Como apresentamos no capítulo anterior, todo e qualquer uso da linguagem, seja este oral ou escrito, possui uma função interacional, uma vez que ninguém escreve ou fala alguma coisa sem que imagine um leitor ou um ouvinte. Em um texto falado, essa interação se dá de maneira muito mais dinâmica, pois locutor e interlocutor ocupam o mesmo espaço e tempo. Em um texto escrito, por sua vez, a interação entre autor e leitor ocorre de forma distanciada, ou seja, o autor produz seu texto, vislumbrando um determinado tipo de leitor (leitor-modelo), já que entre ambos existe um distanciamento espaço-temporal. A relação dialógica interacional entre locutor e interlocutor de um texto escrito é mediada pelo próprio texto.
Se a interação é uma característica de todo e qualquer tipo de comunicação, ela se faz presente também em um texto jornalístico. Como pontuamos anteriormente, é objetivo do jornal interagir com seu leitor e seduzi-lo a fim de tornar este relacionamento existente entre eles algo indispensável e duradouro. A formatação da primeira página, a organização e estruturação de um jornal, a diagramação podem ser consideradas mecanismos interacionais, uma vez que a finalidade de tais recursos seja a de envolver o seu leitor:
Ao comprar o seu jornal, o leitor estabelece com ele um pacto de interlocução, justamente com o objetivo de enriquecer sua opinião e seu conhecimento dos fatos. Temer o leitor ou adular sua opinião é, paradoxalmente, contrariá-lo na relação que ele presume ter com o jornalismo. (Manual da Redação da
Folha de S.Paulo, 2001: 23)
O próprio Manual da Redação considera haver entre jornal e leitor uma relação, ou mais especificamente, um “pacto de interlocução”, ou seja, um dialogismo interacional. Segundo ele, uma notícia, por exemplo, se diferenciará das demais caso não corresponda àquilo que é normalmente feito em um jornal, que já se tornou um lugar-comum. Para que isso ocorra, o Manual sugere que se surpreenda o leitor, despertando-lhe a dúvida, a curiosidade:
É importante atentar para o fato de que o diferencial é resultado de uma atitude crítica. Ele é a maneira pela qual o jornal pode surpreender e inquietar o leitor, bem como pôr em xeque idéias feitas. A dúvida, a curiosidade e o entusiasmo são os melhores antídotos à visão convencional dos acontecimentos. (op. cit.: 23)
Uma notícia jornalística, ou mais especificamente um lide, foge desse lugar- comum no momento em que abandona a organização do lide tradicional, apresentada no segundo capítulo, ou seja, o lide deixa de responder às seis questões principais presentes em torno de um acontecimento: quem?, o quê?,
quando?, onde?, como?, por quê?, e a notícia não segue mais a estruturação da
pirâmide invertida.
Mesmo que os manuais de jornalismo, como os de Hohenberg (1962) Medina (1978) e Erbolato (2002), por exemplo, apresentem diferentes tipologias de lide, e também o Manual de Redação da Folha de S.Paulo, após diversas revisões, aponte formulações de lide, que não seguem o modelo tradicional, estas, devido à excessiva carga de trabalho do jornalista e à pressa por uma definição, pelo fechamento da notícia, ainda predominam nos jornais:
A mãe do lugar comum é a pressa e os jornalistas têm pressa por definição. Colocado em face do inédito o jornalismo recorre à analogia para aprisioná-lo na idéia feita, para fixá-lo em clichês de linguagem que permitam seu rápido esgarçamento. (Frias Filho, 1984: 4)
Sendo, então, o lide tradicional utilizado de forma predominante nos jornais, intuitiva ou concretamente, o leitor empírico de uma notícia conhece sua estrutura e sabe que o primeiro parágrafo deve sintetizar, em tese, as principais informações desenvolvidas ao longo da notícia1. Entretanto, o que acontece quando tal expectativa é rompida, ou seja, o que acontece quando esse leitor encontra um lide que não sintetiza a notícia? Ele provavelmente estranha a alteração e sente a curiosidade em saber o que realmente aconteceu. Para obter tal resposta, esse leitor empírico deve continuar a leitura dessa notícia.
Ao despertar a curiosidade ou o estranhamento em seu leitor, o jornalista consegue envolvê-lo. No entanto, vale enfatizar que esse envolvimento leitor- jornalista não se dá exatamente da mesma maneira, podendo, então, ser de uma intensidade variada, dependendo dos gêneros de discurso, do grau de intimidade existente entre locutor e interlocutor, ou, ainda, da intenção do produtor do texto. Por esses motivos, há três diferentes maneiras de se estabelecer um envolvimento entre autor e leitor ou enunciador e enunciatário: o envolvimento com o enunciatário, com o tema ou consigo mesmo.
O envolvimento consigo mesmo é excessivamente subjetivista e particular, não parecendo, por essa razão, possível de se fazer presente em uma notícia jornalística, uma vez que tal tipologia aparece ou em monólogo, ou em termos ou expressões de marca de primeira pessoa do singular, conforme apontam Marcuschi (1999) e Urbano (2002).
O envolvimento com o tema ocorre, no caso da notícia jornalística, em textos que privilegiam acima de tudo a própria notícia, ou seja, o próprio fato narrado. Podemos considerar, então, tal tipo de envolvimento presente em notícias que seguem a estruturação da pirâmide invertida e, conseqüentemente, possuem um lide tradicional
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1. Vale ressaltar que conhecer a estrutura da notícia significa conhecer seu gênero de discurso, situação esta fundamental para que haja comunicação, pois como afirma Marcuschi (2003: 22), “a comunicação verbal é possível por algum gênero” pelo fato de ser ele o responsável pela ordenação das atividades comunicativas do dia-a-dia.
Por sua vez, no caso do envolvimento com o enunciatário, há por parte do autor a intenção de diminuir a distância espaço-temporal existente entre os interlocutores em um texto escrito, de criar uma intimidade com seu leitor, de seduzi-lo. Neste caso de envolvimento, o primeiro parece dialogar, interagir explicitamente com o segundo. Para que isso ocorra, os lides possuem determinadas estratégias interacionais que procuram apontar um envolvimento entre o jornalista e seu leitor.
No presente capítulo, analisaremos alguns lides produzidos nos jornais O
Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde para verificarmos os recursos interacionais
existentes em cada um deles para, em seguida, apontarmos de que maneira esse envolvimento entre interlocutores (jornalista-leitor) se constitui.