• Sonuç bulunamadı

2.1.1.Os primeiros sentidos de discurso

Os filósofos pré-socráticos procuravam identificar os elementos que constituíam a natureza do mundo real, do mundo físico, e queriam saber quais os princípios e elementos de que as coisas eram feitas. Aparecem assim os primeiros conceitos e termos de linguagem na tentativa de identificar os seres do mundo.

Somente o poder discursivo da razão, o logos, devia descobrir os princípios e causas das coisas, que o homem vê e toca, isto é, aquilo que conhece pelos sentidos. Esse discurso lógico foi o primeiro sentido de discurso que encontramos na história da filosofia. Sentido a que faz referência o Dicionário de Análise do Discurso de Charaudeau e Maingueneau no verbete discurso: “Noção que já estava em uso na filosofia clássica, na qual, ao conhecimento discursivo, por encadeamento de razões, opunha-se o conhecimento intuitivo. Seu valor era, então, bastante próximo ao do logos grego.”

Discurso, nesse caso, é o mesmo que raciocínio. Maritain assim o define:

o ato pelo qual o espírito, por meio do que já conhece, adquire um conhecimento novo.

Raciocinar é passar de uma coisa intelectualmente apreendida a uma outra coisa intelectualmente apreendida graças à primeira, e progredir deste modo de proposição em proposição a fim de conhecer a verdade inteligível: procedere de uno intelecto ad aliud, ad veritatem intelligibilem cognoscendam.

50

Tal ato implica um movimento progressivo de pensamento ou um discursus (discurso), e por conseguinte uma sucessão de momentos, uma sucessão de “antes” e de “depois”. (Maritain, 1994, p.173)

Esse é também o sentido etimológico, do latim discurrere, que significa, inicialmente, uma ação física, correr em todos os sentidos, e se tornou base para o sentido intelectual, discorrer sobre um tema. No latim tardio discurrere aparece com o sentido de falar, e discursivo do latim escolástico passou para o uso mais amplo atual.

No sentido clássico, portanto, discurso é raciocínio e argumentação, ou passagem de certas proposições, consideradas premissas, para a conclusão, que é a nova proposição, ou novo aspecto do conhecimento. Aristóteles, em seus vários escritos lógicos (Organon) e mesmo na Arte Retórica, distinguiu o silogismo científico, o discurso que constrói a ciência, do silogismo dialético ou entimema, o discurso que apenas persuade e forma opiniões.

Era o início da longa história do conceito de silogismo e da palavra discurso, de origem latina, que iria chegar até nossos dias com suas várias interpretações na análise do discurso, como podemos ver no recente livro organizado por R.L. Baronas, 2007. (Análise do Discurso: apontamentos para uma história da noção-conceito de formação discursiva).

2.1.2 O mito

Com os pré-socráticos, a razão começava a substituir a narrativa mítica encontrada em Homero e Hesíodo. Os mitos, narrados em poemas épicos, foram uma tentativa de explicação do mundo. Hesíodo, na sua Teogonia, narrou o nascimento dos deuses, deuses que eram parte do universo.

Assim ele narrou de maneira poética e mítica a origem dos fenômenos do mundo a partir do Caos primordial. Do Caos, espaço onde tudo estava desorganizado, surgiria o Cosmos, a beleza da ordem do universo.

Essa narrativa poética e mitológica despertou o interesse para o discurso lógico, um estudo racional dos primeiros princípios das coisas ou estudo de uma cosmologia filosófica. Era o nascimento da filosofia, que pretendia investigar e mostrar a identidade do mundo e das coisas.

51 2. 2 A filosofia na Ásia Menor

Muitos filósofos da Jônia, na Ásia Menor, chamados naturalistas, fizeram as primeiras tentativas de identificar os elementos que constituíam as coisas do mundo. Para alguns eram a água (Tales), o ar (Anaxímenes), o indefinido (Anaximandro) que constituíam a natureza das coisas.

2.2.1. Heráclito

Outro célebre filósofo, conhecido por sua obscuridade, foi Heráclito de Éfeso (540-480). Ele afirmava a unidade essencial dos contrários, toda identidade é instável.

Um aspecto da realidade, que mais se destacava para ele, era a contínua mudança, tudo muda e nada permanece. Não há identidade permanente, não podemos entrar duas vezes no mesmo rio. “Descemos e não descemos nos mesmos rios; somos e não somos”. (frag. 49ª, ap. Bornheim, 1993, p.39) A oposição está no íntimo das coisas. O rio só aparentemente é sempre o mesmo, suas águas, porém, são sempre outras, e diferentes. Nós também continuamos a ser, mas não somos mais o que éramos.

Há, contudo, uma harmonia dos contrários, unidade dos opostos, um equilíbrio. O fogo é o símbolo e elemento primordial. Tudo é transformação do fogo.

O fogo está em contínuo movimento e governa todas as coisas, é lei racional, também chamado “Logos”.

Nesse contínuo vir a ser, só a linguagem tenta fixar os momentos dessa eterna mudança. É impossível dizer com palavras o movimento em si, a passagem, a contínua transição das coisas.

Só conseguimos designar o movimento como sucessão de estados fixos. Tentamos dizer “entrar, não entrar, um rio, outro rio”. Expressamos com palavras momentos que, na verdade, estão em mudança. Há uma oposição na ação humana entrar, não-entrar, seguida de outra oposição: o rio é, o rio não é. Essas palavras designam oposições e explicam as mudanças.

A oposição da identidade e a oposição das diferenças explicam as transformações do ser e do não-ser.

As coisas frias tornam-se quentes, as quentes se esfriam, as úmidas secam e as secas ficam úmidas. O rio é o símbolo e imagem desse fluxo contínuo. Ele se move e se

52 transforma, mas continua o mesmo.

A diferença se explica pela relação com a identidade. As águas do rio (identidade) não são sempre as mesmas (diferença). Assim Heráclito explica a identidade e diferença do rio. A oposição significa a diferença e a diferença significa o desacordo.

Heráclito, contudo, afirma a harmonia dos contrários, que não é o fim das oposições, mas sua neutralização. “...harmonia de forças contrárias, como o arco e a lira” (op.cit., frag.51, p.39) “A harmonia invisível é mais forte que a visível” (op.cit., frag. 54, p.39).

Dele ficou um pensamento muito interessante sobre a alma humana. “Mesmo percorrendo todos os caminhos, jamais encontrarás os limites da alma, tão profundo é o seu Logos.” (op.cit., frag. 45, p.38)

Benzer Belgeler