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A essa altura, já deve estar claro que o turismo comunitário é uma proposta gestada no seio de uma comunidade rica de experiências políticas, vivência organizacional e práticas de sustentabilidade, integrando-se a essa dinâmica social.

Ao mesmo tempo em que ele é marcado pelas características peculiares que o diferenciam da prática do turismo convencional, a comunidade que se dispõe a desenvolvê-lo confere, a ele, particularidades que refletem as suas próprias características e expectativas.

Assim, a sociabilidade presente em Caetanos de Cima se manifesta nos significados e nas expectativas em torno do turismo comunitário ali desenvolvido.

No Planejamento Estratégico do Turismo Comunitário em Caetanos de Cima, de 2008, os participantes responderam à pergunta ―O que significa o turismo comunitário na

181 - Garantia de sobrevivência e resistência;

- Forma diferente de uso econômico da terra; - Geração de renda para a comunidade; - Confiança na capacidade da comunidade;

- Diferente do turismo convencional que expulsa os moradores e ilude em função da falácia do emprego fácil;

- Turistas solidários (CAETANOS DE CIMA, 2008).

Merecem destaque dois aspectos que se repetem de maneira mais contundente nas diferentes falas dos seus moradores: instrumento de desenvolvimento local e estratégia na luta contra a especulação imobiliária.

(...) analisando as potencialidades [locais], a gente viu a potencialidade de fazer o turismo como uma estratégia das lutas e como uma ação de desenvolvimento da comunidade. (Depoimento de Valneide Sousa, professora, liderança local, em julho de 2010)

Não só eu como a comunidade, eu acho que nós vivemos nessa luta há vários anos, [o turismo comunitário] é uma forma de ocupar o espaço para que o turismo convencional não se aproveite, não se aposse, não nos expulse do local onde nós vivemos, nascemos e estamos criando nossas famílias e, de certa forma, um complemento da renda de pescadores, agricultores, da própria pessoa que trabalha com o turismo. Enfim, é mais uma pequena porta que se abre na comunidade, pras famílias, pras pessoas que aqui residem. (Depoimento de Valyres de Sousa, pescador, liderança local, em julho de 2010)

Bom, o objetivo [de implementar o turismo comunitário] foi essa necessidade de se assegurar a resistência, a luta aqui na comunidade, assegurar a luta pela posse da terra. Esse foi o objetivo maior. (Depoimento de Zé Neo, presidente da APAPAIS, em julho de 2010).

A relação mais direta que o turismo comunitário estabelece com a estratégia de resistência local se dá através da ocupação da praia. Como visto no Capítulo 2, um empresário português alega ter comprado a área de pós-praia localizada entre o Assentamento Sabiaguaba e o mar. Por ser terreno de marinha, esse espaço não foi incorporado ao projeto de assentamento.

Sobre ele, portanto, recai o direito de uso historicamente adquirido. Mas, devido às condições instáveis à beira mar, a comunidade praticamente não ocupava este espaço com

182 residências ou agricultura ou qualquer atividade que se materializasse em imóveis, apesar de fazer uso direto dele para atividades produtivas, como a pesca artesanal e coleta de algas, e de lazer.

Por isso, a disputa por este espaço com o investidor passava pela necessidade de ocupar a praia a fim de demonstrar que aquele terreno era sim de uso da comunidade de pescadores e agricultores de Caetanos de Cima.

É dessa forma que o turismo comunitário se insere na estratégia de resistência da comunidade. Através dele, se conseguiu incentivos financeiros para viabilizar a ocupação da praia com uma atividade produtiva que trazia múltiplos retornos políticos. Ao tempo em que materializava o uso comunitário do espaço, legitimando o seu direito de posse sobre ele, gerava renda e publicizava a situação de conflito para os seus visitantes.

A estratégia também representava outra forma de disputa política: o sentido da atividade turística. Se o discurso da municipalidade, do empresário e das pessoas a favor dele era de promover o desenvolvimento através do turismo, pois então que esse turismo fosse, de maneira diferente da maioria dos lugares, responsabilidade dos moradores locais e não de pessoas externas à comunidade.

Estas discussões balizaram o planejamento do turismo realizado em 2008, definindo ação prioritária de investimento para o turismo comunitário ocupando e dando uso econômico à praia através da construção de uma pousada (Pousada Toca dos Grauçás), um chalé (Chalé Velejador dos Sonhos) e da reforma da Barraca das Mulheres. Depois desse momento, outra pousada começou a ser construída na praia, mas ainda não está concluída.

Esta estratégia reforçava as ações de ocupação anteriores, como a construção da própria Barraca das Mulheres e do Galpão dos Pescadores e a plantação de coqueiros. Uma visualização rápida da espacialização destes elementos pode ser apreciada na Figura 7.

Outra expectativa em torno do turismo comunitário é que seja capaz de gerar renda pras famílias locais através da perspectiva de desenvolvimento integrado, ou seja, a partir da distribuição dos diferentes produtos e serviços entre diferentes famílias.

