As relações de trabalho na contemporaneidade correspondem ao modelo organizacional e tecnológico que tem por um de seus eixos principais o processo de divisão social do trabalho, desenvolvido a partir da revolução industrial em meados do século XVIII. Tal processo de dissociação do trabalho se relaciona diretamente à sofisticação e automação dos modos de produção inspirados na forma corporativista da organização de negócios, na racionalização de velhas tecnologias e na divisão do trabalho decorrente dos “princípios da Administração Científica”, de F.W. Taylor. De acordo com Harvey (1994), esse novo modelo econômico se estabeleceu de fato no início do século XX, quando Ford revolucionou a produção de veículos, produzindo-os em massa, e favoreceu a democratização do consumo com o barateamento do custo do seu automóvel modelo T. Assim, conforme o mesmo autor, estava lançado o que se convencionou chamar de “fordismo”, sistema econômico que se baseava na prática da linha de produção e no consumo em massa associado à extrema especialização do trabalho.
A especialização, ou dissociação do trabalho, consistia na limitação do domínio dos instrumentos de trabalho pelo artesão e na sua participação apenas em etapas do sistema produtivo. Isto ocorria agora nas corporações de ofício, locais em que, no momento anterior, o labor se relacionava à subjetividade e as ferramentas de produção, prazos e horários não eram determinados por outrem.
Porto Alegre (1988), esclarece que até o século XIX o artífice era aquele que exercia alguma atividade mecânica e quem dominava alguma técnica relacionada à arte era chamado de artista; no entanto, no cotidiano popular do século XIX, não se diferenciavam as funções de artífice e artista. Quanto à produção artesanal, diz a autora que não havia uma separação entre “a esfera do saber e a esfera do fazer”. Foi a partir da Revolução Industrial, do advento da divisão social do trabalho na manufatura e da especialização do trabalhador, que o trabalho intelectual foi colocado em oposição ao trabalho manual, pois:
Na produção artesanal, pelo contrário, o processo de trabalho se caracterizava pela integração entre as duas esferas, não havendo uma imposição do saber sobre o fazer, mas uma fusão entre elaboração intelectual e perícia técnica, entre “engenho e arte”, "arte e trabalho" (PORTO ALEGRE, 1988, p. 02).
Já o modelo fordista se apoiava, segundo Harvey (1994, p. 131), nas formas de intervencionismo estatal e na configuração do poder político, o que dava coerência ao sistema ao manter as noções de uma democracia econômica de massa que era sustentada por um equilíbrio de forças de interesse entre os Estados. Como mostra o autor, a partir de 1960 este modelo começa a entrar em crise. Entre as causas desta crise estão a “elevação do nível da instrução geral e da consciência de si e do coletivo dos trabalhadores, a aspiração universal à realização pessoal e à dignidade no trabalho” (LIPETZ, 1991, p. 42). Nesse período deu-se início ao que Mattoso (1996) chamou de uma nova revolução industrial; as empresas começam a buscar novos modelos de organização e esse processo de reestruturação da produção principiou um novo formato de acumulação chamado de flexível.
Conforme Mattoso (1996), a transição do fordismo para o modelo de acumulação flexível causou sensíveis transformações no mercado de trabalho como a subcontratação organizada e o surgimento de pequenos negócios. Isto implicou na volta de antigos sistemas de trabalho artesanal, doméstico e familiar que, embora reconfigurados, passam a atuar como partes importantes do sistema produtivo.
Especificamente sobre o artesanato, Canclini (1983), ao considerar a posição dessa produção no contexto das tensões imanentes ao processo de estruturação das formas modernas de produção e trabalho, afirma que apesar do surgimento das manufaturas e posteriormente das fábricas, os artesãos persistiram e persistem desenvolvendo atividades manuais marginais em relação à produção industrial, mas não fora da lógica do sistema capitalista e muito menos de maneira depreciativa. Para ele, a produção artesanal na contemporaneidade é uma “necessidade do capitalismo”, pois assim como os outros tipos de manifestações populares, ela desempenha funções na reprodução social e na divisão do trabalho atuando de maneiras diferentes dentro do sistema. De acordo com o autor, “as peças de artesanato podem colaborar para a revitalização do consumo, por introduzirem na produção industrial e urbana, a um custo muito baixo, desenhos originais e o diferencial simbólico” e por remeterem a modos de vida mais simples, evocando uma natureza nostálgica nativa e indígena que não pertence ao cenário urbano e cosmopolita (CANCLINI, 1983, p. 65).
