Evidencia-se o papel da televisão na produção da subjetividade adolescente-juvenil. Afinal, é patente a forte presença da televisão na vida dos sujeitos que se enquadrariam nessa “faixa etária”, não apenas como o meio acessado, mas também o preferido – como aponta a pesquisa de Rizzine, Pereira, Zamora et al. (2005). Além disso, a mídia televisiva, como reconhece Sampaio (2004), tem possibilitado visivelmente aos adolescentes o acesso e o ingresso na esfera pública. Haveria, assim, segundo a autora, duas questões importantes a
serem consideradas quanto à participação do adolescente na mídia: em primeiro lugar, o fato de a televisão oferecer condições privilegiadas de acesso (estando presente em praticamente qualquer espaço ou instituição) e, em segundo lugar, a forte tendência apresentada, nas últimas décadas, de a mídia televisiva estimular nos adolescentes a posição de interlocutor público (fato ainda mais significativo).
Enfim, desde a invenção deste meio de comunicação, e particularmente nas últimas duas décadas, podemos perceber um processo de ampliação das possibilidades de comunicação do adolescente – e também da criança. Como observa Sampaio (2004), ao mesmo tempo em que amplia esse acesso, a mídia televisiva serve de catalizador a um aumento do volume de produtos dirigidos especificamente para este “segmento”, movimento que se faz acompanhar de uma valorização mundial dos adolescentes.
A presença e a valorização desses adolescentes e pré-adolescentes na mídia, como observa Fischer (1996), se faz de um modo personalíssimo, que corresponde à exposição de depoimentos e confissões da vida íntima desses indivíduos, demasiado indivíduos. “Tudo é exaustivamente falado, discutido, ‘psicanalisado’, exposto, como convém a estes nossos tempos. O espaço da rebeldia, da contestação e da luta é substituído pela palavra, que anula a própria necessidade de impor pelo menos a diferença.” (FISCHER, 1996, p.50).
Esse culto à personalidade na produção do discurso, porém, parece associar-se sempre a uma generalização de gostos, hábitos e valores juvenis – bem como ao enquandramento dos mesmos numa lógica capitalística. Como na lógica do poder disciplinar de Foucault (1987), os adolescentes são individualizados e, ao mesmo tempo, massificados. Para que exista um todo indiferenciado e a ser diversificado segundo uma única lógica, é preciso que uma totalidade seja buscada e produzida por meio desse desejo.
O que pensar, então, sobre o modo como esse processo de individualização – e, portanto, de massificação – ocorre ou deixa de ocorrer na televisão? Afinal, como ressalta Fischer (2006, p.15), a televisão,
[...] na condição de meio de comunicação social, ou de uma linguagem audiovisual específica ou ainda na condição de simples eletrodoméstico que manuseamos e cujas imagens diariamente consumimos, tem uma participação decisiva na formação das pessoas – mais enfaticamente, na própria constituição do sujeito contem- porâneo. Pode-se dizer que a TV, ou seja, todo esse complexo aparato cultural e econômico – de produção, veiculação e consumo de imagens e sons, informação, publicidade e divertimento, com uma linguagem própria – é parte integrante e fundamental de processos de produção e circulação de significações e sentidos, os quais por sua vez estão relacionados a modos de ser, a modos de pensar, a modos de conhecer o mundo, de se relacionar com a vida.
Que especificidade, então, possui a mídia televisiva enquanto produtora de uma subjetividade adolescente contemporânea? A televisão não torna visíveis imagens e significações que reforçam exatamente esses dois vetores de subjetivação: a individualização e a massificação? Nela, encontramos intensamente a exposição da intimidade – que se pode notar na proximidade com que são filmados os rostos em close e na forma extremamente emocional de apresentar as falas de suas personagens reais e fictícias. Enfim, como já observado por McLuhan (1974), na década de 60, enquanto no cinema o close dá ênfase a algo, na televisão isso é o padrão. Significa dizer que o uso da televisão tem se caracterizado pela busca dessa emoção íntima do sujeito.
