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FON PORTFÖYÜNÜN SAKLANMASI VE FON MALVARLIĞININ AYRILIĞI…10

As ações de visibilização do PSQ pelos seus opositores são organizadas e executadas diferentemente das estratégias de convencimento, que em outras palavras são ações de desmobilização executadas pelo Consórcio Santa Quitéria. Seus representantes afirmam seu compromisso com a sustentabilidade do empreendimento e com os moradores impactados, convidando exclusivamente membros do executivo municipal e membros específicos de organizações não governamentais para visitar suas instalações que já operam no referido município e recusando dar entrevistas aos membros representantes da AACE, como o documentário produzido pelo núcleo Tramas registra a entrevista frustrada à INB e CNEN.

Esse contraste evidencia, por sua vez, uma opção política do Consórcio e da própria INB em construir seu diálogo com representações políticas previamente escolhidas, obedecendo a um roteiro preestabelecido em detrimento das lideranças locais contrárias ao PSQ. Aliás, essa comunicação com as lideranças locais, constatei, quando em campo, é feita sem aviso prévio. Quando agendado algum compromisso em Santa Quitéria, Seu Zé Roberto, funcionário de carreira da INB, faz uma visita despretensiosa à casa de seu Chico, por exemplo, liderança de Riacho das Pedras, ou à Guda, liderança de Morrinhos, com o objetivo de consultar, segundo meus interlocutores, como estão as mobilizações das referidas comunidades.

Há uma preocupação do Consórcio responsável pelo Projeto em construir um diálogo mais estreito com os gestores desse município sem negligenciar uma atuação política também junto aos gestores de Itatira, para mostrar que todo o processo da mineração do urânio é feito com responsabilidade socioambiental, contrariando os dados apresentados pelas organizações que trabalham em defesa dos direitos humanos das populações atingidas pela mineração.

Isso é feito mediante reuniões com os gestores municipais e convites para viagens técnicas às instalações que a INB possui em Caetité. Analisando um relatório técnico elaborado a partir da viagem empreendida por técnicos da Secretaria do Meio

Ambiente de Santa Quitéria, observa-se o seguinte roteiro: 1. Visita instalações da Unidade de Concentrado de Urânio – URA Caetité; 2. Visita à comunidade de Riacho da Vaca, que, segundo o relatório produzido pela Secretaria do Meio Ambiente – SEMA – de Santa Quitéria, é assistida pela INB33; 3. Conversas informais com os populares da sede do município; 4. Visita ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Caetité; 5. Visita à Secretaria do Meio Ambiente; 6. Visita à Cooperativa de Materiais Recicláveis de Caetité; e 7. Visita à Associação de Mulheres no campo de Caetité. Essas visitas têm como objetivo, segundo relatórios de viagem produzidos pela Prefeitura Municipal de Santa Quitéria/Secretaria do Meio Ambiente,

[...] Conhecer as instalações de urânio da INB em funcionamento – URA Caetité – visando conhecer o processo de extração do minério de urânio; conhecer as comunidades do entorno da mina de urânio e conversar com a população sobre o processo de implantação, execução das atividades da INB no município e comunidades; conversar com organizações da sociedade civil sobre a dinâmica da atividade da INB, parcerias e ações socioambientais da INB no município; conversar com o Secretário de Meio Ambiente sobre os processos ambientais entre município e INB; e conversar com populares informais sobre a integração da população e INB. (ESTADO DO CEARÁ / PREFEITURA MUNICIPAL DE SANTA QUITÉRIA/SECRETARIA DO MEIO AMBIENTE – SEMA. Relatório de viagem técnica URA Caetité – Bahia)

O roteiro dessas visitas segue um agendamento prévio e se constitui em um canal de comunicação entre os poderes públicos dos municípios, onde já ocorre a mineração de urânio, e aquele que pretende efetivá-la com o objetivo de sensibilizar os gestores municipais da qualificação da INB para executar o projeto, contrariando as denúncias levantadas pelos movimentos sociais e ambientais sobre os casos de violação dos direitos humanos à vida e ao meio ambiente.34

Por outro lado, essa iniciativa, além de apresentar seus limites, visto que essas visitas se dão em um curto espaço de tempo, entre dois a três dias, insuficientes para a apreensão das contradições e dos conflitos socioambientais inerentes a uma

33 Segundo o referido relatório, “[...] os que permaneceram em Riacho da Vaca [depois das desapropriações] manifestam estar felizes e contentes, pois era uma comunidade abandonada e depois da implantação da URA a região avançou em estradas, acesso à água e outros, a INB tem uma atenção social com a comunidade. (ESTADO DO CEARÁ/PREFEITURA MUNICIPAL DE SANTA QUITÉRIA/SECRETARIA DO MEIO AMBIENTE – SEMA. Relatório de viagem técnica – URA Caetité – Bahia).

34 Os casos de violação aos direitos humanos estão relatados em Relatoria do Direito Humano ao Meio Ambiente/Relatório da Missão Caetité. Violações de Direitos Humanos no Ciclo do Nuclear. 2011. Disponível em: <http://www.dhescbrasil.org.br/attachments/499Dhesca% 20Brasil%20-%20Miss ao%20Caetite%20-%20Meio%20Ambiente%20-% 202011.pdf>. Acesso em: 27 ago. 2014.

atividade desse porte, não suscitam uma articulação política dos municípios diretamente influenciados pela área da mina.

Outra iniciativa que serviria para estreitar a relação do Consórcio com o público interessado no PSQ seria a construção de um escritório próximo ao centro comercial de Santa Quitéria. Mas apenas cumpriu com a função de uma estrutura burocratizada, ocupando na paisagem da cidade um lugar quase invisível.

Surpreendia-me o fato de que, quando perguntava sobre o escritório do Consórcio que tinha ouvido falar, os meus interlocutores informavam-me vagamente sua localização ou afirmavam desconhecer sua existência. Mesmo assim, com alguma insistência e algumas voltas pelo centro da cidade, consegui localizar o referido escritório, apertei a campainha diversas vezes tanto naquela primeira visita quanto em outras e em nenhuma delas encontrei alguém para me atender. Na última tentativa, a placa que identificava o escritório não estava mais lá.

Ambas iniciativas, portanto, não têm gerado um ambiente público significativo de discussão na cidade-sede do município que exceda a leitura

institucionalizada das “vantagens” e “desvantagens” da mina e que amplie as

reinvindicações e os projetos de vida das comunidades rurais que diretamente terão seu cotidiano alterado.

Benzer Belgeler