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2.3.1 Floresans
A partir da discussão sobre a adolescência, concluímos que a relação do sujeito com a assunção do seu sexo se dará a partir da significação fálica resultante do Édipo, mas só será assumida na puberdade, quando haverá a escolha de objeto de amor e um novo despertar pulsional. Nesta dissertação, iremos tratar das posições femininas, visto que ser homem ou mulher é uma questão de assumir uma posição na partilha dos sexos. Iniciaremos a discussão com Freud, que chegou a nomear as mulheres como “o continente negro” (1926/2006, p.212) da psicanálise, encontrando limites em sua abordagem sobre a feminilidade ao tentar ler o fenômeno por meio da lente fálica. Ao mesmo tempo, ao abordar o desejo feminino, Freud demonstra que o falocentrismo não elucida todo o mistério, deixando, quem sabe, já uma pista aberta para a elaboração lacaniana do não-todo e do gozo além do falo, que veremos no próximo capítulo.
Na realidade, Freud só pôde se interrogar sobre o inconsciente a partir das queixas de suas pacientes mulheres. No entanto, ao longo da teorização psicanalítica, ele se deparou com o enigma do feminino, e no decorrer de sua obra, sugeriu três opções a quem quisesse saber
mais sobre as mulheres: consultar a própria experiência de vida, aguardar os avanços da ciências ou, então, consultar os poetas (Freud, 1933/2006).
Segundo a nota do tradutor inglês da coleção standard das obras completas de Sigmund Freud (no texto “Algumas consequências psíquicas da diferença anatômica entre os sexos”, de 1925), o fundador da psicanálise, em relação ao complexo de Édipo e ao desenvolvimento da sexualidade, ora equiparava os acontecimentos femininos aos masculinos, ora reconhecia que não poderia dar explicação ao fenômeno da sexualidade feminina. No entanto, ao verificar e valorizar a existência de um período pré-edipiano na menina, Freud (1925/2006) não mais supõe que a situação edipiana possa ser equiparada entres os homens e as mulheres.
Antes de desenvolver esse argumento em Freud, é importante destacar que, em 1923a, Freud busca reparar alguns equívocos em relação à sua teoria do desenvolvimento sexual infantil. Ele indica que não é apenas a escolha de objeto que aproxima a vida sexual infantil da vida adulta11, mas que a primazia dos órgãos genitais também existe na infância, não com a conjugação total das pulsões genitais, mas em relação a um interesse das crianças sobre os genitais. Mantendo o órgão masculino como central para ambos os sexos, ele aponta que “o que está presente, portanto, não é uma primazia dos órgãos genitais, mas uma primazia do falo” (p.158). Com isso, ele faz uma diferenciação entre o falo como significante12 que articula a diferença sexual e o órgão pênis.
André (1987) assinala que, nesse texto, Freud traz uma fineza em sua tese, ao indicar que haveria um sexo único, pois ele aponta que o menino constata, sim, a falta do órgão na menina, “mas vai encobri-la, fazendo da falta um modo de existência do falo” (p.12). Com isso, Freud mantém a existência de apenas um sexo, o falo, mas sustenta que pode haver duas maneiras de manifestação em relação a ele: pela presença ou pela ausência. Sobre o desconhecimento do sexo feminino, a questão não gira em torno de haver um desconhecimento da materialidade da vagina como órgão feminino, e sim que a consciência dessa existência não significa que haja no inconsciente um significante do sexo feminino. É apenas um pedaço do corpo qualquer, orienta-nos o autor.
Ao investigar a constituição da sexualidade humana, Freud (1924a/2006) busca elaborar as razões pelas quais ocorre a dissolução do complexo de Édipo. Ele tem clareza de que é o complexo de castração que coloca fim ao Édipo dos meninos, visto que o menino faz
11 No sentido de que a escolha de objeto na vida adulta será apoiada nas matrizes infantis.
12 Para esclarecer, Freud não usa o termo significante em sua obra, porém, optamos por usar esse termo nesta
passagem por acreditar que, apesar de não ter acesso a ele, Freud já adianta essa proposição que será desenvolvida apenas com Lacan.
a escolha narcísica de salvar seu pênis em detrimento de manter a catexia libidinal em relação à mãe como objeto de amor. Após essa escolha, o menino vira as costas para o complexo de Édipo e as catexias objetais são substituídas pela identificação ao pai, sendo a autoridade dos pais introjetada no supereu. O complexo edípico salva o pênis para o menino, mas também paralisa sua função, introduzindo-se, assim, o período de latência.