Além disso, também não é a televisão uma das maiores potências de massificação dos costumes, devido a sua distribuição por todo território nacional e à presença quase inevitável desse meio em cada casa e também nos espaços institucionais? “A própria individualização do consumo de TV da criança e do adolescente com maior poder aquisitivo, que passaram a dispor de uma televisão no próprio quarto, é uma evidência nesse sentido.” (SAMPAIO, 2004, p.177). Desse modo, é mesmo comum que a televisão aja como uma espécie de confidente do adolescente, que convive com ele em seu quarto. Não devemos desprezar, portanto, as características técnicas e materais da televisão.
A natureza da mídia televisiva contribui, marcadamente, para a sua boa colocação na escala de preferência das crianças e adolescentes. Ela é acessível, dinâmica, apresenta boa definição visual e auditiva, variedade de gêneros, etc. Particularmente no caso de crianças e adolescentes brasileiros, os [...] custos e níveis de escolarização contribuem também no sentido da restrição ao consumo de outras mídias. Um outro fator não desprezível constitui a atenção permanente dedicada à criança e, mais recentemente, ao adolescente por parte da televisão. (SAMPAIO, 2004, p.174)
Mas o que é essa natureza da televisão? Para McLuhan (1974), um meio como a televisão é sua própria mensagem. Isso significa que uma nova tecnologia torna-se a extensão de nós mesmos e de nossos sentidos, trazendo conseqüências sociais e pessoais importantes em nossas vidas, independentemente de seus conteúdos. Para o autor, seriam as características dos próprios meios, e não seus usos, o que configuraria a forma das ações e das associações humanas, pois eliminariam fatores de tempo e de espaço e condicionariam a forma de seu conteúdo, criando uma participação em profundidade e causando um forte efeito psicológico e social – em outras palavras, o meio possuiria uma natureza própria, de fato.
Nesse sentido, não importaria investigar os conteúdos dos meios, mas sim suas próprias relações com os sentidos. “Os efeitos da tecnologia não ocorrem aos níveis das
opiniões e dos conceitos: eles se manifestam nas relações entre os sentidos e nas estruturas da percepção, num passo firme e sem qualquer resistência.” (McLUHAN, 1974, p.34). Assim, o meio escrito teria levado o homem a um isolamento individual, enquanto a televisão – dos anos 60, é preciso lembrar – seria um meio “frio”, que tenderia a estimular todos os sentidos e não se prestaria à alta definição, nem a uma grande condensação de dados ou ao aprofundamento dos discursos. Uma vez que seria necessário que muitos desses dados fossem completados ou preenchidos pelo espectador, a televisão não mobilizaria em profundidade, mas, em compensação, seria um meio altamente envolvente para todos os sentidos.
Para Machado (2000), por outro lado, não se deve simplemente falar “televisão”, como se ela possuisse uma determinada natureza. Esse seria um termo muito amplo e, portanto, seria necessário especificar de qual televisão estamos falando. Opõe-se, assim, à concepção de que não importa o que acontece na tela, mas simplesmente a estrutura da televisão ou o sistema político, econômico ou tecnológico em que ela se insere. O autor defende que, partindo dessa visão de sistema ou estrutura, as atenções praticamente não se voltam àquilo que se produz e ao que os espectadores assitem. Se assim pensarmos, talvez se esclareça o motivo pelo qual a consideração de McLuhan (1974) o obriga a fazer ressalvas como a de que “um meio frio como a TV, quando corretamente empregado, exige este envolvimento no processo.” (p.48). E se não fosse empregado da forma correta, deixaria então de funcionar de forma fria? O que podemos dizer de seu conteúdo?
