BÖLÜM 4: ÇEVİRİBİLİMDE YABANCILAŞTIRMA VE YERLİLEŞTİRME
4.2. Friedrich Schleiermacher’in Yabancılaştırma ve Yerlileştirme Yöntemi
Consideramos, com Gómez, a proposta econômica de Hayek como alicerçada em três fundamentos essenciais, quais sejam, pressupostos ontológicos, epistemológicos e morais. A primeira tese ontológica pressupõe a sociedade moderna (industrial capitalista) como uma ordem complexa, não homogênea, diversa e plural, que tem nos indivíduos os seus componentes básicos. Disto implica que todos os agrupamentos, e a sociedade como um todo, na realidade não possuem existência própria, senão como abstrações ou como entidades institucionalizadas. Representam, na acepção de Hayek, figuras de linguagem criadas para referir-se aos indivíduos e às relações entre indivíduos. Assim, ainda que o que chamamos “sociedade”, em toda a sua complexidade, seja composta por milhões de indivíduos, em princípio os mesmos atuam de modo independente uns dos outros, de modo que as interrelações entre estes diversos agentes individuais devam, segundo Hayek, ser consideradas anonimamente, já que cada indivíduo e todos os indivíduos agem em função da busca de satisfazerem suas necessidades e desejos particulares. Eis aqui a presença de um pressuposto smithiano fundamental, ou seja, o de que a sociedade na verdade é guiada pelos desiderativos individuais.
A primeira grande conseqüência da conjugação destes princípios é a total impossibilidade de poder-se vir a conhecer os desejos e necessidades de todos os indivíduos, uma vez que seus desejos pertencem à esfera da subjetividade. Desse modo qualquer tentativa de conhecimento sobre as aspirações individuais serão sempre, no mínimo, parciais e fragmentárias. Todas as deliberações individuais humanas, em termos objetivos, têm em conta suas preferências, conceito este fundamental na teoria econômica liberal. Como seria possível uma ciência econômica que pudesse acessar de modo suficiente, objetivo e relevante acerca das atividades e opções humanas? Hayek soluciona esse problema propondo que, se não podemos acessar os desejos e interesses de cada pessoa, podemos, entretanto, notar as preferências e tendências desses indivíduos, pois os mesmos podem nos informar sobre estas. Em outros termos, os três principais parâmetros para o método econômico em Hayek conjugam a avaliação dos objetivos explícitos das ações particulares, a avaliação das preferências explícitas de acordo com as quais os indivíduos atuam e, por fim, das oportunidades de que dispõem estes indivíduos para alcançarem seus objetivos. Assim, os objetivos, as preferências e as oportunidades constituem os três elementos passíveis de serem acessados concretamente (como informações objetiváveis), de forma que destas três variáveis Hayek erige toda a sua teoria acerca da ciência econômica. Há, todavia, um elemento adicional fundamental, agora encontrado no mercado, e cujo acesso objetivo traduz-se na melhor informação de que podemos dispor, como reflexo das três primeiras: o sistema de preços. Portanto, se conhecemos o sistema de preços, os objetivos dos agentes, a lista de preferências e as oportunidades para tais, poderemos descrever e explicar as ações dos agentes individuais de modo racional. Tornar-se-ia possível, desse modo, estabelecermos: 1) Os desvios involuntários de condutas e as conseqüências dos mesmos; 2) Munidos dessas informações e das leis econômicas, teríamos oportunidade de corrigir, limitar e manipular as conseqüências involuntárias das ações individuais.
Para Gómez, a ciência econômica de Hayek, assim como as ciências sociais para Popper, têm o objetivo de manejar resultados que surgem das conseqüências involuntárias das decisões deliberadas dos agentes econômicos no mercado. Em suas palavras:
Quando Hayek discute sobre o tema vital das preferências, nos diz que não há o que se confundir. Aqui não perguntamos aos agentes individuais os motivos ou razões porque preferem A sobre B, senão que a única pergunta é “A sobre B ou B sobre A?” As razões pelas quais eles prefiram um ao outro são irrelevantes para a teoria econômica. E a razão fundamental é, novamente, que o subjetivo é desconfiável porque está carregado de valores individuais. (Gómez, 2003, p. 23).26
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Percebemos aqui uma notável proximidade dos pressupostos epistemológicos de Hayek com os do behaviorismo
em psicologia. Do mesmo modo que Hayek, Watson sustentou, em 1913, a irrelevância da busca de acesso a conteúdos psicológicos pela esfera da subjetividade: “A Psicologia, da maneira como é vista pelo
Desse modo, as concepções de Hayek estarão sempre assentadas no postulado de que a neutralidade valorativa será sempre garantia de objetividade, sem a qual não há ciência e sem a qual não há economia como ciência.
