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O entendimento da concordância entre esses dois institutos jurídicos reside em saber que a decisão do magistrado é proferida com fulcro em fundamentos legais e principiológicos.

O que se poderia haver, como é sabido, era a prolação de sentenças ilegais, com fundamentos impertinentes à causa.

O órgão juiz encontra sua legitimação prevista no texto constitucional, quando a Constituição trata do Poder Judiciário e dos direitos fundamentais.

Friso que as decisões judiciais, que tomam por absoluto a atual orientação do Supremo Tribunal federal, possuem o risco de serem desarrazoadas na medida em que o magistrado, de posse de forte conjunto probatória a incriminar o acusado, percebesse que o réu tenta de modos os subterfúgios processuais para se ver livre da reprimenda penal.

Conforme havia mencionado no começo desta monografia, nosso Ordenamento Jurídico é um todo harmônico em que as decisões devem ser tomadas com uma visão ampla e geral das consequências jurídicas.

O ministro Joaquim Barbosa, em seu voto no Habeas Corpus nº 84.078, destacou o tamanho da responsabilidade que a Suprema corte estaria tomando frente à sociedade, ao tomar decisão em tal sentido (Ver também anexo 2):

Durante os debates, o ministro Joaquim Barbosa questionou a eficácia do sistema penal brasileiro. “Se formos aguardar o julgamento de Recursos Especiais (REsp) e Recursos Extraordinários (REs), o processo jamais chegará ao fim”, afirmou.

“No processo penal, o réu dispõe de recursos de impugnação que não existem no processo civil”, observou ainda Joaquim Barbosa. Segundo ele, em nenhum país há a “generosidade de HCs” existente no Brasil.

Ele disse, a propósito, que há réus confessos que nunca permanecem presos. E citou um exemplo: “Sou relator de um rumoroso processo de São Paulo”, relatou. “Só de um dos réus foram julgados 62 recursos no STF,

dezenas de minha relatoria, outros da relatoria do ministro Eros Grau e do ministro Carlos Britto”.

“O leque de opções de defesa que o ordenamento jurídico brasileiro oferece ao réu é imenso, inigualável”, afirmou. “Não existe em nenhum país no mundo que ofereça tamanha proteção. Portanto, se resolvermos politicamente – porque esta é uma decisão política que cabe à Corte Suprema decidir – que o réu só deve cumprir a pena esgotados todos os recursos, ou seja, até o Recurso Extraordinário julgado por esta Corte, nós temos que assumir politicamente o ônus por essa decisão”.

Por isso, entendo totalmente cabível a execução provisória da pena, em casos tais que se verifique, pelo conjunto probatório robusto, que o réu cometeu a infração penal e recorre com a intenção tão somente de procrastinar a sua sujeição à lei penal.

Conforme os ensinamentos de Guerra Filho (1999, apud ARRUDA, E., 2008, p. 90-91),

Os valores, garantias e princípios consagrados na Constituição fundem a diretriz conducente da técnica. De igual modo, o fato de ter sua difusão atrelada à garantia da liberdade individual não é de molde a estorvar o seu manejo – notadamente o de suas premissas – sob um enfoque mais alargado. O direito é uno e, por via de conseqüência, os princípios não se confinam a uma matriz determinada. A ponderação mais ganha corpo na medida em que a realização da justiça é inerente à proporcionalidade.

Dessa forma, tem-se que o princípio da presunção de inocência deve ter sua medida sopesada pela razoabilidade e proporcionalidade, haja vista que existem outros princípios que devem nortear a decisão acerca da possibilidade ou não de se executar provisoriamente a sentença penal condenatória, exempli gratia: segurança jurídica, lealdade processual, duração razoável do processo e eficiência na prestação da tutela jurisdicional.

Esse é o prisma que se nos apresenta quando, diante de condutas processuais consideradas abusivas do réu, entendo plausível, em face dos demais princípios, que se execute a pena. Precipitada e ilegal, portanto, seria tão somente quando, em total inversão de pólos, o julgador se mostrasse disposto a decidir ao seu talante, ao arrepio da lei, mediante a prática de atos processuais ilegítimos e ilegais.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Sem dúvida, a litigância de má-fé no processo penal é uma questão delicada que exige uma análise mais cuidadosa de todas as demais circunstâncias que a envolvem.

O abuso do direito de recorrer, visto sob a ótica da deslealdade processual, já é prática bastante conhecida do Brasil e, por isso, necessita de que órgãos encarregados pela aplicação da lei e da justiça tomem uma postura proativa, no sentido de que, utilizando-se de seus poderes jurisdicionais, coíbam essas intenções espúrias que visam tão somente a frustração da prestação jurisdicional.

