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75 A discussão étnico-racial é um território pantanoso: campo de disputas e tensões, uma verdadeira arena que parece colocar mais questões do que resolvê-las. É preciso que alguns termos estejam minimante definidos de modo a estabelecer as posições discursivas das quais se parte para a abordagem do tema. Não nos interessa um exame exaustivo dos termos e dos possíveis posicionamentos em torno deles, pois somente isso já seria objeto de uma tese. Todavia, o esboço de um campo de compreensão que não pretende exaurir as discussões mostra-se útil para situar o leitor a respeito dos pressupostos assumidos.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais, na discussão situada transversalmente sobre a pluralidade cultural, definem:

O termo “raça”, de uso corriqueiro e banal no cotidiano, vem sendo evitado cada vez mais pelas ciências sociais pelos maus usos a que se prestou. Nas ciências biológicas, raça é a subdivisão de uma espécie, cujos membros mostram com frequência certo número de atributos hereditários. Refere-se ao conjunto de indivíduos cujos caracteres somáticos, tais como a cor da pele, o formato do crânio e do rosto, tipo de cabelo etc., são semelhantes e se transmitem por hereditariedade. O conceito de raça, portanto, assenta-se em conteúdo biológico, e foi utilizado na tentativa de demonstrar uma pretensa relação de superioridade/inferioridade entre grupos humanos. Convém lembrar que o uso do termo “raça” no senso comum é ainda muito difundido, para reafirmação étnica, como é feito comumente por movimentos sociais, ou nos contextos ostensivamente pejorativos que alimentam o racismo e a discriminação.

Por sua vez, o conceito de etnia substitui com vantagens o termo “raça”, já que tem base social e cultural. “Etnia” ou “grupo étnico” designa um grupo social que se diferencia de outros por sua especificidade cultural. Atualmente o conceito de etnia estende-se a todas as minorias que mantêm modos de ser distintos e formações que se distinguem da cultura dominante. Assim, os pertencentes a uma etnia partilham da mesma visão de mundo de uma organização social própria, apresentam manifestações culturais que lhe são características. “Etnicidade” é a condição de pertencer a um grupo étnico. É o caráter ou a qualidade de um grupo étnico que frequentemente se autodenomina comunidade. Já o “etnocentrismo” — tendência de alguém tomar a própria cultura como centro exclusivo de tudo, e de pensar sobre o outro também apenas a partir de seus próprios valores e categorias — muitas vezes dificulta um diálogo intercultural, impedindo o acesso ao inesgotável aprendizado que as diversas culturas oferecem. (BRASIL, 1998, p. 132-133)

Freitas e Vargens (2009) realizam uma análise do discurso, inspirada na obra bakhtiniana, dos termos que constam nos Parâmetros Curriculares Nacionais referentes à pluralidade cultural. O uso das aspas chama a atenção como marca da disputa conceitual e político-ideológica entre os termos “raça” e “etnia”. Há uma adesão ao discurso de desconstrução da miscigenação como processo pacífico, ao mesmo tempo em que se verifica uma celebração das raízes culturais brasileiras. As origens heterogêneas parecem ter fundado uma cultura homogênea que abafa as desigualdades. A ideia de paz associada à pluralidade cultural também impede o reconhecimento das históricas relações injustas. Os autores concluem, portanto, que é preciso trazer a pauta histórica para a discussão, sob pena da redução da argumentação a um relativismo cultural. Sugerem que o reforço ao debate das

76 tensões constitutivas do processo histórico seria mais produtivo do que uma ênfase em raízes. A propósito da raça e do racismo, Hall define (2003, 2013-2ed, p.78-79),

[...] raça é uma construção política e social. É a categoria discursiva em torno da qual se organiza um sistema de poder socioeconômico, de exploração e exclusão – ou seja – o racismo. Contudo, como prática discursiva, o racismo possui uma lógica própria (Hall, 1994). Tenta justificar as diferenças sociais e culturais que legitimam a exclusão racial em termos de distinções genéticas e biológicas, isto é, na natureza. Nesta direção, Gomes (2005) delibera que os termos e conceitos para designar as relações raciais no Brasil refletem o entendimento da sociedade brasileira sobre o tema. Este entendimento é forjado nos encontros e embates entre os movimentos sociais e a produção acadêmica. O conceito de cultura, discutido anteriormente, tem implicações na discussão da raça e do racismo. O histórico de utilização do termo raça está atrelado às concepções biológicas que serviram como esteio para pressuposições de inferioridade de alguns grupos humanos em relação a outros, justificando sua dominação e exploração. O fundamento biológico da divisão de grupos humanos em raças foi desmentido pela própria Biologia, revelando o caráter social e cultural das hierarquizações que sustentam as relações de poder. Atualmente, entende-se que raça diz respeito às significações construídas socialmente, atribuídas a um conjunto de características fenotípicas e/ou culturais de determinados grupos humanos. Esta transição, do fundamento biológico ao cultural, acontece também pelos impactos da compreensão de cultura de Franz Boas, explicitado por Geertz (1978).As concepções discursivas suplantam as biológicas de caráter eugenista. A raça passa a ser compreendida a partir de dimensões sociais e políticas que não correspondem a nenhuma realidade natural. Deste, modo, a identificação racial e seus usos são aprendidos na cultura. Assim, Rufino (1995, p.28) compreende o “negro” como um lugar social:

