No transcorrer de quase toda a década de 1920, a eugenia apre- sentou várias propostas educadoras, sob a rubrica de “eugenia pre- ventiva”. A maior parte desses textos voltava -se para as camadas médias residentes nos espaços metropolitanos e buscava combinar conhecimentos científicos recentes com as propostas potencial- mente moralizadoras esboçadas no fim do século anterior, sendo os eugenistas mais mencionados o próprio Galton, o médico francês Paul Good e o fisiologista italiano Paulo Mantegazza.
Apesar da profusão de obras disseminadoras da eugenia, ne- nhum autor ganhou mais destaque que o médico paulista Renato Kehl. Boa parte de seus escritos revela o empenho divulgador dos conselhos eugenistas, sendo o mais notável deles, e também o me- nos explorado pelos pesquisadores, a Bíblia da saúde (Kehl, 1926).
O eugenismo preventivo de Kehl implicou a combinação de três disciplinas básicas: a higiene, que para ele versava sobre as práticas
individuais de manutenção da saúde, a medicina social, que abor- dava a saúde na sociedade e pouco se diferenciava do sanitarismo, e, finalmente, a eugenia, explicada ao leitor nos seguintes termos:
Criada por Francis Galton, é uma verdadeira ciência -religião. Har- moniza e concretiza ideias e intuitos regeneradores, esforçando -se para a formação de caracteres ótimos, transmissíveis por herança, concorrendo ao mesmo tempo, para a eliminação das taras e dege- nerações. (Kehl, 1926, p.16 -7)
Além disso, a aceitação e prática dos princípios eugenistas foram avaliadas como ato patriótico no qual o indivíduo teria de despojar -se de qualquer egoísmo. Como membro de uma socie- dade, seus desejos e sentimentos íntimos deveriam ser colocados de lado para a recuperação ou manutenção da saúde e da moral, ele- mentos essenciais para a obtenção de um cônjuge tão saudável quanto ele e a geração de uma prole vigorosa que viabilizasse o pro- gresso da sociedade e a melhoria da espécie humana. Em sentido oposto, deixar -se vencer pelos vícios e adoecer constituía -se numa ação contra a pátria, já que o “déficit da saúde” resultava em prejuí zos para o indivíduo, para a família e para a sociedade, que teria de medicá -lo e sustentá -lo.
Livrar -se das “sujeiras” acumuladas deveria ser um compro- misso coletivo do homem do século XX. O autor referiu -se tanto às “sujeiras do passado”, exemplificadas pelas biografias de alguns santos católicos, como também às “sujeiras do presente”, emble- matizadas pelas enfermidades e pela vida moralmente corrupta nos centros urbanos mais expressivos.
Seus ensinamentos foram também denominados como homi- nicultura, isto é, a regulação médico -eugenística da existência hu- mana, do nascimento à morte. Kehl explicou que a natureza era sinônimo de perfeição e que Adão, antes da queda, era o tipo hu- mano perfeito (Kehl, p.429).
Nesse encaminhamento, Kehl explicou as características das doenças que se manifestavam no ambiente rural, território de
“taras ancestrais”. O combate a tais males deveria se dar sobretudo com a prática de atitudes preconizadas pela ciência moderna, como a periodicidade anual de exames médicos, banhos diários com água e sabão, escovação dos dentes, consumo de águas puras, lavagem dos alimentos, casas de tijolo, fossas sanitárias, combate aos insetos e roedores, o uso de calçados quando na roça, o gosto pelo trabalho intenso, mas também pelo repouso, buscando a hospitalização quando o indivíduo se sentisse adoentado. Sobretudo, a prática da sobriedade, síntese perfeita dos três valores repetidos insistente- mente pelos discípulos de Galton: saúde, paz e trabalho.
Foi no enfoque do ambiente rural que ele, como praticamente todos os eugenistas nacionais e estrangeiros, definiu o papel femi- nino: a geração de filhos eugenicamente perfeitos. Essa tarefa, em- preendida pela mulher com o apoio dos professores e dos médicos, nunca com os conselhos dos charlatães vendedores de tisanas ou de sacerdotes, teria suporte no conhecimento básico das doenças tí- picas dos infantes, na prática da higiene e da administração de re- médios caseiros prescritos pelos especialistas. E também na certeza de que a beleza e força da criança não eram sinônimos de rosto bo- nito e de acúmulo de gordura, mas sim da harmonia das partes do corpo, da robustez e da capacidade de desempenho normal das funções típicas dos infantes.
