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A ditadura de César é curta, começa em 49 a.C, quando retorna da Espanha, e termina com sua morte nos idos de março de 44 a.C (dia 15 daquele mês). Nesse tempo, como foi visto, passou boa parte ausente, nas guerras contra Pompeu, no descanso egípcio e nas campanhas orientais antes de voltar a Roma de onde ainda se ausentaria para novas guerras na África e Espanha. No entanto, mesmo quando não estava presente, cuidou do governo e implantou mudanças que sobreviveriam a ele.
César voltou para a Itália, chegando a Roma em fins do ano no qual devia terminar sua segunda ditadura: esse cargo, anteriormente, nunca
a.C, depois da vitória de Zela sobre Fárnaces II, ele comunicou a notícia a Roma, confiando a um mensageiro chamado Mácio uma mensagem lapidar e formalmente cativante. Essa tradição também se reflete em Dion Cássio e em Apiano, enquanto Suetônio informa que, durante o triunfo ocorrido na mesma campanha, o general mandou carregar um cartaz com a inscrição para mostrar como a sua execução era fulminante (TOSI, 2000, p. 436).
fora anual. Foi nomeado Cônsul para o ano seguinte (PLUTARCO, 1958, p. 163).
Embora a cidade se encontrasse em completa desordem, não pode ficar muito tempo, porque alguns homens favoráveis a Pompeu haviam se refugiado na corte do rei Juba, na Numídia (MORILLON, 2004, p. 93).
Então, César se empreende novas e necessárias campanhas militares contra os ainda remanescentes partidários de Pompeu, que não viam com bons olhos sua Monarquia e defendiam a República. Primeiramente na África, onde a resistência era liderada por Catão, o Jovem, e Metelo Cipião e, posteriormente, na Espanha contra os filhos de Pompeu.
No final de 47 a.C, partiu para a África, venceu os republicanos em Tapso e saqueou a província. Os sobreviventes, entre eles os dois filhos de Pompeu, fugiram para a Espanha (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p. 71).
O novo monarca de Roma, o primeiro chefe de toda a civilização romano-helênica, César, tinha cinquenta e seis anos “[...] quando a batalha de Tapso pôs em suas mãos o destino do mundo” (MOMMSEN, 1962, p. 294).
Quando voltou a Roma, o vencedor recebeu poderes e honras sem precedentes. Ele foi nomeado ditador por dez anos. O Senado mandou inscrever seu nome no frontão do Templo de Júpiter Capitolino e colocar uma estátua de César em cima de um globo, no santuário, com a inscrição: “Para César, o semideus” (MORILLON, 2004, p. 96)
Para todos os efeitos, a República Romana chegara ao fim. César a havia aniquiladado e assim foram estabelecidas as fundações para o futuro império governado por seus monarcas quase divinos e todo-poderosos (BRADFORD, 2002, p. 106). O Senado caiu de joelhos. Ninguém mais podia se opor a César (MONDADORI, 1970. p. 105). Durante seus últimos anos, César governou com atribuições de um rei, ainda que sem o título (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p. 71).
Desde jovem, César empenhara-se para chegar à ditadura e, nos anos de sua ditadura, almejava e trabalhava para ser rei e, provavelmente, estabelecer uma dinastia. Monarca legalmente ele já era na qualidade ditador e, finalmente, de ditador perpétuo.
Essa foi a evolução do seu status legal: em 69 a.C., foi questor na Espanha Ulterior na comitiva do pretor Vétere; em 65 a.C., edil curul; em 63 a.C., foi designado como Pontífice Máximo; em 62 a.C., foi eleito pretor urbano;
em 59 a.C., foi cônsul pela primera vez; de 58 a.C. a 50 a.C., estabeleceu-se como próconsul na Gália; em 49 a.C., foi ditador por primeira vez; em 48 a.C., cônsul por segunda vez e, em seguida, no mesmo ano, foi ditador pela segunda vez; em 46 a.C., novamente cônsul e, no mesmo ano, o Senado votou sua ditadura por mais dez anos; finalmente, em fevereiro de 44 a.C., sua ditadura se tornou perpétua.32
Antes de partir para a Espanha, a fim de enfrentar os sobreviventes da batalha de Tapso, principalmente os filhos de Pompeu, César celebrou os triunfos a que tinha direito por todas as guerras que havia vencido.
