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Como vimos, o tema ‘culinária’ permeia toda a unidade didática, sendo objeto para a motivação, para a fase global, a análise, reflexão e síntese dos conteúdos, sua verificação e recuperação, além da avaliação final.

Em todas as unidades, a receita aparece como texto para a fase global – será objeto de análise e reflexão, mas também o prato a ser elaborado durante a aula. O material autêntico selecionado é baseado nos objetivos propostos para cada unidade, isto é, com base nas competências que se quer trabalhar em cada percurso didático.

Para tanto, procuramos seguir um tema: cada unidade didática, além dos objetivos e conteúdos, foi pensada para fornecer informações e promover o conhecimento das diferentes realidades culinárias e culturais dentro do território italiano, contrapô-las à realidade brasileira ou à noção que temos da cultura italiana. Assim, esforçamo-nos em selecionar receitas características que, de certa maneira,

são já ligadas à noção que se faz do país em solo brasileiro.

Cada encontro prevê a preparação de dois pratos53: um primo e um secondo piatto. Quando chegam ao curso, os alunos são recepcionados com um antipasto (de

fácil preparação) feito pelo professor (e ajudantes). Assim, durante as fases de motivação e global, os alunos já ‘degustam’ um pouco da cultura italiana, totalmente envolvidos na experiência. Nessa fase o professor incentiva a descoberta do texto, dos elementos a serem analisados, mas pouco interfere na forma. Por sentirem-se já parte do acontecimento, naturalmente começam a usar a língua italiana para as discussões com os companheiros e com o todo o grupo nas atividades propostas.

Após a fase global, a análise e reflexão de algum aspecto apresentado no texto (geralmente ligado ao preparo do primo piatto), inicia-se a preparação dos pratos. Todos os estudantes participam da execução das receitas: o professor divulga o cardápio do dia e distribui as tarefas entre os convivas. A ‘classe’ é dividida em dois grupos que farão ao mesmo tempo os dois pratos.

Durante a confecção dos pratos, os alunos são convidados a utilizar as estruturas analisadas e aprendidas na fase anterior, recordar palavras que dizem respeito ao setor culinário aprendidas na fase de motivação, além de interagir com os companheiros em língua italiana. Nesse momento a pratica oral é um pouco mais controlada, e o professor faz correções não só quando é requisitado, mas quando vê que o ato comunicativo está prejudicado em língua italiana, isto é, a conversação está prestes a ser em língua portuguesa. Ainda que aqui adote uma postura um pouco diferente, continua a ter um papel coadjuvante no evento lingüístico.

A fase de preparação da comida se revela um momento para o contato com a linguagem do setor culinário, ou seja, o léxico, a estrutura textual da receita, etc, mas também um momento de falar da vida quotidiana, de conhecer os companheiros, de conviver com a cultura italiana, objetivos primeiros de nossa proposta.

53 Exceto o primeiro encontro em que são preparados os Tortellini. A receita é difícil, requer um

Terminada a fase de preparação, enquanto esperam a comida, os alunos são submetidos a outras atividades de reemprego, seja oral ou escrito, em que continuam a praticar as estruturas apresentadas durante a aula.

A refeição é acompanhada de uma conversa sobre o menu do dia, suas características e relevância na cultura italiana. O professor conta fatos interessantes e importantes da receita, qual região da Itália o prepara, e abre espaço para discussões. Embora os pratos preparados no curso fossem relativamente famosos, as conversas trazem a tona uma Itália desconhecida.

Ao final do encontro os alunos recebem o dessert (também preparado antecipadamente pelo professor e ajudantes, e que seguia o tema da unidade didática), fazem-se novos grupos de trabalho para lavar a louça e pôr a cozinha em ordem, e assim terminar o encontro.

Ressaltamos que a aula não termina aqui e que os alunos são convidados a escrever um texto para a aula seguinte, praticando o que foi visto em classe, seja do ponto de vista formal, seja do ponto de vista comunicativo.

Assim, temos a idealização do curso em sua completude, dividido por unidades didáticas que visam a formação lingüística e sociolingüística do aluno, o desenvolvimento das habilidades oral, escrita, de leitura e de compreensão auditiva, além da interação entre os participantes e a cultura italiana. Os conteúdos são baseados nas competências comunicativas que se deseja para um aluno nível A1/ A2 e o curso é baseado na realização de tarefas, como proposto no Quadro. Essas tarefas são de caráter comunicativo, uma vez que pede que os alunos compreendam, negociem, e exprimam significados para alcançar um objetivo comunicativo (Quadro, 2002: 192) e funcional: a realização do prato. A cozinha é uma grande aliada no processo de ensino-aprendizagem, uma vez que não se configura como um local para tal atividade, eliminando a ansiedade que se estabelece em sala de aula e contribuindo para que o aluno desenvolva tarefas como cozinhar e conversar,

atividades por ele realizadas quotidianamente.

A execução do prato e a sua degustação se configuram como a realização bem sucedida do ato comunicativo, mostrando que o aluno é capaz de realizar as atividades ao qual está habituado em qualquer língua e o resultado é a ampliação do conhecimento e de sua visão de mundo.

Capítulo 4

Curso experimental de italiano por meio da culinária

O curso foi idealizado para um público de no máximo dez alunos, um número relativamente pequeno quando pensamos em um curso de línguas, mas expressivo dentro de uma cozinha, em que todos devem interagir para a realização das atividades comunicativas em italiano e para a execução do prato.

Levamos a idéia a várias escolas, mas o nosso principal problema foi arrumar um espaço, uma cozinha que comportasse o número de alunos, que fosse capaz de integrar ambientes e criar o clima almejado para o curso. Encontramos esse espaço no salão de festa do prédio em que moramos e, com o apoio de alunos e professores das instituições em que lecionamos, conseguimos a adesão de 8 (oito) alunos54 para a

experiência.

Esses alunos, de faixa etária bastante heterogênea – de 20 a 40 anos – e que não possuíam nenhum conhecimento prévio da língua (embora um saber inconsciente parecia existir), participaram de seis encontros, de 4 (quatro) horas cada, perfazendo um total de 24 horas. As reuniões aconteceram nos meses de março/ abril de 2008, com reuniões aos domingos, das 17:00 às 21:00.

Os quatro primeiros encontros foram dedicados às unidades didáticas propostas nessa dissertação. Nelas pudemos trabalhar elementos gramaticais, aprender palavras relativas ao campo conceitual ‘culinária’ mas também transpor a experiência para a vida real. Os alunos eram incentivados a falar de si e de seus hábitos após a apresentação de uma nova estrutura.

54 Percebemos que oito pessoas é já um público razoável dentro da cozinha e talvez se

tivéssemos tido a adesão dos 10 previstos o resultado não tivesse sido o mesmo. A cozinha comportava mais alunos, mas a experiência seria comprometida, uma vez que não poderia ser dada a mesma atenção a todos os participantes.

Nos dois últimos encontros abrimos espaço para as receitas e histórias dos próprios alunos55. Ali os alunos apresentaram algo que conheciam da cultura italiana e

o que tivemos foram receitas da avó, doces que gostavam de preparar (mesmo que não fossem italianos), ou ainda comida pronta de um restaurante da região.

A seguir explicitaremos alguns pontos que consideramos relevantes na realização do curso experimental:

Benzer Belgeler