivíduo aumente o seu consumo à custa da diminuição do consumo dos outros.

[...] A reforma de processos e sistemas educacionais é central para a constatação dessa nova ética de desenvolvimento e de ordem econômica mundial. Governantes e planejadores podem ordenar mudanças e novas abordagens de desenvolvimento e podem melhorar as condições do mundo, mas tudo isto se constituirá em soluções de curto prazo se a juventude não receber um novo tipo de educação. Isto vai requerer um novo e produtivo relacionamento entre estudantes e professores, entre escola e comunidade, entre o sistema educacional e a sociedade.

As propostas se internacionalizaram e atingiram seu ponto culminante com a realização da Conferência Intergovernamental de Educação Ambiental, realizada em Tbilissi (ex-Rússia), em 1977, quando ficaram definidos os objetivos, as características da Educação Ambiental, assim como as estratégias pertinentes ao plano nacional e internacional. Em razão disso, mais de 70 Países de todos os continentes se fizeram representar. Em pleno Regime Militar, O Brasil não participou do evento, alegando não manter relações diplomáticas com União Soviética. Sobre a omissão do Brasil nesse evento, Marcos Reigota (2001, p. 53) comenta:

O Brasil vivendo a sua fase de glória do período conhecido como o “milagre brasileiro”, busca se distanciar dos outros Países do continente como potência emergente, todos os seus projetos que afetam drasticamente o Meio Ambiente é considerado pelos militares e tecnocratas como sendo um luxo de Países ricos, além ser um atentado à Segurança Nacional.

Na Conferência de Tbilissi e em outra posterior, ocorrida em Moscou, em 1987, foram estabelecidas as orientações e avaliadas as metas e ações concebidas para a efetivação da Educação Ambiental em todas as sociedades do planeta. Hoje, todas as políticas de Educação Ambiental pensadas, desenvolvidas e assumidas pelos Governos, bem como pelas Organizações Não-Governamentais em todo o mundo têm seus fundamentos e orientações inspirados nos princípios determinados pela Conferência de Tbilissi.

Benzer Belgeler