Roma preparou-se para celebrar os triunfos de César com um luxo e uma amplitude nunca apresentados antes. Uma multidão de curiosos precipitou-se para a cidade para festejar as quatro grandes vitórias (MORILLON, 2004, p. 96). Foram-lhe votadas quatro cerimônias triunfais: pela campanha na Gália, pelas vitórias no Egito, o triunfo sobre Farnáces e a última vitória na África (MONDADORI, 1970, p. 105).
Para o triunfo da guerra de Alexandria, César trouxera do Egito sua amante Cleópatra e seu filho Ptolomeu XV César (conhecido como Cesário - pequeno César), na qualidade de reis aliados de uma nação vassala de Roma.
A paternidade de Cesário era um segredo público, e deve ter ficado claro para todos, e horrorizado os antigos republicanos, que César pretendesse ter uma união legítima com a rainha do Egito e estabelecer uma linhagem real. Ele não fez segredo de suas intenções para aqueles que conseguiam perceber os sinais, pois, logo depois dos triunfos, dedicou, no centro do Fórum de Júlio (que ele construiu a sua própria custa), um templo a Vênus Genitrix, Vênus a Mãe de Todos. Isso em si era compreensível, já que os Julianos alegavam ser descendentes da deusa. Mas César foi ainda mais longe e instalou, próxima à estátua da deusa, uma estátua de Cleópatra feita de ouro. A implicação era bastante clara: “Eu sou descendente de Vênus. Cleópatra é a encarnação de Ísis, que é a equivalente egípcia de Vênus. Ergo, ambos temos origens divinas” (BRADFORD, 2002, p. 110).
Cleópatra, em sua condição de rainha do Egito, sempre fora considerada sinônimo da deusa Ísis; César, igualmente, agora “ingressara na família real” e se tornara um deus (BRADFORD, 2002, p. 99).
As celebrações dos triunfos foram esplêndidas, e as inaugurações do novo fórum e do templo, entre outros projetos urbanísticos,
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Dados extraídos da cronologia da vida de César (CANFORA, 2002) nas páginas 455 e seguintes e das atividades de César (BOATWRIGHT, 2004) nas páginas 254 e 255.
foram igualmente encantadoras; mas, antes de terminar o ano, César teve que partir para a Espanha, onde os filhos de Pompeu tramavam contra ele. Essa nova guerra na Espanha foi longa e, durante a ausência de César, entra em vigor o novo calendário Romano, que ele importara de Alexandria33.
Finalmente, os partidários republicanos fracassaram no campo de Munda; o jovem Cneu Pompeu morreu (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p. 71). As cidades da Espanha submeteram-se uma depois da outra, foram obrigadas a pagar tributos pesados e entregar seus tesouros (MORILLON, 2004, p. 107).
Depois da vitória de Munda, o Senado organizou novas festas em honra do ditador. César recebeu o título de imperator34, “[...], podendo transmiti- lo ao seu herdeiro, o direito de cunhar muedas com sua efígie, e o título de Pai da Pátria”35 (MORILLON, 2004, p. 113).
Durante os últimos anos da vida do grande ditador, houve muitas aparentes contradições. Foi dito que não desejava nada quanto ser rei, ainda que tenha recusado esta possibilidade em vários momentos. Marco Antônio, seu partidário incondicional, apresentou-lhe a coroa três vezes e pediu que se tornasse monarca, César recusou a coroação, declarando que “Só Júpiter é rei” (BENCHLEY, 2007, p. 61). Desse modo, embora tenha recusado o título de rex e rejeitado a coroa real, que Antonio lhe ofereceu nas Lupercais de 44 a.C, adotou, não obstante, muitos dos ornamentos associados à realeza (como a toga púrpura), pôs sua estátua entre a dos reis antigos no Capitólio e emitiu moedas que levavam seu retrato. Também instituiu honras de culto à sua pessoa (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p. 71).