A respeito das meninas, Freud (1924a/2006) escreve que:
Nesse ponto, nosso material, por alguma razão incompreensível, torna-se mais obscuro e cheio de lacunas. Também o sexo feminino desenvolve um complexo de Édipo, um supereu e um período de latência. Será que também podemos atribuir-lhe uma organização fálica e um complexo de castração? A resposta é afirmativa, mas essas coisas não podem ser as mesmas como são nos meninos. (p.197)
Em relação ao complexo de castração, há uma diferença essencial entre os sexos, já que para o menino há uma ameaça, enquanto para as meninas a castração é percebida como um fato. Enquanto os meninos só dão valor à visão do órgão sexual feminino castrado a partir das admoestações verbais, “a menina se comporta diferentemente, faz seu juízo e toma sua decisão no instante. Ela o viu, sabe que não tem e quer tê-lo” (Freud, 1925/2006, p.281), caindo assim vítima da inveja do pênis, penisneid, termo central da teorização freudiana sobre a feminilidade. A inveja do pênis é mesmo o que Freud (1936/2006) vai apontar como o obstáculo para o final de análise das mulheres. Constatada a ausência do pênis, a menina busca explicá-la, primeiro, como uma punição pessoal, mas após descobrir a universalidade dessa ausência, passa, assim como o menino13, a desprezar o sexo feminino, “um sexo inferior em tão importante aspecto” (Freud, 1925/2006, p.282). Se não há o temor da castração, o que faria a menina atravessar e dissolver o complexo de Édipo? E ainda, quais as razões pelas quais a menina abandonaria a mãe, que assim como se dá no sexo oposto, é seu primeiro objeto de amor? É a partir dessas perguntas que Freud investiga o período pré-edipiano das meninas e, em 1931, dá corpo a essa discussão.
O período pré-edípico é caracterizado pela vinculação amorosa da menina com a mãe, visto que “também o primeiro objeto de uma mulher tem que ser a mãe; as condições primárias para uma escolha de objeto são, naturalmente, as mesmas para todas as crianças” (Freud,1931/2006). Conforme sabemos, a menina, em seu desenvolvimento sexual, comporta- se como um menino durante a fase fálica, sendo o clitóris um órgão análogo ao pênis. No processo de tornar-se mulher, ela recalca essa sexualidade masculina, muda de zona erógena
13 Freud (1924a/2006) indica que existem duas reações possíveis do menino quando ele constata a ausência do
para a vagina, e, assim, “à mudança em seu próprio sexo deve corresponder uma mudança no sexo de seu objeto” (p.237), passando da mãe ao pai como objeto de amor.
Abrimos aqui um parêntese para afirmar, então, que ser mulher não é algo que se dá a priori. Há um tornar-se mulher, quando a menina dirige-se ao pai e muda seu órgão sexual do clitóris para a vagina. Se, no início do desenvolvimento sexual, haveria uma equivalência entre os sexos, “a mulher deve ser praticamente fabricada através de um longo trabalho psíquico” (André, 1987, p.191).
O primeiro fator que levaria a menina a afastar-se da mãe, comum a ambos os sexos, é o ciúme infantil, que ilimitado, exige a posse exclusiva da genitora. Porém, a razão central e mais forte para esse afastamento tem relação com o complexo de castração e é “a censura por a mãe não ter lhe dado um pênis apropriado, isto é, tê-la trazido ao mundo como mulher” (Freud, 1931/2006). Isso já havia sido adiantado, quando Freud (1924a/2006) aponta, como uma das conseqüências da inveja do pênis, o afastamento da menina da mãe, que lhe “enviou ao mundo tão insuficientemente aparelhada” (p.283). Esse afastamento é, segundo a proposição freudiana, um passo para o curso do desenvolvimento de uma menina. Trata-se, além da mudança de objeto, de uma inibição dos impulsos ativos com aumento dos impulsos passivos, já que as tendências ativas são mais afetadas pela frustração sofrida pela menina em relação à constatação de sua castração desde sempre consumada. Já a passagem da mãe ao pai como objeto de amor é realizada com a ajuda dos impulsos passivos, iniciando, desse modo, o período edipiano.