Para Guerreiro Ramos, pois, negro não é uma raça, nem exatamente uma condição fenotípica, mas um topo lógico, instituído simultaneamente pela cor; pela cultura popular nacional, pela consciência da negritude como valor e pela estética social negra. Um individuo preto de qualquer classe, como também um mulato intelectual ou um branco nacionalista (por exemplo) podem ocupar esse lugar e dele, finalmente, visualizar o verdadeiro Brasil.

Como os usos dos significados se dão em meio a relações de poder historicamente marcadas pela desigualdade, quando se diz “raça” se diz também “racismo”.

O racismo é anterior às explicações científicas que o justificam, sendo estruturante das relações de dominação. Quijano, (2010) explica como o projeto colonial foi, sobretudo, racista. Os traços fenotípicos foram associados às características culturais, mentais e sexuais, convertendo-se num novo critério de dominação. Isto amplia a discussão para além do âmbito

77 acadêmico da teorização biológica da raça e sua replicação pelas ciências sociais, demonstrando sua função social anterior à produção científica sobre o tema. O racismo deve ser compreendido como fator estruturante das relações entre os povos. O racismo no Brasil não se expressa da mesma forma que nos Estados Unidos e na África do Sul, nem tem a ver com as questões europeias de inclusão/exclusão na comunidade, ou de afirmações identitárias de caráter nacionalista. Hofbauer (2006) analisa os conceitos de cultura, raça e identidade, identificando duas grandes linhas de argumentação que configuram a compreensão sobre o racismo brasileiro e sua especificidade, articulando a miscigenação, a negação da identidade negra e a ideologia da democracia racial. As argumentações estariam polarizadas nos grupos a seguir, com os seguintes desdobramentos e limitações:

a) a Abordagem Sociológica: análise da relação entre negros e brancos em relação de desigualdade. Produção de indicadores empíricos que demonstram a situação de opressão e desvantagem da população negra. Produção de categorias identitárias fixas que não refletem sobre a complexidade simbólica da construção identitária racial;

b) a Abordagem Cultural-antropológica: análise da relação entre negros e brancos mediadas pela cultura brasileira onde estas identidades a aparecem como categorias a serem negociadas. Descontextualiza historicamente tais negociações. Há ainda outra polarização, identificada entre os autores Guimarães e Lilian Schwarcz, entre a afirmação da identidade negra ou de identidades em trânsito, respectivamente.

Para Hofbauer (2006), a especificidade do racismo brasileiro é a ideologia do branqueamento. Tal ideologia surge quando, no fim do século XIX, as teorias raciais de condenação à miscigenação afetavam o desenvolvimento econômico e a modernização do Brasil. O autor explica que “Negro” e “branco”, possuíam significados não racializados anteriores ao estabelecimento do entendimento de raças, sendo que “branco” concentrava uma série de significados positivos (bom, puro, inocente, limpo), enquanto negro concentrava seu oposto (mal, corrompido, sujo). A cor da pele neste momento histórico ainda não tinha sido tomada como um sinal diacrítico, não sendo pensada a partir da racialização, mas de um ideário moral-religioso. Assim, na semântica do século XIX, negro passa a se referir à cor da pele que designava os “outros”, de modo a servir ao projeto colonizador. “Negro” e “escravo” tornaram-se sinônimos no sistema colonial. Vemos em Fanon (2008) que a ideologia do branqueamento constitui-se como a possibilidade de mobilidade social, desde que o “negro” abrace o projeto colonial. Daí se explica a variedade de nomeações que buscam apagar o

78 “negro” e valorizar o “branco”. Assim, as referências às variações da cor da pele são metáforas da raça. O discurso do indivíduo dá acesso ao mundo simbólico, e permite que se complexifique a compreensão da construção identitária no Brasil. Considerar o contexto histórico permite que se entenda de que modo as relações raciais compõe o ethos brasileiro.

Silva (2000) afirma que, ao se tratar de identidades étnicas e raciais, o que se põe em jogo é saber e poder. “Raça” é, portanto, reafirmada como um conceito tecido no processo de dominação branca via colonização. O autor analisa que os termos raça e etnia tem se sobreposto, concordando ou entrando em conflito, de modo que a forma de resolver os impasses tem sido considerar “raça” e “etnia” como termos intercambiáveis. Silva (2000) reitera a constituição relacional destas identidades, já abordada neste capítulo e considera que os saberes curriculares estão intrinsecamente ligados com a identidade.