A decisão proferida pelo supremo Tribunal Federal no leading case em questão (habeas corpus nº 84078) deve ser vista com ressalvas, para que não se transforme o processo em algo infindável. O direito de recorrer não é sinônimo de infinitude de recurso, mas de busca por justiça.

Por sua vez, o estudo da possibilidade de se executar provisoriamente a pena deve ser feito levando-se em consideração o sopesamento dos demais princípios que orientam a ordem jurídico-processual, tais como o da razoabilidade da duração do processo e da eficiência.

A existência de um conjunto probatório robusto que incriminasse o réu, e a visualização de seu propósito protelatório no uso dos meios recursais, seria uma situação excepcional em que a execução provisória da pena se nos apresenta dentro do razoável, pelo fato de haver uma necessidade de se prestar também uma tutela jurisdicional mais efetiva.

Outrossim, a existência de previsão de recurso não implica dizer que o direito ao duplo grau é revestido de caráter absoluto, uma vez que, nosso ordenamento jurídico, incluindo-se o Pacto de São José da Costa Rica (incorporado pelo Decreto nº678, de 6 de novembro de 1992), assinado por nosso país, não assegura ao réu esse uso irrestrito de recursos.

Sendo assim, a partir do momento em que se tiver os três Poderes Legislativo, Judiciário e Executivo mais engajados na resolução dos problemas processuais que

têm repercussão direta na sociedade, poder-se-á sonhar com uma Justiça mais justa, mais eficiente, mais célere, enfim, uma Justiça que se identifica com os anseios sociais, mas sempre respeitando os direitos individuais.

REFERÊNCIAS

LIVROS

ALEXANDRINO, Marcelo, PAULO, Vicente. Direito constitucional descomplicado. Rio de Janeiro: Impetus, 2007.

ARRUDA, Samuel Miranda. O direito fundamental à razoável duração do processo. Brasília: Brasília Jurídica, 2006.

AVENA, Norberto. Processo penal esquematizado. Rio de Janeiro: Método, 2009. BONAVIDES, Paulo. Ciência política. 10. ed. São Paulo: Malheiros Editores, 1999. DINAMARCO, Cândido Rangel, GRINOVER, Ada Pellegrini e et al. Teoria geral do Processo. 21. ed. São Paulo: Malheiros Editores, 2005.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Miniaurélio século XXI: o minidicionário da língua portuguesa. 5. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

LIMA, Carolina Alves de Souza. O princípio constitucional do duplo grau de jurisdição. São Paulo: Manole, 2004.

MARINONI, Luiz Guilherme e ARENHART, Sérgio Cruz. Manual do processo do conhecimento. 5. ed. rev. atual. e ampl. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2006.

MORAES, Alexandre de. Direito constitucional. 17. ed. São Paulo: Atlas, 2005. NUCCI, Guilherme de Souza. Manual de processo penal e execução penal. 2. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2006.

RANGEL, Paulo. Direito processual penal. 12. ed. rev. atual. e ampl. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2007.

REALE, Miguel. Lições preliminares de direito. 27. ed. São Paulo: Saraiva, 2002. TÁVORA, Nestor e SAMPAIO, Alex. O princípio da presunção de inocência. In: SCHMITT, Ricardo Augusto. ( Org. ) Princípios constitucionais penais. Rio de Janeiro: Juspodivm, 2008.

DOCUMENTOS JURÍDICOS

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF, Senado, 1988.

---. Código de Ética dos Advogados, de 1 de março de 1995. Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil.

---. Constituição da República Federativa do Brasil, de 25 de março de 1984. Decreta a Constituição Política do Império do Brasil. Disponível em: <

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituiçao24.htm > Acesso em : 30 out. 2009.

---. Decreto lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Decreta o Código Penal. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto- Lei/Del2848.htm > Acesso em: 10 set. 2009.

---. Decreto Lei nº 3.689, de 3 de outubro de 1941. Decreta o Código de Processo Penal. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto- Lei/Del3689.htm > Acesso em: 15 set. 2009.

---. Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973. Institui o Código de Processo Civil. Disponível em:< http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L5869.htm > Acesso em: 25 ago. 2009.

---. Supremo Tribunal Federal. Habeas corpus nº 84078, Pleno do Tribunal. Relator: Ministro Eros Grau. Brasília, 5 de fevereiro de 2009.

---. Supremo Tribunal Federal. Agravo de Instrumento nº 586710, 2ª Turma. Relator: Ministro Celso de Mello. Brasília, 21 de novembro de 2006.