Assim, para o autor, além de satisfazer as necessidades de consumo, por meio da “ressignificação publicitária dos objetos”, a produção artesanal se faz necessária ao capitalismo também em outro aspecto: ela pode atuar sobre as deficiências de estrutura
agrária, possibilitando a fixação do homem no campo. Sobre isso Canclini afirma que o trabalho artesanal atua como:
[...]um recurso econômico e ideológico utilizado pelo Estado para limitar o êxodo camponês e a conseqüente entrada nos meios urbanos, de maneira constante, de um volume de força de trabalho que a indústria não é capaz de absorver e que agrava as já preocupantes deficiências habitacionais, sanitárias e educacionais (CANCLINI, 1983, p.73).
É patente que a questão do desemprego vem se constituindo problema mundial, decorrente do intenso processo de reestruturação produtiva ocorrido nas economias nacionais. Pochmann (1999) evidencia que “as medidas de desregulamentação do mercado de trabalho e de flexibilização dos contratos conformam um quadro geral de fogo cruzado contra o trabalho” (p. 67). O avanço das políticas neoliberais acentua as tendências de desemprego, desigualdade social e exclusão, próprias ao processo de desenvolvimento do capitalismo.
No Brasil, por exemplo, a partir dos anos 1990, o apelo cultural do empreendedorismo, e seu viés compulsório com a aplicação de políticas de geração de emprego e renda associadas aos programas de concessão de crédito produtivo popular, vem se acentuando consideravelmente e a produção artesanal tem sido, nos últimos anos, alvo de grandes investimentos.
A justificativa para tal avanço nos investimentos voltados para a promoção da produção do artesanato não se dá ao acaso, ela se encaixa perfeitamente no modelo econômico vigente e pode ser entendida pelo fato de que inovar o patrimônio cultural, além de um investimento social profícuo é uma operação econômica de grande eficácia e a existência de uma imagem nacional que destaque e identifique bons produtos e serviços pode ser utilizada como estratégia para conquista de mercados.
Neste sentido, tem-se que o trabalho artesanal se reproduz em meio às transformações da sociedade industrial e, por isso, não pode ser estudado de forma marginal e isolada, mas como um fenômeno histórico, cultural e socioeconômico integrado que engloba todas as dimensões sociais. Dessa forma, pode-se perceber a presença de diversos fatores que, entrelaçados, se mostram como forças motrizes que correspondem a uma mesma lógica, a da permanência equilibrada do atual sistema de mercado.
Segundo Porto Alegre (1994), o trabalho artesanal no Brasil colonial não tinha relevância para o desenvolvimento econômico, apesar de ocupar um contingente
considerável, especialmente de negros e índios. Esse trabalho garantia a sobrevivência de quem não estava incluído no mercado exportador brasileiro (negros, índios e mestiços livres) e, por isso, escapava ao controle das agremiações do governo.
Mas ainda no período colonial, conforme Pereira (1979), com a expansão dos núcleos populacionais, a atividade artesanal foi, aos poucos, se desenvolvendo e se diversificando. A produção artesanal passou a ser destinada ao suprimento das necessidades locais de aldeias, vilarejos e fazendas. Posteriormente, diz o autor, com o advento da urbanização, o artesanato passa a encontrar mais condições de atuação e aprimoramento. Nesse processo, o fazer artesanal teve grandes contribuições no tocante às suas características estéticas e de produção devido à chegada de mestres vindos de Portugal.
Apesar deste avanço, autores como Pereira (1979) e Yair (1999) ressaltam que a partir do desenvolvimento da industrialização o artesanato deixa de ser considerado um ofício e passa a ser classificado como atividade ligada ao folclore ou à cultura popular, sendo então distanciado da dimensão do trabalho.