Em uma abordagem antropológica sobre o Estado, Das e Poole (2008) e Fassin (2013) vão ao encontro dessa concepção do Estado enquanto prática. Esses autores criticam as abordagens teóricas que tomam o Estado como um bloco homogêneo, núcleo de dominação, de legalidade e racionalidade impermeável ao que vem do seu exterior. Essa crítica se dirige à parte dos estudos de políticas públicas mencionados anteriormente (top-down) e a uma sociologia focada na dominação de classes através do Estado (ALTHUSSER, 1985).
Essa antropologia do Estado oferece instrumentais para a construção do objeto de pesquisa, lançando luz sobre determinadas dimensões para a observação de suas práticas.
Segundo Das e Poole (2008), a pesquisa deve ir buscar nas margens do Estado as práticas cotidianas onde se dão as relações com as populações. As autoras retomam preocupações já presentes em Foucault, como regulações das populações, as disciplinas e o biopoder (FOUCAULT, 1999). Segundo elas, o Estado e suas margens são apreendidos através dos seus artefatos e usos, dentre eles os documentos e as regras formais. Estes artefatos, por sua vez, são objetos de interpretações e usos informais nas práticas dos profissionais do Estado com relação às populações.
As autoras organizaram um conjunto de estudos que fazem etnografias do Estado considerando-o incrustado em práticas, lugares e linguagens. Em vez de buscar a ordem e a racionalidade do Estado, as autoras apontam para a importância de entender o que escapa à regra, o que foge da ordem e da racionalidade, o que exige uma redefinição constante do que é o próprio Estado.
Una antropología de los márgenes ofrece una perspectiva única para comprender al estado, no porque capture prácticas exóticas, sino porque sugiere que dichos márgenes son supuestos necesarios del estado, de la misma forma que la excepción es a la regla (DAS; POOLE, 2008, p. 20).
aspectos das margens do Estado. O primeiro deles está em identificar periferias em relação ao Estado – periferias estas que estão situadas, por exemplo, em países do sul em relação ao mundo europeu. As margens estão também observadas nas fronteiras entre países e se expressam nas questões de imigração, linguagem e culturas nacionais. As margens dizem respeito ainda às periferias sociais em relação ao Estado. Nelas se encontram minorias étnicas, regiões pauperizadas ou sujeitos vulnerabilizados em uma dada sociedade. Logo, pensar periferias impõe identificar lugares, sejam eles territoriais ou sociais.
Outro aspecto a se estudar na relação do Estado e sua margem diz respeito à legibilidade ou ilegibilidade. Legibilidade23 que se faz pela produção de uma “[...] linguagem, um conhecimento e ferramentas teóricas e empíricas para classificar e regular as coletividades” (DAS; POOLE, 2008, p. 31, tradução livre). As autoras acrescentam que estes documentos e procedimentos formais contêm ideias que são incorporadas e postas em prática também pelos cidadãos que utilizam os documentos. Aparecem então as questões de falsificação, por exemplo, além das múltiplas interpretações e usos possíveis para os documentos.
Um terceiro enfoque sobre o Estado e suas margens é o que diz respeito ao disciplinamento dos corpos, à definição do normal/anormal e ao poder sobre a vida. E aqui as referências frequentes são Foucault e Agamben.24 Nessa perspectiva, produzem-se análises em relação às disciplinas, à gestão populacional, à biopolítica, à vida nua e aos estados de exceção.
As margens são vistas como espaços de exceção e também de criatividade. Isto porque o Estado é legível, também, para aqueles que estão nas margens e, assim, os limites do Estado se refazem, não sem resistências, negociações, discordâncias.
Se Das e Poole (2008) atribuem significado amplo para as margens do Estado incluindo nelas territórios, populações, artefatos, linguagem, disciplinas e estados de exceção, tais margens podem ter inúmeros recortes empíricos possíveis.
23 Cf. SCOTT, J. Seeing like a State. New Haven e Londres: Yale University Press, 1998.
24 Ambos os autores desenvolvem conceituações de biopolítica, isto é, o poder sobre a vida. Para Foucault (1999), a biopolítica conecta o poder soberano, a disciplina e a segurança de modo a enredar poderes em todos os âmbitos da vida, do indivíduo à população, tanto nos aspectos biológicos quanto nos sociais. O poder sobre a vida está, por exemplo, no “fazer viver e o deixar morrer”, nas palavras do autor. Para Agamben (2002), os experimentos com judeus, a eutanásia e a vida que não merece ser vivida são dimensões pelas quais o autor demonstra o poder sobre a vida nua. Nesta situação indivíduos são largados à própria existência, como organismos, invisíveis e inexistentes socialmente. São potenciais homini sacer, ou seja, pessoas cuja morte não configura assassínio. Em se tratando das pessoas em situação de rua, é possível fazer correlações com essa perspectiva de análise. Por exemplo, quando se verificam fatos em que pessoas estão expostas à condição de vida nua, tratadas como organismos sem um modo de vida. Isso ocorre, por exemplo, quando lhes é negado atendimento médico nos hospitais, quando tratadas como indigentes sem direito a visitas, ou quando nas ruas são tratadas com violência simplesmente por estarem ocupando um banco de praça, ou mesmo serem mortas sem motivo algum, a não ser sua própria existência.
Já Fassin (2013) sugere um recorte mais específico para observar as práticas do Estado. Ele propõe “mergulhar no coração do Estado” a partir da observação de suas instituições e agentes estatais. O autor argumenta que a capacidade de dominar é moldada constantemente pelas práticas de regulação espacial e social. Além disso, ele considera que não há uma razão do Estado homogênea, mas sim múltiplas razões, as quais podem até mesmo se combinar ou disputar entre si.25 Ou seja, as instituições não estão todas trabalhando num mesmo propósito racional de Estado, elas resistem umas às outras, assim como são as políticas sociais e penais atuando sobre a mesma população – os pobres.
