5. MATERYAL VE METOT
5.2. Veri Toplama Araçları
5.2.2. Antropometrik Ölçümler
O Regime de Padroado teve sua origem no antigo Direito Romano. Somente mais tarde ele adquiriu uma configuração canônica, quando este instituto jurídico foi assumido pela Igreja Católica e integrado na disciplina eclesiástica.
O edifício jurídico romano não podia deixar de exercer sua influência sobre a Igreja Católica, que, no seu início, colheu do Direito Romano muitas categorias jurídicas para organizar a sua disciplina eclesiástica e elaborar o seu próprio Direito Canônico. Nesse sentido, algumas instituições jurídicas romanas, como foi o caso do regime de padroado, foram adaptadas às condições jurídicas da Igreja Católica nos tempos antigos e aplicadas na sua organização eclesiástica. A Igreja medieval, sobretudo aquela que saiu da Reforma Gregoriana, nos séculos XI a XIII, fez do padroado uma instituição de fundamental importância, com uma refinada definição canônica em seus contornos jurídicos.244
Max Weber nos fornece um importante conjunto, ou um quadro de relações, envolvendo os desenvolvimentos e embates entre as instituições do cesaropapismo e da hierocracia. Para este autor, o poder do Estado sobre a religião (como aquilo que constitui o cesaropapismo) se apresentou com muito mais intensidade nos ambientes em que a religião se mostrava mais profundamente influenciada por manifestações mágicas, ou seja, onde sofrera um processo menor ou mais lento de racionalização. Podemos afirmar, então, que os Estados cesaropapistas existiram em grandes proporções no mundo oriental, mas suas manifestações também podem ser bastante sentidas em terras do Ocidente, onde se viu, por exemplo, na adoção do sistema de Padroado Régio –
muito comum, por exemplo, no interior do vasto império português – que não raramente transformou a esfera do religioso em um campo da administração pública.
Em grande medida, não devemos identificar no interior do Estado cesaropapista a existência de uma total e completa submissão do campo religioso, mas sim, e também, a ocorrência de uma certa ambivalência, de uma política de conciliação e, por que não dizer, de “boas vizinhanças” envolvendo a ambos, ou pelo menos uma delimitação de certas esferas de atuação dos mesmos
O poder secular põe à disposição do eclesiástico meios de coação externos para a conservação da sua posição de poder, ou pelo menos para o arrecadamento de impostos eclesiásticos e de outros meios de subsistência materiais, e em compensação este costuma oferecer ao soberano secular particularmente a garantia do reconhecimento de sua legitimidade e a domesticação dos súditos, com seus maios religiosos.245
Para explicitarmos uma situação bastante particular sobre a religião ocidental, voltamos a Weber
De forma perfeita, conseguiu-se, em geral, a submissão do poder sacerdotal ao real, ali onde a qualificação religiosa não funcionava, principalmente, como carisma mágico de seus portadores e não fora racionalizada, no sentido de um aparato burocrático próprio, com sistema doutrinal próprio [...] e, sobretudo, onde ainda não foi alcançado, ou já abandonado, na consciência religiosa, o tipo de religião ética ou de “salvação”. Onde reina este tipo, a força de resistência dos poderes hierocráticos contra o poder secular é muitas vezes insuperável, e este último não tem escolha além de fazer um acordo.246
De certa maneira, embora em alguns lugares tenhamos visto o poder político solapando as autonomias religiosas, e em outros ambientes ocorrera uma certa divisão desses poderes, pode também acontecer – como de fato ocorreu – ainda o inverso desta situação, ou seja, um fortalecimento e uma organização tal da instituição hierocrática em que esta chegue ao ponto de sobrepor seus poderes aos do próprio Estado
Quando o cesaropapismo reina desenfreadamente neste sentido, a conseqüência inevitável é a estereotipagem da essência da religião no nível de uma influência ritualista puramente técnica, dos poderes sobrenaturais e o refreamento de todo desenvolvimento que possa possuir uma “religião de salvação”.
