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Chega o momento de analisar o local em que o ser humano – e o vasto rol dos atributos de sua personalidade – deve se desenvolver. Conforme se destacou, a dignidade e a qualidade de vida atuam direta e imediatamente sobre a personalidade humana. São, portanto, valências representativas do bem-estar humano que convergem para o pleno desenvolvimento da pessoa. Enquanto atributo de cada indivíduo, a personalidade é o componente natural indefectível do ser humano.110 Baseado nisso, a pessoa humana, segundo pondera Ascensão (2009), antes de tudo, manifesta-se na sua individualidade biológica e, sobre ela, desenvolve sua caracterização antropológica, com vistas a atingir a plenitude de seus atributos.

Embora já decantado neste trabalho, vale reiterar que a personalidade humana é um bem anterior ao próprio Direito que a ordem jurídica deve respeitar (DINIZ, 2007), ao passo que os direitos de personalidade são direitos subjetivos de defender essa primordial propriedade humana (TELLES, 2001). Por isso, na acepção de Orlando Gomes (1993, p.156), são “manifestações especiais de suas projeções, consideradas dignas de tutela jurídica, principalmente no sentido de que devem ser resguardadas de qualquer ofensa”.

Desta forma, os direitos de personalidade são essenciais e inerentes ao exercício e preservação da dignidade humana.111 São direitos subjetivos do ser humano, extensivamente concebidos, que têm por objeto elementos materiais (físicos) e imateriais (morais) que integram a personalidade do seu titular, em suas diversas formas de manifestação no ordenamento jurídico (direito ao próprio corpo, ao nome, à imagem, à privacidade, à intimidade etc.). O direito à vida, como já observado, também corresponde ao direito subjetivo do indivíduo de exercer plenamente a sua personalidade, que busca sua qualificação no princípio da dignidade humana.

A personalidade, componente essencial do ser humano, constitui o pressuposto para o exercício dos direitos sobrejacentes a ela.112 É a pedra fundamental da vida humana, por onde se estabelecem todos os demais direitos do ser humano. A partir de suas características

110 Segundo Rui Verlaine Oliveira Moreira e Francisco Davi Fernandes Peixoto (2008, p.486), “o fato de ser integrante do gênero humano, de possuir vida humana, já lhe concede especial valor em relação aos demais seres. A vida humana não se resume ao mero aspecto biológico. É uma realidade multimensional, englobando aspectos espirituais, sociais, culturais e, principalmente, pessoais. A pessoa humana, pelo fato de ter um valor agregado ao longo de seu desenvolvimento, possui importância superior ao da mera vida humana biológica, podendo, inclusive, dependendo das circunstâncias, decidir se deseja viver ou não sob condições indignas. [...]” Também acentuam Pablo Stolze Gagliano e Rodolfo Pamplona Filho (2014, p.191), que “não há a menor dúvida de que o ser humano é o titular por excelência da tutela dos direitos da personalidade.” Portanto, qualquer que seja a sua condição, ainda que próxima da não vida, todos têm direito à dignidade.

111 De acordo com Silvio Romero Beltrão (2005, p.50), “os direitos de personalidade se destacam em razão de estarem fundados no respeito e na proteção da dignidade da pessoa humana, como elemento essencial à própria existência da pessoa”. 112 Maria Helena Diniz (2001, p.22) ressalta: “[...] o direito à vida, por ser essencial ao ser humano, condiciona os demais direitos da personalidade”.

(absolutos, essenciais, inatos, intransmissíveis, irrenunciáveis, etc.),113 o legislador ordinário institui um rol não exaustivo114 dos direitos de personalidade.115 Assim como os direitos fundamentais, que se desenvolveram em gerações/dimensões, os direitos de personalidade também se ajustaram e se integraram às necessidades contemporâneas da humanidade.

Para Perlingieri (2002), a personalidade, estando em constante evolução, é vista como um valor a ser juridicamente protegido. Assim, o exercício dos direitos de personalidade não pode, em regra, sofrer qualquer limitação (artigo 11, do Código Civil). Além disso, esses direitos não devem ficar adstritos apenas a um dispositivo legal, devendo ser realizados de forma mais ampla possível, já que a ampliação, no sentido de expansão e alargamento, é a tônica da natureza dos direitos de personalidade. Sob essa perspectiva, buscando alcançar a plenitude desse direito, questiona-se: onde os direitos de personalidade devem ser efetivamente exercidos?