PERIÓDICOS

ARRUDA, Élcio. O princípio da proporcionalidade no processo penal: punibilidade extinta com base em certidão de óbito falsa. In: PAIXÃO, Marco Antônio C. e AIQUEL, Luiz Antônio Duarte. ( Org. ) Revista Jurídica: Órgão nacional de doutrina, jurisprudência, e legislação e crítica judiciária, n. 367, mai, 2008.

CARTAXO, Azevedo Hamilton e CRUZ, Luana Pedrosa de Figueiredo. A efetividade da prestação da tutela jurisdicional e a possibilidade de dispensa do relatório da sentença, em face do inciso LXXVIII do art. 5º da Constituição Federal. In: PAIXÃO, Marco Antônio C. e AIQUEL, Luiz Antônio Duarte. ( Org. ) Revista Jurídica: Órgão nacional de doutrina, jurisprudência, e legislação e crítica judiciária, n. 366, abr, 2008.

COELHO, Luis Carlos Valois. Competência em execução provisória. Disponível em:<http://www.buscalegis.ufsc.br/revistas/index.php/buscalegis/article/view/10881/1 0446> Acesso em : 11 out. 2009.

FALSONI, Susana Ferreira. Obediência ao direito e direito de resistência : algumas bases filosóficas para reflexão sobre a chamada "Lei seca". Disponível

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http://www.lfg.com.br/public_html/article.php?story=20080723131838239&mode=prin t> Acesso em : 20 set. 2009.

HAIDAR, Rodrigo. Há completo desprezo pela legalidade no Brasil. Brasília, 26 de janeiro de 2009. Revista Consultor Jurídico. Disponível em:< http://www.conjur.com.br/2009-fev-01/entrevista-cezar-peluso-ministro-supremo- tribunal-federal> Acesso em: 7 nov. 2009.

PADILLA, Luiz R. Nuñes. Litigância de má-fé no CPC reformado. Disponível em:<http://www.direito.ufrgs.br/pessoais/padilla/Trabalhos%20Publicados/MAFEART I.htm> Acesso em: 11 out. 2009.

SILVA, João Fernando Vieira da. Princípio da lealdade processual. Disponível em: <http://blogdodpc1.blogspot.com/2008/07/princpio-da-lealdade-processual.html> Acesso em : 11 out. 2009.

VILAS-BÔAS, Renata Malta. O Abuso Processual na Nova Sistemática do Ordenamento Jurídico Brasileiro - Indenização em Razão do Abuso Processual. Conteúdo Jurídico, Brasília-DF. Disponível em: <http://www.conteudojuridico.com.br/?artigos&ver=2.22503> Acesso em: 07 nov. 2009.

UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ FACULDADE DE DIREITO

DEPARTAMENTO DE DIREITO PROCESSUAL

BRUNO CHAVES DE OLIVEIRA (mat.0236250)

LITIGÂNCIA DE MÁ-FÉ NO PROCESSO PENAL: O USO ABUSIVO DE RECURSOS COMO INSTRUMENTOS PROCRASTINATÓRIOS E A EXECUÇÃO

PROVISÓRIA DA PENA

FORTALEZA SETEMBRO/2009

PROJETO DE PESQUISA PARA ELABORAÇÃO DE MONOGRAFIA DE CONCLUSÃO DE CURSO DE GRADUAÇÃO EM DIREITO

LITIGÂNCIA DE MÁ-FÉ NO PROCESSO PENAL: O USO ABUSIVO DE RECURSOS COMO INSTRUMENTOS PROCRASTINATÓRIOS E A EXECUÇÃO

PROVISÓRIA DA PENA

PESQUISADOR DO PROJETO: Bruno Chaves de Oliveira

CENTRO/UNIDADE: Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará

1-JUSTIFICATIVA

Em 05 de fevereiro de 2009, o Pleno do STF, por maioria de sete votos a quatro, decidiu no HC 84078 que apenas se não estivessem presentes os pressupostos para decretação da prisão preventiva (art.312 do CPP), o réu teria direito subjetivo a recorrer em liberdade(art.5, LVII, CF/88).

Como a referida decisão tem implicação direta com a aplicação da lei penal, o presente trabalho vai procurar analisar criteriosamente como uma prática, já por demais corriqueira no Brasil, que consiste em se utilizar irrestritamente de recursos como meio de se postergar a aplicação ou a execução de uma sanção penal, pode prejudicar a existência pacífica de uma sociedade que se pretende fraterna e justa. Diante disso, esta monografia se justifica pela necessidade de verificar até que ponto um direito subjetivo do réu pode influenciar a execução provisória da pena aplicada, tendo em vista que, por diversas vezes, o duplo grau de jurisdição é utilizado como instrumento assecuratório da impunidade penal.