Para acrescentar aqui mais uma abordagem acerca da relação entre instituições de serviços públicos e sua clientela, ressalto o trabalho de Briand e Chapoulie (1993) a respeito da escolarização na França. Os autores partem da perspectiva institucional para argumentar que a escolarização é o resultado da interação entre instituição e a população.
Uma vez que as escolas ofertam vagas e selecionam o público que terá acesso à escolarização, elas criam seu público-alvo. Nessa relação, são as instituições escolares que definem as regras de entrada no ensino, de saída e também de percurso dentro da instituição – isto é, definem a repartição de alunos em classes, em nível de estudo, e o tratamento dado em cada etapa de ensino. Disso se depreende que instituições promovem e administram fluxos de pessoas em percurso tanto entre instituições quanto no interior de um mesmo estabelecimento público. A esse processo denomina-se gestão local da população.
Mas, de toda forma, são os “agentes do Estado” aqueles que fazem a política do Estado e, portanto, o próprio Estado, segundo Fassin (2013). Numa abordagem que pretende mergulhar nas instituições, o autor reúne estudos que dão ênfase ao trabalho de profissionais em organizações burocráticas, os street-level bureaucrats, assim como denominado por Lipsky (1980). São eles os profissionais que estão em posição distante do centro da autoridade institucional. Em geral, são eles quem estão em relação direta com o público atendido. Dentre estes profissionais estão policiais, advogados, professores, assistentes sociais, médicos etc.
Levando-se em conta o nível dos profissionais no interior das instituições, menciono aqui Lipsky (1980) e Hughes (1988).
Os street-level bureaucrats estão em interação com uma clientela, segundo Lipsky
25 Há pelo menos três racionalidades de Estado segundo Fassin (2013): o Estado Social, o Estado Penal e o Estado Liberal na regulação da questão social. A diminuição do Estado Social – entendido como esforço para promover justiça distributiva – deu espaço ao Estado Penal – ao menos nos Estados Unidos – mas nessa combinação há ainda um Estado Liberal, que se desenvolve baseado no individualismo.
(1980). Nesta interação, os profissionais agem com discricionariedade quando precisam estabelecer rotinas de trabalho próprias, ou ainda, quando tomam decisões que não vão ao encontro da autoridade da instituição ou das regras formais da burocracia.26 Para Lipsky (1980) é importante entender como as regras da instituição são experienciadas pelos seus profissionais, a fim de compreender como estes colocam o Estado em ação. Estes burocratas experienciam, por um lado, o dilema de trabalhar mediante as regras e os recursos limitados da instituição e, por outro lado, atender às expectativas da clientela agindo conforme o ideal da profissão. Outro dilema vivenciado por estes burocratas está em cuidar de uma clientela ao mesmo tempo em que estão submetidos a um modelo de trabalho burocrático e impessoal. Para dar apenas um exemplo, um médico pode ter como ideal profissional salvar vidas; contudo, os recursos da instituição o impedem de salvar a todos. Além disso, a clientela pode lhe exigir atenção, porém, mesmo desejando atender a essa expectativa dos pacientes, o médico se vê impedido de oferecer tal atenção uma vez que a organização burocrática lhe exige maior quantidade de atendimentos em prejuízo da qualidade da atenção oferecida ao paciente individual.
São significativos também os trabalhos acerca dos profissionais feitos por David Hughes (1988), quem pesquisou instituições hospitalares e o trabalho de enfermeiras. Ele busca contradizer as afirmações sobre a Enfermagem ser uma profissão subordinada à Medicina. O que Hughes (1988) argumenta é que as enfermeiras, em um hospital, tomam inúmeras decisões sobre o atendimento aos pacientes. Boa parte do trabalho de triagem dos pacientes que chegam a cada setor do hospital é feito por enfermeiras.
O autor descreve o processo de triagem dos pacientes ao longo de todo o processo de trabalho hospitalar – desde a equipe de ambulância, a recepcionista e até mesmo o porteiro faz parte da função de identificar quem será atendido no hospital. Pessoas bêbadas ou com distúrbios mentais sequer entrarão na instituição, enquanto que dentro do hospital as enfermeiras e médicos continuam categorizando os pacientes de modo a encaminhá-los para tal ou tal setor do hospital.
Portanto, faz parte, do trabalho no hospital realizar a categorização dos pacientes, o que resulta em decisões a respeito de qual setor do hospital irá atender qual paciente. Portanto, a
26 Outro aspecto do trabalho discricionário desses burocratas é exercer uma advocacia, isto é, eles exercem função não só de orientar o cliente, mas também o julgam em suas demandas, em sua credibilidade e performance. Segundo o autor há, entre os profissionais, o mito do altruísmo, que faz com que o profissional procure conferir importância a sua profissão mediante um tratamento pessoalizado ou privilegiado a um cliente.
categorização do paciente não é um trabalho meramente técnico e subordinado; ele define o próprio fluxo e ritmo de trabalho interno ao hospital.
Com essa revisão de teorias que levam em conta a relação do Estado, instituições e a população atendida, percebe-se que há diferentes níveis de análise que se complementam. Da dimensão do Estado às discricionariedades dos profissionais, pode-se dizer que a “margem do Estado” se desloca na análise e abarca diversos níveis de relações sociais.
A partir dos exemplos do sistema escolar e do trabalho de enfermagem em um hospital, o que se depreende é que os streets-level burocrats, enquanto agentes do Estado, lidam com fluxos populacionais que chegam até a instituição, e dela fazem uma triagem e categorização, de modo que isso tenha efeitos para o próprio fluxo de trabalho, ou seja, a gestão local da própria instituição.