César governou inicialmente com títulos de magistratura, pois homens quase só se deixam impressionar por nomes. E, assim como os povos da Ásia abominavam os títulos de cônsul e procônsul, os povos da Europa detestavam o de rei, de modo que, nessa época, tais títulos
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A civilização universal deve a Júlio César o calendário de 365 dias, introduzido em 1º. de janeiro de 45 a.C. (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p. 71). Auxiliado pelos melhores especialistas, especialmente pelo astrônomo Sosígenes, César substituiu o ano lunar de 355 dias pelo ano solar de 365 dias e um quarto. Ao acrescentar um dia extra a cada quatro anos, este calendário estava muito mais de acordo com a realidade do que o anterior (MORILLON, 2004, p. 104).
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IMPERATOR - título conferido por aclamação dos soldados ao seu chefe general vitorioso (magistrado dotado de imperium). Além do exército, o Senado também podia aclamar o imperator. IMPERIVM - direito de comando superior, militar e jurisdicional (habitualmente contraposto à potetestas). O imperium reside no povo, mas é exercido pelo magistrado sobre os cidadãos. Os magistrados que têm imperium têm todos os direitos dos que têm potestas e mais: a) o direito de consultar os auspícios; b) o direito de recrutar e comandar exércitos e de nomear oficiais; c) o direito de julgar no âmbito militar e civil; d) o direito de coerção; o direito de convocar o povo para comícios. Os símbolos do imperium são os feixes e os litores (CANFORA, 2002, p.488).
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Pai da Pátria: título honorífico dado a um cidadão que salvou a pátria de um perigo (MORILLON, 2004, p.113).
levavam felicidade ou desespero à Terra inteira. César não deixou de tentar fazer com que lhe colocassem o diadema na cabeça; mas, vendo que o povo suspendia sua aclamação, rejeitou-o (MONTESQUIEU, 2002, p. 89)
Recusar a coroa que Antônio lhe ofereceu em público durante uma festa popular e licenciosa - Lupercália36 - em 15 de fevereiro de 44 a.C - um mês antes dos idos de março -, não quer dizer que César não queria ser rei. Evidentemente, ele sabia que ainda existia uma resistência dos patrícios republicanos de velha cepa a essa ideia e, portanto, esperou que o Senado o sagrasse rei.
César, não ocultava seu desprezo pela República e pelas formas constitucionais. Nomeou magistrados, limitou as funções do Senado e silenciou os tribunos que tentaram opor-se a ele (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p. 71). A República não passava de uma palavra vazia. O Senado, que outrora conduzia a vida política, servia apenas para ratificar suas decisões (MORILLON, 2004, p.113). Tais fatos ofendiam gravemente homens como Cícero, que valorizavam as tradições de Estado (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p. 71).
“Entretanto, o que fez aumentar o ódio contra César, e que foi a causa de sua morte, foi sobretudo o desejo que teve de se fazer declarar rei [...] seus inimigos secretos encontraram nisso o pretexto que podiam servir-se” (PLUTARCO, 1958, p. 172). César esperava a coroa do Senado, enquanto um grupo de senadores conservadores esperava eliminar César, e vinham tramando para isso por semanas. Os conspiradores eram liderados por Cássio e Bruto, jovens muito próximos ao círculo íntimo de César, pois ambos eram parentes de Servília, provavelmente seu mais notório caso de amor e adultério. Cássio era genro de Servília e Bruto era seu. César queria a Bruto como a um filho e havia rumores de que, efetivamente, era seu pai.
Então, nos idos de março (15 de março) de 44 a.C, César foi ao Senado, onde foi assassinado a punhaladas pelo grupo de senadores conjurados.