2- OBJETIVOS

Estudar a possibilidade de se executar provisoriamente a pena diante do uso generalizado de recursos manifestamente protelatórios, que têm como escopo a postergação da aplicação da lei penal.

Explicar o conteúdo do conceito de recurso abusivo à luz da litigância de má-fé. Pesquisar as diversas facetas do Duplo Grau de Jurisdição no processo penal, principalmente quando existe a necessidade premente de se tutelar a coletividade.

Por fim, o presente trabalho buscará analisar e estudar a repercussão social e jurídica da referida decisão emanada de nossa Suprema Corte, principalmente quando se tem em vista a impunidade e a descrença para com as instituições oficiais que tutelam a sociedade.

3-QUESTIONAMENTOS

O que se deve entender por recurso abusivo e litigância de má-fé no processo penal?

É razoável a execução provisória da pena diante de uma situação de manifesto uso de recursos procrastinatórios?

Como o duplo grau de jurisdição se apresenta no processo penal?

Quando a execução provisória da pena efetiva a tutela jurisdicional da coletividade? Qual a razoável duração do processo penal, de maneira que não haja execução provisória ilegal da pena?

4-METODOLOGIA

A metodologia será essencialmente bibliográfico-descritivo. Inicialmente, será realizada a coleta de dados em livros e artigos publicados em periódicos científicos nacionais.

Em seguida, buscar-se-á o auxílio da Internet, da legislação e da jurisprudência pátrias, com o fim de problematizar o tema.

O norte dessa monografia, enfim, vai se basear nas obras consultadas e nas jurisprudências colacionadas, de modo a se verificar subsídios que respondam aos questionamentos que esse trabalho se propõe.

5-CRONOGRAMA AGOST O SETEMBRO OUTUBRO NOVEMBR O Delimitação do tema e Pesquisa Bibliográfica Apresentação do Projeto de Monografia e continuidade da Pesquisa Produção e formatação do trabalho escrito e revisão do orientador

Correções finais após a revisão do Professor Orientador e defesa da Monografia, conforme calendário apresentado pela Coordenação de Atividades Complementares e Elaboração de Monografia

6-SUMÁRIO PRELIMINAR

Introdução

Capítulo 1 –Litigância de Má-Fé no Processo Penal.

– Conceito de litigância de má-fé e suas implicações no processo penal.

Capítulo 2 – O Uso Abusivo de Recursos com fins Protelatórios. 2.1- Conceito de Recurso Abusivo.

2.1– A Prescrição Provocada pelo Uso Abusivo de Recursos.

2.2– O Direito da Sociedade a uma Tutela Jurisdicional Efetiva frente ao Direito de Recorrer.

Capítulo 3 – A Execução Provisória da Pena.

3.1- A Execução Provisória da Pena à luz do Direito à Razoável Duração do Processo.

3.2- A Execução Provisória da Pena e a Tutela Coletiva da Sociedade.

Capítulo 4 - Duplo Grau de Jurisdição no Processo Penal.

4.1- A Manifestação do Duplo Grau de Jurisdição no Processo Penal. 4.2- Os Limites do Duplo Grau de Jurisdição no Processo Penal.

4.3- O Duplo Grau de Jurisdição no Processo Penal à luz do Direito à Razoável Duração do Processo.

7-BIBLIOGRAFIA

ARRUDA, Samuel Miranda. O Direito Fundamental à razoável duração do processo. editora Método.

TOURINHO FILHO, Fernando Costa. Processo Penal. editora Saraiva. CAPEZ, Fernando. Curso de Processo Penal. editora Saraiva.

NUCCI, Guilherme de Sousa. Manual de Processo Penal e Execução Penal

SCHMITT, Ricardo Augusto. Princípios Penais Constitucionais. editora Juspodivm. ALEXANDRINO, Marcelo e PAULO, Vicente. Direito Constitucional Descomplicado. editora Método.

MENDES, Gilmar Ferreira; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet e COELHO, Inocêncio Martires. Curso de Direito Constitucional. editora Saraiva.

LENZA, Pedro. Direito Constitucional Esquematizado. editora Saraiva. JESUS, Damásio E. De. Direito Penal. editora Saraiva.

RANGEL, Paulo. Direito Processual Penal. editora Lumen Juris. GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal. editora Impetus.

ANEXO 1

Referente à entrevista concedida pelo ministro Cezar Peluso à Conjur, em que ele comenta sobre o uso abusivo de recursos em detrimento dos postulados da lealdade processual e da eficiência.