O Édipo feminino, portanto, é introduzido pelo complexo de castração. Constatada a universalidade da privação feminina em relação ao pênis, e sendo a mãe afastada como objeto de amor, a menina parte em busca do pai a fim de que este possa lhe dar o que lhe falta. Assim, “a libido da menina desliza para uma nova posição ao longo da linha – não há outra maneira de exprimi-lo da equação ‘pênis-criança’” (Freud, 1931/2006, p. 284). Essa operação de substituição, no entanto, não apaga o núcleo da posição feminina em Freud, que é a centralidade da inveja do pênis em sua vida psíquica.
Freud (1933/2006) aponta três saídas para a menina em relação à penisneid: a primeira é a inibição da sexualidade, a segunda, o complexo de masculinidade, e a terceira, a saída à feminilidade normal. Em relação à primeira saída, Freud relembra que o primeiro prazer é o prazer gerado pelo órgão fálico, com a excitação clitoridiana. Contudo, ao constatar-se castrada, a menina repudia seu pequeno órgão e nega qualquer prazer advindo dele, pois ele está muito aquém do órgão do menino. Esse também é o caminho inicial da saída à feminilidade normal, caso não haja perda de demasiados elementos no recalque e, assim, a
menina consiga voltar-se para o pai - o que não ocorre, no entanto, nessa primeira saída frente à inveja do pênis, na qual a mulher fica insensível. São necessários vários processos de elaboração na complexa assunção da sexualidade feminina, como estamos constatando.
Já em relação ao que Freud (1933/2006) nomeia como complexo de masculinidade, a menina recusa-se a se reconhecer castrada e “exagera sua masculinidade prévia, apega-se à sua atividade clitoridiana e refugia-se numa identificação com sua mãe fálica ou com seu pai.” (p.129). Ele ainda ressalta que a homossexualidade feminina raramente é continuidade da masculinidade infantil, e indica que o inevitável desapontamento com o pai pode forçar a menina a retornar a tal complexo.
A saída pela feminilidade normal se dá, então, quando, com ódio da mãe, a menina volta-se para o pai, esperando obter dele o pênis negado pela mãe. “No entanto, a situação feminina só se estabelece se o desejo de ter o pênis for substituído pelo desejo de um bebê, isto é, se um bebê assume o lugar de pênis, consoante uma primitiva equivalência simbólica.” (Freud, 1933/2006, p.128). Aí, o desejo feminino é identificado como sendo, por excelência, o desejo do pênis. André (1987) traz a seguinte indicação: tornando a inveja do pênis como a problemática feminina central, e colocando o desejo feminino como único, Freud estaria tentando reunir as mulheres num conjunto, o que veremos, com Lacan, não ser possível. É exatamente nesse ponto que Freud estanca, mantendo enigmática a solução feminina.
Dessa forma, percebemos que Freud erige sua tese sobre a sexualidade feminina tendo como referencial o falo e a centralidade da inveja do pênis na mulher, aproximando, como que em equivalência, a feminilidade da maternidade. Com isso, uma tomada de posição feminina autêntica dependeria de que a mulher tivesse um parceiro. Ainda, Freud (1925/2006) indica que o sentimento de inferioridade e o ciúme são mais duas conseqüências da inveja do pênis na menina, sendo estruturais na mulher.
Outra pontuação de Freud sobre a feminilidade está relacionada à discussão sobre o masoquismo, em 1919 e em 1924. Laurent (2012) ressalta que apesar de Freud trazer as perversões como constituintes da sexualidade humana, ele dá ao masoquismo (uma forma de perversão) a dignidade de ser algo feminino. Não que Freud tenha nomeado a mulher de masoquista ou perversa, mas sim que o fenômeno se particulariza como feminino. O autor assinala ainda que o fundador da psicanálise rompe com o mandatário da época, em que o masoquismo estava sob o signo de exclusivo dos homens, e, com isso, aponta que as meninas, à sua maneira, também têm acesso à fantasia masoquista. Vejamos.
Em 1919, Freud (1919/2006) trabalha a fantasia de espancamento infantil a partir de seis casos, quatro de mulheres e dois de homens, indicando que essa fantasia de estar sendo
espancado é transestrutural, ocorrendo tanto na histeria como na neurose obsessiva. A fantasia em questão é composta por três tempos, e aqui trabalharemos apenas a fantasia das meninas, que se diferencia da dos meninos.