A segunda tese ontológica é, novamente, a sociedade dita “moderna”. Hayek a concebe como uma ordem espontânea, mas coordenada por dois fatores centrais: 1) Como um conjunto de atos e modos morais de proceder que são o resultado de um longo processo histórico e o qual devemos aceitar, pois que este é condição de sobrevivência da própria sociedade. Sua manutenção é condição para que a ordem não entre, enfim, em colapso; 2) Como um sistema de coordenação das ações econômicas a que Hayek chama mercado.
O mercado é um sistema de coordenação das ações econômicas e um sistema de comunicação gerado pela informação através do sistema de preços (sem o qual, não há mercado). Sua função fundamental é comunicar informações sobre preços, sem as quais torna-se impossível que os agentes individuais atuem de forma exitosa. Como os agentes econômicos individuais têm por característica a busca pela satisfação de suas preferências, e em sendo estas preferências distintas entre os indivíduos, os sistemas de preferências e as ações correspondentes entram em competição, fato pelo qual a competição é, para Hayek, um aspecto essencial e definidor do próprio mercado.
Neste sistema coordenado de atividades competitivas individuais, os agentes individuais são, a princípio, totalmente independentes entre si. Esta independência e a ausência de qualquer coerção sobre as ações dos agentes individuais é o que Hayek chama de liberdade natural do mercado. Ao mesmo tempo, o mercado é, para Hayek, um “grande jogo” em que se torna fundamental o conhecimento e aceitação das regras de seu funcionamento, e o que estabelece um reconhecimento tácito ou formal, entre os agentes, das possibilidades e conseqüências recíprocas das ações promovidas na dinâmica do mercado.
Para Gómez (2003, p. 21), “a competição essencial no mercado de Hayek é, em termos habermasianos, um jogo de racionalidade estratégica. Não basta o que Habermas chama comportamentalista, constitui um ramo puramente objetivo da Ciência Natural. Seu objetivo teórico é a predição e o controle do comportamento. A introspecção não é parte essencial de seus métodos...” (J.B.Watson, “Psychology as the behaviorist views it”. Psycological Review. 20:158-177, 1913, p. 158). E, em seu behaviorismo radical, Skinner dirá: “Para o momento devemos nos contentar, como insiste o behaviorismo metodológico, com a história genética e ambiental da pessoa. O que se observa introspectivamente são certos produtos colaterais destas histórias. (...) Desta maneira, reparamos o maior dano produzido pelo mentalismo. Quando o que uma pessoa faz se atribui ao que sucede dentro dela, põe-se um ponto final à investigação. Para que ‘explicar a explicação’? Durante vinte e cinco séculos nos temos preocupado com sentimentos e a vida mental, mas só muito recentemente se tem mostrado algum interesse por uma análise precisa do papel do ambiente. A ignorância deste papel tem conduzido, em primeiro lugar, a ficções mentais que se tem perpetuado pela prática explicativa a que dá lugar.”(B.F. Skinner, “Las causas del comportamiento”. In: Sobre el conductismo. Barcelona: Fontanella, 1972, p. 8-9). Em outros termos, são as ações humanas que revelam, enquanto comportamentos, o que é cientificamente relevante: os comportamentos observáveis e as probabilidades de suas ocorrências.
de racionalidade instrumental, que sempre é puramente individual, independente dos outros agentes individuais. A presença da competição como essencial faz com que esta racionalidade instrumental seja estratégica e que, por requerer informação, se nutre do fluxo informacional.” Neste “jogo”, o sistema de preços é o que promove toda a informação necessária à sua dinâmica. O mercado gera um sistema de preços que se acomoda apenas mediante o livre jogo da oferta e da procura, sem nenhuma decisão voluntária individual. Segundo Hayek, é dado aos participantes do mercado a possibilidade de maior ou menor êxito em suas ações por meio de atividades calculadas. Entretanto, como tais cálculos estarão sempre sujeitos a incertezas, tornam-se o equivalente a meras apostas e conjecturas que jamais poderão garantir ganhos ou perdas.
