Ao se debater sobre a educação das relações étnico-raciais e o Parecer CNE/CP 003/2004, indiscutivelmente é preciso saber o que se está entendendo por história e cultura afro-brasileira e africana. Analisando os relatórios, foi possível perceber relatos significativos relacionados particularmente à cultura, a qual será aspecto de reflexão neste tópico.
91 Com a análise dos relatórios foi possível perceber que a questão do desconhecimento sobre a cultura negra está ainda presente no ambiente escolar, mesmo quando se trata de um contexto em que se busca há alguns anos trabalho para repensar as relações étnico-raciais dentro da escola. Esta percepção se dá pelo fato de que temas relacionados à cultura afro-brasileira e africana, quando trabalhados, foram abordados com superficialidade. O discurso da diversidade cultural, segundo o que se pôde observar nos relatórios, está estreitamente ligado às relações étnico-raciais, mas ele aparece em um sentido bastante generalizado.
É importante ressaltar que se trata de educação infantil e somente com a análise dos relatórios não é possível concluir se as professoras tão somente não possuem conhecimentos aprofundados sobre o tema ou se não encontraram formas adequadas para o trazerem para este nível de ensino.
Pelas atividades realizadas durante os projetos, as rotinas ou mesmo atividades esparsas ao longo do ano, foram poucas as escolas ou salas de aula que trabalharam com a cultural afro-brasileira e africana. Das que claramente trataram sobre cultura, é muito oscilante a forma de trabalho, ora buscando certa especificidade, buscando compreensão de aspectos culturais específicos dos diferentes grupos étnico-raciais, ora generalizando e atendo-se apenas às contribuições popularmente conhecidas da população negra para o país.
Exemplo disso é de uma escola que realizou atividades ao longo do ano letivo de 2006. As atividades apontadas no relatório não se referem à uma sala de aula específica, então não se tem conhecimento se todas as atividades foram realizadas por todas as classes ou se cada sala de aula descreveu o que realizou e isso foi compelido em um único documento. De qualquer forma, as atividades evidenciam que o entendimento sobre cultura afro-brasileira e africana não está definido e demonstra pouca profundidade.
Em uma das atividades, que pareceu ser interessante, contida no relatório, intitulada “Histórias que as pessoas contam” os(as) alunos(as) traziam relatos da história de suas famílias falando sobre suas origens ou, como cita o relatório,
“enfatizando o lado étnico, orgulho de sermos como somos”. Não há no relatório a
forma como foi desenvolvida esta atividade com os(as) alunos e, assim, não foi possível saber de que maneira foram debatidas essas histórias em sala de aula, bem como que repercussões causaram. De toda forma, é uma atividade interessante no sentido de se buscar resgatar a memória da família sobre suas origens étnico-raciais, o que poderia
92 auxiliar as professoras em um trabalho com identidade, consciência negra e, claro, cultura negra.
O mesmo relatório, entretanto, descreve adiante uma atividade que trabalhou cultura negra numa perspectiva bastante superficial, que tinha como ponto de partida a festa junina e, com isso, o conhecimento de instrumentos confeccionados pelos negros. Também outra atividade relata o estudo com folclore, com o tema sobre a escravidão, e comidas típicas, como feijoada, farofa, entre outros. Essa escola realizou trabalho no 20 de novembro e, mais uma vez, aparenta-se possuir concepção generalizada da cultura negra, quando apenas cita que trabalhou com a “questão do negro”, sem dizer o que isso significa, e “história da capoeira, instrumento berimbau, samba, artesanato,
esportes”. Não há no relatório o desenvolvimento dessas atividades, bem como a
perspectiva para encaminhar os trabalhos, trazida pela escola, o que dificulta qualquer conclusão, para que esta não se torne precipitada.
Mais uma escola indica a festa junina e o folclore como ponto de partida para trazer o assunto da cultura negra à discussão. Neste caso, em que a escola diz ter relacionado as questões étnico-raciais em outros projetos que a escola desenvolveu durante o ano, o relatório cita que, durante maio e junho, para a festa junina, fez pesquisa com os pais sobre “raças, culturas, alimentos típicos, danças regionais do
país, etc”. Em agosto, pesquisou o folclore de diferentes regiões, “alimentos típicos”, “origem da família dos alunos, brincadeiras antigas, lendas, etc”.
Mais uma vez vemos a cultura afro-brasileira e africana sendo tratada como folclore, como algo do passado e que parece ter ficado por lá, sem influenciar ou se fazer presente hoje, haja vista a forma de trabalho, com brincadeiras antigas e lendas.
Há também experiências positivas, que buscam trazer outro olhar sobre cultura negra, como é o caso de uma sala de aula que relata trabalho com a cultura afro- brasileira e africana e que, dentre as atividades, introduziu discussão sobre a vinda de africanos escravizados para o Brasil, pontuando que essas pessoas, ainda que tenham vindo “para trabalharem como escravos” possuíam “uma cultura”, com “seus
costumes, suas histórias, suas brincadeiras, seus instrumentos musicais, suas músicas, suas lendas, seu jeito de falar (língua - dialetos) seu jeito de se vestir, etc”. Para trazer
aos alunos essa cultura negra, a professora realizou diferentes atividades, as quais iam ao encontro dos objetivos que pretendia alcançar. Fez, assim, entre outras atividades, contação de história, com diferentes livros, tais como “A semente que veio da África”,
93 as crianças “instrumentos musicais da cultura africana”, como o caxixi, ouviu com as crianças um CD com “músicas infantis africanas”, e montou cartaz com palavras em português e sua correspondente na língua africana “ubuntu”.
Vale lembrar, sobre esta última atividade com palavras africanas, o que Gonçalves (1985) já alertava sobre a utilização de palavras incorporadas no português advindas de outras línguas. O autor assinala que é preciso tomar cuidado com a introdução deste tema nos estudos, isto porque professores(as) podem reduzir o assunto à uma listagem de palavras na estrutura lingüística brasileira, o que, no entanto, não é suficiente, pois, como salienta o autor, apoiando-se nos preceitos de Gramsci sobre a linguagem, “incorporar uma palavra ao sistema lingüístico dominante, não significa introduzir mais uma palavra, mas sim, uma ‘concepção de mundo’” (GONÇALVES, 1985, p. 145).
Não parece ter sido esse o objetivo da atividade, mesmo porque as palavras utilizadas não fazem parte do português falado no Brasil, no entanto, vale para não se deixar esquecer que essa cultura negra, manifestada por diferentes maneiras, está atrelada a concepção de mundo e é ela, com suas particularidades, que nós ainda, como colonizados que se buscam identificar como colonizadores, não conseguimos apreender.