Antes de responder à indagação, vale aqui um breve parênteses do ponto de vista semântico. É que, como se pode observar, o advérbio onde significa “em que lugar”, “em qual lugar” ou ainda “elemento que estabelece uma relação de subordinação” (HOUAISS, 2009, p.1.387). Logo, para obter a resposta ao questionamento formulado, deve-se propor outra pergunta: qual é o lugar (local, localidade, espaço, área, sítio, cenário, habitat, etc.) adequado para realização do eficaz e pleno desenvolvimento da personalidade humana em todas as suas projeções e dimensões?

Aliás, praticamente antecipando a resposta, é possível perceber uma grata coincidência etimológica entre as palavras “ambiente” e “onde”, tendo em vista que as duas expressões se originam da mesma raiz latina ubi, que significa “lugar em que”. Ora, sem mais, e voltando à indagação inicial, responde-se com grato conforto: não há dúvida de que o lugar da plena realização do direito de personalidade, em ampla e extensa contextualização, é justamente o meio ambiente sadio e ecologicamente equilibrado (artigo 225 da Constituição Federal de 1988).

Sob outro enfoque, mas sem perder de vista a busca pela compreensão do relacionamento entre o ser humano e o meio ambiente, nota-se que, de um lado, as expressões

113 Segundo Batista (2009, p.37), os direitos de personalidade, centrados no indivíduo, tendem a retratá-los como direitos inatos, limitando-se o Estado a reconhecê-los e sancioná-los contra o arbítrio do poder público ou as incursões de particulares.

114 Alvaro Villaça de Azevedo (2005, p.86) também entende que essa numeração não é taxativa, pelo contrário, é tão ampla que abarca toda violação aos direitos de personalidade que se aninham na pessoa. Da mesma forma, Pablo Stolze Gagliano e Rodolfo Pamplona Filho (2014, p.189) anotam que “a não exaustividade dos direitos da personalidade, portanto, é ponto de partida ineliminável”.

115 Para Sílvio de Salvo Venosa (2003, p.150), “não há que se entender que nossa lei, ou qualquer lei comparada, apresente um número fechado para elencar os direitos de personalidade. Terá essa natureza todo direito subjetivo pessoal que apresentar as mesmas características”.

“vida humana” e “meio ambiente” designam fenômenos substanciais, ou seja, são considerados autonomamente (per se), pois, enquanto fenômenos da natureza, existem sem o auxílio de qualquer outro evento. Complementando esses eventos naturais, os termos (ou conceitos) “dignidade”, “sadio e ecologicamente equilibrado”, ao seu propósito, representam, respectivamente, as aspirações consolidadas pelo texto constitucional, quer em função da vida humana, quer em relação à qualidade do meio ambiente.

É possível assim deduzir que os fenômenos biofísicos “vida” e “meio ambiente” (substantivos) precedem ao Direito, ao passo que os conceitos “dignidade” e “ecologicamente equilibrado” (qualificativos) procedem do Direito. De fato, essa constatação é essencial para reconhecer que o lugar adequado para a realização da digna vida humana é o meio ambiente sadio e ecologicamente equilibrado. Negar essa correlação representa o afastamento do preceito normativo fundamental da preservação da dignidade da pessoa humana (artigo 1º, III da Constituição Federal); admiti-la, em contrapartida, significa levar o direito ao meio ambiente à condição de direito fundamental e de personalidade, essências que são ao pleno desenvolvimento humano.

Nota-se assim que faz jus a categorização de direitos da personalidade os direitos sem os quais a pessoa não pode existir como tal nem desenvolver os seus particulares atributos humanos, na medida em que a própria existência humana deve ser qualificada pela dignidade. Isto equivale dizer, conforme destaca Édis Milaré (2005, p.149), que “o ser humano não tem apenas direito à vida, mas à qualidade de vida, por onde é possível a realização plena da personalidade da pessoa humana”. Não há dúvida de que o lugar onde o direito de personalidade deve plenamente ser exercido é o meio ambiente sadio e ecologicamente equilibrado. A consequência inarredável dessa constatação é que as ofensas ao meio ambiente repercutem direta e negativamente também sobre o ser humano.

3.3.2.3 O direito de personalidade ao meio ambiente na perspectiva do direito

Benzer Belgeler