O único consenso parece ser que “raça” se refere às características fenotípicas e “etnia” a traços culturais, como elucida Jamal (2008, p.158)

Enquanto a etnia de uma pessoa é muitas vezes considerada algo positivo, a raça suscita desconfiança. Embora ambos os termos queiram dizer lugar de nascimento e laços de sangue, o termo étnico é geralmente associado à origem geográfica ao passo que raça se associa a herança biológica.

Jamal (2008) alerta ainda para o fato de que a substituição do termo etnia pela expressão raça não significa neutralização do racismo, tendo em vista o colonialismo. Cunha Júnior (1998) entende que raça não é um termo suficientemente amplo para englobar a discussão política que o termo etnia suscitaria. Etnia aparece em oposição à raça, procurando se libertar de compreensões biologizantes. Outros autores como Guimarães (2012) e Gomes (2005) entendem que a discussão da raça seria mais pertinente ao Brasil, uma vez que permite focalizar a desigualdade e o preconceito, que seriam as problemáticas a serem tematizadas.

Assim representações negativas a respeito do grupo negro foram naturalizadas e os seus mecanismos de (re)produção tornados invisíveis. Gomes (2005) considera necessário que a escola esclareça sobre estas diferenciações entre os grupos humanos, que foram recebendo interpretações que as posicionavam de forma desigual. Daí o papel fundamental do ensino sobre África e da compreensão das contribuições das culturas africanas na vida das diversas etnias que compõem o Brasil.

O termo étnico-racial, para Gomes (2005), visa dar a ideia de que são contemplados amplos fatores, conjugando história, cultura e vida dos negros no Brasil. O etnocentrismo, portanto, estaria ligado à compreensão de que o ponto de vista étnico de onde se situa quem fala é melhor do que o daquele que é falado. Dessa forma ele é mais difícil de ser combatido,

79 pois se trata da tendência de julgar a partir dos construtos da própria cultura, profundamente enraizados. O etnocentrismo e o racismo estão em íntima relação e contestar o primeiro certamente enfraquece o segundo.

Esta pesquisadora esclarece que a hierarquização das diferenças entre grupos humanos acontece primeiramente observando a fenotipia, as características físicas e, em associação, as características culturais (a religião, ritmos, hábitos e etc.). Guimarães (2012) realiza profundas discussões sobre o preconceito racial, que no Brasil é muito difícil de compreender, tendo em vista as tentativas de solapar a visibilidade do abismo racial. Isto acontece a partir da contestação do conceito de raça como construto social, uma vez que, como construto biológico, já não se sustenta. Para o autor, numa abordagem sociológica e antropológica o preconceito racial é entendido como modo específico de construir fronteiras a partir de marcas que são entendidas como raciais. Se fosse possível descartar o contexto histórico veríamos como tais marcadores são aleatórios. O preconceito pode ou não vir a se manifestar, mas quando se manifesta adentramos no campo discriminação racial. O Estatuto da Igualdade Racial - Lei nº 12.288/10 (BRASIL, 2010) define discriminação racial ou étnico-racial como “toda distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada em raça, cor, descendência ou origem nacional ou étnica que tenha por objeto anular ou restringir o reconhecimento, gozo ou exercício, em igualdade de condições, de direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos político, econômico, social, cultural ou em qualquer outro campo da vida pública ou privada”. Portanto, a discriminação pode ou não ser derivada do preconceito, mas sempre tem como objetivo e consequência a manutenção de privilégios. Pode ser direta ou indireta. A direta é derivada de ações concreta e a indireta é apenas visível nos indicadores socioeconômicos.

O mito da democracia racial é um discurso que apela para a existência de uma condição de igualdade entre as raças/etnias que compuseram o Brasil, mobilizado sempre que se levantam reflexões sobre a condição atual de desigualdade entre brancos e negros. Tal condição presume uma suposta incapacidade inerente aos grupos que se encontram em desvantagem. A camuflagem da violenta realidade histórica em uma versão idílica e romântica de convivência entre as raças é muito atribuída ao livro “Casa Grande e Senzala” de Gilberto Freyre, obra com grande divulgação nacional e internacional entre os anos 1930 e 1950. A romantização do relacionamento sexual entre brancos europeus e negros indígenas e africanos representa, para Gomes (2005), a ótica do senhor patriarcal. A partir do Movimento Negro e de pesquisadores negros e brancos que denunciam a violência e se posicionam contra o racismo, outros discursos podem ser desvelados. O mito da democracia racial mascara os

80 embates e as tensões ainda presentes na convivência intercultural da sociedade brasileira e funciona como refúgio discursivo das classes dominantes para sustentação de seus privilégios, (GUIMARÃES, 2012). A disputa pela educação emerge como uma destas arenas. Ao longo da história do Movimento Negro, a educação foi pautada como elemento principal na luta pela construção identitária positiva e pela mobilidade social.

Benzer Belgeler