3. BULGULAR
4.4. İstatistiksel Sonuçların Değerlendirilmesi
4.4.2. Frontal sefalometrik radyograflara ait ölçümlerin değerlendirilme
Mesmo com a experiência do telecentro de acesso à internet da Posse de Hip Hop
Lelo Melodia, para muitos jovens e adultos do Guarapes, o mundo real ainda acaba onde as pernas alcançam. Para alguns mais afortunados, o limite vai até o ponto final da linha 59 na praia do forte, passando pelo centro da cidade. A mídia surge, para muitos deles, como única saída para a expansão dos limites reais e das fronteiras simbólicas. E se, do lado de
cá, a mídia assume grande relevância no cotidiano dos cidadãos detentores de direitos que estão acessíveis, para os moradores do Guarapes, o cotidiano midiático torna-se muito maior e pode ser, minimamente, uma das possibilidades de exercer um pouco de sua cidadania, com o direito de se informar e, com o acesso à internet, o poder de exercer também o direito de se comunicar.
Essa é uma das principais razões de aceitarmos o convite de Martin-Barbero ao deslocarmos o eixo do debate dos meios às mediações na análise dos processos de comunicação que se desenvolvem em torno do grupo de jovens da Posse de Hip Hop Lelo Melodia para compreender a articulação entre práticas de comunicação nos movimentos sociais e as diferentes temporalidades e matrizes culturais (Martin-Barbero, 1997).
Uma tendência já propugnada por Certeau, quando enxerga que não é possível qualificar os consumidores pelos produtos midiáticos que escolhem pois, entre eles, “existe o distanciamento mais ou menos grande do uso que se faz deles” (1999, p. 95). E também por Silverstone, quando entende que “[...] a mídia se estende para além do ponto de contato entre os textos midiáticos e seus leitores ou espectadores” (SILVERSTONE, 2002, p. 33).
A compreensão dessa extensão do conceito de mídia é importante para garantir os movimentos necessários para a compreensão dos modos como a mídia se articula com o cotidiano cultural dos jovens da Posse de Hip Hop Lelo Melodia e como essa articulação é recebida e trabalhada por cada um deles. No Guarapes, os usos midiáticos parecem ainda mais extensos. Uma rápida sessão de internet, por exemplo, pode se estender por meses dentro de um pendrive ou um tocador de músicas digitais. A televisão, na maioria das casas, vai muito longe através dos satélites, mas não alcança o bairro ao lado no noticiário local. As notícias do Guarapes se constroem na rua, um noticiário é exibido em cada esquina, na barraca de tapiocas ou na padaria.
Por isso, precisamos analisar muito mais do que o instante em que aqueles jovens acessam um site na internet para qualquer propósito. Precisamos, antes, compreender o que os levou a acessá-lo e, mais ainda, o que farão a partir dali. Precisamos observar também o que acontece nas múltiplas interações vividas pelos jovens no seu cotidiano, as ressignificações e reinterpretações que reconstroem o cenário midiático de cada um. Uma dinâmica que Silverstone chama de mediação e que
implica o movimento de significado de um texto para outro, de um discurso para outro, de um evento para outro. Implica a constante transformação de significados, em grande e pequena escala, importante e desimportante, à medida que textos da mídia e textos sobre a mídia circulam em forma escrita, oral e audiovisual, e à medida que nós, individual e coletivamente, direta e indiretamente, colaboramos para sua produção (SILVERSTONE, 2002, p. 33).
A mediação traz ainda, segundo Sodré (2009), o sentido de fazer a comunicação entre duas partes a partir de diversos níveis de interação, ação que seria fruto de um poder de fazer distinções, de discriminar e que seria fundador de todo o conhecimento. No entanto, o processo comunicacional midiático seria operacionalizado a partir de um tipo específico de mediação, que Sodré chama de “midiatização”:
uma ordem de mediações socialmente realizadas no sentido da comunicação entendida como processo informacional, a reboque de organizações empresariais e com ênfase num tipo particular de interação – a que poderíamos chamar de 'tecno interação' –, caracterizada por uma espécie de prótese tecnológica e mercadológica da realidade sensível, denominada medium (SODRÉ, 2009, p. 21).
No entanto, é preciso perceber as articulações do processo comunicacional que, muitas vezes, produzem noções reducionistas sobre o que seria a mídia. É comum confundir o processo da comunicação com o aparelho que o materializa e não se percebe toda a produção social, tecnológica e comunicacional envolvida no simples ato de ligar o rádio ou conectar-se à internet. Em nosso trabalho, aceitaremos o alerta de Sodré:
Medium, entenda-se bem, não é o dispositivo técnico. […] é o fluxo comunicacional, acoplado a um dispositivo técnico (à base de tinta e papel, espectro hertziano, cabo, computação, etc.) e socialmente produzido pelo mercado capitalista, em tal extensão que o código produtivo pode tornar-se 'ambiência' existencial. Assim, a Internet, não o computador, é medium (SODRÉ, 2009, p. 20).
A midiatização – essa ordem particular de mediação – assume papel central na vida cotidiana das pessoas, vivam elas em contextos locais mais isolados, ou em lugares da globalização com conexão direta com múltiplos contextos. Os jovens do Guarapes, apesar de encontrarem obstáculos maiores para conseguir inserção nos processos comunicacionais contemporâneos, já não podem mais prescindir do acesso às redes e tecnologias de comunicação sob pena de não conseguirem conectar-se a outros processos de mediação, como a educação formal, o mercado de trabalho e, mais importante, todas as articulações em rede que fazem no movimento local, regional e nacional do Hip Hop e nos debates das políticas de juventude. Para Sodré, a centralidade da midiatização na sociedade contemporânea não altera somente o cotidiano das pessoas.
Implica a midiatização, [...] uma qualificação particular da vida, um novo modo de presença do sujeito no mundo ou, pensando-se na classificação aristotélica das formas de vida, um bios específico (SODRÉ, 2009, p. 24)
E não é mais possível pensar a juventude desmidiatizada. A própria Posse de Hip Hop
é fruto de um processo comunicacional que conectou as periferias em todo o mundo, transformou a visão desses jovens sobre os seus problemas e mudou a forma como contavam a sua realidade. Não queremos, com isto, negar a existência de uma indústria
midiática por trás da disseminação desse discurso, ou acreditar que o processo comunicacional seria suficiente para explicar a totalidade do fenômeno.