A TV – poderíamos dizer – opera como uma espécie de processador daquilo que ocorre no tecido social, de tal forma que “tudo” deve passar por ela, tudo deve ser narrado, mostrado, significado por ela. Não há dúvidas, por exemplo, de que a TV seria um lugar privilegiado de aprendizagens diversas; aprendemos com ela desde formas de olhar e tratar nosso próprio corpo até modos de estabelecer e de compreender diferenças de gênero (isto é, de como “são” ou “devem ser” homens e mulheres), diferenças políticas, econômicas, étnicas, sociais, geracionais.” [...] Estou falando em modos de existência narrados através de sons e imagens que, ao meu ver, têm uma participação significativa da vida das pessoas, uma vez que de algum modo pautam, orientam, interpelam o cotidiano de milhões de cidadãos brasileiros – ou seja, participam da produção de sua identidade individual e cultural e operam sobre a constituição de sua subjetividade. (FISCHER, 2006, p.16)
Pensamos que a televisão não é algo por natureza. A pensamos, diversamente, a partir do conceito de máquina abstrata, concebido por Guattari (1988). O mais óbvio é a materialidade de seus aparelhos receptores e de todo o aparato tecnológico das emissoras. A este se soma a produção semiótica que, movida principalmente por interesses de mercado,
endereça diversos produtos aos espectadores. Um outro vetor é toda uma política cognitiva que envolve tanto a extensão dos sentidos por meio dessa tecnologia quanto as formas específicas de reconhecimento, de sensibilidade e de entendimento dos conteúdos veiculados. Complexas e diversificadas interações se agenciam nessa máquina que, assim, produz um campo de virtualidade no qual a própria televisão é produzida enquanto objeto de conhecimento ou enquanto “sujeito” da produção da subjetividade de seus receptores (embora não esteja presa em absoluto a nenhum desses pólos). Antes dos agenciamentos produzidos nessa máquina, porém, esses sujeitos e objetos nem sequer existiam como tais.
Assim, por meio dos conteúdos e dos usos dessa máquina abstrata, foi-se desdobrando um encontro entre “o” adolescente e “a” televisão brasileira, desde duas ou três décadas atrás. Como nos conta Sampaio (2004), no início da década de 80, podia-se observar um fenômeno de explosão dos programas infantis na televisão, bem como o crescimento em importância da infância na mídia de uma forma geral. Dessa forma, as crianças (e talvez os pré-adolescentes) tornavam-se um objeto privilegiado do interesse da publicidade (e não mais apenas do interesse de pais e educadores). É claro que antes já havia uma programação voltada para a criança enquanto público, como o foram alguns programas da década de 70, a exemplo da Vila Sésamo. Mas não havia nada parecido com a presença acentuada que a televisão e a mídia de forma geral iriam conferir aos infantes na década de 80.
A transição da década de 80 para a de 90 é marcada também pela mudança gradual de foco das crianças ao público adolescente (ou teen). Uma vez que a infância já havia sido rápida e tão eficazmente coopitada como partícipe do consumo e como sujeito da mídia, o adolescente começava a ganhar destaque enquanto nova possibilidade de mercado. Conforme observa Fischer (1996), os primeiros programas de televisão voltados para adolescente foram justamente os das tevês educativas e culturais, que já prenunciavam a forte presença do adolescente na mídia desde o final da década de 80 – como o programa Cabeça Feita de 1987. É interessente que tenha ocorrido justamente dessa forma a insersão do jovem na televisão brasileira, uma vez que tais programas tratavam exatamente de debates e, mais exatamente, de depoimentos pessoais sobre as vidas desses garotos e garotas.
O importante a marcar é que a televisão, a partir de 90, da mesma forma que os outros meios de comunicação, sem deixar de atender públicos já conquistados, como o público infantil, passou a investir intensamente na conquista desse novo alvo – o adolescente. De certa forma, os programas infantis já anunciavam uma mudança no tratamento de seu público-alvo e se caracterizavam por tratar as crianças como adolescentes em miniatura, a partir das próprias apresentadoras, cuja performance valorizava principalmente o erótico,
misturado ao “didático-pedagógico”, o que era possível acompanhar não só no Xou da Xuxa como no Mara Maravilha (SBT); neste, por exemplo, a apresentadora Mara expunha uma sensualidade para além do que seria de esperar-se de um programa para crianças. Todos os programas que seguiram a fórmula do Xou da Xuxa, mesmo contando com as crianças na platéia, caracterizam-se por centralizar as atenções na figura da apresentadora, no seu corpo e voz, inclusive em suas confissões de dores e alegrias amorosas. (FISCHER, 1996, p.51) A partir de então, a adolescência da televisão, que restava segmentada a um determinado horário e a determinada faixa etária, passa a conquistar cada vez mais espaço. Dessa forma é que, ao longo dos anos 90, todas as novelas e séries que vieram a ser produzidas tinham seu próprio “núcleo jovem” ou mesmo passaram a ter todo seu enredo condicionado pelos acontecimentos que se davam em torno de um grupo de adolescentes. Na publicidade também se intensificou a presença do adolescente ou da juventude enquanto signo desejável, mesmo quando os produtos e serviços oferecidos, de fato, pelo menos até então, nada tinham a ver com os jovens.