relacionadas à memória (e ao esquecimento).
Vimos que as imagens fotográficas muitas vezes aparecem na obra de Sebald como uma forma de explorar questões relacionadas à memória. O uso que as personagens fazem das fotografias revela com clareza o papel da imagem fotográfica como aparato de recordação. Além disso, em Sebald, o encontro com o passado frequentemente se dá como encontro com uma imagem fotográfica. Como vimos, a interrogação sobre as imagens é um aspecto fundamental nas tentativas de reconstrução do passado em que se lançam as personagens.
A obra de Sebald assume assim volta e meia a forma de uma longa interrogação sobre imagens do passado. Daí que o narrador possa ser caracterizado como uma espécie de detetive. O narrador sebaldiano não é a testemunha que experimentou diretamente os fatos, testemunhou, esteve presente; ele se debruça sobre histórias alheias. Em alguns casos, essas histórias de alguma forma resvalam em sua história pessoal; é o caso, em Vertigem, do episódio da fotografia da cigana, em que o narrador parece tomar contato com a evidência aterradora da posição de seus familiares durante a guerra, ou, em Os emigrantes, o modo como apenas na idade adulta o narrador toma conhecimento da história de Paul Bereyter, que foi seu professor primário, o que lhe permite uma certa compreensão, que, como criança, ele não poderia ter, a respeito do modo como as leis raciais haviam afetado seu professor. Em muitos casos, porém, as
165 histórias que o narrador procura recuperar, por vezes através de um grande esforço de investigação, parecem ter com ele pouca ou nenhuma relação.
Se, no entanto, nos livros do autor, a capacidade mnemônica da imagem fotográfica é evocada, ela também é colocada em questão. A presença da imagem fotográfica não é garantia de rememoração. Isso fica especialmente claro no episódio de
Austerlitz em que a personagem depara com uma fotografia sua quando criança: a foto
do menino vestido de pajem, uma das únicas evidências do passado da personagem, não é capaz de despertar nela nenhuma lembrança. A fotografia não é já, em si, memória. Ao contrário, em muitas ocasiões temos a impressão de que a imagem fotográfica está, antes, do lado do esquecimento. Em seu trabalho crítico, Sebald expressa desconfiança em relação ao valor mnemônico da fotografia. Num ensaio sobre Adalbert Stifter e Peter Handke, ele escreve: "A diferença decisiva entre o método do escritor e a técnica da fotografia, com sua simultânea avidez e timidez em face da experiência, consiste no fato de que descrever promove a rememoração, enquanto fotografar promove o esquecimento"280. Roland Barthes e Susan Sontag281 também se referem ao papel da fotografia na produção do esquecimento, mais do que da memória. Em A câmara clara, Barthes afirma que não apenas a fotografia nunca é, em essência, memória, mas na verdade bloqueia a memória, rapidamente se torna uma espécie de contralembrança. Para corroborar sua afirmação, Barthes narra um caso em que amigos contam sobre suas lembranças de infância, enquanto ele mesmo afirma não ter nenhuma, já que sua memória teria sido esvaziada pelas velhas fotografias282.
280
"The decisive difference between the writer's method and the technique of photography, with its simultaneous greed for and timidity in the face of experience, consists in the fact that describing promotes remembering, while photographing promotes forgetting". SEBALD. Die Beschreibung des Unglücks, p. 178 apud LONG. W. G. Sebald: image, archive, modernity, p. 117.
281
Sontag afirma que Proust, em razão de suas exigências no que se refere à memória, considerava que a fotografia, por ser exclusivamente visual, e meramente voluntária, só poderia dar ensejo a uma relação superficial com o passado. Para Proust, segundo Sontag, as fotografias são "não tanto um instrumento da memória como uma invenção dela, ou um substituto". SONTAG. Sobre fotografia, p. 181. No entanto, sabe-se, em especial pelo livro do fotógrafo húngaro Brassaï, que Proust era um apaixonado pela imagem fotográfica. Em Proust e a fotografia, Brassaï revela o papel preponderante da fotografia na vida e na obra do autor francês. Proust, como Brassaï demonstra a partir da narração de numerosos episódios de sua vida e de sua correspondência, era um aficionado pela imagem fotográfica (a ponto de perturbar insistentemente amigos e conhecidos a fim de obter uma fotografia deles). Brassaï procura ainda demonstrar não apenas que muitos dos episódios da Recherche apoiam-se em imagens fotográficas e que o campo semântico da fotografia fornece ao autor um grande número de metáforas e referências, mas também a influência da fotografia na construção das personagens e do ponto de vista narrativo na prosa proustiana e, em especial, no desenvolvimento da própria ideia da memória involuntária. BRASSAÏ. Proust e a fotografia.
282
"Não somente a Foto jamais é, em essência, uma lembrança (cuja expressão gramatical seria o perfeito, ao passo que o tempo da foto é antes o aoristo), mas também ela a bloqueia, torna-se rapidamente uma contralembrança. Certo dia, alguns amigos falaram de suas lembranças de infância; eles
166 Se a fotografia não é já, em si, memória, isso não impede o envolvimento do narrador sebaldiano com as imagens fotográficas, sua tentativa de incluí-las em uma história, de construir, a partir delas, e com elas, uma narrativa que lhe permita algum grau de conhecimento e compreensão do passado. No entanto, como vimos na leitura de
Austerlitz, muitas vezes as imagens parecem falhar em sua função mnemônica.