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Lupercais - Festas anuais, celebradas a 15 de fevereiro em Roma, em honra a Luperco (Pã); era uma festa grosseira onde se pedia a fertilidade das jovens. Banhados em sangue de uma cabra ou de um cão imolados, depois lavados em leite, os lupercos nus, com uma pele de bode nos ombros, corriam pela cidade, batendo na multidão com tiras de couro (LELLO, 1954, p. 109).
Os que não faziam parte do plano ficaram de pé, enquanto os traidores sacavam adagas escondidas em suas togas e as enfiavam repetidamente em seu corpo (BENCHLEY, 2007, p. 62). Seria muito difícil que César pudesse defender sua vida: a maioria dos conspiradores era de seu partido ou fora por ele cumulado de benefícios (MONTESQUIEU, 2002, p. 91).
As primeiras punhaladas não foram mortais e César tratou de defender-se de seus atacantes, mas quando viu que também Bruto se aproximava dele com a adaga nas mãos, parou de resistir e, escondendo o rosto com a toga, aceitou seu destino (BENCHLEY, 2007, p. 62).
Ele soltou um gemido e, voltando-se para Bruto, que também estava prestes a golpeá-lo, murmurou: - Até tu, Bruto, meu filho?37 (MORILLON, 2004, p. 119).
O assassinato de César nos idos de março de 44 a.C., por um grupo de senadores nobres, foi um ato cruel e absurdo, capaz de provocar uma nova guerra civil, pior ainda que a que acabava por terminar. Mas o fato era muito compreensível. César o tinha provocado e, provavelmente, o sabia (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p. 71).
“A ação tinha por objetivo encerrar um processo histórico que, na realidade, já estava em ação e que não podia ser interrompido com a simples eliminação física de um homem, ainda que extremamente importante” (LIBERATI, 2005, p. 32).
Como se verá mais adiante, o gesto dos senadores conservadores foi mal calculado e, esperando salvar a República, acabaram com qualquer possibilidade de ela existir. Esperavam, do mesmo modo, matar César, mas não se deram conta de que eliminá-lo no auge da sua popularidade significava criar um deus imorredor que até hoje vive. Tal ato, visto mais de dois mil anos depois, pode parecer incompreensível. Pode-se perguntar como tais conjuradores não perceberam a temeridade da sua ação e, tampouco, quais foram os motivos que os fizeram acreditar que aquele magnicídio era justo. As respostas a essas pergutas talvez estejam no seguinte trecho de
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TV QVOQVE, BRUTE, FILI MI? - Essa conhecidíssima frase, símbolo de uma traição muito grave e inesperada, teria sido pronunciada por Júlio César antes de tombar sob os golpes dos conjurados. Com efeito, Suetônio e Dion Cássio afirmam ser falsa a informação dada por alguns de que ele, reconhecendo o filho Brutus entre os conjurados, tivesse bradado: “até tu, filho?” (costuma-se dizer que Brutus era filho adotivo de César, mas talvez Suetônio acredite ter sido ele realmente filho de César, de vez que nessa mesma obra faz digressões sobre os amores deste com Servília, mãe de Brutus) (TOSI, 2000, p. 128).
Suetônio, com o qual se encerra este subcapítulo sobre a República, quando se refere aos motivos da morte de César:
[...] atos e palavras suas forçam-nos a crer que tivesse abusado do poder e merecido a morte. Pois, não somente aceitou honras excessivas, mas, ainda, o consulado contínuo, a ditadura perpétua e o exercício da censura, sem contar o prenome de “Imperador”e o sobrenome de “Pai da Pátria”, uma estátua entre os reis e um trono na orquestra. Deixou que lhe fossem concedidos privilégios superiores às grandezas humanas: uma estátua de ouro na Cúria e outra diante do tribunal; um carro e uma liteira para as pompas circenses; templos, altares e estátuas ao lado dos deuses; um coxim e um flâmine no templo, bem como um colegiado de sacerdotes dedicados a ele, como aqueles dedicados a Pã. Emprestou seu nome a um dos meses do ano e tomou e concedeu-se a si mesmo, de acordo com sua vontade, todas as honorificências, sem exceção de uma só (SUETÔNIO, 2002, p. 58).