4. YAPIM ÇALIŞMALARI
4.2 GÖRÜNTÜ VE SES KAYDI
Assim, o mito do deus Asclépio começa quando o tessaliano Flégias, rei de Orcômeno21, está em estadia no Peloponeso, residindo especificamente na região de Epidauro, segundo Isilo22. Lá, o rei se encontrava com sua mulher Cleofema e com sua filha, chamada Egle, mas, por conta de sua beleza, ela era mais conhecida pelo nome de Corônis23. O deus Apolo se apaixona por Corônis quando a vê no palácio de Malos, e “desatouΝaΝsuaΝvirgindade,ΝdeitandoΝcomΝamorΝemΝsuaΝcama”24.
21 PAUSANIAS. Description de la Grèce. Livro IX, 36, 1. 22 IG IV², 1, 128, IV.
23 Egle ( )Ν significaΝ literalmenteΝ “resplandecente”,Ν eΝ CorônisΝ ( ί ) pode significar também
guirlanda. Segundo LIDDELL; SCOTT. A Greek-English Lexicon.
Assim, Corônis engravidou de um filho que foi chamado de Asclépio por Apolo, em homenagem a sua mãe25. Secretamente, Apolo ordenou que um corvo, que nesta época era de cor branca, vigiasse Corônis26. Porém, com medo de ser acusada de ter um filho sem pai, ela escondeu de todos que estava grávida e se deitou com um mortal chamado Ísquis, filho de Elato, para legitimar a gravidez27. O corvo informa a traição aos deuses, Zeus fulmina Ísquis com um raio28, e Apolo, furioso, segundo uma versão da história, mata Corônis, segundo outra versão é a deusa Ártemis quem o faz29. Neste momento também, pela raiva, Apolo muda a cor do corvo de branca para negra30.
Quando o corpo de Corônis está sendo consumido pelas chamas na pira funerária, Apolo se arrepende do que fez e não deixa que o seu filho tenha o mesmo destino da mãe. Assim, Apolo retira a criança do ventre do cadáver da mãe, por uma espécie de cesariana divina, e a entrega aos cuidados do centauro Quíron31. Outra versão conta que Corônis deu a luz a Asclépio isolada no monte Mirtion, e que o recém- nascido foi amamentado por uma cabra enquanto era vigiado por um cão32, ou era a própria cadela que o amamentava33. Um pastor, sentido falta de seus animais, saiu a sua procura e encontrou junto deles o pequeno Asclépio. Prontamente, o pastor reconheceu que se tratava de um ser divino por conta da luz que rodeava o menino34.
De uma forma ou de outra, as lendas concordam que Asclépio foi educado por Quíron, o sábio centauro que tem um longo currículo de educação de deuses e heróis como Héracles, Aquiles, Teseu, Jasão, e outros. A filha de Quíron, Ociroe, sábia profetiza, assim que olha o bebê lhe prevê um destino cruel, mas apoteótico. Ela prediz o seguinte futuro:
Acredite maravilhosa criança, [...] acredite pela saúde de todo o mundo. Muitas vezes os mortais te deverão a vida. Teu poder irá até mesmo trazer de novo à vida aos que já a perderam. Mas os deuses ficarão com inveja por te ver operar este prodígio, e o raio de teu avô
25 Um dos epítetos de Asclépio era ἰ ή queΝtambémΝsignificaΝ“resplandecente”.ΝWALTON, A. The
Cult of Asklepios. p. 83.
26 APOLLODORE. Bibliothèque. Livro III, 10, § 3. 27 MEIER. Sonho e ritual de cura. p. 35.
28 HYGINUS. Fabulae. 202.
29 PAUSANIAS. Description de la Grèce. Livro II, 26, 6. 30 APOLLODORE. Bibliothèque. Livro III, 10, § 3. 31 PINDARE. Pythique III.
32 PAUSANIAS. Description de la Grèce. Livro II, 26, 4. 33 FESTUS. De la signification des mots. Livro IX. 34 PAUSANIAS. Description de la Grèce. Livro II, 26, 5.
te impedirá de repiti-lo. E de todo deus que és, morrerás. Tu não serás mais que um corpo inerte. Mas depois, retomando sua imortalidade, voltarás a ser deus, e tu renovarás assim duas vezes o teu destino35. Toda a vida de Asclépio seria, então, marcada por este oráculo.
Desta maneira, de acordo com Apolodoro, foi com o centauro Quíron que Asclépio rapidamente teria aprendido a arte da cirurgia, segundo as palavras de Diodoro,Ν AsclépioΝ eraΝ “deΝ uma inteligência rara, ele se aplicava com ardor à arte de curar,Ν eΝ inventouΝ muitosΝ remédiosΝ salutaresΝ aosΝ homens”36. Ainda em percurso no aprendizado da arte da cura, Asclépio recebeu da poderosa deusa Atena o sangue colhido das veias da Górgona, e através do sangue das veias do lado esquerdo ele poderia trazer a doença aos homens e com o das veias do lado direito ele poderia curá- los37.
Após a sua formação, com Quíron, alguns autores afirmam que Asclépio também teria participado de importantes campanhas no mundo grego antigo, como na expedição dos Argonautas, ao lado de outros heróis como Jasão, Héracles, Castor e Pólux38, e na memorável caçada do javali calidônio39, terrível animal enviado por sua tia Ártemis para devastar os campos da região de Cálidon. Mesmo o imbatível Héracles teve que recorrer aos cuidados de Asclépio, pois, durante os seus doze trabalhos, ele teria se ferido seriamente numa luta com Hipocoon. Em agradecimento por sua cura, Héracles construiu um templo dedicado ao médico amigo40.