Se o Brasil foi definido como “o paraíso dos degenerados”, o conservadorismo detectado não só nas perorações dos médicos, mas de boa parte da elite intelectual nacional das primeiras décadas do século passado, tinha como principal foco a modernidade repre- sentada pelas metrópoles. E sobre isso Kehl delongou -se em seu livro, pois seu leitor -alvo eram os habitantes concentrados nas grandes cidades.
Assim, se o mundo rural era assolado por múltiplas enfermidades imputadas ao baixo nível de instrução da população, a proliferação das doenças nos espaços urbanos de maior porte foi justificada pela decadência moral de seus habitantes. A modernidade, nesse encami- nhamento, era criticada como estágio maior da civilização e também o zênite de sua degeneração.
No âmbito da cidade grande, tudo inspirava a crítica do euge- nista. O marasmo e a poeira das ruas, as calçadas infectadas pelos escarros, os ambientes insalubres, pois pouco ventilados, dos bares e casas de espetáculos e a presença de animais no recinto doméstico favoreciam a ação de micróbios mortais. Da mesma forma, os há- bitos urbanos eram recriminados, pois disseminadores das doenças e do enfraquecimento do corpo, coagindo o médico a ver a presença fatal dos “infinitamente pequenos” em praticamente tudo, conde- nando à impureza biológica e/ou moral o beijo, o intercurso sexual, o aperto de mão, a fala próxima ao rosto do interlocutor, o bocal dos telefones, o uso de palitos para limpar as cavidades dentárias, o ca- samento reprovável, a substituição do leite materno pelo leite con- densado, os anúncios de remédios estampados nas páginas dos jornais, a recorrência às bebidas alcoólicas, mesmo em doses mode- radas, o tabaco e os “vícios elegantes”, como a “pílula da alegria” (ópio), a morfina e a cocaína.4
O eugenista debruçou -se detidamente em dois fenômenos por ele tidos como marcas da degeneração física e moral do tempo mo- derno: o Carnaval e a moda, especialmente a feminina. Para ele, o Carnaval era um tempo de corrupção moral que permitia o ajun- tamento das pessoas, as relações sexuais não sancionadas e a pro- liferação das enfermidades, devendo ser rejeitado por todos. Da mesma forma, o traje feminino em voga foi criticado porque “baixo em cima e alto embaixo”, permitindo que as mulheres se apresen- tassem “seminuas” em público, comprimindo os órgãos devido ao uso de espartilhos e, ainda mais, usando calçados com saltos de até dez centímetros para atrair o olhar masculino e também dificultar o andar.
Para Kehl, o vestuário higiênico deveria agasalhar pudicamente o corpo, sem, no entanto impedir a perspiração cutânea e ser sufi- cientemente largo para não constranger a livre circulação sanguínea
4. Kehl não se referiu à diamba -ditiramba – maconha –, considerada então droga consumida exclusivamente pelos negros e pelos brancos mais pobres, provavel- mente porque estes não eram os leitores -alvo de seu livro.
e a respiração e também não tolher o movimento do corpo. Ainda segundo ele, as “inovações absurdas” deveriam ser substituídas pela moda imperante na Antiguidade ou pela nova maneira de se trajar dos “americanos do norte, caracterizada pelas roupas largas, tecidos finos e uso de sandálias” (Kehl, 1926, p.149).
A não observância “moral e sanitária” das regras da eugenia era responsável pela disseminação das “doenças sociais”, apontadas como sendo a sífilis, a tuberculose e o alcoolismo. Essa tríade de pa- tologias, especialmente a sífilis, o “cupim da raça”, era tida como res- ponsável por predispor o corpo e o espírito para as demais doenças, condenando o contaminado e seus descendentes à degeneração.
Corrigir os comportamentos era o recurso admitido por Kehl para a regeneração da raça. Nesse sentido, os nubentes deveriam não só apresentar atestados de saúde para celebrar o casamento como também proceder a uma investigação sobre o caráter moral do futuro cônjuge, o que implicava, dentre outros aspectos, cer- tificar -se sobre a correção do comportamento, o apego à educação física e o gosto por desfrutar o período de férias no campo.