No primeiro tempo, pertencente a um período muito primitivo na infância, a menina fantasia que uma criança é espancada. Tanto o agente como o objeto da intervenção de espancamento estão indeterminados a princípio. No entanto, após a análise, Freud (1919/2006) percebeu que, “mais tarde, esse adulto indeterminado torna-se claro e indeterminadamente o pai da menina” (p.200). Este tempo é lembrando conscientemente. No segundo tempo, a fantasia muda para “estou sendo espancada pelo meu pai”. O agente e o objeto estão identificados e a fantasia é masoquista. Esse tempo não é lembrado conscientemente, sendo uma construção feita em análise. No terceiro tempo, não é o pai que bate, mas sim um substituto, e quem apanha não é a criança que fantasia, mas outras crianças, sendo, em geral, na fantasia das meninas, os meninos que apanham.
No primeiro tempo, ainda ligada ao amor incestuoso ao pai, a menina elabora: “ele só ama a mim, por isso bate em outra criança”. Para passar ao segundo tempo, há uma inversão, em razão do sentimento de culpa: “o sentimento de culpa não pode descobrir um castigo tão severo do que a inversão desse triunfo: ‘Não, ele não ama você, pois está batendo em você’” (Freud, 1919/2006, p. 204). Essa inversão só se faz possível por ter uma parcela do amor genital ao pai em questão, e o “meu pai me ama”, por regressão, torna-se “o meu pai me bate”.
Não é apenas o castigo pela relação genital proibida, mas também um substituto regressivo daquela relação, e dessa última fonte deriva a excitação libidinal que se liga à fantasia a partir de então, e que encontra escoamento em atos masturbatórios. Aqui, temos, pela primeira vez, a essência do masoquismo (Freud, 1919/2006, p.205).
Sobre a terceira fase, a criança torna-se expectadora do ato de espancamento, enquanto o pai é encarnado em figuras substitutivas. Apesar da criança não ser a que bate, a fantasia, nesse tempo, é, em sua forma, sádica. O fato de nesse terceiro tempo serem quase invariavelmente meninos os espancados faz com que tenha havido pela menina um abandono do seu papel feminino, ativando, assim, seu complexo de masculinidade, ao querer ser menino.
Freud (1919/2006) aponta que não pode fazer um paralelo completo em relação à fantasia de espancamento entre meninas e meninos, apesar de já ter acreditado que isso seria possível. Ele acreditava nesse paralelo, pois nas fantasias masculinas, a posição masoquista do menino coincidiria com uma posição feminina, uma vez que eles se transferem para o papel
de mulher em uma posição passiva. Nessa época, 1919, Freud ainda relacionava passividade com feminilidade, mas em 1933, ele retifica essa posição, ao constatar que dedicar-se a fins passivos é diferente de passividade, já que para atingir esse fim, é necessária uma grande quantidade de atividade.
Em 1924, Freud traz com mais clareza a relação do feminino com o masoquismo ao propor três formas de masoquismo: 1) Masoquismo erógeno: criado como condição imposta à excitação sexual; 2) Masoquismo feminino, como expressão da natureza feminina; 3) Masoquismo moral, como norma de comportamento.
O masoquismo feminino é o mais conhecido por Freud (1924b/2006) e o mais acessível às observações. É interessante que essa forma de masoquismo tenha sido estudada a partir de pacientes homens, frequentemente impotentes, nos quais a fantasia masoquista se conclui em um ato de masturbação ou satisfazem-se em si próprias. Freud indica que essas fantasias podem também servir para induzir a potência e levar o ato sexual a cabo. As fantasias têm como conteúdo manifesto o sujeito sendo amarrado, maltratado, sujado, forçado à obediência, como se o masoquista quisesse ser tratado como uma criança desamparada e levada. No entanto, existem fantasias mais elaboradas que colocam o sujeito em uma
situação caracteristicamente feminina; elas significam, assim, ser castrado, ou ser copulado, ou dar a luz a um bebê. Por essa razão, chamei essa forma de masoquismo, a potiori, por assim dizer, de forma feminina, embora tantas características apontem para a vida infantil. (Freud, 1924b/2006, p.180)
Com isso, Freud (1924b/2006) vai indicar que a posição feminina é encontrada nessa situação masoquista, e não busca, em seu texto, dizer que as mulheres são masoquistas. Dar a luz a um bebê é, para Freud, a saída mais feminina que pode ser encontrada por uma mulher. Assim, embora estudada a partir de fantasias masculinas, essa forma de masoquismo se refere ao feminino, dada a tomada de posição do sujeito nelas. Essa forma de masoquismo dito feminino baseia-se no masoquismo erógeno (ou primário).