Asclépio teria se casado com a deusa Epione, irmã de Héracles41, e desta união foram gerados dois filhos, Podalírio e Macaon, que atuam como médicos importantes na guerra contra Troia42. O próprio Asclépio parece ter mudado decisivamente o desfecho da guerra de Troia quando curou o habilidoso arqueiro Filoctetes que lutou a favor dos
35 OVIDE. Métamorphoses. Livro II, 633-648.
36 DIODORE. Bibliothèque historique. Livro IV, LXXI. 37 APOLLODORE. Bibliothèque. Livro III, 10, § 3.
38 CLEMENTE DE ALEXANDRIA. Stromateis. I, 21, 105. Apud EDELSTEIN, E.; EDELSTEIN, L. Asclepius: A
Collection and Interpretation of the Testimonies. Volume I. p. 36.
39 HYGINUS. Fabulae. CLXXIII, 1.
40 PAUSANIAS. Description de la Grèce. Livro III, 19, 7.
41 HIPOCRATES. Epistulae, 10. Apud EDELSTEIN, E.; EDELSTEIN, L. Asclepius: A Collection and
Interpretation of the Testimonies. Volume I. p. 77.
gregos43. Em algumas variantes do mito, Asclépio teria se envolvido também com certa Aristodamas, e com ela teria tido outro filho chamado Arato44.
Entretanto, segundo o poeta Píndaro, Asclépio teria se deixado levar pela ambição da fama e pelo ouro que sua arte lhe proporcionava curando toda sorte de homens, e não se contentou apenas em curá-los, ele queria também ressuscitá-los45.
Assim, Asclépio foi ordenado a ressuscitar um certo Glauco, e enquanto não o fizesse ele ficaria confinado em uma prisão secreta. Meditando sobre o que poderia fazer, já com seu cajado na mão, uma serpente salta sobre ele. Então, assustado, Asclépio mata a serpente a pauladas com seu cajado. Mais tarde, outra serpente trouxe, em sua boca, uma erva que colocou sobre a cabeça da serpente morta, assim ela a ressuscitou e ambas fugiram. Tendo observado toda a cena, Asclépio usou a mesma erva para ressuscitar Glauco e, deste momento em diante, adotou as serpentes para si46. A partir daí, Asclépio começa a promover uma série de ressurreições, ele ressuscita Canapeu, Licurgo, Tíndaro, Himeneu47 e uma série de outros, sendo o último deles Hipólito, filho de Teseu48.
Então, Hades, o deus dos mortos e do submundo, incomodado com tais ressurreições, vai reclamar perante o tribunal de Zeus, pois o seu império e sua credibilidade estavam diminuindo cada vez mais com a arte de Asclépio49. Os demais deuses, sem dúvida, enciumados, também alegaram que suas honras poderiam ser diminuídas se Asclépio continuasse realizando tais atos50. Irritado pela mudança na ordem natural e divina do universo, Zeus mata Asclépio fulminando-lhe e a sua casa com um raio51, confirmando o terrível oráculo de sua infância.
Furioso com a arbitrária atitude de seu pai, Apolo mata todos os Ciclopes, pois foram eles que deram o poder do raio a Zeus52, e depois se retira para a terra longínqua e misteriosa dos Hiperbóreos53. Zeus não deixou a afronta passar em branco, após a
43 SÓFOCLES. Filoctetes. 1437.
44 PAUSANIAS. Description de la Grèce. Livro II, 10, 3. 45 PINDARE. Pythique III.
46 HYGINUS. Astronomica. II, 14.
47 APOLLODORE. Bibliothèque. Livro III, 10, § 3. 48 ERATÓSTENES. Catasterismi, I, 6.
49 DIODORE. Bibliothèque historique. Livro IV, LXXI. 50 ERATÓSTENES. Catasterismi, I, 6.
51 ERATÓSTENES. Catasterismi, I, 6.
52 APOLLODORE. Bibliothèque. Livro III, 10, § 4. 53 APOLLONIOS. Argonautiques. Canto IV, 616.
reclusão na terra dos Hiperbóreos, Apolo foi condenado a trabalhar durante um ano como criado na casa de um mortal, assim Apolo trabalhou durante um ano no palácio do mortal Admeto54.
DepoisΝdeΝterΝpagadoΝaΝdívida,ΝZeusΝpareceΝterΝseΝcompadecidoΝe,ΝporΝ“amorΝaΝ Apolo”,ΝelevouΝAsclépioΝaosΝcéusΝsobΝaΝforma da constelação de Ofiúco, constelação esta em que, segundo os antigos, as estrelas formam a imagem de Asclépio segurando uma serpente com as mãos55. Parece que com este acontecimento, Asclépio se torna definitivamente um deus, que nunca teria se esquecido dos pobres mortais, pois ele continuava aparecendo em sonhos e curando aos homens, renovando pela segunda vez o seu destino, como predito pela profetiza Ociroe.
Conta-se ainda que Asclépio teria sido, até mesmo, iniciado nos Mistérios de Elêusis, que se constituíam em ritos de iniciação ao culto das deusas agrícolas Deméter e Perséfone. Ocorridos na Ática, os Mistérios eram uma das maiores cerimônias da Grécia Antiga, aconselhava-se que todo grego realizasse a iniciação em Elêusis para ter uma vida melhor. Era em memória de Asclépio que, mesmo após todas as cerimônias de iniciação se concluírem, se voltava a fazer mais sacrifícios, pois o deus teria chegado atrasado para os Mistérios56.
Em versões posteriores do mito do casamento entre Asclépio e Epione, o casal teria tido ainda cinco filhas, Panaceia, Egle, Iaso, Aceso e, a companheira inseparável de Asclépio, Higeia57. E ainda um jovem menino chamado de Telésforo58. Toda a dedicada família de Asclépio auxiliava o deus no processo de cura da humanidade.