Ditos cálculos são parte, portanto, de um grande jogo e cada indivíduo deve tratar de jogá-lo tão bem como seja possível. O êxito de cada ajuste individual às ações dos outros é medido em curto prazo pelo êxito econômico de sua ação específica; em longo prazo, por sua sobrevida e o desenvolvimento de si mesmo e do grupo a que pertence, digamos, da instituição, e da sociedade como um todo. (Gómez, 2003, p. 22).
O processo de auto-regulação de preços proposto por Hayek, que redunda num mercado capaz de coordenar-se a si e a todas as relações humanas sem, contudo, poder ser considerado um sujeito por definição — já que, embora onipresente e onipotente, é espontâneo e “neutro” (algo semelhante à máxima de que “a justiça é cega”, como sinal de sua suposta “neutralidade”) —, representa, em relação à suposta coordenação do mercado pela “mão invisível” da Providência de Smith, uma solução um tanto quanto mais plausível. O sujeito divino de Smith, em Hayek, é o próprio sistema auto-regulador de preços originado pelo jogo da oferta e da procura. Gómez faz notar, nesse sentido, que embora a elaboração de Hayek nos pareça, a princípio, mais consistente que o recurso metafísico de Smith, ela na verdade revela-se mais misteriosa que a do seu antecessor. Isso porque Smith se via obrigado a reconhecer a necessidade de que houvesse um sujeito para o mercado, ainda que recorrendo ao sobrenatural. Em Hayek, contudo, a solução é, no mínimo, paradoxal:
Como se produz este ajuste [de preços]? Porque se produz esse ajuste? Tudo parece suceder pela ação de uma mão invisível... Contudo, agora é uma mão invisível, mas não é de Deus, nem de nada. Tudo se dispõe como se houvesse sido feito de acordo com um plano único produzido por uma omnisciência oculta no preço, ainda que nada, na verdade, o haja planejado. Soa paradoxal que Hayek sustente, por um lado, que não há omnisciência humana, mas sim, que esta exista nos preços. Isto é, quiçá, o cúmulo do misterioso. Mais paradoxal ainda é que, para Hayek, o intento de resolver tal mistério é pretender ser omniciente. (Gómez, 2003, p. 22 – itálicos nossos).
Dito de modo mais claro, a omnisciência aparece quando se fala dos preços, pois só existe omnisciência no mercado como um todo, mas desaparece quando se fala dos seres humanos, de acordo como isso se apresente conveniente ao enfoque de Hayek. As leis da
economia neoliberal pressupõem, portanto, um ajuste de preços sem, contudo, explicá-lo (Comblin, 2001, p. 42). Assim, Hayek fala da existência de pressupostos que só se tornam aceitáveis sob a condição de que as leis econômicas sejam integralmente observadas e cumpridas livremente. Ou seja, o êxito no ajuste dos preços depende a priori do êxito do funcionamento do próprio mercado. Curiosamente, um elemento não só é condição para o outro, mas ambos revelam-se uma única e mesma coisa. Mas a explicação para a causa eficiente de seu(s) ajuste(s), defenderá Hayek, são essencialmente incognoscíveis. Desses ajustes dependerá o equilíbrio do mercado, verdadeira “obsessão do pensamento único” liberal, por sua vez um dos legados newtonianos de Adam Smith para a posteridade do liberalismo, ou, nas palavras de Passet, “palavra-chave do pensamento relojoeiro” neoliberal (Passet, 2002, p. 64).
De modo consistente com uma cosmovisão newtoniana dos fenômenos físicos “universais” e suas leis do equilíbrio, o darwinismo será aplicado à economia e às sociedades humanas, já que o mercado, por si mesmo, carece de finalidades propriamente racionais, de modo que não podemos também saber para onde caminha uma vez que obedece a uma ordem espontânea de desenvolvimento. O único fato passível de ser antecipado é sua tendência natural à expansão, o que se revelará, inclusive, em sua crescente tendência à globalização.