O masoquismo erógeno deve ser entendido a partir da vinculação da pulsão de morte com a libido. A libido tem a função de tornar a pulsão de morte inofensiva ao eu e realiza isso desviando-a para objetos do mundo externo. Desse modo, uma parte da pulsão de morte é colocada a serviço da função sexual sob forma de sadismo. No entanto, há uma porção pulsional que não se dirige para objetos externos “e, com o auxílio da excitação sexual acompanhante acima descrita, lá fica libidinalmente presa. É nessa porção que temos que identificar o masoquismo original erógeno.” (Freud, 1924b/2006). O masoquismo secundário
se daria quando, após dirigida para fora, a pulsão de morte fosse novamente introjetada no eu. Esse masoquismo seria, assim, acrescentado ao original.
Os masoquismos acima trabalhados têm como condição de acontecimento o fato de estarem relacionados a pessoas amadas, o que os difere, em muito, do masoquismo moral. Este tem com a sexualidade uma relação afrouxada, o que importa é apenas o sofrimento em si. “O verdadeiro masoquista sempre oferece a face onde quer que tenha oportunidade de receber um golpe.” (Freud, 1924b/2006, p.183). Este seria, então, o verdadeiro masoquismo.
A partir dessa explanação, podemos concluir que, para Freud, a feminilidade é um devir que exige das mulheres um elaborado trabalho psíquico. A não resposta sobre o enigma da feminilidade, que fica evidente quando Freud (1933/2006) orienta a todos que desejam saber mais sobre as mulheres que procurem os poetas, aproxima a mulher do real, como impossível de dizer. Achamos importante trazer brevemente a discussão sobre o masoquismo para desmistificar um pouco a relação direta feita entre a mulher e uma posição masoquista. Como veremos com Lacan, essa relação pode mesmo não passar de uma fantasia masculina.
Buscamos, neste capítulo, articular dois eixos fundamentais de nosso trabalho: a adolescência e a feminilidade. O que podemos constatar é que ambos são um devir que exige um elaborado trabalho psíquico. Na adolescência, o encontro com o Outro sexo é algo que coloca o sujeito numa posição de exílio, sendo necessário aí criar uma resposta singular. E do lado das mulheres, apostamos que o trabalho é maior. Além de uma resposta para o enigma do encontro com o sexual, há um enigma com o próprio sexo, enigma que nem mesmo Freud, com todo seu esforço, conseguiu esclarecer.
Freud deixa uma via aberta para o estudo sobre as mulheres. A lente fálica não é suficiente para isso, e Lacan responde muito bem à abertura deixada pelo fundador da psicanálise. Seguiremos no próximo capítulo com Lacan, buscando entender as vicissitudes do processo de feminização, aliando a isso a posição feminina nas parcerias amorosas, até chegarmos à formalização lógica com a tábua da sexuação.
4. AS POSIÇÕES FEMININAS E SUA RELAÇÃO COM O AMOR: A FORMALIZAÇÃO LACANIANA
Posicionar-se como homem ou mulher, indica Lacan (1971/2009), é uma tarefa que se coloca para todos os seres falantes.
O importante é isto: a identidade de gênero não é outra coisa senão o que acabo de expressar com estes termos “homem” e “mulher”. É claro que a questão do que surge precocemente só se coloca a partir de que, na idade adulta, é próprio do destino dos seres falantes, distribuírem-se entre homens em mulheres. Para compreender a ênfase depositada nessas coisas, nesse caso, é preciso nos darmos conta de que o que define o homem é sua relação com a mulher, e vice-versa. Nada nos permite abstrair essas definições do homem e da mulher da experiência falante completa, inclusive nas instituições que elas se expressam, a saber, no casamento. (p.30-31)
Com isso, vemos que a definição de homem ou mulher vai além do real biológico, sendo da ordem do semblante, quando o parecer-se homem tem como correlato dar sinais à menina de