245 WEBER, Max. Economia e sociedade. Brasília: UnB, 1991-1999 (vol. II), p. 367. 246 Ibidem, p. 365.
Ao contrário, quando o carisma hierocrático é mais forte,ou chega a sê-lo, procura degradar o poder e a ordem políticos, desde que já não se tenha apoderado destes.247
É na Idade Média que podem ser sentidos inicialmente os primeiros momentos de choque ente os poderes civil e eclesiástico em matéria de padroado. Como disse Alceu Kuhnen:
Os patronos das igrejas, mesmo que formalmente tivessem feito uma vultosa doação, desfazendo-se de parte de seus bens em favor da Igreja, na prática, não entregavam completamente este patrimônio a ela, visto que continuavam exercendo um real domínio, como se os bens eclesiásticos fossem uma extensão de suas propriedades seculares.248
Esta situação exigiu as ações regulamentadoras dos papas reformadores dos séculos XI a XIII, que se encarregaram de tentar disciplinar e conferir uma forma canônica às interferências do feudalismo na Igreja medieval. Tal é o exemplo dos papas Gregório VII e Alexandre III. Este último, interessado em moderar e estabelecer limites à excessiva interferência do domínio leigo nos assuntos eclesiásticos, convocou o 3º Concílio Ecumênico Lateranense, em 1179, que instituiu o Direito de Padroado. Tal direito permitiu aos papas e aos concílios249 uma base jurídica que estivesse de acordo com a vontade da Igreja de resguardar sua autonomia interna, de modo a disciplinar a ação dos leigos na Igreja, impondo-lhes limites ao governo dos bens e benefícios eclesiásticos.
Ocorre que nos momentos em que uma religião encontra-se mais plenamente racionalizada, uma espécie de “Estado” ou “poder paralelo” se erige diante do poder político a partir da instituição hierocrática fortalecida. Em Weber existem quatro momentos em que a hierocracia transforma-se em igreja propriamente dita. Nessas etapas observamos primordialmente o desenvolvimento de um corpo de funcionários (em um processo de burocratização crescente), os sacerdotes profissionais com salário e carreira, portadores de uma vasta gama de deveres e conduta separados (ou que se queiram assim) das ditas “coisas do mundo”. Num segundo momento, a hierocracia
247 WEBER, Max. Economia e sociedade. Brasília: UnB, 1991-1999 (vol. II), p. 367.
248 KUHNEN, Alceu. As origens da Igreja no Brasil. 1500-1552. São Paulo: Edusc, 2005, p. 37.
249 Foi somente com o Concílio de Trento que o regime de padroado particular e familiar foi suprimido, mantendo-se apenas os padroados régios e universais.
manifesta suas pretensões de dominação mais “universalistas”,250 não se distinguindo, nesse sentido, do Estado cesaropapista como o conhecemos. Posteriormente, quando o dogma e o culto já se encontram racionalizados – e, por conseguinte, sistematizados – a comunidade, como um todo, adquire um caráter funcional, ocorrendo a separação entre a pessoa e o carisma, e a ulterior vinculação deste ao cargo no interior da instituição. Disse Weber que
Igrejas neste sentido produziram, além do cristianismo, apenas o Islã, o budismo na forma de lamaísmo e, em sentido mais limitado, devido a sua efetiva vinculação nacional, o mahdismo e o judaísmo e, ao que parece, antes deles, a hierocracia egípcia tardia.251
Para se firmar enquanto instituição, a hierocracia precisa também romper com o poder concentrado pelas seitas252 de caráter religioso, envolvendo, aí, a oposição entre dois outros tipos ideais também muito caros em Weber: o mago e o sacerdote. Ao primeiro corresponde um carisma que lhe é totalmente pessoal, sendo ele um particular que age livremente, espalhando sua magia “àqueles que lhe conferem credibilidade”.253 O sacerdote, por sua vez, pode ser apontado, na sua qualidade de funcionário, como um burocrata dentro da Igreja. Seu carisma pertence especificamente ao cargo que ocupa, não à sua figura em particular. O sacerdote trabalha para uma instituição e sobre ele pesa toda uma gama de controle interno, definido pela hierarquia de cargos. Ele precisa respeitar os limites de sua relação com o “mundo” de fora desta instituição, podendo inclusive ser punido em caso de desvios ou demais comportamentos não condizentes com as diretrizes da função que ocupa.
A instituição de poder hierocrático se embasa na teologia (que consiste na religião e suas “coisas” apresentada de forma sistematizada), na hierarquia interna e com base na educação sacerdotal teológica. Para Weber, duas qualidades desse poder o recomendam ao Estado como aliado: a importância do seu caráter legitimador e a domesticação efetiva que pode realizar sobre os dominados – e a este respeito vale
250 No sentido de que não existem fronteiras nacionais nem limites jurídicos próprios para sua atuação. 251 WEBER, Max. Economia e sociedade. Brasília: UnB, 1991-1999 (vol. II), p. 368.
252 Sabemos das diferenças existentes entre seita e Igreja no pensamento weberiano. No tocante a seita, aqueles que seriam seus futuros membros precisam ingressar nela mediante critérios de escolha e seleção que passam por qualidades morais e pessoais; representa um grupo particular, sem pretensões universais. Já para a Igreja, temos que as pessoas já nascem em seu interior, obedecem à distribuição dos “bens de salvação” e respeitam as qualidades inerentes à hierarquia eclesiástica e seu carisma concentrado no cargo que ocupam na instituição.
destacar o peso que adquire o controle sobre mecanismos educacionais e sobre a oferta dos “bens de salvação”, deste ou do outro mundo.