Em termos epistemológicos, o primeiro pressuposto de todo o constructo teórico neoliberal é, portanto, a impossibilidade de omnisciência, até aqui bem evidenciada. Em toda a obra de Hayek notaremos que o homem em geral, em particular o economista que pretenda planificar e o político que pretenda tomar uma decisão política, padecem de uma espécie de “auto-engano”. O auto-engano consiste em tomar decisões supondo-as seguras, com grandes chances de não se falhar e se obter êxitos. Mas, pelo pressuposto da não-omnisciência, torna-se impossível a planificação total, já que é impossível o conhecimento total (Gómez, 2003, p.23).
Quem lê as obras de Hayek, Friedman e Popper, verá que a não-ominisciência é sempre o contra-argumento ao que designam como incapacidade humana de planificar o todo. Se não podemos planificar o todo, justifica-se a negação a qualquer planificação, em gênero e grau:
Mas quem pretende a planificação total? Que queremos dizer com planificação total? Ademais, que tipo de conhecimento se requer para planificar? Requer um conhecimento total da realidade para a qual se queira estabelecer um determinado plano? Não temos que planificá-lo totalmente. Temos meramente que saber o que é relevante dentro do todo. Se o relevante requer um número infinito de variáveis ou de um número finito, mas dificilmente manipulável de variáveis, algumas das quais estariam muito inter-relacionadas entre si, então poderíamos tomar como verdadeiro que o argumento da não-omnisciência seria importante. (Gómez, 2003, p. 23-24).
Creio que aqui há um uso ambíguo da linguagem na qual haveria que se perguntar o que queremos significar por planificação total, de tal maneira que a resposta não seja trivialmente ridícula. O importante é que já que não somos omniscientes, devemos saber quais são os limites de nosso conhecimento e se esses limites nos impedem de planificar nossas satisfações. É aqui onde os grandes sistemas econômicos, capitalismo e comunismo, diferem. Os economistas soviéticos das décadas de 1950 e 60 criam que se poderia realizar certo tipo de planificação, muito geral, mas não total no ridículo sentido hayekiano-popperiano, donde o grande problema foi justamente a eleição das variáveis relevantes e a possibilidade de manipulação efetiva dessas variáveis. Mais claramente: quando se fala de planificação global, não se pretende planificar tudo em seus mínimos detalhes, o que requereria um conhecimento total. Trata-se de não permitir que seja o mercado, por si mesmo, o que coordene tudo, pois que, se aduz, ele leva a desigualdades, à pobreza extrema de muitos, ao enriquecimento de alguns poucos, em suma, à injustiça social. (Gómez, 2003, idem).
Além do princípio da não-omnisciência, o segundo pressuposto epistemológico diz respeito ao papel da racionalidade. Aqui, entretanto, atuar racionalmente implica em se aceitar três pressupostos: 1) que os agentes individuais econômicos atuam racionalmente; 2) atuar racionalmente é visar maximizar as chances de atingir nossos objetivos (no mercado, isso significa buscar maximizar as chances de obtenção de ganhos); 3) entender o mercado como um sistema auto-coordenado, e que, portanto, comportar-se racionalmente é agir, em última instância, de acordo com suas leis e dinâmica.
Denota-se daqui que Hayek e os demais autores neoliberais sustentam uma versão extrema de racionalidade instrumental. Em concordância com Habermas (1987), não defendemos, contudo, o rechaço da chamada racionalidade instrumental, com a qual estamos continuamente operando cotidianamente. Trata-se, isso sim, de se criticar a redução da razão à mera racionalidade instrumental em que a racionalidade humana restringe-se apenas à razão meios-fins.27 Mais que isso, os pensadores neoliberais proporão que os fins mesmos estão para além do âmbito de qualquer discussão racional. Ou seja, os fins sequer são discutíveis, nem são adotados através de argumentos. São, como diz Popper, “uma questão pré-racional e nos são dados por tradição” (Popper, apud Gómez, 2003, p. 24).