Eis a entrevista na íntegra:

ConJur — Como o senhor vê o Poder Judiciário hoje?

Cezar Peluso — Com certa preocupação. Sobretudo com as novas gerações de magistrados, que vêm perdendo algumas das qualidades que tornaram a magistratura uma instituição respeitada no país. Tem-se deixado de lado as chamadas virtudes tradicionais do magistrado.

ConJur — Quais virtudes?

Peluso — Certa reserva no comportamento, a circunspecção, a gravidade, a prudência. É fundamental ter um pouco de recato na vida privada. Esses predicados da magistratura estão sendo subvalorizados. Sob o pretexto de democratização, modernização ou abertura do Judiciário, juízes passaram a expor-se demais e a falar muito fora dos autos. Hoje, dão opinião sobre tudo, manifestam-se até sobre processos em andamento na mão de outros colegas, fazem críticas públicas e não acadêmicas a decisões de outros magistrados, a decisões de tribunais. Isso não é saudável porque cria na magistratura um clima e uma presunção de liberdade absoluta, de que o magistrado pode fazer qualquer coisa. Se alguém reage contra esse tipo de comportamento, é taxado de retrogrado, antidemocrático, autoritário.

ConJur — Mas o fato de os juízes se abrirem não é uma evolução?

Peluso — É, mas hoje há certo exagero. A democratização da magistratura não é como a democratização de outras instituições, que dependem de relacionamento muito próximo com o público. Os políticos, por exemplo, vivem do contato com o público. Os juízes devem ser mais recatados nesse ponto. Minha experiência como magistrado, principalmente nas cidades do interior pelas quais passei, sempre me mostrou que o juiz que cultivava as virtudes mais tradicionais era mais respeitado.

ConJur — Ou seja, o problema não é o juiz falar, é sobre o que falar?

Peluso — Sobre o que falar, como falar e quando falar. E não é só o falar. É o comportar-se. Só para dar um exemplo, hoje há juízes processados por dar tiros a esmo em lugares públicos. Há processos disciplinares contra juízes por uso indevido de arma de fogo em vários tribunais. Isso mostra que há um afrouxamento dos limites que a magistratura tem de se impor e que são altamente importantes para a imagem pública do juiz e do Judiciário. Se a magistratura não se voltar um pouco para dentro de si mesma, a longo prazo pode ter sua imagem irremediavelmente comprometida. Os magistrados estão muito mais preocupados com coisas externas, que não são típicas de suas funções. Isso abala a confiança da população no Judiciário.

ConJur — Mas a confiança não está abalada já, principalmente pela lentidão processual?

Peluso — Recentemente, algumas pesquisas mostraram que o grau de confiança da população no Judiciário baixou. Para mim, esse é um sintoma claro de que algo não está bem dentro da magistratura. A causa de a confiança ter caído não é só o atraso na marcha dos processos porque esse problema sempre foi crônico e não é exclusivo do Brasil. Em todos os lugares do mundo, há lentidão processual, até nos Estados Unidos. Para mostrar isso, eu costumo citar o caso do O.J. Simpson [ex- jogador de futebol americano e ator acusado de matar a mulher e absolvido da acusação]. Só o processo para a realização do júri criminal durou mais de um ano. Se tivesse acontecido aqui no Brasil, iriam dizer que o tempo que levou é absurdo. Então, o problema da lentidão é antigo e mundial. Se fosse essa a causa da perda de prestígio da magistratura, decerto não haveria essa queda recente no grau de confiança do povo.

ConJur — Há outras causas para a perda de prestígio?

Peluso — Há uma perda de rigor no processo de recrutamento de juízes. Essa é a raiz do problema. Qual é o fato objetivo? Há centenas de vagas abertas para a magistratura que não conseguem ser preenchidas. Faz-se um concurso para preencher cem cargos e são aprovados, no máximo, 30 candidatos. Diante da necessidade de preencher esses cargos e do fato de que advogados com mais

experiência não trocam a advocacia pela carreira de juiz, a qualidade da seleção cai. Antigamente, o grosso da magistratura era formado de advogados com experiência. Quando entrei na carreira, havia vários juízes e desembargadores que haviam sido advogados famosos no interior.

ConJur — E por que isso não acontece hoje?

Peluso — Por uma série de fatores. Um dos mais importantes é o fator econômico. Ninguém larga uma advocacia que vai economicamente bem pela magistratura, para ganhar menos, exceto em caso de forte vocação. O universo de candidatos à

Benzer Belgeler