Existe um acordo coletivo em utilizar os recursos disponíveis na própria comunidade na elaboração dos produtos e serviços turísticos locais, em especial a alimentação e os passeios. Assim, o turismo promove uma dinamização das demais atividades produtivas locais, gerando uma renda extra nas famílias e promovendo uma distribuição dos benefícios econômicos para as pessoas que não fazem parte diretamente da atividade.

183 Sobre essa distribuição de benefícios indiretos, Valneide Sousa, dona da Pousada Toca dos Grauçás, comenta:

Ainda tem outro grupo que se beneficia porque a gente só compra fora o que a gente não encontra aqui. O que é produzido aqui a gente compra daqui: galinha caipira, ovos, frutas, diversas coisas, a gente só compra mesmo o que não consegue aqui, a gente da prioridade. É tanto que as pessoas que sabem, ficam animados quando vem gente [turistas], reserva os bichos, já avisa que quando chegar o turista ―eu tenho aqui o produto‖, vem deixar, vem oferecer na pousada. É um vínculo, acho que tão ganhando de alguma forma.

As expectativas são marcadas fortemente pelo senso de comunidade característico de Caetanos de Cima. Espera-se que a atividade cresça e que, assim, mais famílias possam se beneficiar com o turismo comunitário. A respeito disso, Valneide Sousa continua em seu depoimento:

Pra além disso, a gente se propôs a não concentrar a renda. Nós fizemos os 5 quartos nesse momento imediato, foi prioritário, foi definido como uma ação prioritária. A gente precisava começar a Rede Tucum, ter o marco. Mas nós não nos propomos a ampliar, embora se fosse pra gente ampliar o número de quartos, nós teríamos dificuldade, mas com certeza nos iríamos conseguir principalmente porque o fluxo tá aumentando aos poucos e era uma renda que nós não tínhamos. A gente tem essa consciência de que os outros tem que fazer e os outros tão começando. (...) Tem outras pessoas construindo pra receber gente também e nós ficamos na nossa, nós não pretendemos [ampliar] pra que outras pessoas tenham oportunidade e a gente acredita que vai distribuir.

Essa solidariedade se expressa através da lógica de investimento financiado pelo INTERVITA, sob responsabilidade da APAPAIS. O valor repassado para a associação com o objetivo de financiar, a fundo perdido, estruturas turísticas na comunidade, foi transformado, por iniciativa local, em um fundo rotativo. De acordo com as prioridades de ação definidas coletivamente, as famílias acessam este recurso para fazer o investimento com o compromisso de devolver o empréstimo em 4 parcelas anuais de 25% cada uma. Na medida em que o recurso volta para a associação, ele é destinado para novas famílias investirem no turismo de acordo com as ações prioritárias definidas em coletivo.

184 Está claro, portanto, que a proposta de turismo comunitário local é coletiva, tendo sido definida no âmbito da organização comunitária e segundo interesses coletivos, embora as ações práticas sejam familiares. Em outras palavras, o projeto é coletivo, mas as iniciativas são individuais.

O planejamento e execução das atividades necessárias ao turismo são discutidos e encaminhados de modo a responder às estratégias de desenvolvimento local e resistência que são assumidas coletivamente através da APAPAIS, em um primeiro momento, e depois pelo GTCL. Esse planejamento se refere a práticas do turismo em geral, como perfil do turista desejado, preços e financiamentos de atividades, por exemplo, mas também aos tipos de serviços que serão oferecidos pela comunidade e como, onde e quem irá se encarregar deles.

Os pequenos empreendedores (famílias ou indivíduos) que dispõem de interesse, tempo e recursos financeiros para investir na proposta se colocam como responsáveis por determinadas ações, tanto no que concerne a investimentos quanto a gestão, seguindo uma a prerrogativa de não concentração de várias atividades numa mesma família e as vantagens locacionais que cada um dispõe para a implementação das atividades.

Em relação aos visitantes, espera-se que sejam pessoas dispostas a compartilhar da vida simples e da tranquilidade oferecidas pela comunidade, embora exista o receio de atrair pessoas interessadas em comprar terras e acirrar ainda mais os conflitos já existentes.

[O turista] A gente recebe como amigo, não sabemos se, no fundo, são todos, mas acredito que há pessoas que vem para ajudar, pra fazer companheirismo também. (Depoimento de Zé Neo, presidente da APAPAIS, em julho de 2010).

Também existe a expectativa de que os turistas possam colaborar no fortalecimento da organização através da visibilidade dos projetos e publicização dos conflitos, transformando os visitantes em companheiros a partir da sensibilização para a realidade vivenciada na comunidade. O mesmo Zé Neo continua seu depoimento apresentando essa esperança:

Eu acho que, em parte, com certeza, a visita deles [dos turistas] vai influenciar, talvez, na nossa organização, na nossa resistência, e fazer com que a comunidade se anime, continue a luta pra frente, trabalhando outras coisas, diversificando algumas atividades.

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Benzer Belgeler