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Entendemos que Habermas não se posiciona contra a racionalidade instrumental da ciência e da técnica em si mesmas, na medida em que essas são necessárias a autoconservação humana (um entendimento próximo ao que Heller [1997, p. 17-41] propõe ao conceituar a categoria de vida cotidiana — comparativamente à dimensão da vida não-cotidiana —, como espontânea e prático-utilitária por tratar-se da dimensão da consecução da própria vida, em
termos individuais e coletivos). Habermas considera que o trabalho, pela sua essência de dominar a natureza para pô-la a serviço do homem, possui uma racionalidade do mesmo tipo que a racionalidade da ciência e da técnica, isto é, uma racionalidade que consiste na organização e na escolha adequada de meios para atingir determinados fins. Para ele, a ciência e a técnica ampliam as possibilidades humanas, libertando o homem do jugo das necessidades materiais, sendo o desenvolvimento da espécie humana resultado de um processo histórico de desenvolvimento tecnológico, institucional e cultural, processos que são interdependentes. Entretanto, Habermas se posicionará radicalmente contra a universalização da racionalidade da ciência e da técnica, isto é, contra a penetração da racionalidade científica, instrumental, restrita aos meios-fins, em esferas de decisão onde deveria imperar um outro
tipo de racionalidade: a racionalidade comunicativa (HABERMAS, 1987). Entendemos, ainda, que Habermas fornece pistas convergentes para com o entendimento do processo de reificação (cf. LUKÁCS, 1974, p. 97-126), ao salientar a inversão do sentido meios-fins para a humanização em meios-fins para a produtividade.
Assim, esta forma de se proceder toma toda intenção de transformação estrutural profunda em algo irracional. É irracional pretender modificar o jogo, mas dentro do jogo se podem fazer inovações graduais ainda que não se possam discutir racionalmente os objetivos do “grande jogo”, que devem ser aceitos por tradição. Isto equivale a dizer que, do mesmo modo que quando participamos de um jogo não discutimos as regras do mesmo, o sistema econômico está para além da discussão de suas regras, e pretender discuti-lo torna-se uma pretensão irracional. Seria o equivalente a proceder contra a natureza, porque seria proceder contra um processo natural-evolutivo de caráter darwiniano que redundou no atual estado de coisas (sempre o mais aprimorado possível).
Em termos científicos essa epistemologia limita a racionalidade humana em ciências sociais e em economia a uma racionalidade que não visa e não deve discutir finalidades, mas aos processos em-si mesmos considerados. “Por que o ganho sobre qualquer outro objetivo? Por que o produto interno bruto e não a igualdade? Isso está fora, não se discute.” (Gómez, 2003, p.25).
Por fim, para Hayek o próprio do ser humano é não ser racional, mas sim, sociável. A razão é, antes, um estado contingente do fato de nós, seres sociais, necessitarmos do semelhante para sobrevivermos. Tornamo-nos, assim, racional-instrumentais por tal necessidade, o que faz com que a racionalidade em Hayek não seja um pressuposto ontológico. Pelo fato de o homem não ser essencialmente racional, mas prático e guiado por desejos, depreende-se que tal racionalidade resulta de um desenvolvimento que desemboca num sistema de divisão social do trabalho que requer, para seu melhor funcionamento, de uma atividade guiada pela intenção de maximizar a consecução de nossos objetivos. Nesse sentido, em nenhum âmbito isso se realiza mais plenamente que no mercado. O mercado torna-se, assim, o locus por excelência da racionalidade (lembremos: racionalidade que para Hayek é sempre instrumental). Proceder de acordo com essa racionalidade possibilita sobreviver e melhorar nossas condições de vida, mas não garante isso plenamente, uma vez que o mercado é um jogo no qual, como em qualquer jogo, ainda que se observem suas regras, pode-se perder.
Entendemos aqui porque o mercado é o lugar absoluto da racionalidade, não só porque é o lugar de sua realização suprema, mas também porque não tem que prestar contas a nada. Ele não só é um sistema de referência; ele é a referência de todos os sistemas.
Assim, podemos estabelecer já alguns parâmetros que caracterizam o mercado para o ultraliberalismo:
1. Trata-se de um sistema de comunicação produzido evolutivamente, de maneira não-intencional;
3. Trata-se de uma ordem abstrata, invisível e incognoscível em sua totalidade ou em parte, já que...
4. Pode-se detectar nele, ainda que parcialmente, fenômenos e leis que se revelam inexoráveis.
Eis porque Hayek se mostra cético em relação a planejamentos econômicos que ultrapassem o âmbito das ações dos agentes individuais. Somente a microeconomia é passível de alguma precisão científica, ainda que com inúmeras limitações.